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A partir dessa elaboração lacaniana sobre a constituição do sujeito, podemos explorar como se passa a debilidade na experiência psíquica. A psicanalista francesa Mannoni (1988) foi a primeira a se aventurar nesta elucubração e defende que na debilidade ocorre uma fusão dos corpos entre mãe-filho, não havendo a separação entre a mãe e o filho, ou a constatação da falha no Outro. Com essa teoria, Mannoni traz ao mesmo tempo a questão do corpo presente na debilidade, e a hipótese de a debilidade estar próxima da psicose, por não operar a separação. Para a psicanalista, não havendo a separação, os corpos da mãe e do filho estão fundados em um só.

49 Neotenia: um inacabamento biológico, caracterizando uma prematuridade que é própria da

espécie humana.

50 Maternagem: uma ação própria da função materna nos cuidados com o filho. Pode também

ser considerada como uma técnica de psicoterapia que procura estabelecer entre o terapeuta e o paciente uma relação análoga à que existiria entre mãe e filho. (Cf. Laplanche e Pontalis, 1983)

113 A tese de Mannoni baseada na teoria psicanalítica, apesar de sustentar uma fusão de corpos, demonstra que essa fusão não se trata de uma questão orgânica, mas algo relativo ao corpo pulsional e construído no “dizer parental”51 (expressão Lacaniana). Na debilidade, a criança está implicada na fantasia materna e fixada como objeto nesta fantasia, sem mediação do desejo.

Mannoni não se esquiva de incluir em seu estudo tanto crianças que tenham algum comprometimento orgânico, como uma síndrome estabelecida, quanto aquelas que não tenham um diagnóstico clínico definido, atrelado a uma etiologia orgânica. Para elaborar sua tese, a psicanalista enfatiza a questão materna e o lugar do filho para esta mulher e não exatamente a questão orgânica. Mannoni revela que mesmo nos casos em que a criança tenha um comprometimento físico, como uma síndrome, o que caracteriza e a coloca na posição de debilidade é a maneira que ela se posiciona no fantasma maternal.

Como o sujeito se constitui e como se posiciona diante do Outro determina sua debilidade e não simplesmente a condição estabelecida por uma patologia orgânica. O fato de não haver necessariamente a correlação com o comprometimento físico explica porque percebemos em nossas clínicas tantas crianças com o diagnóstico de debilidade, ou deficiência mental sem uma causa orgânica específica, como revelado nas pesquisas do Instituto Indianópolis (2011). Se a psicanálise considera o corpo como ponto de partida para se pensar a debilidade, neste jogo de imagens é o corpo pulsional atravessado pela constituição do sujeito e pelos três registros (real, simbólico e imaginário) que é levado em consideração.

Diante desta premissa constatamos que o fato de a criança ter uma patologia orgânica diagnosticada desde seu nascimento colabora para a incidência da debilidade muito mais pela relação parental estabelecida com o filho com algum déficit orgânico do que propriamente pela condição orgânica, ou mesmo o nível de comprometimento desta. Lacan, em sua lição de 21 de

51 Lacan em seu texto sobre a infância, em uma nota a Jenny Aubry (cf. Lacan, 1969/1998),

define e distingue os casos em que o sintoma na criança pode revelar o que existe de sintomático na estrutura familiar. O sintoma é o representante da verdade do sujeito, é o que parece para o sujeito em seu encontro com a realidade sexual e com a impossibilidade da completude desta relação; e uma de suas versões surge na criança como representante da verdade do casal familiar.

