4 Non-lethal weapons and international humanitarian law
4.1 The general prohibitions and NLW
O censo demográfico de 1980 anunciou, em Blumenau, 157.288 habitantes. Esta década, marcada pela folclorização e espetacularização do que era ser alemão no sul do Brasil, foi também o período em que o discurso de povo blumenauense trabalhador foi destacado pela mídia impressa e pelo marketing turístico no ideário simbólico da cidade. As enchentes de 1983 e 1984, grandiosas e devastadoras, revitalizaram o rio Itajaí-Açu, agora não mais como o canal que permitiu aos alemães colonizadores se instalarem nas terras ainda de mata densa, e sim como aquele que foi agressivo com Blumenau e seu povo, invadindo com suas águas lamacentas casas, comércios, indústrias, principais avenidas e logradouros de diferentes bairros da cidade e municípios vizinhos, bem como o Kolleg.
Quinze dias de tamanha dor, perdas, sem energia elétrica, sem comunicação telefônica, sem transporte coletivo, sem água potável, sem trabalho nas fábricas, sem aula nas escolas, enfim, a cidade invadida pelas águas ficou imobilizada pela força da natureza.
Se no final do século XIX, quando da fundação da colônia por uma leva de imigrantes alemães e nas décadas subseqüentes, a imprensa e a elite blumenauense empenharam-se em divulgar o sucesso da colônia pelo valor agregado que obtinha pela capacidade aguerrida, trabalhadora, empreendedora do povo, no final do século XX viu-se repetir o discurso que tentava enquadrar o povo blumenauense mais uma vez como povo exemplar, modelar para outras localidades, pois mostrava mais uma vez sua capacidade de conseguir, pelo trabalho,
sair de condições adversas, nesse caso, de uma cidade abalada pelas cheias, com 90% do comércio prejudicado, 70% das indústrias com enormes prejuízos na produção pelos dias parados e com a impossibilidade de tocar um projeto político de governo municipal.89
No período posterior à enchente, o slogan do momento era: o povo blumenauense, trabalhador, solidário, aguerrido, vai reconstruir a “Nova Blumenau”. (Frotscher, 2007) A “Nova Blumenau” foi o slogan deflagrado na mídia pelo governo municipal da época, do então prefeito Dalto dos Reis (gestão 1982-1986) para reconstruir a cidade depois das grandes cheias.
Ao longo dos anos 1980 e 1990 pude assistir, vivendo em Blumenau, especialmente no período posterior às grandes enchentes, mudanças na configuração social do mundo do trabalho blumenauense, do comércio, padrão de consumo e como não poderia deixar de ser, no cenário também educacional, pois a escola está inserida nesse âmago da teia de relações sociais e possui cadeias de interdependência com a cidade e com os indivíduos que a compõem.
Resultado do modelo de industrialização adotado pelos países do terceiro mundo a partir da segunda guerra mundial, Blumenau teve o aumento de indivíduos em busca de postos de trabalho na indústria, enquanto o setor agrário reduzia seu fluxo de pessoas fixadas na lavoura.
Embora com avanços políticos na redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, o setor econômico não ia bem. Inflação, aumento da dívida externa, crise do petróleo e crescimento do Produto Interno Bruto quase nulo (Cunha, 1992) foram fatores que esfriaram a economia nacional, e como não poderia deixar de ser, também o setor produtivo blumenauense.
Nesse período, Blumenau que em décadas anteriores tinha como núcleo central da economia o setor têxtil, passou a viver vertiginosamente a criação de microempresas de facção90, profusão da economia informal, e avançando para ser destaque na produção de softwares, cujo impacto social da inserção das tecnologias da informação e comunicação começou dez anos antes com a instalação, em 1969 do Centro Eletrônico da Indústria Têxtil (CETIL), conquista dos empresários blumenauenses e vai se intensificar na última década do século XX.
