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O planejamento e a construção de uma nova capital para o estado de Minas Gerais estavam repletos de simbolismos. Primeiramente, porque o projeto tinha a finalidade de inserir o Estado no contexto internacional de transformações e posicioná-lo no painel da modernidade. E, segundo, porque o projeto visava a uma cidade que era fruto das aspirações de desenvolvimento e de prosperidade pertencentes à elite mineira.

A nova capital foi concebida para ser o signo de um novo tempo. Seus idealizadores e construtores imaginaram-na como um foco irradiador de civilização e progresso, um lugar moderno, higiênico e elegante. "A Capital já nasce com uma missão: promover o progresso econômico e intelectual de Minas, projetando-a como a maior força política do cenário nacional. Construindo-se sobre os escombros do mundo rural arcaico, ela deve introduzir o Estado no

moderno universo urbano e industrial".35

O sonho de uma capital moderna e uma metrópole civilizada e cosmopolita refletiu-se no planejamento urbano traçado pela Comissão Construtora. Tal planejamento se coadunava com o pensamento moderno em voga na época e com o contexto mundial de novas experiências urbanas e sociais. O projeto de Belo Horizonte foi inspirado no projeto de reformas de grandes metrópoles como Paris, por exemplo, em que o traçado era planejado, racional e positivista.

A Proclamação da República em 1889 influenciou significativamente a concepção da nova capital. Para as elites mineiras, os ideais da República precisariam transcender o plano ideológico, materializando-se no concreto, na construção de uma cidade símbolo. A nova localidade seria um centro de desenvolvimento econômico e intelectual, foco da civilização e do progresso. Uma nova capital para Minas, assim como a emergente República, traria, para o Estado e para a sociedade como um todo, a tão sonhada modernidade. Uma nova cidade representaria uma ação e um símbolo que davam legitimidade à nova organização política, idealizada na República.

A elite mineira encarava a Proclamação da República como uma ruptura com o passado e o início de um tempo de modernização e desenvolvimento. Para essa elite, o horizonte era favorável a um projeto de construção de uma nova capital, pois Ouro Preto representava esse

31 passado com o qual se queria romper. Além do mais, a antiga capital de Minas se mostrava ineficiente para atender às demandas do mundo moderno que se anunciava, além de representar a velha ordem que devia ser substituída.

Ouro Preto era vista pelos republicanos mineiros como um centro político administrativo típico do império. A cidade possuía deficiências estruturais e não oferecia condições de se tornar o pólo dinamizador da vida econômica do Estado. Além disso, Ouro Preto não conseguia exercer a centralidade necessária para torná-la representante da identidade do Estado. Acreditava-se que uma região mais central pudesse integrar mais as outras regiões e reorganizar a economia do Estado em torno de sua área de influência. Para os apoiadores da mudança, em uma nova capital, a vida e os valores urbanos tenderiam a favorecer a prática republicana.

A construção de uma nova cidade seria o signo de um novo tempo e asseguraria a unidade política do Estado. Como nos diz Passos (2009), "um novo tempo pressupunha uma nova espacialidade, e uma nova cidade-capital, no estado mineiro, serviria para consolidar a emergente República, dando sentido material a ideia de ruptura".36

Assim sendo, em 1891 deram-se início as ações visando a escolher o lugar para a nova capital. O governador Augusto de Lima determinou ao Congresso Mineiro que a nova localidade tinha que reunir as melhores condições de localização e infraestrutura. Tal determinação estava imbuída pelo ideal racional de urbanização, inspirado na lógica positivista e nas ideias estéticas da Belle Époque.

Foram sugeridas então cinco localidades: Juiz de Fora, Barbacena, Paraúna, Várzea do Marçal e Arraial do Curral D´El Rey. O engenheiro responsável pelo projeto, Araão Reis, visitou todas as localidades e avaliou os prós e contras de cada uma delas. Depois de larga discussão e alguns impasses, em 1893 o Congresso Mineiro decidiu-se pelo Arraial do Curral D´El Rey.

O arraial atendia a todas as condições necessárias para abrigar a nova capital, condições físico-biológicas e de localização. O pequeno povoado, portador das marcas do passado colonial e sinônimo de primitividade e de ruralismo, foi condenado ao desaparecimento. Expulsos de suas casas, afastados de suas atividades e privados do convívio social, os moradores do antigo arraial debandaram-se para povoações vizinhas ou para o subúrbio.

