• No results found

RESEARCH FINDINGS

6.4 Future research

“O entrelaçamento de liberdade com falta de liberdade afeta o homem de modo mais profundo no conflito entre o bem e o mal. Sou livre para escolher o bem? Não sendo responsável por isso, estou condenado a fazer o mal?” (JAFFÉ, 1995: 95).

O mal é tido como aspecto da sombra e sua força destrutiva interna, se não resistida pelo ego, pode efetuar uma ação má e mesmo tornar o ego negativo ou mau. No entanto, o bem e o mal são polaridades de uma mesma coisa e não duas coisas diferentes. Todas as polaridades são integradas no self, encontrando-se polarizadas apenas na percepção do ego. Sendo assim, a totalidade do bem e do mal não estão dissociadas e o ego, nossa possibilidade de percepção, não tem condições para perceber a totalidade.

O processo de individuação não tem como propósito a extirpação do mal, mas sim a realização de um sujeito completo que comporte essas duas polaridades. Como já foi descrito anteriormente, um sujeito que reprime suas pulsões consideradas malignas, vive-as em sua sombra, as quais por vezes podem perturbar o nível da consciência.

“Mesmo no cume mais elevado, jamais estaremos além do bem e do mal...; pois, do mesmo modo que no passado, também no futuro todo erro cometido, intencional ou imaginado, será vingado em nossa alma, não importando que viremos ou não o mundo de cabeça para baixo”.(JUNG apud JAFFÉ, 1995: 97-98).

A autora salienta que bem e mal não são conceitos absolutos, mas sim julgamentos morais que variam entre as diferentes culturas. Devido a tal relatividade e incerteza, a solução do conflito moral entre bem e mal deve ser buscada não apenas nos códigos morais e na consciência, mas também no inconsciente e na voz interior.

Ao se tornar consciente da própria sombra, de que a escuridão e o mal fazem parte da totalidade inconsciente de si mesmo, o sujeito é lançado para sua individuação. Segundo a autora, faz-se necessário por vezes que o sujeito tome o partido da sombra, embrenhando-se em antagonismos de vontades e obediência.

“Os choques de dever são marcos no caminho da individuação, pois ‘nada amplia mais a consciência do que essa confrontação dos antagonismos internos’. Ela pressupõe uma responsabilidade consciente, que é mais diferenciada do que a observância obediente das exigências da lei. A conscientização e a ética do homem não são testadas no cumprimento lógico dos preceitos seculares e espirituais coletivamente aceitos, mas no modo como ele se comporta e decide ao se defrontar com os conflitos de dever” (JUNG apud JAFFÉ, 1995: 97).

O ser humano, por exercer sua consciência a partir do ego, lida sempre com fragmentos de uma totalidade e por vezes depara-se com as oposições ou polaridades, o que gera um grande conflito.

“A totalidade do ser humano se desenvolve na capacidade voluntária e consciente de suportar o conflito, na solução dele através de uma decisão ou de uma aceitação. A causa de ser empurrado em duas direções, colocado entre o sim e o não, entre a vontade e a contra-vontade, entre o bem e o mal, encontra-se no arquétipo do self transcendental, onde os opostos estão preformados potencialmente” (JAFFÉ, 1995: 99).

Nas culturas e religiões passadas, recorrentemente foi dissociada a unidade bem e mal, sendo cada uma das partes projetadas em divindades distintas, geralmente antagônicas entre si.

“A separação entre um deus mau e um deus bom é ainda maior no mito iraniano (ou persa) de Aura-Mazda e Arimã. Aura-Mazda é quem derrama a vida, a luz, a verdade e as bênçãos sobre os homens. De Arimã procedem a morte, as trevas, as mentiras e as doenças dos seres humanos. O mundo onde vivem os homens é o campo de batalha desses dois deuses, que disputam como prêmio as almas humanas. Arimã não luta sozinho. Enquanto príncipe dos demônios, ele comanda uma tropa de devas, seres malignos devotados ao embuste e à falsidade. Assim como seu mestre, eles se empenham em destruir o poder do bem que Aura-Mazda representa e pretendem encaminhar a humanidade para o mal. Antes, a oposição entre bem e mal ou entre luz e sombra nunca tinha sido tão claramente configurada como na religião iraniana.” (SANFORD, 2007: 28).