89 Relatório da gestão municipal do prefeito Dalto dos Reis, 1986.
Figura 5: Relatório do Governo Décio Nery de Lima – Gestão 1997-2000
Fonte: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva
Nesse cenário, a Cia. Hering continuava líder, pois possuía tecnologia de ponta na área da informática.
Publicação da Associação Comercial e Industrial de Blumenau (ACIB)91, quando focalizou os acontecimentos da década de 1980 trouxe um slogan significativo “Força do trabalho vem de fora”. Eu diria: deveras significativo vindo de organização que concentrava o ideário do estamento empresarial e comercial da cidade, que, articulado à mídia impressa e às políticas governamentais dos anos 1980 até 1990 manteve o ideário simbólico “do pedacinho da Alemanha no sul do Brasil”. O discurso contido na publicação comemorativa da ACIB quebrava de certa forma a tradição de ter o blumenauense descendente de alemães como povo naturalmente trabalhador. No entanto, a ACIB não poderia deixar de criar tal slogan, pois sua asserção assentava-se nos dados advindos do censo que mostrou que das 48.715 pessoas que trabalhavam no comércio, indústria e serviços, 31.700 eram moradores de outros municípios, ou seja, 63,5% dos trabalhadores que atuavam em Blumenau provinham de outras cidades.
Entretanto, na década de 1980, antes das enchentes de 1983 e 1984, as empresas blumenauenses já sofriam problemas conjunturais. No ano de 1981 a curva do desemprego na cidade cresceu, pois só no primeiro semestre o setor têxtil demitiu duzentos operários. (ACIB, 1989)
Essa crise acentuou-se e, em 1984, segundo a ACIB, o maior desafio que a cidade enfrentava era o de manter o parque industrial. Por outro lado, foi também nessa década que o CETIL foi considerado o primeiro bureau nacional em informática, o que seria para a cidade o ponto de partida de seu futuro patamar como grande pólo de software, status que manteve até a atualidade.
Mas certamente esse declínio no setor têxtil não foi fator isolado na reconfiguração da cidade. Na área rural também se percebia decréscimo da produção agrícola o que até pouco antes era referência blumenauense. Porém, se a cidade perdia em parque industrial têxtil e na agricultura, crescia em outros setores. Criou-se no período o Blumenau Esporte Clube, bem como o Centro Esportivo do Serviço Nacional da Indústria (SESI), moderno e grandioso, situado na avenida de acesso à cidade pelo litoral. Inaugurava-se um moderno complexo rodoviário. Nascia a Orquestra de Câmara. Transformava-se a Fundação Regional de Blumenau (FURB) em Universidade, doravante chamada de Universidade Regional de Blumenau. Fazia-se o primeiro transplante de rins. Destacavam-se também as empresas de reembolso postal, enfim, mudanças configuracionais que a cidade sofreu, resultado de uma série de acontecimentos que não teriam como ser estudados isoladamente, mas só poderiam ser sociologicamente compreendidos se analisados no conjunto das interações e interdependências entre os diferentes setores, instituições e indivíduos que faziam a cidade ser de um jeito e não de outro.
Embora tenha avançado nesses aspectos e empreendimentos, Blumenau sofreu também declínio no campo cultural. A única sociedade de dramaturgia e música da cidade, inaugurada nos tempos da colônia como Teatro Frohsin, nos anos 1980, denominada Teatro Carlos Gomes, foi praticamente à bancarrota, mesmo tendo na presidência nomes de peso do empresariado local, tais como Dieter Hering, Hans Shadrak, Hans Dieter Didjurgeit, dentre outros (ACIB, 1989).
Nesse cenário, sentimentos de “invasão e afrontas” a valores produzidos como ideário de cidade e indivíduo, ao patrimônio cultural, à capacidade tida como natural do blumenauense de ser afoito ao trabalho, foram manifestos pelas professoras, assim como no artigo de Ruy Costa, num certo saudosismo, incomodados com a presença de “outra gente” na
cidade, as quais não “podem fazer por Blumenau o que nós fazemos por Blumenau” (Professora D, 2007).
