da produção discursiva para o contexto secundário, sendo por isso chamado de recontextualizador.
Portanto, com relação ao campo recontextualizador oficial, este inclui os departamentos especializados e as subagências do Estado, autoridades de educação e institutos de pesquisa. Já o campo recontextualizador inclui universidades, escolas técnicas, meios especializados de educação, jornais e revistas especializadas, com poder de influência junto ao Estado.
Dessa forma, quando um texto é apropriado por agentes recontextualizadores, este sofre uma transformação antes de sua recolocação, regulada por um princípio chamado de descontextualização, que promove mudanças no texto e regula o novo posicionamento ideológico do texto.
Assim, a atividade principal do campo recontextualizador é a de constituir o “quê” (classificação dos conteúdos a serem transmitidos) e o “como” (ao modo de transmissão, ao seu enquadramento) do discurso pedagógico. O “quê” também implica em uma recontextualização dos campos intelectuais (disciplinas escolares) e o “como” das teorias das Ciências Sociais, como a Psicologia. E geralmente, os produtores do discurso não necessariamente são seus próprios recontextualizadores.
Espadas frias, nítidas espadas, duras viseiras já sem perspectiva, cetros sem mãos, coroa já não viva de cabeças em sangue naufragadas;
anéis de demorada narrativa, leques sem falas, trompas sem caçadas, pêndulos de horas não mais escutadas, espelhos de memória fugitiva;
ouro e prata, turquesa e granadas, que é da presença passageira e esquiva das heranças dos poetas, malogradas: a estrela, o passarinho, a sensitiva, a água que nunca volta, as bem amadas, a saudade de Deus, vaga e inativa...
Museu Cecília Meireles
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Este capítulo descreve a abordagem metodológica, explicando como foi adotada a estratégia de pesquisa, bem como os métodos de coleta e análise de dados, com as respectivas justificativas para estas escolhas.
Isso porque, para se entender a forma com que o trabalho foi planejado, conforme afirmam Guba e Lincoln (1994), é necessário que se saiba como pensa o pesquisador para assim se compreender seus pontos de vista.
Quando se resolveu propor este trabalho, tinha-se em mente investigar as exposições que envolvessem assuntos relacionados à Biotecnologia, organizadas por instituições de pesquisa especificamente para a SNCT. A escolha inicial se devia ao fato de que, além de ser um campo de pesquisa estratégico para o país (pelo seu aspecto econômico), envolve várias áreas do conhecimento para o seu estudo – entre as quais a Química e a Biologia –, áreas estas pertencentes ao Ensino de Ciências e de formação do pesquisador. Além disso, uma característica peculiar da Biotecnologia é a sua natureza multidisciplinar, uma vez que acaba por abarcar outras áreas de conhecimento – não só as tecnológicas, como também as sociais e humanas – no debate sobre assuntos de cunho ético, político e social, ao trabalhar com questões e práticas cujos resultados acabarão por afetar a vida em sociedade.
Ao procurar a professora Erika Zimmermann em busca de sua orientação no processo de doutoramento, mostrei o interesse em verificar a PC realizada sobre assuntos envolvidos com a Biotecnologia durante a SNCT. Com o aceite da sua orientação, a professora me alertou sobre as dificuldades e entraves que poderiam surgir no caminho, por se tratar de uma área de difícil acesso.
Dessa forma, devido a limitações físicas e problemas de cunho técnico – uma vez que a exposição de produtos biotecnológicos deve ser supervisionada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o que pode trazer entraves aos expositores – e por entender que estes produtos fazem parte de uma gama de outros produtos tecnológicos, o trabalho acabaria sendo prejudicado, já que a SNCT é aberta não somente às instituições de pesquisa, mas também às escolas e empresas. Dessa maneira, tendo em vista que a Embrapa, empresa pública vinculada ao governo federal, desenvolve pesquisas em várias áreas do conhecimento (incluindo a Biologia, Biotecnologia e a Química), distribuídas em diversas unidades de pesquisa pelo país, resolveu-se adotá-la como objeto de pesquisa.
