Este trabalho buscou movimentar-se em duas frentes inter-relacionadas. Uma voltada para a experimentação de uma perspectiva sociológica apta ao questionamento de certa imagem que, em geral, se faz do social. Outra, que se quer coerente com a primeira, ligada a um esforço de arrancar – para apreendê-lo – o fenômeno literário do universo da própria “Literatura”.
De uma parte, buscou-se esboçar uma abordagem capaz de responder ao fechamento que acompanha a imagem do social, sempre que posta sobre o primado da ordem, do estável e do sistêmico. Daí o exercício, forçosamente parcial e incipiente, de uma inteligibilidade direcionada para as dimensões litigiosas dos processos, em que a ordem comparece como figuração momentânea e transitória dos conflitos em torno dos agenciamentos coletivos de sentido do social. Sentido este, com efeito, em geral acossado pela presença desestabilizadora de elementos, cuja pretensa proscrição ou neutralização acaba por recarregar sua potência insidiosa de outros arranjos e ordenamentos sociais possíveis – (dis)senso. Uma sociologia não – ou apenas – da factualidade do social, mas, se assim fosse possível dizer, do social em suas possibilidades.
De outra parte, o ensaio de uma leitura do texto literário que, em alguma medida, levou a repensar o estatuto dessa forma expressiva em relação às demais e sobretudo de seus vínculos com a miríade de processos que nos habituamos a classificar, unificando- os, com o nome de “realidade”.
Inserida no mesmo intento de problematização que pretendíamos destinar ao
social, a necessidade analítica de não enclausurar os textos analisados no universo da
literatura, levou-nos a pontuar certa distância da dimensão das relações intertextuais, equivalente àquela que guardamos em relação à suposição de que as figurações literárias seriam antes de tudo transposições do real para o plano textual ou, no outro polo do mesmo encadeamento, projeções dos meandros tortuosos da (inter)subjetividade nas linhas – nem sempre – retas da escrita. Daí a opção por uma leitura que procedesse mediante a triangulação entre escrita literária, constituição da subjetividade e dinâmica
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social, tomados não como dimensões autônomas de um complexo de relações mas, antes de tudo, como elementos cuja relação consiste precisamente no processo de sua mútua constituição.
Em outros termos, e tomando a elaboração literária como via de entrada – já que nela reside a principal dimensão empírica de nossa pesquisa – o texto literário, na perspectiva que esboçamos, não remete primordialmente a um sujeito do qual emanaria, tampouco a uma realidade depositária dos elementos que decalcaria. Na perspectiva que esboçamos, esses três elementos não se pre-supõe ou se re-presentam. Constituem processos que se põe e se presentam, reciprocamente interligados, no próprio ato de seu desenrolar processual.
A perspectiva analítica assim esboçada nem de longe pretendeu negar algum grau de volição a uns ou factualidade a outros desses elementos. Apenas corresponde à intenção metodológica e teórica de evitar atribuir uma evidência substancialista a tais categorias e de deslocar o foco da análise para os processos das forças conflituosas mediante os quais elas ganham forma.
Portanto, nossa unidade de análise, na falta de expressão mais apropriada, não se restringiu ao texto literário – embora este corresponda a boa parte da empiria da pesquisa –, ao sujeito de sua enunciação ou à realidade social enunciada. Mas, antes, às relações de forças e formas colhidas nos processo históricos que delinearam a configuração cambiante do universo social paulistano, de fins do XIX e inícios do XX. Com especial atenção tanto aos processos discursivos de constituição dos sentidos que coparticipavam da produção das tramas da (des)ordem social, quanto aos de subjetivação que constituíam a adesão ou o dissenso dos sujeitos aí implicados; entre tais processos, o enfoque predominante, respectivamente, sobre a escrita e sobre a subjetividade antropófagas.
