brukerundersøkelser
4. Gjennomføring av undersøkelsen
O fantasma é uma imagem que quer ser vista. Podemos tentar desviar o olhar ou mesmo fechar os olhos, mas o terror de ver é contrabalançado por uma igualmente forte sedução da vista. (FELINTO, 2008, p. 59).
A comunidade Profiles de Gente Morta (PGM) 3, criada em dezembro de 2004,
tem mais de 48 mil membros associados e nove comunidades relacionadas. 4 O principal
objetivo de seu fórum é pesquisar e divulgar a morte de usuários do Orkut (figura 21).
Aqui vem os com o, de um a hora para a out ra, nossa vida acaba e deixam os t udo para t rás, inclusive banalidades com o Or kut , Fot olog, MSN, et c... Banalidades essas que, por vez, podem os cham ar de " rast ros virt uais" .
Mas o que são esses rast ros?? Seriam eles út eis?? Um confort o para quem fica?? Um a im or t alidade virt ual?? Bom , est am os aí para discut ir...
Querem os que vc post e o profile de algum conhecido seu que t enha falecido ou algum profile que vc conhece. Não é per m it ido brincadeiras de m á int enção, bem com o falt a de r espeit o com os m ort os. Deixo claro t am bém que sou cont ra qualquer t ipo de v iolência e j am ais faço apologia a m ort e aqui nessa com unidade. Sem m ais, desej o que t odos descansem em paz...
Ass.: Guilherm e Dort a
Figura 21: Apresentação da comunidade Profiles de Gente Morta – PGM.
Para cada notícia de falecimento abre-se um tópico na lista do fórum; os títulos trazem os nomes dos mortos identificados entre cruzes (figura 22). Cada tópico contém, necessariamente, o hiperlink para acesso ao perfil do falecido; além disso, pode informar a causa do óbito. 5 Conhecidos e, sobretudo, desconhecidos, manifestam seu pesar tanto no
fórum quanto no scrapbook do perfil recém-desencarnado; nestes também ocorre o vandalismo virtual, expresso como mensagens difamatórias ou de baixo calão deixadas por perfis anônimos ou falsos (fake profiles).
3 www.Orkut.com.br/Community.aspx?cmm=993780. 01 jun. 2008.
4 Dados de junho de 2008. Comunidades relacionadas: Eu já chorei lendo a Profiles (1484 membros);
Gente morta sem profile (1359 membros); Sou viciado na Profiles (876 membros); Eu adoro a PGM (775 membros); PGM – Investigações (741 membros); Se eu morrer, me enterre na PGM (557 membros); Eu sou um pegeêmico – PGM (215 membros); Não ao RIP e DEP nos profiles (135 membros); e A PGM não me deixa trabalhar (28 membros).
5 Na enquete da própria comunidade, 2205 usuários responderam a seguinte pergunta, formulada em
agosto de 2007: que tipo de morte mais aparece aqui na PGM? Resultado: suicídio (29%), acidente de carro (28%), acidente de moto (14%) e homicídio (14%).
Figura 22: Fórum da comunidade PGM (jun. 2008).
Em novembro de 2007, um tópico divulgou o suicídio de G. 6 Cerca de 500
mensagens, além de condolências, passaram a especular as razões que a levaram a esse ato extremo. No trabalho coletivo de “investigação”, após analisarem fotos e mensagens dos perfis de parentes e amigos da falecida, os internautas chegaram à conclusão de que G. possivelmente havia se matado por não suportar a ausência ou indiferença de seu filho, cujo comportamento aparentemente era motivado pelo pai, ex-marido de G. O mais inusitado, entretanto, era o álbum do perfil da própria G. No conjunto, imagens e legendas formavam uma hiperespetacular carta suicida endereçada ao filho e aos pais: “Nossa senhora cubra meu filho com seu manto de amor. Guarda-o na paz desse olhar...”; “Meu filho, minha vida, mainha te ama muito, viu!!! Serás um grande homem, em nom...”; “Saudades eternas... Meus Paizinhos, sempre os amarei, sempre estarão em meu coraç...”. G. também se preocupou em postar imagens artísticas em preto e branco que simbolizam a sensualidade feminina, a tristeza (lágrima) e a angústia/solidão (prostração), respectivamente (ver figura 23).
6 Embora o Orkut seja um publicador de perfis, ou seja, aquele que entra na rede tem ciência de que o
Figura 23: Álbum de G. (nov. 2007).
O trabalho de atualizar o álbum (escolha das imagens e composição das legendas) e tratar a sua própria imagem (a chamada “foto do perfil”), conferindo-lhe um aspecto aéreo, espectral, permite supor que G., embora se dirija apenas ao filho e aos pais, tinha interesse em assegurar e legitimar, na visibilidade ciberespacial, o quanto os amava, de forma que seu suicídio não fosse compreendido como ausência de amor. Esta preocupação sobrepôs-se à necessidade de justificar sua atitude e expressa, de forma indireta, um cuidado com sua imagem pós-morte. Seu perfil é sua imago, sua máscara mortuária virtual, sua última imagem – a imagem que postulará o quanto era sublime seu amor de mãe, apesar de suicida. Para Debray (1994, p. 25-26), “a transposição em imagem [...] é o melhor que acontece ao homem do Ocidente, porque sua imagem é a sua melhor parte: seu ego imunizado colocado em lugar seguro”. O perfil mumifica a vida do duplo não em seu último suspiro, mas em sua última atualização, para assim permanecer em um presente eternizado e receber as mensagens rest in
peace de amigos e desconhecidos. Se a própria morte é premeditada, o perfil pode ossificar para a eternidade a imagem que se deseja que os demais guardem de si. Convertido em “santinho” interativo, o perfil vira ponto de romaria; transforma-se também em curiosa aberração.
Embora o caso de G. seja exponencial, o desejo de que o perfil seja mantido
online após a morte foi manifestado por 47% dos 527 membros da PGM que responderam em
enquete da própria comunidade a seguinte pergunta: Você gostaria que seu profile fosse
deletado após a sua morte? (formulada em abril de 2007). 22% disseram não se importar e
13% disseram que, dependendo do tipo de morte, é melhor que o perfil seja apagado pelos familiares. Apenas 16% desejam que o perfil seja deletado. Alguns comentários 7 deixados
pelos respondentes permitem que se compreenda a congruência entre perfil e identidade para além de índice ou ícone da subjetividade; o desejo de permanência do perfil corresponde, portanto, ao desejo de sobrevivência da individualidade.
Tassia: naum gost aria pq,sei lá...seria m inha única m arca ant es de m orrer.m inhas últ im as palavras e t alz... seria m inha lem brança m ais viva e eu naum gost aria q ela fosse apagada.
Gabriela Meg: Gost aria que as pessoas se lem brassem de m im , de algum a form a. Provar que fiz algo na m inha vida, m esm o que fosse som ent e um profile no Orkut . e quant o as m ensagens que receberia, a m ort e não é um fim , apenas um com eço...
Ant onio Marcos: Quando eu não m ais est iver nesse m undo, quero que as pessoas que ficaram , saibam que eu fui, das coisas que eu gost ava, assim com o as que não.
Figura 24: Respostas à pergunta Você gostaria que seu profile fosse deletado após a sua morte? Enquete da comunidade PGM (abr. 2007).
De acordo com Renard (2001, p. 56-71 apud LEGROS et al., 2007, p. 231), “as técnicas modernas acolhem voluntariamente o sobrenatural: fotos espíritas, vozes de defuntos, calculadoras astrológicas”. Na intangibilidade desmaterializada e fugaz do ecrã, os fantasmagóricos perfis desencarnados (porque absolutamente livres de uma corporeidade à qual devam representar) tornam-se hiper-reais 8, simulacros epicurianos desgarrados da
realidade concreta que fomentam o imaginário tecno-religioso 9 a partir da possibilidade de
sobrevida por meio da imagem, como pode ser observado nos seguintes comentários:
7 Os comentários não foram reproduzidos necessariamente na ordem em que aparecem postados. As
fotos do perfil (que acompanham cada mensagem) foram dispensadas. Além disso, para facilitar a leitura, caracteres especiais e textos em caixa alta foram modificados sem alteração do conteúdo. No mais, a transcrição é literal. Os comentários, nas enquetes, não são datados.
8 Aquilo que é mais real do que o real liquida os seus referenciais e deixa de representá-los,
obliterando a diferença entre verdadeiro e falso, real e imaginário (BAUDRILLARD, 1991, p. 7-14).
9 Para Legros et al. (2007, p. 218), “religião e imaginário, por terem em comum uma característica
fundamental – a atividade simbólica -, são dois domínios que se aproximaram, assimilando-se mutuamente”.
Dra Kit t ie: Após d m ort a quer o ficar viva... nem q sej a vir t ualm ent e
Paula: Eu quer ia que não fosse delet ado j á pedi a m inha fam ília que m e post aqui e não delet e m eu Orkut , j á que eu vou m orrer dexa eu aqui plisss
Pinn: se ex cluirem m eu Or kut o que eu vo faze no ceu ou inferno?
Bruno: naum uai vai q la no ceu t enha lan house u.u*
Deep: Não gost aria de ficar r ecebendo scraps m e chingando m esm o após m inha m ort e
Figura 25. Respostas à pergunta Você gostaria que seu profile fosse deletado após a sua morte? Enquete da comunidade PGM (abr. 2007).