114 fevereiro de 1968, corrobora com a tese de que a debilidade se deve a uma ação do par parental ao afirmar que nas “crianças incide a debilidade mental

por ação dos adultos”. (Lacan, 1968/2005, p. 58)

O filho geralmente ocupa o lugar vazio da falta para a mãe, como representante do falo, acarretando situações em que a própria história materna se repete e se mistura à história do filho. O filho vem, portanto preencher “uma

imagem fantasmática que se sobrepõe à pessoa real do filho”. (Mannoni, 1988,

p.4) No entanto, a irrupção de uma realidade, na imagem do corpo enfermo produz um choque na mãe, e surge no real, uma criança que pela sua enfermidade, não só renova os traumatismos e as insatisfações anteriores, como também impede, no plano simbólico, as resoluções para a mãe de seu próprio problema com a castração. Algo que pode acontecer diante de qualquer experiência de maternidade, mas enquanto em um determinado momento se passa no registro do simbólico e imaginário, no caso do nascimento de um filho com uma patologia orgânica, o processo de constituição do sujeito é invadido pelo real dessa patologia, que pode afetar a relação mãe-filho. “A mãe viverá

assim, no seu estilo próprio, um drama real que é sempre o eco de uma experiência vivida anteriormente no plano fantasmático e de que saiu marcada de um modo determinado”. (Ibid., p. 5) Mas, mesmo se não há uma causa

orgânica que já estabeleça o destino precocemente, pode se instalar uma perturbação em nível de linguagem na relação mãe-filho que igualmente se remete ao estádio do espelho com incidência da debilidade, afirma a psicanalista.

Mannoni sustenta que a permanência da criança em uma posição débil vem mascarar a depressão materna, e assim coloca a criança como um objeto no plano fantasmático materno. Santiago afirma que, nestes casos, para a mãe, “converge sobre o objeto criança e não sobre o parceiro sexual, o desejo

e o amor”. (Santiago, 2005 p.160) Nesta fundamentação teórica de Mannoni,

pelo fato de a mãe e a criança se colarem em um só corpo, a criança não teria acesso a um corpo seu subjetivo. A fusão de corpos vem da frustração tanto da criança em realizar seu desejo, como da mãe em não conseguir suportar a falta e manter a criança em uma relação dual, na qual o terceiro não intervém. A partir desta constatação, Mannoni afirma que todo o estudo sobre a debilidade

115 é incompleto se não se buscar na mãe o seu sentido. (Cf. Mannoni, 1987) Essa criança encarna para a mãe algo que não pode ser simbolizado, não pode ser traduzido em palavras, e, portanto, não desenvolve uma imagem própria para o corpo, pois não se vê a partir do outro, mas mantém apenas a imagem dupla; o que explicaremos adiante.

Outros psicanalistas seguiram essa tese de Mannoni, como Françoise Dolto (importante psicanalista francesa, lacaniana que se dedicou ao tratamento de crianças), levando a crer que a doença da criança protegia a mãe de seus próprios sintomas, de sua própria angústia. (Cf. Santiago, 2005) O trabalho desenvolvido com esses sujeitos, a partir desses fundamentos, quando passaram a ser aceitos e a ter acesso aos consultórios psicanalíticos era buscar libertá-los dessa história materna.

Concordamos com a tese de Mannoni sobre o fato de a debilidade estar vinculada à constituição do sujeito e ao imaginário trazendo também a questão do duplo, apesar de discordarmos sobre as considerações referentes à fusão de corpos e em situar a debilidade na estrutura psicótica. Lacan (1964/1985) ratifica essa tese de Mannoni, sobre a relação particular entre mãe e filho presente na debilidade, no seu seminário, Os Quatro Conceitos Fundamentais

da Psicanálise, na lição de 10 de Junho de 1964, sobre a transferência e sua

relação com o Sujeito Suposto Saber. Nesta lição, ele afirma que na debilidade, a mãe mantém seu filho como um objeto imaginário, o filho fica “reduzido a ser

apenas o suporte do seu desejo em um termo obscuro”. (Lacan, 1964/1985, p.

225) Em vez de o desejo da mãe significar uma incógnita, algo que faz o sujeito se interrogar, ele aparece na debilidade apoiado em um termo obscuro.

Mas, por outro lado, Lacan diverge sobre a proposição de Mannoni de haver uma fusão de corpos na debilidade; apesar de consentir que exista um tipo de fusão na debilidade, salienta que é de forma diferente desta elaborada por Mannoni. Voltaremos a esta lição de Lacan e sua elucubração sobre o tipo de fusão que acontece na debilidade; antes gostaríamos de explorar um pouco mais a questão do duplo e da relação da debilidade com o registro imaginário.

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