Por um lado, essa problemática fez emergir para a análise os parâmetros vacilantes de sentido da ordem e experiências sociais, decorrentes dos conflitos expressivos e performáticos entre universos sociais hegemônicos e subalternos, ativados pelo processo de heterogeneização. Uma configuração social até então composta basicamente pelo medo e prepotência de senhores, pelas esperanças e desenganos de cativos e pela presença, ora “oportuna”, ora “nociva”, de incipientes camadas médias,
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presenciava a lenta decomposição do locus de significados em que seus temores e taras, ambições e condescendências, sujeições e revoltas, por séculos, haviam encontrado um sentido: os ditames da ordem escravista. Os parâmetros relativamente estáveis que os estigmas associados da cor e do trabalho forçado conferiam às inserções das demais identidades e papéis, bem como às tramas da ordem social, vacilariam sob o peso dos desdobramentos conjugados dos processos da Abolição e da expansão da lavoura cafeeira: à massa de libertos cuja insubordinação levaria às cidades, viria somar-se a não menos precária situação de levas de estrangeiros despejados pela política de imigração massiva. Se a conflitualidade latente neste quadro daria lugar a novas figurações estigmatizantes e acusatórias por parte dos preceitos e imperativos da ordem, entre os quais as demandas das elites por um pertencimento a um todo homogêneo e fechado, compunha, também, a presença de uma multidão em trânsito, renegada ou simplesmente impossível de ser integrada mediante o funcionamento da economia cafeeira, cujas dinâmicas socioculturais colocavam em disputa a definição de novas identidades e papéis, tanto quanto da nova trama que deveria presidir suas interações e conformar uma narrativa da paulistanidade.
Sendo assim, a configuração de forças desenhava-se à maneira de uma cidade deflagrada, uma contenda coletiva pela ocupação de lugares e performatização de discursos e práticas no espaço social e urbano. Nesse sentido, por outro lado, a problematização adotada, possibilitou a discussão do lugar propriamente político ocupado pela estética literária nos agenciamentos discursivos postos em litígio em torno da definição dos limites que deveriam circunscrever a vida social pretensamente “legítima”.
Nessa perspectiva analítica, a trajetória social e estética de Oswald de Andrade comparece como modulação particular dos processos coletivos de deslocamentos e trânsitos que lançavam em suspensão a copertinência entre os sujeitos, suas posições e discursos. Esse o processo social que parece dar conta de muitos dos aspectos atribuídos, com o propósito de exaltação de sua “genialidade” ou de censura ao seu “cabotinismo”, ao rol de idiossincrasias do poeta. O sujeito bem nascido, único herdeiro de uma fortuna em terrenos nas partes centrais e adjacências da cidade, que pretere um futuro promissor de empresário em favor de uma incerta carreira literária. Que torra sua herança em transações atabalhoadas e em “extravagâncias” como banquetes, viagens e
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exemplares da pintura modernista nacional e europeia. O morador dos bairros finos da capital e conviva dos mais elegantes salões, que se aventura em incursões amorosas pelo Brás e insiste em enveredar pela boêmia dos botequins da Sé. O Orador do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito que despreza a Academia Brasileira de Letras, simpático ao Partido Republicano Paulista e fascinado pelo Anarquismo e pela figura do militante Oreste Ristori. O conhecedor e amigo da arte e dos artistas das vanguardas europeias que frequenta e apadrinha o circo do palhaço Piolin, dança quadrilha em Minas e nas festas populares de Bom Jesus de Pirapora. Enfim, o típico intelectual de terno e gravata, cortados contudo nas cores espalhafatosas dos modelos que encomendava diretamente aos mais renomados alfaiates de Paris, que alternava os finos cigarros Tietê aos palheiros a base de fumo de Baependi, o champanhe francês à cachaça de Paraty. Uma trajetória, portanto, que envolve um enfeixamento de práticas cotidianas em que é possível flagrar a Antropofagia em ato. Ou seja, uma vida que, mais que nos remeter a uma suposta leviandade ideológica ou confirmar a imagem de um “palhaço da burguesia” – expressão cunhada pelo próprio – parece nos confrontar a uma figura limiar, “personagem” escorregadia composta segundo uma lógica de suspensão de fronteiras e de tensão entre heterogêneos.
Ademais, a Antropofagia parece engrenar-se incisivamente nessa mecânica geral de deflagração e circulação dos signos. Posto que, como argumentamos anteriormente, daí advém as forças cuja formalização constitui seu principal princípio de composição:
devoração. Daí também seu processo de escrita ter-se convertido em território oportuno de subjetivação: o antropófago como subjetividade tanto avessa à fixidez e à homogeneidade, quanto propícia à ininterrupta experimentação e recombinação. Neste ponto, aliás, reside um aspecto suplementar do caráter coletivo da elaboração literária antropofágica. Isto é, não só a Antropofagia põe em cena a experiência coletiva de deslocamento de sentido do social, como a subjetividade que ela inscreve não se confunde com uma individualidade. Aqui, o sujeito, quer ele seja figurado como Oswald, Miramar, Serafim, ou, simplesmente, antropófago, é sempre o agenciamento de uma multiplicidade de falas e sujeitos outros. Isto é, a devoração – longe de coincidir com aniquilação – implica a afirmação e proliferação da potência do que se devora: a antropofagia não unifica nem hierarquiza, não esgarça o tecido das interações, mas estende alianças, multiplica sujeitos.