Assim, a escolha por se acompanhar uma instituição de pesquisa pública federal para este trabalho se deveu por quatro motivos: primeiro que, de acordo com os dados da SNCT (BRASIL, 2012), durante o ano de 2008, foram cadastradas 252 instituições participantes em Brasília, sendo que destas, cerca de 103 (40,87% do total) eram institutos, secretarias, empresas ou universidades públicas (distritais ou federais), envolvidas com atividades de pesquisa ou fomento, indicando assim uma forte presença do Estado no evento (a outra parte era composta por instituições públicas – Secretaria de Educação do Distrito Federal – e privadas de ensino – em todos os níveis – e por empresas privadas. Caso fossem computadas também as empresas privadas às empresas e instituições públicas, o total estimado aumentaria para 130, chegando à 51,58% das instituições participantes). Portanto, a maioria das instituições participantes era de pesquisa e pública; segundo, devido ao fato de que o MCTI é o órgão responsável pela política nacional de C&T no país (conforme será visto no capítulo 4), nada mais natural do que se investigar uma instituição pública de pesquisa federal, sujeita diretamente à mesma política; terceiro, pelo fato da instituição analisada (no caso, a Embrapa) trabalhar conceitos nas áreas de Biologia/Química, áreas estas de formação do pesquisador e relacionas com o Ensino de Ciências; e, por fim, a instituição escolhida participou de todas as edições do evento, sempre convidada formalmente pelo MCTI, o qual a considera como um forte parceiro institucional, devido ao notório reconhecimento da sua marca e do seu trabalho.
Sendo assim, ao acompanhar as reuniões preparatórias da Embrapa, bem como a SNCT, percebeu-se a necessidade que se teria de interpretar o que cada ator desses processos afirmava sobre os objetivos ao se organizar uma exposição. Portanto, assumiu-se
que, apesar de o fato de que os significados que são atribuídos para algum objeto ou atividade serem individuais, estes também são temporais e socialmente construídos. Logo, o significado dado para a exposição da Embrapa só faz sentido sob determinado contexto.
Dessa forma, os contextos a serem estudados a partir desta pesquisa são a conjuntura dentro da instituição Embrapa e a da SNCT, que sem dúvida formam uma terceira, a Embrapa participando da SNCT. Por toda essa complexidade, entendeu-se que o caminho metodológico a ser seguido para cumprimento dos objetivos acima propostos se conduziria pela pesquisa qualitativa.
3.1. Fundamentação Metodológica
A escolha pela pesquisa qualitativa se justifica pelo fato de que para Denzin e Lincoln (2005), esta faz parte de um campo de pesquisa complexo, uma vez que envolve conceitos, disciplinas e objetos de várias áreas, que derivam de campos de pesquisa diversos – como o fundamentalismo, o positivismo, o pós-positivismo, o estruturalismo, o pós-estruturalismo e de outros relacionados a estudos culturais e interpretativos –, assumindo assim um caráter multidisciplinar.
Pode-se dizer então que o termo pesquisa qualitativa é polissêmico, tendo distintos significados para diferentes pesquisas. Além disso, não está atrelada a uma teoria ou paradigma específico, uma vez que é utilizada em estudos de variadas correntes, como o feminismo, o marxismo, a etnografia e a ética, por exemplo. Também utiliza uma série de metodologias de pesquisa e instrumentos, como o estudo de caso, a pesquisa participante, a entrevista e a observação – instrumentos estes utilizados nesta pesquisa, conforme será justificado ainda neste capítulo.
A pesquisa qualitativa envolve ainda uma série de atividades interpretativas, sem privilegiar um método em relação a outro, aplicando para isso a semiótica, a narrativa, o discurso, a análise fenomenológica e até mesmo eventos estatísticos.