Permanência e atualização de conteúdos no Orkut corroboram o embaralhamento de postulados demarcados tais como vida e morte. Sete meses depois, ainda online, o perfil de G. pode ser localizado; houve um trabalho de atualização do conteúdo (provavelmente feito por alguém que teve acesso à senha): as mensagens ofensivas postadas à época do falecimento foram apagadas, bem como as mensagens de sua mãe, respondendo às condolências virtuais de familiares e amigos. O álbum de fotos foi modificado, reduzindo-se a uma única imagem. Mas, os muitos recados que chegam, sucessivamente, não são deletados. Acumulam-se saudações, poesias e mensagens de otimismo absolutamente impessoais; cartões animados (slideshow) por ocasião de datas festivas; divulgações de comunidades, sites, festas, produtos e serviços. Nas poucas mensagens dirigidas especificamente à G., são recorrentes imagens bíblicas ou de paisagens banhadas em luz; G. é chamada de “eterna amiga”, “G. de luz”, “meu anjinho”. Curiosamente, em maio de 2008, G. recebeu mais de 20 mensagens de congratulação por seu aniversário como se ainda estivesse viva, a ponto de um dos usuários ter de intervir diretamente:
( Usuár io não exist e m ais) : Gent e! ! ! ! ! ! ! ! ! Tenho cer t eza que vcs não sabem ! ! ! Mas G. faleceu o ano passado... Que Deus a t enha em seu reino... Que t enha m isericórdia e lhe per doe. ( 29/ 05/ 2008)
Figura 26. Mensagem deixada no scrapbook do perfil de G.
O embaralhamento 10 chega a tal ponto que alguns internautas manifestam o seu
aturdimento: fato ou boato? Verdade ou mentira? Viva, morta ou... ressuscitada?
10 Na hiper-realidade (BAUDRILLARD, 1991, 1996), as dicotomias implodem e causam a estranheza
Representação do vivo, imago-efígie ou fantasma? 11 Afinal, representado quer dizer
“presente na imagem (e não na realidade) e tornado presente pela imagem” (WOLFF, 2005, p. 21). Mas a que tipo de presença o perfil de G. se refere?
Graça: Recebi o recado de vcs am igos de G. dizendo do falecim ent o.... porem o profile de vcs não recebe recados... só envia, achei m uit o est ranho! ! ! Coloque o recado na pagina dela... avisando do falecim ent o! ! Obrigada
( 19/ 05/ 2008)
Everaldo: porque vc t ah t ão sum ida??? ( 19/ 05/ 2008)
Graça: G. vc ressucit ou??/ Pois a not ica que correu na rede é que vc havia se suicidado. Por favor alguém pode m e responder? ( 15/ 05/ 2008)
Graça: At enção fam iliares da G.! ! ! ! ! Se ela faleceu porque cont inuar com o Orkut dela.... vcs não acham que é m ais sofrim ent o??? Gost aria de t er um a explicação plausível pra cont inuar com est e Orkut ! ! ! A G. não faleceu! ???? Est á parecendo coisa m eio enrolada... A quem vcs querem enganar pois t a t udo m uit o est ranho! ! ! Porque vcs querem prolongar est e sofrim ent o fam iliar... A não ser que a fam ilia sej a m asoquist a.... ( 25/ 03/ 2008)
Jonat han: vc m orreu ou não? ( 21/ 01/ 2008)
Graça: O que acont eceu com vc??? Est es boat os do Orkut que vc suicidou é verdade... Por favor alguém responda! ! ! ! Que loucura foi est a????
( 07/ 01/ 2008)
Graça: Que recados são est es a respeit o de seu suicídio?? Será vírus?? Alguém m e de not icias por favor pois adoro m uit o você e est ou preocupada com est a not icia! ! ! ( 12/ 12/ 2008)
Figura 27. Reprodução de mensagens deixada no scrapbook do perfil de G.
A análise do scrapbook de G. revela, em meio à saturação informacional cuja obesidade se deve ao “delírio de estocar tudo e tudo memorizar” (BAUDRILLARD, 1996, p. 25), um grande vazio: o que se pode extrair de verdadeiramente substancial? Muito pouco. Quem sabia ou queria realmente saber de G.? Poucos. Mesmo as mensagens de aniversário transformam-se em pseudo-afronta, pois não constituem uma lembrança legítima: a plataforma indexa os “amigos” aniversariantes do dia, aos quais se podem enviar os devidos “parabéns”.
O envio massificado de mensagens indiferenciadas presta-se antes a tornar-se visível no scrapbook daqueles que estão vinculados como “amigos” que propriamente entabular uma conversação, um vínculo efetivo, comportamento condizente com a cultura narcisista vigente (LASCH, 1983, 1990). Mensagens como “pensei em você” ou “tenha um ótimo final de semana” publicizam o eu e multiplicam seus pontos de acesso, já que, ao lado de cada mensagem, segue-se o composto imagem/nome vinculado ao perfil. E estas seguem, inclusive, aos “amigos” falecidos, atualizando seus scrapbooks. Esta supermultiplicação
11 Para Wolff (2005, p. 32), “as imagens dão novamente vida aos mortos (está aí seu poder), isso
conduz ao êxtase, “essa qualidade própria a todos os corpos que giram sobre si mesmos até a perda de consciência e que resplandecem então em suas formas puras e vazias” (BAUDRILLARD, 1996, p. 9).