Na cultura descrita acima, as pessoas da comunidade eram avaliadas como estando sob influência ou domínio de Arimã quando colaboravam para o mal, enquanto que os outros que não recebiam a projeção do mal agiam sempre passíveis a serem relacionados com a dinâmica dos dois deuses.

São apontadas pelo autor outras culturas e religiões com características semelhantes às descritas acima. Religiões egípcias e escandinavas, por exemplo, retratam deuses irmãos, um bom e o outro mau. O irmão mau tenta destruir o bom, sempre conseguindo quando o bom assume uma posição inflada, concebendo-se invulnerável. No entanto, a divindade do bem, quando vencida pelo mal, sempre assume uma nova forma, mantendo-se enquanto divindade que

se opõe ao mal, ou mesmo transformando-se em outra divindade, o que configura uma transformação cultural religiosa, inovando as crenças de determinada cultura ou comunidade.

Em muitas culturas de dois deuses, um representando o bem e outro o mal, os mesmos eram concebidos como deuses criadores, em que um criava as coisas belas e boas, como as árvores, lagos e campos e animais dóceis, enquanto o outro criava as coisas más, como as montanhas escarpadas, os desertos, os insetos e os animais vorazes. Um associado à vida e saúde; e outro à morte e doença. As projeções do bem e do mal foram dirigidas à natureza, nas sensações e conteúdos que a mesma despertava nos homens.

O mesmo autor destacado acima cita o maniqueísmo, doutrina criada por Mani, nascido na Pérsia por volta do ano 215 d.C.

“Mani ensinava que a luz e treva, bem e mal, criação e destruição estão em conflito constante. Como os gnósticos, ele relacionava o mundo do espírito com o reino do bem, enquanto o mundo material estava ligado à escuridão e ao mal. O homem vive aprisionado no mundo das trevas e do mal porque ele vive preso em seu corpo. A salvação do homem consiste em separar-se do seu corpo, através do conhecimento verdadeiro, além da rejeição às paixões e ao apetite sexual, que mantêm o ser humano cativo do mal, do principio material” (SANFORD, 2007: 29).

O autor complementa a citação acima fazendo referência a santo Agostinho, século IV d.C., enquanto pensador que fazia um contraponto ao pensamento de Mani. O autor diz que santo Agostinho reformulou a idéia do mal enquanto privação, ou ausência do bem. Como exemplo de mitologias e religiões que não personificavam o mal na figura de uma divindade isolada, o autor cita o politeísmo Grego, que por sua vez não atribuía a total projeção do mal em qualquer divindade. O mal era um agente que percorria a todos os deuses quando os mesmos exacerbavam em seus sentimentos de raiva, inveja, orgulho, etc.

Sobre a religião persa anteriormente citada, o autor destaca: “Na linguagem mitológica, não se pode reverenciar uma divindade benéfica, ligada à luz e ao amor, e negligenciar a divindade-irmã das trevas e do mal. Exatamente quando Aura-Mazda procura estabelecer sua hegemonia sobre o mundo é que Arimã guerreia contra ele” (SANFORD, 2007:36). Sobre a religião dos gregos, o mesmo cita: “Apenas entre os gregos não existe guerra entre os deuses – talvez disputas, mas não guerras. Isso porque esses deuses e deusas eram sábios demais para se pretenderem bons” (SANFORD, 2007: 36).

O autor reflete sobre a igualdade, que funciona como uma balança entre as cargas de bondade e maldade. Quando se projeta muita luz em uma divindade, necessariamente se projetará o mesmo coeficiente de sombra em uma outra divindade que existirá conjuntamente à primeira, o que indica uma semelhança entre o funcionamento psíquico com a mitologia, que personifica as forças psíquicas arquetípicas. Relembramos que as personificações do bem e do mal realizadas pelas culturas passadas, são denominadas pela psicologia moderna como arquétipos ou complexos autônomos, os quais influem na sorte e destino dos homens, ultrapassando a capacidade de apreensão pelos mesmos. “Se ultrapassamos os limites de nossa capacidade natural para o amor e a bondade, acabamos criando dentro de nós mesmos a parcela exata oposta de ódio e crueldade” (SANFORD, 2007: 35).