As pessoas deixaram de ter valor e começou a valorizar pessoas que vinham de fora. Meu pai comentava que começou-se a trazer pessoas de fora para assumir cargos na Prefeitura. E que não conheciam a cidade, os valores, e não podiam fazer pela cidade. Meu pai sempre comentava isso com a gente.
(Professora P, 2007.)
As professoras particularmente pareciam “defender” o status social do ser blumenauense como edificante. E ao mesmo tempo lamentavam que “outros de fora” vinham se “misturar” ao povo daqui.
Hum... Uma cidade que... como é que eu poderia colocar para ti... Uma cidade... é... que tem uma cultura que traz benefícios para a população em termos de profissão e Blumenau não pode se livrar da questão alemã né? Eu acho que Blumenau traz consigo a cultura alemã. Mas para mim a cidade é mais para o lado profissional, mais trabalho do que para o lazer. Tanto é que minha opção é de não ficar em Blumenau, não ficar morando aqui, aqui é mais profissional. Se bem que nos últimos anos, nesses aí que tu perguntas, veio muita gente de fora. Vieram justamente por causa do emprego, do jeito de trabalhar daqui. Aqui se trabalha muito. (Professora Si, 2007)
Segundo Frotscher (2007), a valorização do trabalho foi um princípio idealizado e propagado pelas companhias que subsidiavam e controlavam a vinda de imigrantes europeus, sobretudo para o sul do Brasil. Em Blumenau particularmente, assim como em outras regiões do país povoadas por imigrantes alemães, o trabalho foi uma das formas de trazer, manter e tentar perpetuar o Deutschtum como vínculo à nação de sangue, a Heimat.
Tanto no que se refere ao marketing turístico, quanto no que concerne à necessidade de soerguimento da cidade depois das enchentes, percebeu-se que o elo de Blumenau com a Alemanha no período de 1970-1980 ressurgiu. Se, nos tempos da colonização, os teuto- brasileiros buscavam exemplos de modo de vida global na nação mãe, tais como a língua, a arte, o vestuário e alimentação, nestas décadas foi tempo novamente de buscar a força, a garra e a determinação vivida e sentida pelos alemães no reerguer a pátria no período posterior às grandes guerras mundiais. Foi assim que o prefeito da cidade à época conclamou os blumenauenses a reerguerem a “Nova Blumenau”. “[...] se a Alemanha e outras nações destruídas pela 2ª. Guerra Mundial ressurgiram dos escombros para invejável posição mundial, por que não haveremos de criar condições para o nosso soerguimento?”92
92 Relatório Nova Blumenau: um compromisso de todos. Fundo da Prefeitura Municipal. Série Projeto Nova
Note-se que o vínculo, ou a transposição entre um território e outro, uma nação e outra, como se pode ver ao longo desta tese, era feita de forma ahistórica, sem considerar os fatores que lhe eram peculiares, que fizeram com que ambas as nações se constituíssem como configurações sociais distintas.
Ter Blumenau como imagem e semelhança da Alemanha foi ideário projetado pelo Dr. Blumenau quando já das primeiras instalações nas terras catarinenses. Mas o projeto idealizador de uma Alemanha no Brasil foi para além da mentalidade do diretor da colônia. A imprensa, os almanaques (kalendars) e o discurso da elite no período que antecedeu a proclamação da República, iam ao encontro dessa propagação – “Blumenau é um pedacinho da Alemanha no sul do Brasil”.
Na década de 1980, esse slogan ressurgiu a partir do momento em que o governo municipal decidiu tomar como mote da política de turismo para a cidade o slogan “Blumenau – Alemanha brasileira”.
2.3 Um pedacinho da Alemanha no sul do Brasil: instituições e manifestações culturais