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Faltando oito dias para o final do projeto, a Caravana JN ingressou na região Centro-Oeste do país. Diferentemente das demais regiões, as reportagens veiculadas por Pedro Bial e sua equipe abordaram temas polêmicos e de extensa repercussão, como o fim da corrupção e mudanças políticas.

Vale ressaltar que o discurso do fim da corrupção e da mudança política serviu como mote de campanha para o candidato de oposição ao governo, Geraldo Alckmin (PSDB) já que seu maior opositor nas urnas, o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve seu nome e o de seu partido envolvidos em escândalos e fraudes no uso de dinheiro público desde agosto maio de 2005.

As duas reportagens que antecederam o término da Caravana, nos municípios de São Miguel do Araguaia e Pirenópolis, tiveram como tema principal o discurso do fim da corrupção e da mudança política. As demais reportagens registradas nos municípios de Nova Crixás, Barra do Garça e Campo Verde apontaram para os impostos e as altas taxas de juros praticadas pelo Governo Federal.

Tabela 4.8 – Temas das reportagens na região Centro-Oeste do Brasil

Temas – Mato Grosso Campo

Verde Barra do Garça

Impostos x

Saúde x

Tema – Mato Grosso do

Sul Corumbá

Educação x

Temas – Goiás Goiás Nova Crixás São Miguel do Araguaia

Pirenópolis

Cultura x

Imposto x

Política x x

Temas – Distrito Federal Brasília

Política x

Em 21 de setembro de 2006, a Caravana JN chegou a Campo Verde, no estado do Mato Grosso. A reportagem de Pedro Bial ressaltou os benefícios trazidos pelo

agronegócio e buscou legitimar a importância desse investimento para o crescimento da região. A reportagem mostrava do alto de um helicóptero uma extensa área verde (Imagem 4.85), seguida de texto em off de Bial: “Reencontramos o asfalto em grande estilo, na

moldura luxuosa da Chapada dos Guimarães. No centro do continente sul-americano cresceu Cuiabá, capital testemunha de uma revolução brasileira [...]. A revolução do agronegócio, que pela primeira vez em 500 anos iniciou de fato a interiorização do desenvolvimento no Brasil”.

O desenvolvimento da região foi confirmado pelos moradores que falaram à equipe do Jornal Nacional: “A evolução foi grande, porque ninguém esperava que fosse evoluir

tanto”, afirma o entrevistado. “Campo Grande não existia”, afirma um morador. Na sequência, a equipe de Pedro Bial entrevistou Jose Lazarini, ex-capataz que ascendeu a consultor administrativo da extensa fazenda de Pedro Garbujo. Na entrevista, o capataz abordou os problemas da crise do agronegócio.

Lazarini falou sobre os riscos do negócio, sempre sujeito às condições climáticas e enfatizou que a crise atual no setor decorria da falta de infraestrutura, das taxas tributárias abusivas do Governo Federal, da concorrência dos transgênicos e da baixa do dólar. Lembrou, em um discurso aparentemente despretensioso, que na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a agricultura viveu a melhor época, conforme depôs em sua entrevista: “De 1996 até 2002, o agronegócio, a agricultura como um todo viveu

uma época muito boa, uma fase muito boa. Nós, como os funcionários, a gente começou a ter condições melhores de trabalho, melhores salários e melhor qualidade de vida”.

Em contrapartida, a matéria sugere que no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o setor esteve em crise. O discurso de Pedro Bial é claro: “A falta de

infraestrutura para escoar os produtos, a carga tributária, a concorrência dos

Imagem 4.85 – Extensa área cultivada

transgênicos e o dólar baixo levaram à crise. Agora, depois de quatro anos de crise, a saída está na diversificação. Além da soja, gado, milho e muito, muito algodão”.

Apesar de a reportagem não mencionar claramente tal comparação, há uma marcação cronológica (1996-2002) que transfere o sucesso do setor para o governo do ex- presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), já que ele governava o país naquele período. A reportagem, às vésperas do primeiro turno da eleição, poderia funcionar como peça de publicidade favorável ao candidato Geraldo Alckmin (PSDB), que contou com o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) durante toda a sua campanha.

A matéria seguinte aconteceu na região de Corumbá, no estado do Mato Grosso do Sul. A Caravana JN mostrou imagens que ressaltaram a beleza da região do Pantanal, com foco nas aves, pássaros, borboletas e peixes. O tema, entretanto, apontou para a falta de incentivo na educação. A entrevistada, de nome Isulina, 81 anos, ressaltou seu desejo na hora de votar: “Eu quero que vejam mais a parte das crianças, tem muita criança

desamparada”, comentou ela. Apesar de pontuar um assunto de extrema relevância, não houve alusão direta ao Governo Federal.

