Desde a Revolução Industrial, com a primeira grande transformação do trabalho (do campo para as indústrias) houve o interesse da Psicologia em orientar os indivíduos na aquisição de competências importantes para a adaptação social e profissional. Já naquela época as mudanças sociais abalaram todo o sistema produtivo exigindo das pessoas o desenvolvimento de novas atitudes e competências comportamentais para que pudessem se adaptar às novas exigências do mundo industrial. Atualmente, a sociedade moderna vivencia outra revolução, agora denominada Revolução Tecnológica, que interliga todos os continentes e enfraquece as fronteiras impostas anteriormente. Mais uma vez, a sociedade passa por mudanças que afetam sobremaneira a forma como o mundo se organiza. A partir da década de 1970 iniciou-se a globalização e as demandas econômicas advindas deste processo influenciaram as organizações, que tiveram que se adaptar para manterem sua competitividade neste novo cenário social que se apresentava, afetando diretamente, entre outros aspectos, a forma como o trabalho é organizado (Bridges, 1995).
Neste novo contexto, as carreiras organizacionais são substituídas pelas “carreiras sem fronteiras” exigindo novas posturas profissionais. No entanto, o que se observa é que as pessoas encontram dificuldades de se adaptarem a essas mudanças sentindo-se inseguras por não saberem como se comportar e com medo das conseqüências para o futuro. Mas as mudanças na definição da carreira advindas da globalização são inevitáveis e a melhor forma para adaptar-se a elas é através da educação (Bridges, 1995). É preciso orientar as pessoas a entenderem quais são as novas “regras” do mundo do trabalho e como este novo profissional precisa se comportar para construir uma carreira satisfatória e de sucesso no mundo atual.
Entretanto, o que se percebe no sistema educacional brasileiro é uma deficiência em preparar os alunos para se adaptarem às exigências do mundo globalizado, cada vez mais dinâmico e rotativo. Nunes (2006) ressalta que desde o ensino médio os alunos precisam começar a optar por uma profissão futura, definindo simplesmente o curso de graduação a ser realizado. A partir daí começa a angústia de passar no vestibular, principalmente entre aqueles que almejam ingressar em instituições públicas. Ao ingressarem nas instituições de ensino superior (IES), tendo vindo de um ensino médio marcado pela pressão dos vestibulares, os estudantes pouco preparados para o mundo do trabalho buscam profissionalizar-se através da formação universitária. No entanto, as estatísticas do Censo Demográfico de 2000, de acordo com Nunes (2006) indicam que a matriz profissionalizante das universidades brasileiras é “de baixa qualidade”, visto que a maioria dos alunos que ingressam no ensino superior no nosso país não conclui seus estudos, e entre aqueles que se formam, a maioria não atua na área para qual se capacitaram.
Para Nunes (2006), o motivo destas contradições no ensino superior do Brasil é conseqüência da ineficiente organização dos conteúdos ministrados. Há uma tendência em priorizar a formação técnica esquecendo-se da formação geral mais ampla que oferece mais recursos para que os universitários possam alcançar seus objetivos. “Amarrada a um currículo profissionalizante, a educação superior acaba se descuidando da preparação do estudante para um mundo complexo, no qual as profissões tornam-se obsoletas rapidamente e é freqüente a mudança de emprego e de ocupações ao longo da vida profissional” (p.8).
Ciente das demandas sócio-educacionais do nosso país há a necessidade de discutir novas formas de educação que orientem os universitários na aquisição de conhecimentos e atitudes necessárias ao efetivo desenvolvimento de carreira, entendendo-se carreira como a trajetória profissional em conjunto com outros papéis sociais desempenhados pelo indivíduo durante sua vida.
Tendo em vista este cenário, é urgente a necessidade de atualizar e melhorar a “comunicação” entre o mundo da educação e o mundo do trabalho no Brasil. Acredita-se que orientar o universitário no seu desenvolvimento de carreira de forma integradora é imprescindível para que o mesmo possa enfrentar, de maneira eficiente, as demandas sociais e do mundo do trabalho. O Desenvolvimento de Carreira, neste sentido, pode ser definido como um processo de autoconsciência ocupacional, planejamento e predisposição para explorar o mundo do trabalho e conhecimento das tarefas do desenvolvimento de carreira (Thompson et al., 1981).
Fundamentado nestas constatações, o presente estudo buscou ampliar as discussões sobre o desenvolvimento e maturidade de carreira dos universitários, através da validação de instrumentos de medida, relacionados ao tema proposto, que podem vir a ser utilizados em futuras pesquisas ou como ferramenta prática para o diagnóstico individual e avaliação de programas de orientação de carreira destinados ao público universitário. A base teórica utilizada foi a teoria de Desenvolvimento de Carreira proposta por Donald Super e os instrumentos mencionados buscam avaliar respectivamente as atitudes da maturidade de carreira e atribuição de causalidade para as decisões de carreira.
Para a realização deste estudo foram coletados dados em três momentos diferentes, atendendo as exigências metodológicas, para que fosse possível verificar a validade e confiabilidade dos instrumentos utilizados. Na primeira fase do estudo foi feita a adaptação semântica e ensaio experimental dos instrumentos. Na segunda etapa foram realizadas as análises estatísticas necessárias para avaliar a confiabilidade das medidas e estrutura dos instrumentos e na terceira e última fase foi feito um estudo correlacional e discriminativo visando conhecer a relação entre as variáveis mensuradas pelos instrumentos e o poder discriminativo dos mesmos, colaborando para avaliar a validade de constructo das medidas utilizadas. As duas últimas etapas serviram também para conhecer as características dos
universitários que participaram do estudo em relação às variáveis pesquisadas, visando, com isso, identificar o perfil dos mesmos em relação ao desenvolvimento e maturidade de carreira.