Assim, de acordo com Nelson et al. (1992, p. 4),
A pesquisa Qualitativa é um campo interdisciplinar, transdisciplinar e algumas vezes multidisciplinar. Ela atravessa as ciências humanas, sociais e exatas. A pesquisa Qualitativa é muitas coisas ao mesmo tempo. Tem um foco multiparadigmático. Seus praticantes são sensíveis ao valor dos vários métodos de pesquisa. Adotam a perspectiva naturalista e a interpretação da natureza humana. Ao mesmo tempo, o campo é fortemente político e formado por múltiplas posições éticas e políticas. A pesquisa Qualitativa envolve duas tensões ao mesmo tempo. Em uma mão, um desenho interpretativo, pós-experimental, pós-moderno, feminista e de sensibilidade crítica. Em outra mão, vai por um lado claramente positivista, pós-positivista, humanista e de concepções naturalista da experiência humana e sua análise. Mais ainda, essas tensões podem ser combinadas no mesmo projeto, trazendo ao mesmo tempo perspectivas pós-modernas e naturalísticas ou crítica e humanística.
meios quantificados. Vale lembrar que há pesquisadores que coletam dados por meio de entrevistas e observações, técnicas usadas neste trabalho e normalmente associadas a métodos qualitativos. Entretanto, esses pesquisadores codificam os dados para permitir que sejam analisados estatisticamente. Assim, estão quantificando dados qualitativos e isso não foi feito no caso desta pesquisa.
Para Denzin e Lincoln (2005), seria possível ainda caracterizar o processo de pesquisa qualitativa em cinco fases ou níveis, conforme o quadro 2:
Quadro 2 – Níveis da pesquisa qualitativa
Fase 1: Perspectiva do Pesquisador Fase 2: Paradigmas Interpretativos Fase 3: Estratégias de Pesquisa Fase 4: Métodos de Coleta Fase 5: Interpretação . Tradição e pesquisa histórica . Concepções próprias . Opiniões políticas e éticas . Positivismo e pós- positivismo . Interpretativismo, construtivismo e hermenêutica . Feminismo . Teoria crítica (marxismo) . Estudo de caso . Etnografia, observação participante . Fenomenologia . Pesquisa participante . Entrevista . Observação . Análise de Texto . Grupo focal . Prática e interpretação política . Análise política . Avaliação das tradições
No quadro 2 são mostradas as várias etapas da pesquisa qualitativa e alguns exemplos de cada etapa. Portanto, dessa forma, pode-se relacionar, diretamente, o que pensa o pesquisador e os pré-conceitos que ele já traz para a pesquisa, em qual paradigma reflete o seu pensamento, quais estratégias utiliza em busca dos seus objetivos, os métodos que melhor se encaixam na sua pesquisa e, por fim, como interpreta os dados coletados, ou seja, como relaciona a sua análise com um paradigma pré-concebido. Deve-se, no entanto, entender que não se trata de um processo linear, direto, pragmático ou imutável, uma vez que o próprio pesquisador, por ser partícipe do processo, está sujeito às modificações no seu pensamento.
Dessa forma, para esta tese, de acordo com os níveis da pesquisa qualitativa (quadro 2), ao se passar pela perspectiva própria do pesquisador (fase 1), o paradigma interpretativo (fase 2) escolhido foi o construtivismo e a teoria crítica, adotando como estratégia de estudo (fase 3) o estudo de caso, aplicando-se para isso como métodos de coleta (fase 4) a entrevista, a observação e a análise de texto, culminando na sua interpretação (fase 5).
Portanto, diante das perspectivas assumidas sobre a complexidade em se pesquisar os objetivos das exposições de PC, sob o ponto de vista de diversos informantes com propósitos individuais variados, se entendeu que a melhor forma de conduzir este trabalho é o de se fazer, tanto a coleta quanto a análise de dados, de forma qualitativa. Quer-se chegar o mais perto possível do que pensam e entendem os informantes. Para que isso seja possível é necessário que os dados coletados sejam ricos em detalhes e o mais próximo
possível do mundo que é percebido pelos informantes (BOGDAN e BIKLEN, 1992). Os significados encontrados em documentos e oferecidos pelos informantes foram uma preocupação básica para esta pesquisa.
Dessa maneira, conforme já mostrado no quadro 2, para Denzin e Lincoln (2005), existiriam basicamente quatro grandes paradigmas, além de suas variações, a saber: positivismo e pós-positivismo, construtivismo, criticismo (também chamado de marxismo, materialismo ou teoria crítica) e o feminismo pós-estrutural. Baseado nos autores, as principais características dos paradigmas citados que melhor se encaixam nesta pesquisa são: