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Esta zona de sentido discute a contribuição da família na construção da identidade da Karla, levando-nos à reflexão sobre os sintomas que podem surgir quando a família e seus membros enfrentam algumas dificuldades nesse processo. O sintoma que surge neste caso é o consumo excessivo de bebidas alcoólicas por Karla que aparece na sua história como uma possibilidade de saída do seu lugar de filha parental.

Na busca de uma compreensão do significado do sintoma (alcoolismo) na vida da Karla, vamos agora aprofundar em alguns pontos. Inicialmente, retornemos a infância da Karla, que transcorre em um ambiente familiar gratificante no interior de Minas Gerais, de onde ela foi arrancada aos seis anos (onde convivia harmoniosamente com os bisavós maternos) para viver uma relação conflituosa e parentalizada com a mãe e o padrasto em Brasília, em uma família, já constituída e com a presença de outra criança de aproximadamente dois anos (seu meio-irmão). Sobre esse período, Karla relata:

Meus bisavós eram excelentes. Tinha outros bisnetos também. Aí minha mãe foi me trazendo aos poucos, e quando eu cheguei e vi era um homem que eu não gostava, não achava legal, um homem que bebia eu convivi com ele espancando a minha mãe. Minha mãe reclamando que ele tinha amante. Eu fui crescendo vendo aquilo.

Ela (mãe) me tirou de uma família que eu tinha, calma, estudo do bom e do melhor só pra mim.

Essa ruptura brusca e angustiante com os bisavós narrada por Karla, como vimos acima, é a razão de um grande sofrimento para a mesma, que se vê uma nova dinâmica familiar onde se destaca a relação mãe-padrasto, cercada por conflitos e consumo de álcool em excesso.

Quatro anos após sua chegada, já adaptada à sua nova realidade familiar, o padrasto da Karla traz uma filha para viver com a família e sua mãe já havia tido outra filha (a irmã caçula da Karla). Então, Karla passa a conviver em um sistema familiar junto com três outras crianças, das quais ela precisa cuidar. Sobre esse momento, Karla fala:

Quando eu tinha 10 anos meu padrasto trouxe uma filha que ele tinha do primeiro casamento para minha mãe criar, o nome dela é Maria, ela é dois anos mais velha que eu, mas era eu que levava ela ao médico.

Eu me arrumava, levava meu irmão na escola, depois levava minha irmã na creche que minha irmã ficava o dia todo, depois minha mãe passava e buscava.

Eu entrei na adolescência cuidando de dois irmãos.

Percebemos, nessas falas, que Karla (no início de sua adolescência) se encontra no papel de cuidadora dos irmãos mais novos e da enteada da mãe (filha do seu padrasto). Nessa configuração familiar, Karla ocupa um lugar “dividida”, entre ser meio irmã e meio mãe, já que a mãe e o padrasto não desempenham adequadamente seus papéis, deixando espaços vazios a serem ocupados (MINUCHIN, 1990). Esse papel, como foi dito por Karla, não era ocupado com satisfação, sendo muitas vezes imposto de maneira rígida, o que aumenta ainda mais o seu mal-estar. Ou seja, esse papel era inflexível, sem possibilidades de mudança nessa configuração. Para compreendermos melhor esse papel de filha parental, remetemos a Minuchin e Fishman (1990) quando afirmam que essa troca de papéis em alguns momentos é uma base de identificação da criança com os pais; dessa maneira não acarretando prejuízos para o funcionamento familiar. Contudo, quando a parentalização torna-se um hábito (que foi o que ocorreu com Karla), o filho é excluído do subsistema fraterno passando para o subsistema parental o que representa assumir prematuramente responsabilidades e auto-suficiência que ainda não lhe são possíveis.

Ser uma filha parental no caso da Karla não representa algo simples em sua vida, como já vimos acima, ainda mais quando pensamos nas possíveis conseqüências de se encontrar nesse lugar. De acordo com Levy (2006), a parentalização patológica pode acarretar penosas implicações para o desenvolvimento psicológico dessa criança, causando prejuízos no processo de diferenciação e separação da família e outros problemas referentes à perda da infância, perda de confiança em si e nos outros, raiva e ressentimentos que não se manifestam, além de culpa, vergonha e estresse.

Complementando nessa posição de “filha parental”, cabia a Karla também proteger a mãe. Esse papel de defensora da mãe contra as agressões (físicas e sexuais) do padrasto (que consome excessivamente bebidas alcoólicas) é relatado por Karla:

Quando eu tinha uns 12 para 13 anos eu me lembro que eu acordei de madrugada com ele (ex-padrasto) tentando estuprar minha mãe, e eu tirei ele de cima dela.

Ele chegava bêbado e forçava pra ter relação.

Ressaltamos que nesse período Karla protegia a sua mãe sob o risco de perdê-la caso não a fizesse. Assume assim essa posição de defensora, ao invés de ser protegida e cuidada. Penso (2003) considera, em seus estudos, que o consumo de substâncias químicas (entre elas o álcool) pelos pais pode levar à parentalização. No caso da Karla, mesmo que não estejamos falando do pai biológico, a presença e referência masculina/paterna próxima à participante era o seu padrasto. Assim, consideramos que o consumo problemático de álcool pelo padrasto certamente agravava tal circunstância e envolvia Karla nos conflitos conjugais.

Concomitante à situação descrita anteriormente, Karla se posiciona de maneira afastada ou rivalizada com a mãe, pois a considera a responsável por se encontrar nessa posição, idealizando a figura paterna (biológica) como capaz de livrá-la do seu sofrimento. Isso repercute na relação da adolescente Karla com a mãe de maneira a prejudicar a comunicação entre elas. Nessa situação, Karla recorre ao silêncio, tornando a relação mais distante, o que aumenta a sua solidão e a sua angústia fazendo com que ela busque apoio e compreensão no vínculo com os amigos. Segundo Guimarães (2004), em seus estudos, as meninas relatam que o fato de presenciarem muitas situações de brigas e violência em casa influencia o uso de drogas, já que para evitar situações aversivas em família, elas acabam se integrando a grupos de pares desviantes.

Sobre a relevância do contexto social mais amplo na vida do adolescente que usa drogas e sua família, segundo SUDBRACK (2006), o uso de drogas na adolescência é percebido como um desafio à autoridade dos pais, a partir do qual “os estreitos vínculos mantidos no grupo de pares passam a formar um novo espaço afetivo e de cumplicidades, em substituição à família” (p. 02).

Sobre tudo isso, Karla comenta:

Eu culpava minha mãe era isso: era ver que os outros tinham um pai e eu não tinha. Por que ela não havia ficado com o meu pai.

Eu estava dando muito trabalho pra minha mãe e ela não sabia mais o que fazer, eu queria ficar na rua até tarde, eu não obedecia. Minha mãe pagou um psicólogo pra mim eu fui uma sessão, ela pagou três meses e eu só tinha ido uma vez. Ao invés de ir ao psicólogo eu ia era namorar.

Quando o adolescente certifica-se de pertencer ao contexto familiar, ele ao mesmo tempo recupera as suas referências identitárias, resgata sua história e coloca em prova a estabilidade das suas referências de autoridade, que segundo Sudbrack (2003) permite ampliar essas referências e reger seu processo de separação e individuação. Consideramos que a vivência de Karla dificultou a identificação com a mãe e o seu movimento de pertencimento e separação da família, consolidando o seu papel de filha parental e dificultando o seu processo de construção identitária. Ampliando a discussão, Miermont et al. (1994) consideram que o processo de diferenciação do self é familiar e a partir do momento que uma pessoa confirma seu pertencimento a um grupo familiar satisfatoriamente unido, ela terá possibilidade de desenvolver seu self individual. No caso da nossa participante, Karla, esse processo de “separação” não ocorreu de forma tão tranqüila quanto o esperado.

Em todo esse contexto de angústia, por ter de lidar com lugar de filho parental, que já não suporta a solidão, as perdas, e busca ser compreendida e amada; Karla encontra uma saída desse lugar iniciando (e intensificando) o consumo de álcool, chegando também a experimentar outras drogas, conforme explicitado por ela:

Eu passava a noite na rua me drogando, conversando com minhas amigas.

Sobre o que ocorre com ela nesse período, citamos Kalina et. al. (1999) quando afirmam que não se pode negar que na origem do problema drogadictivo também ocorrem dois fenômenos muito importantes: a história da pessoa e uma suposta crise no contexto sócio-familiar no qual ele está inserido.

A descoberta pela família do uso de drogas pode ser um momento de transformação das relações familiares, como apontam Silveira Filho e Gorgulho (1996) acrescentam que a descoberta do consumo de drogas,

é um momento de exploração de perspectivas alternativas da família e seus membros, a fim de que possa haver um consenso, uma tentativa de construir novas verdades, buscando redefinir e reenquadrar o sintoma (p. 90).

Contudo, Karla e sua família não desfrutam dessa compreensão e da relevância dessa descoberta, pois Karla não se comunicava com a sua família, mais precisamente com a mãe. Não sabemos se a família compreendia a real dimensão do consumo de álcool e até outras drogas por Karla, mas supomos que por trás dessa situação, havia uma indiferença e negligência nos cuidados. Payá e Figlie

(2004) comentam que há uma tendência dos familiares se sentirem culpados e envergonhados por se encontrarem na situação de consumo de álcool e drogas por algum membro familiar o que acaba sendo um forte fator para que a família demore muito tempo para admitir o problema e procurar ajuda externa e profissional. Considerando essa afirmação, podemos levantar a hipótese de que a dinâmica familiar e a negação do consumo de álcool (e também outras drogas) de Karla pela família acaba por cooperar para a instalação do sintoma (o alcoolismo) e revela que mesmo que Karla não percebesse o sofrimento da mãe, podemos imaginar que ele existia e estava transmutado em acomodação.

Complementando essa discussão sobre a parentalidade de Karla, não podemos deixar de destacar alguns aspectos referentes à sua história transgeracional. A partir das descrições anteriores e do genograma da participante notamos que estamos diante de uma família onde o papel de cuidador de crianças que não são suas é algo presente nas gerações. Observamos isso quando constatamos as várias adoções ocorridas ao longo das gerações (mais presente na descendência materna), desde os avós e bisavós. Lembrando que Karla foi cuidada pelos bisavós maternos até os seis anos. Somente depois passou a conviver com a mãe e atualmente cuida do sobrinho. Assim, o fato de Karla, mesmo sendo criança, cuidar dos irmãos é visto com naturalidade, talvez também pelo fato de Karla nos parecer ter sido uma criança madura e obediente.

De tal modo, percebe-se que ser cuidador é um papel bastante valorizado na família, representando a lealdade a esse sistema. Essas considerações tornam-se pertinentes, pois nos permite observar que o fato de Karla assumir um papel de filha parental não ocorre somente devido o sua dinâmica familiar nuclear, mas extrapola e envolve a família extensa; perpetuando o mito de que ser um “cuidador” é defender e proteger a família contra possíveis ameaças. Segundo Penso, Costa e Ribeiro (2008), os mitos familiares acabam por delegar a cada membro da família um papel e um destino bem precisos. Parece-nos então, que no caso de Karla já era esperado dela esta função.

Ainda considerando a história transgeracional, percebemos que o consumo de bebidas alcoólicas sempre esteve presente ao longo das gerações. O que nos leva a supor que estamos diante do processo de transmissão multigeracional. Ou seja, o consumo de álcool (excessivo ou não) se apresenta como um aspecto repetitivo ao longo das gerações e nas relações dinâmicas de organização familiar.

Segundo, Nichols e Schwartz (2007), o problema familiar é decorrente de uma série multigeracional em que todos os membros da família são agentes e reagentes, como parece ocorrer na história de Karla. A este respeito, Trindade (1994, p. 63) complementando, afirma:

O alcoolismo contextualizado dentro desta estrutura axiológica particular da família vai se repetindo, elegendo os membros mais adequados, os protagonistas desta trama, criando mesmo ídolos alcoolistas. Os mitos criados pela família e oriundos das gerações passadas geralmente protegem e mascaram a degradação moral gerada pelo alcoolismo na família. Seria o fenômeno da negação psicológica, defesa característica da psicodinâmica do alcoolista.

Miermont et al. (1994), enriquecendo essa discussão, consideram que o alcoolista, paradoxalmente, acaba por proteger sua família de estados intoleráveis de angústia, ansiedade ou depressão. Assim, podemos supor que a família da Karla foi a cada geração adaptando sua vida às exigências coexistentes do alcoolismo. Trindade e Bucher-Maluschke (2008) afirmam que,

muitas vezes, a „moeda‟ que circula dentro da estrutura familiar e da dinâmica familiares é o próprio alcoolismo ou outras patologias crônicas. Alguns indivíduos são sacrificados, outros, eleitos, e o legado familiar pode se tornar pesado. A tristeza se cristaliza e cede lugar à doença. (p. 177).

Dessa forma, quando nos propomos a fazer essa discussão sobre a história de Karla, compreendemos que no seu caso e em sua família, o consumo de álcool entre os seus membros serviu algumas vezes como uma tentativa de estabilizar o instável sistema familiar. Ou seja, a forte presença de bebidas alcoólicas na configuração familiar se atualiza a cada geração, chegando a definir-se também na vida da Karla como uma possibilidade de saída para o seu papel de filha parental.

5.1.2. Conjugalidade e alcoolismo: a contínua tentativa de enfrentamento

Partindo dos indicadores levantados, pretendemos aqui discutir a conjugalidade na vida de Karla. Consideramos que esse aspecto não pode ser ignorado, pois esta relação amorosa se torna um fator bastante relevante e um estímulo à instalação e manutenção do alcoolismo. Contudo, não deixamos de considerar toda a discussão realizada anteriormente sobre a dinâmica familiar da participante, onde destacamos o seu papel de filha parental e a iniciação do seu consumo de álcool (chegando a experimentar outras drogas).

Contextualizando todo o processo que envolve a conjugalidade na vida da Karla, iniciamos destacando um período em que Karla vivencia sua adolescência, consome álcool frequentemente com os pares e sofre com a sua convivência familiar culminando na falta de comunicação entre ela e os outros membros. Justamente nesse período Karla conhece Elton e começa um namoro com ele, onde se intensifica o seu consumo de bebidas alcoólicas. Sobre esse momento ela diz:

Eu lembro como hoje, eu tinha 14 anos e tinha uma garrafa de “caninha da roça” por meio, porque o pai do meu filho também bebia muito ele misturava bebida com droga, e eu estava com fome e eu virei essa meia garrafa no gargalo. (...) Eu fiquei bêbada. Eu tomei para passar a fome, daí eu dormi.

Em termos do ciclo de vida familiar encontramos aqui algumas particularidades. Primeiro, percebe-se que as fases do ciclo de vida familiar (Saindo de casa e a União da família no casamento) acontecem rapidamente o que nos leva a notar claramente a transposição de fases da sua vida e seus prováveis prejuízos. Hines (1995) discutindo sobre o ciclo de vida familiar em famílias pobres afirma que nessas famílias “não existe tanto uma época prevista para o desdobramento dos vários estágios desenvolvimentais e elas se deparam com inúmeras crises vitais impredizíveis em cada estagio” (p. 443). Esta situação, para esta autora culmina em transições não claramente delineadas. Esta autora também comenta que um ciclo de vida familiar encurtado representa um tempo inadequado para resolver as tarefas desenvolvimentais de cada estágio, onde os indivíduos assumem novos papéis e responsabilidades antes de serem capazes em termos desenvolvimentais.

Além desses aspectos, é necessário observamos que a união com Elton e a separação da família de origem para uma nova fase do ciclo de vida familiar (A união da família no casamento: o novo casal) foi ainda algo muito complexo no caso de Karla:

(...) daí minha mãe não agüentou mais e deu a última cartada, teve um dia que eu cheguei em casa de madrugada, bati pra ela abrir, por que eu não tinha chave eu batia ela abria e eu entrava, e esse dia minhas roupas estavam lá na porta dentro de um saco, daí eu fui morar com o pai do meu filho.

(...) com 14 anos fiz a besteira de parar de estudar, conheci o pai do meu filho, engravidei com 17 anos, eu não tive uma adolescência de dizer que eu saí que eu fui para a boate e me divertir. Eu me enrolei muito cedo com o pai do meu filho.

Vemos que, no caso de Karla, não estamos tratando de uma separação da família de origem, mas de um drástico rompimento. Além disso, retomando as falas acima, vemos que a escolha de se unir ao namorado não foi uma escolha, mas uma

decisão tomada às pressas devido a um conflito familiar pré-existente. Karla nos deixa claro essa particularidade dizendo:

Quando eu fui morar com ele eu gostava dele, mas eu fui mais porque minha mãe me colocou pra fora e eu não tinha pra onde ir, e ele falou: então vem ficar comigo no meu quarto e eu fui.

Desta união inicia-se uma convivência conjugal entre Karla e Elton. Segundo Féres-Carneiro (1992), a interação conjugal pode ser considerada uma dimensão que permite a integração do grupo através da criatividade, crescimento de cada membro, individualização, prazeres e gratificações mútuas. Porém, segundo os relatos da Karla, não foi isso que lhe ocorreu:

Quando eu fui morar com o pai do meu filho (Elton) eu enfrentei outra vida, meus irmãos e minha mãe até ficaram sabendo que eu estava passando fome e eu fiquei doente, o pai do meu filho me agredia, me batia muito. Com Elton, cheirei cola, fumei maconha e merla.

Karla nos mostra em sua fala que a presença de violência e o consumo de álcool e outras drogas eram comuns no cotidiano do casal. Sobre esse aspecto, Krestan e Bepko (1995) afirmam que o álcool (sendo que em nosso caso também acrescentamos o consumo de outras drogas) pode se colocar como um regulador de proximidade ou distanciamento no casal. No caso da Karla, percebemos claramente que o consumo de álcool e outras drogas é um fator que aproximava o casal. Esses autores ainda comentam que nos relacionamentos em que um ou os dois cônjuges são afligidos pelas drogas surgem conflitos, competitividade, dependência explícita; um deles superfuncionando pelo outro, que funciona de maneira imprópria. Para estes autores, como consequência de todos esses desentendimentos, a presença de um estresse constante ocasionado pelas brigas, agressões físicas e verbais, desequilíbrio na complementaridade dos papéis. Tais situações intensificam-se cada vez mais uma interação negativa, resultando em prejuízos na formação da identidade do casal e por fim em separação após um pequeno período de convivência. Krestan e Bepko (1995) também afirmam que o consumo de álcool e outras drogas interfere nas questões de proximidade e separação do casal, bem como na formação de fronteiras adequadas tanto entre os cônjuges quanto em outras partes do sistema.

Em seguida, Karla retorna ao convívio com a família de origem, ou seja, sai de uma convivência conjugal conflituosa para um retorno à família de origem, no caso de Karla, tal situação ocorre pelo consumo de álcool e drogas por Karla e seu

marido. Sudbrack (2003) em seu trabalho junto aos adolescentes e suas famílias nos revela que o uso de drogas institui uma tentativa de separação frustrada, vivida na forma de rupturas violentas, resultando em reconciliações fusionais. Retornando à família de origem, o que pode parecer um passo a favor da sua autonomia, revela- se um reforço às dependências relacionais, ou seja, Karla passa a depender de sua família.

No entanto, o relacionamento com Elton não foi o único relatado por Karla. Ela também relacionou-se com João durante nove anos. Ele se torna significativo, pois tem uma duração de nove anos (finalizando um ano antes da realização da entrevista e faz parte tanto da fase de alto consumo de álcool por Karla quanto do seu tratamento e abstinência. Assim, ao voltarmos à dinâmica dessa interação percebemos como todos esses aspectos se entrelaçam.

Sobre o início do relacionamento e a configuração da interação entre eles, Karla nos conta:

Nos conhecemos, ficamos juntos dentro de um bar.