No dia 23 de setembro de 2006, a Caravana JN chegou a Barra do Garça, no estado do Mato Grosso. A reportagem abordou aquilo que, na voz de Pedro Bial, é um fenômeno nacional: explosão de farmácias por todo o país. Para introduzir a questão da precariedade no sistema de saúde nacional, o apresentador apontou: “O Brasil é um país cheio de

farmácias. Em uma avenida de Barra do Garça, em menos de três quadras, é possível encontrar 14 farmácias. O que leva tanta gente a procurar as drogarias?”.

A edição da reportagem permitiu que a pergunta de Bial fosse respondida pela população de Barra do Garça que ressaltou a precariedade do sistema de saúde no país. Os moradores da região apontaram: “É preciso melhorar a saúde, que está muito precária”, afirmou um morador. “A saúde pública está um caos”, disse uma senhora. “A saúde está

doente”, finalizou um morador. Apesar da relevância do tema saúde, não houve qualquer referência ao Governo Federal.

No dia 15 de setembro de 2006, a Caravana JN chegou a Goiás. A equipe de Pedro Bial ficou dedicada à elaboração da reportagem orientada para a cultura da região. Na voz do apresentador, a cidade de Goiás ganhou o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, por conta do centro histórico da região que retrata o Brasil colonial. As belezas da cidade aparecem para o telespectador.

Bial ressaltou a importância da poeta Cora Coralina, que viveu na região.Abordou a beleza do trabalho de Goiandira do Couto, artista mundialmente conhecida, que trabalha com uma coleção de 551 tons de areias em suas pinturas (Imagem 4.86).

A reportagem trouxe uma imagem positiva da região, entretanto, Pedro Bial não omitiu as dificuldades que encontrou para chegar ao estado de Goiás. O vídeo mostrou uma obra supostamente abandonada, uma ponte prestes a cair, visivelmente arriscada ao trânsito de carros. As dificuldades para o ônibus da Caravana JN passar pela ponte foram transmitidas ao telespectador (Imagem 4.87), seguidas da narração em off do apresentador: “Chegar ao estado de Goiás teve algo de pesadelo. Na BR-070, 80 quilômetros de chão em

três horas” (Imagem 4.88). E continua: “Com pontes de meter medo. Há indícios de obras,

paradas. Por que era domingo? Emergências não permitem folga”. Importante notar que

mais uma vez a reportagem da Caravana JN alertou para os problemas de infraestrutura do país, ligados principalmente à questão da manutenção das estradas.

No dia seguinte, a Caravana JN chegou ao interior de Goiás, na cidade de Nova Crixás. Como tem,a a reportagem abordou a questão pecuarista, entrevistando dois fazendeiros, Kiko e Domingos Teixeira Rodrigues. Ambos apontaram as dificuldades de manter o negócio, já que o investimento é alto e a economia do país não favorece a exportação. Segundo esclarece Domingos: “Isso é um trabalho de longo prazo, um

Imagem 4.86 – Tons de areia

Imagem 4.87 – Ônibus da

Caravana JN atravessando ponte

Imagem 4.88 – Estrada BR-070

investimento muito alto, a gente chega a investir alguns milhões de reais para que o retorno venha em longo prazo”. Pedro Bial, na sequência, traçou uma relação da crise da pecuária na região e apontou que o problema está nos juros altos aplicados pelo Governo Federal.

Além disso, o problema da exportação surgiu no discurso do pecuarista Kiko, que enfatizou: “Ao exportar o produto fica caro, fica tudo no mercado nacional, há uma

superoferta de produtos e o preço abaixa e o grande problema nosso hoje é o dólar baixo”. Aliada às reclamações dos empresários surgia a proposta de gerar mais empregos e impedir a demissão de cerca de 30% dos funcionários que atuam no campo, dedicados à pecuária e agricultura. A crise apresentada pela Caravana JN indicou os problemas da região, realçou aspectos negativos da economia do país e sugeriu que o Governo Federal é o único capaz de reverter o problema dos empresários, concedendo incentivos que resolveriam a questão do desemprego no campo.

Já a reportagem seguinte aconteceu no município de São Miguel do Araguaia, cidade que leva o nome do padroeiro da região, São Miguel Arcanjo. Dotada de teor religioso, a matéria apontou a trajetória de vida de São Miguel Arcanjo, sem ignorar temas primordiais que refletiam os problemas do país. A questão da falta de emprego na região surgiu no discurso dos moradores. Os pedidos apareciam repletos de imagens da precariedade do local. Na luta pela sobrevivência, a igreja apareceu como protetora dos miseráveis, segundo esclareceu Pedro Bial: “A paróquia do Padre Júnior recolhe comida

para distribuir entre os desempregados de lá. Com o fechamento da principal fazenda e do frigorífico locais, São Miguel do Araguaia perdeu suas maiores fontes de renda”. Essa passagem foi oportuna porque complementou e legitimou o discurso do dia anterior referente à crise da pecuária na região de Nova Crixás.