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Nesse sentido, tal como os parâmetros vacilantes do espaço social, também o espaço literário aberto pela Antropofagia seria atravessado por um insistente palavrório contencioso, irredutível, ao que parece, a uma alocação inequívoca no espaço social, ou na circunscrição específica de um grupo, de uma classe ou comunidade nacional. Precisamente porque a devoração, enquanto força poética e de subjetivação, não se confunde com um mero apetite, redutível, portanto, a um ímpeto de fartar-se à procura da maior quantidade possível de elementos, oriundos dos mais diversos cardápios. Antes – e aqui intervém a já observada aliança com a preguiça – tratar-se-ia de uma operação de emancipação dos signos, mediante a diluição das fronteiras que os circunscreve a espaços e sujeitos hierarquizados, no interior de uma ordem a um tempo estética e social, pretensamente legítima. Assim, desfeitos os vínculos de propriedade, restituída a circulação coletiva, a devoração efetua as alianças – contágios – desautorizadas entre heterogêneos, em regimes de expressão que escapam à verticalidade e relativa homogeneidade interna aos conjuntos “fechados”.
É justamente nessa lógica de composição formalmente refratária a qualquer homologia com a circunscrição de grupos, classes e nacionalidades, que parece residir o
riso do antropófago, enquanto figuração literária que efetua a dupla articulação da escrita ao processo social e, simultaneamente, ao processo de subjetivação.
No que diz respeito a esta última, a derrisão com que a escrita antropofágica reveste narradores e personagens parece decorrer da tensão instalada no movimento de aproximação e afastamento que a subjetividade antropófaga efetua em relação ao padrão identitário bandeirante e, mais especificamente, à sua figura modelar: o “homem de letras”. Trata-se, com efeito, do conflito e impertinência entre a mobilidade e abertura que a devoração conferia aos contornos daquela e a fixidez e fechamento que o intento de estabilização da ordem social e cultural impunha aos contornos desta. Isto é, o riso como pilhéria advinda de um processo de escrita e subjetivação que insinua o acolhimento de um padrão identitário, apenas e na mesma medida em que sorrateiramente debocha dele.
Por outro lado, no que concerne à primeira articulação, procuramos pensar o riso como figuração literária e força subjetiva que corresponderia a uma espécie de modulação da devoração. Isto é, a derrisão, aqui, consistiria da própria forma de
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vinculação que a composição da escrita antropofágica instaura entre aos elementos oriundos do processo de heterogeneização social e cultural de São Paulo. Ao desconjuntar copertinências, a devoração corresponde a certas modalidades de vínculo que se inscrevem na forma estética. A lógica compositiva da antropofagia opera, assim, um regime de expressão e de interação dos corpos e expressões que, estética e politicamente, estabelece vínculos transversais entre sujeitos dos universos hegemônicos e subalternos, dissolvendo poeticamente a verticalidade das hierarquias e dissimetrias que a lógica identitária do bandeirantismo impunha entre eles.
Sendo assim, o riso antropofágico converte-se em força motriz de um risonho festim em que a subjetividade antropófaga, em permanente processo de constituição, faz-se acompanhar por uma turba de sujeitos outros. Portanto, na virtual “república antropofágica” que os trânsitos e (des)caminhos da escrita oswaldiana desenham, o riso é a instauração de uma trama de interações e expressões presidida pelo princípio da permanente experimentação e alargamento das possibilidades. República em que, com efeito, estética e política são produtoras e produtos de alianças contagiosas entre heterogêneos, inscrevendo, portanto, uma subjetividade que encerra a potência de uma coletividade estética e politicamente múltipla. O antropófago, sujeito apossado por uma multidão, só poderia, por fim, rir um riso espalhafatosamente coletivo, que, dada a estreiteza da “pátria paulista”, obscenizava a nação.
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