Tal passagem destacada acima indica que sombra e luz compõem uma totalidade, uma vez que ao se exacerbar na capacidade de amor e bondade, que seria a parte correspondente à luz, cria-se a mesma quantidade de sombra, cuja parte correspondente seria o ódio e crueldade. Devido à dinâmica de uma parte ser compensada pela outra em parcelas iguais, pode-se pensar em se tratar de duas partes que compõem uma totalidade, que poderia ser metaforicamente pensado como a figura de uma balança que contém o mesmo peso em cada prato, sendo a totalidade a unidade da figura de uma balança em equilíbrio. Toda unidade, assim como a balança, pode representar metaforicamente a totalidade. No entanto, a balança em equilíbrio representa partes iguais que se completam em uma unidade, visto que partes iguais em uma balança, quando alteradas em

alguma das partes, é compensada pela outra, indicando que uma parte afeta a outra. O autor cita diversas culturas que não utilizavam os reguladores para o mal, como os usados em religiões polarizadas com deuses perseguidores, ou nos sistemas de lei e punição para manter-se a ordem. Ele cita tribos indígenas onde a própria palavra e seu cumprimento mantinham a ordem, enquanto que os “desonrados” eram punidos pelo ostracismo ou pela rejeição pela comunidade.

Na religião judaico-cristã, os conteúdos malignos e benévolos são incorporados na figura do Deus único. Apesar de ser usada a figura do diabo como aquele que reina no inferno punindo as almas dos maus, muitas passagens da bíblia fazem menção ao deus único que contém em si tanto o bem quanto o mal. “'Bem' e 'mal' são aspectos da imagem arquetípica de Deus e, juntos, pertencem à totalidade do homem e da vida” (JAFFÉ, 1995: 101).

O mecanismo de projeção da sombra se dá quando o ego ainda não tem condições de os assimilar. No entanto, enquanto o ego não recolhe e assimila suas projeções, ele permanece em uma situação estagnada, não trazendo para si e para o mundo o novo, mas sim suprimindo-o. No processo de individuação desperta-se o herói, que enfrenta o desconhecido de si e do mundo e posteriormente retorna energizado, trazendo o novo.

A projeção necessita do bode expiatório, que serve como justificativa para permanecer-se confortável perante a não realização do novo, que se reconcilia com o velho, dando-lhe continuidade e desenvolvimento.

Segundo Edward F. Edinger (2000), a unidade, ser sozinho e indivisibilidade, constituem marcas de individualidade, enquanto que a multiplicidade e a dispersão correspondem ao oposto da individualidade, representando o processo de quebra da unidade, desmembramento e dispersão.

“A dispersão, ou multiplicidade, como condição psicológica, pode ser vista do ponto de vista interno e externo. Vista a partir de dentro, trata-se de um estado de fragmentação interna que envolve certo número de complexos relativamente autônomos que, quando tocados pelo ego, provocam mudanças de disposição e de atitude e

levam o indivíduo a perceber que não é uno, mas múltiplo. Do ponto de vista externo, a multiplicidade se manifesta através da exteriorização ou projeção de partes da psique individual no mundo exterior. Numa tal condição, a pessoa encontra seus amigos e inimigos, esperanças e temores, fontes de apoio e ameaças de fracasso concretizadas em pessoas, objetos e eventos externos. Num tal estado de dispersão, não pode haver experiência de individualidade essencial. Encontramo-nos sujeitos às ‘dez mil coisas’” (EDINGER: 2000: 236).

Tal autor cita santo Agostinho, referindo-se à expressão “dez mil coisas” do parágrafo destacado. “Agostinho diz:... ‘toda alma aferrada à amizade pelas coisas perecíveis é desgraçada – despedaça-se quando as perde, e então percebe a miséria em que estava mesmo antes de as perder’” (AGOSTINHO apud EDINGER, 2000: 236).