O discurso da mudança, do fim da crise e do desemprego, foi confirmado pela professora Leila que apontou que o voto pode mudar a história da cidade. Leila, em entrevista, afirmou que orienta seus alunos sobre a responsabilidade do voto. Segundo a professora: “Tirar aquela ideia de ‘eu vou votar nulo porque no Brasil nada funciona, que

só é corrupção’. Depende de nós agora mudar a situação”.

Importante notar que o discurso da corrupção, tão recorrente no governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), palco dos principais problemas de sua campanha, surgiu na pauta da Caravana JN apenas três dias antes do primeiro turno eleitoral. O discurso da mudança que acompanha a reportagem não apareceu na voz de um

morador qualquer da região, mas sim de uma professora, concedendo alta legitimidade à fala, já que o professor, no imaginário popular, detém o saber. A corrupção apareceu também nos discursos dos demais moradores que reivindicavam por mudanças.

No dia 28 de setembro de 2006, a Caravana JN chegou ao município de Pirenópolis, no estado de Goiás. A reportagem de Pedro Bial procurou discutir o processo democrático no país e entrevistou dois representantes da justiça eleitoral, os fiscais que trabalham nas eleições. O primeiro entrevistado, Lucas Barbosa, abordou a importância do voto para a democracia e o exercício da cidadania, e esclareceu que o voto representa a possibilidade de mudança, conforme segue:

É sabido que uma descrença geral tem tomado conta do eleitorado brasileiro. Muitos de nós falamos: ’Vou votar nulo, vou anular meu voto, vou votar em branco, não vou votar em ninguém porque ninguém merece o meu voto’. Mas quando vai aproximando do dia primeiro de outubro, um sentimento de cidadania toma conta de nós e a gente quer mudar realmente o nosso país.

O discurso de mudança também apareceu na fala do entrevistado José Ricardo Frota que é presidente da seção eleitoral há 16 anos. O desejo de Frota para o próximo governante foi claro: “Quebrar o encanto e renovar a esperança”. Interessante notar que a dinâmica da mudança apareceu nas últimas reportagens dois dias antes do primeiro turno da eleição presidencial. A mudança funcionava naquele período como uma analogia à não reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já que o candidato era também o atual presidente do país. Vale lembrar que o discurso da mudança percorreu toda a campanha política do maior opositor do Lula nas pesquisas: o candidato Geraldo Alckmin (PSDB).

A Caravana JN encerrou o seu percurso na capital do Brasil, Brasília, no dia 29 de setembro de 2006. A equipe de Pedro Bial entrevistou Ricardo Caldas, cientista político da Universidade de Brasília. Temas como saúde, educação, infraestrutura básica, estradas, impostos abusivos e outros problemas foram debatidos pelo pesquisador.

Caldas esclareceu o papel de cada governante nos temas propostos por Pedro Bial. Em uma das passagens, ele explicou que a segurança pública, de modo geral, é atribuição do Estado, do governo estadual e pontuou a importância do Governo Federal em transferir recursos para que as mais diversas regiões possam resolver essa problemática.

O ponto crucial da entrevista refletiu na dinâmica que Caldas estabeleceu entre voto e exercício de democracia. O pesquisador deixou claro que votar não é o suficiente:

O primeiro passo é o cidadão verificar se realmente está havendo qualidade da educação na sua cidade e, a partir dessa verificação,

começar a se organizar e exigir, seja do prefeito, seja indiretamente do governo estadual para que aqueles recursos sejam bem aplicados e não sejam desviados da sua função original.

Suas afirmações são dotadas de importância já que existe uma ideia equivocada sobre o papel da democracia no país. A tentativa de vincular a eleição e o voto ao exercício de democracia esconde uma violência contra os cidadãos, tornando-os responsáveis pela gestão dos governantes e apáticos em relação às possibilidades de reivindicações e cobranças. Caldas finalizou seu discurso esclarecendo que a chave para a democracia não se realiza somente na hora do voto, mas no acompanhamento e cobrança constantes dos governantes, no que tange ao cumprimento de propostas e ações para a população. Para o pesquisador: “A democracia, ela não se resume ao voto. As pessoas pensam que

democracia é votar, é ir ou fazer campanha, não, democracia é um processo. Ele não tem fim”.

Dois dias antes do primeiro turno eleitoral, o tema democracia encerra o projeto

Caravana JN. Relevante, a reportagem de Pedro Bial em Brasília traz uma alerta sobre o que deveria ser o exercício real da cidadania no país.

5. Pé na estrada: a Caravana JN em campanha pela cinco