32 Em março de 1894, dá-se início às obras de construção da nova capital. O projeto, como já dissemos, "buscava atender os ideais positivistas e progressistas presentes na nascente República (...). Um espaço urbano organizado geometricamente, hierarquizado e com funções sociais e administrativas bem definidas e delimitadas".37

Belo Horizonte foi planejada e construída com áreas grandes e livres no intuito de facilitar a comunicação dos habitantes, a livre circulação, a ventilação e a higiene. Os espaços foram classificados e ordenados de acordo com as funções e necessidades sociais. Todas as esferas da vida política e pública tiveram o seu lugar previamente pensado e definido mediante sua importância no novo modelo político, econômico e social. A cidade era totalmente organizada estruturalmente e rompeu drasticamente com o padrão colonial das antigas cidades de Minas.

Em dezembro de 1897, o presidente de Minas, Crispim Jacques Bias Fortes, inaugurou a nova capital, que já possuía 10 mil habitantes. "Finalmente em 12 de dezembro de 1897, ainda com diversas obras sendo realizadas por toda parte é inaugurada a capital, tão sonhada e arquitetada para ser o símbolo da modernidade no Brasil republicano."38

O objetivo de se criar uma das maiores cidades brasileiras do século XX foi atingido. No entanto, o ordenamento excessivo imposto pela ideologia do projeto teve sérias consequências. A cidade geométrica, funcional, limpa e saudável, com uma arquitetura racional e moderna, tornou- se também uma cidade segregacionista. Vários dispositivos de controle foram acionados para que a ordem dentro da cidade fosse mantida e para que houvesse um enquadramento social que garantisse a harmonia.

Na planta da cidade podiam-se ver as avenidas traçadas em diagonal e quarteirões de dimensões regulares.A racionalização do espaço público, o embelezamento e a higienização foram pressupostos ideológicos que guiaram sua construção. Com espaços delimitados e identificáveis, a cidade foi dividida em três áreas: central urbana, suburbana e rural.

A área central urbana recebeu estrutura de transportes, educação, saneamento e assistência médica, bem como edifícios públicos dos funcionários estaduais e estabelecimentos comerciais. A Avenida 17 de Dezembro, atual Avenida do Contorno, era o limite dessa área. A região

37 Blog “Curral Del Rey”. Desenvolvido por Alessandro Borsagli, 2010. Site destinado à discussão sobre as

mudanças ocorridas no espaço urbano de Belo Horizonte, desde a fundação do Arraial do Curral del Rey até os dias atuais. Disponível em: <http://curraldelrei.blogspot.com.br>. Acesso em 10 nov. 2013.

33 suburbana era formada por ruas não regulares e não recebeu, a princípio, infraestrutura urbana. A área rural, por sua vez, era composta por cinco colônias agrícolas com várias chácaras que abasteciam a cidade com produtos hortigranjeiros.

A área mais central estava reservada para a elite mineira. Era nessa região que se concentravam os principais serviços como saneamento e iluminação. Nas áreas onde a população de baixa renda (os operários em sua maioria) habitava, não havia a mesma infraestrutura planejada para o centro da cidade. Sobre essa desigualdade na estrutura das três áreas da nova capital, diz-nos Vilhena39:

A zona urbana milimétricamente planejada, contava com os mais modernos serviços urbanos como água encanada, esgoto, luz elétrica, serviços de bonde, além do fácil acesso das ruas e dos espaços de lazer (...) Já a área suburbana, não agraciada com tanto conforto e beleza, possuía ruas com traçado irregular, sem serviço de saneamento, moradias precárias e nenhuma estrutura para lazer. (VILHENA, 2013: 5)

O cenário de inauguração da nova capital nos revela, além da pretensão de uma vida dinâmica, capaz de promover a produção de riquezas e um novo padrão de sociabilidade, a disparidade existente entre as três áreas e seus moradores. "A discrepância formada entre a suntuosidade de alguns prédios da capital e a precária condição das moradias operárias revela a direção da atenção governista e higienista".40

E assim surge a nova capital do Estado de Minas Gerais: em meio a obras ainda não terminadas, com largas ruas e avenidas, suntuosos edifícios, áreas milimetricamente delimitadas e uma população pobre excluída dessa "cidade-espetáculo imaginada pela elite mineira".41

No entanto, em seus momentos iniciais, Belo Horizonte não atendeu às expectativas de seus idealizadores. Após sua construção, ainda era preciso inserir a cidade e seus habitantes no contexto da modernidade planejada e romper com os laços de uma sociedade que permanecera ligada a modelos tradicionais. Para além de aspectos estruturais, era preciso modificar também os aspectos culturais e interferir diretamente no modus vivendis da população.

Na subseção seguinte, tentaremos demonstrar as razões que explicam o fato de o ideal de modernidade e progresso não ter sido atingido inicialmente e tentar explicar por que o desejo de ser moderno entrou em contradição com a ausência real dessa modernidade.

39 VILHENA, acesso 2013.

40 COSTA; ARGUELHES, 2008, p. 131. 41 COSTA; ARGUELHES, loc. cit.

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