O bem e o mal, além de concepções e atitudes frente a vida e aos outros, tratam-se da disposição interna do sujeito, de como ele se percebe e como de fato está sua situação. Sendo assim, esses dois opostos são atribuições valorativas, qualidades que servem para julgarmos a nós mesmos e aos outros. No nível da consciência do ego, são tidos como antagonismos, mas no self formam uma unidade que compõe a totalidade. Sendo os julgamentos do ego passíveis de estarem errados, podemos pensar estarmos de uma forma, mas na verdade estamos de outra e nos surpreendemos por termos nos julgado errado. No entanto, julgamentos são tentativas de compor uma totalidade, algo que o ego não é capaz. Sendo assim, todos julgamentos são passíveis de estarem errados, pois o bem e o mal no self são a mesma coisa. O self é capaz de fazer o julgamento da totalidade, para tanto não é usado o bem e o mal, nem o certo e o errado, mais sim a totalidade.

Capítulo IV – Método:

O objetivo deste trabalho é refletir sobre o arquétipo do herói sob a ótica da Psicologia Analítica e da Mitologia. Para tanto serão analisados os três primeiros episódios da saga cinematográfica Star Wars, fazendo-se um recorte que privilegie a compreensão dos aspectos psicológicos presentes no personagem que encarna o Herói, Anakin Skywalker, que torna-se Darth Vader no final do terceiro episódio. Embora meu interesse inicial fosse abordar os seis episódios que compõem a saga completa, optei por reduzir meu propósito em função das limitações de tempo, que obrigam freqüentemente o pesquisador a lidar com suas frustrações impostas pela realidade concreta.

A tradução dos fatos ocorridos nos episódios visará a sua compreensão, de modo a tornar conhecido o material desconhecido ou obscuro.

Será utilizado o método da Psicologia Analítica, que aborda os fenômenos psíquicos de forma simbólica arquetípica, permitindo a integração entre aspectos da subjetividade e da objetividade, assim como entre a individualidade e a coletividade.

Segundo Penna, (2003): “Como ponte entre o mundo arquetípico, o mundo da consciência e o mundo externo, o símbolo se constitui o fenômeno psíquico apreensível e compreensível” (PENNA, 2003: 213).

Será feita uma intersecção entre fatos e acontecimentos recortados dos filmes como relevantes à compreensão do herói, sua função, significado e percurso, e os fundamentos teóricos desenvolvidos na parte inicial do estudo. Utilizar-se-á a amplificação simbólica, técnica desenvolvida por Jung na interpretação de sonhos de pacientes. Diz Penna (2003) que:

“O processo de amplificação simbólica proposto por Jung consiste em ampliar e enriquecer os elementos do símbolo através de associações e analogias que fluem numa cadeia contínua de similaridade, visando a traduzir e interpretar o material desconhecido

do símbolo. O ato de ampliar e enriquecer o símbolo, por meio de analogias diversas, favorece a compreensão de seu significado arquetípico pela diversidade de possibilidades oferecidas ao ego para captar o aspecto oculto do símbolo e encontrar o significado que mais sentido faça para a consciência atual” (Penna, 2003: 195).

Ainda segundo a autora “Os símbolos coletivos ou culturais, na amplificação, revelam seus aspectos arquetípicos prospectivos, fornecendo um entendimento ampliado da situação atual e futura da coletividade, além de sua conexão com a história passada” (Penna, 2003: 197).

O método da Psicologia Analítica envolve uma participação ativa do pesquisador: no caso deste estudo, houve a escolha do tema a ser pesquisado, um recorte feito a partir desta escolha e a análise e discussão refletirá um diálogo entre pesquisador e pesquisado, onde este se transformará. O conhecimento será produzido nesta troca, que nos atingirá de forma consciente e inconsciente. Portanto, é necessário um distanciamento que permita que se reflita sobre o material produzido.

No capítulo que se segue, o da apresentação dos resultados, será abordada brevemente a influência histórica presente nos filmes, e depois constarão as sinopses dos três primeiros filmes.

Capítulo V – Resultados :