9. Muligheter for fremtiden
9.2 Fremtidig fordeling gjennom eksisterende fordelingsprinsipper
O pai e suas carências seriam, na atualidade, o ponto central que sustenta o discurso que supõe nos conflitos familiares a causa para o fracasso escolar. Nesse discurso, seriam as carências paternas as responsáveis pela desestruturação na família. O pai seria acusado de não cumprir adequadamente sua função de chefe de família, ou seja, não cumpriria sua função de provedor, educador, de autoridade, e se ausentaria constantemente do ambiente familiar.
Nos quatro casos encontramos essa associação do fracasso escolar da criança ao comportamento inadequado do pai, dando origem ao discurso fortemente depreciativo do mesmo: usuário de drogas e envolvido com bebidas, mulherengo, irresponsável, agressivo. Além disso, é ausente na educação dos filhos, desempregado, não sustenta sua prole, analfabeto. Enfim, um discurso que o desvaloriza socialmente.
Seria esse pai capaz de cumprir sua função paterna? Estaria ele ocasionando uma desestruturação familiar com a consequente produção do fracasso escolar em seus filhos? Foi com o objetivo de responder a essas questões que no capítulo três se buscou esclarecer o que seria a função paterna, sua inscrição e importância para o sujeito.
De acordo com Freud, o pai desencadeia a trama edípica se fazendo obstáculo entre a criança e seus desejos incestuosos dirigidos à mãe. Torna-se o agente da castração ao introduzir a interdição do incesto. Freud diferencia, ao longo de sua elaboração da teoria edipiana, os processos psíquicos que compõem o Édipo na menina e no menino. Para o menino, o pai permite sua saída do complexo edípico ao proferir a ameaça de castração, conduzindo-o a renunciar ao desejo incestuoso pela mãe em troca de uma identificação. Para a menina, por sua vez, o pai permite sua entrada no Édipo ao retirá-la da relação pré-edípica com a mãe. Nas duas situações o pai representa aquele que tem o falo e pode oferecê-lo ao menino por meio de uma identificação e à menina por meio de seu substituto, um filho.
A formalização que Lacan fará do Édipo freudiano por meio da metáfora paterna e do pai como um significante nos ajudou a fazer a leitura desses casos. Auxiliou-nos no exercício de não confundir aquilo que Lacan foi separando ao longo de seu ensino, a função simbólica de seu suporte, ou seja, a função paterna, o pai como um significante e o pai da realidade. Além disso, nos ajudou também a entender que aquele que suporta a função nomeada por ele como paterna, nunca está à altura dessa função. Lacan demonstrou, como visto na revisão da literatura realizada anteriormente, que o pai sempre falha em cumprir essa função, ou seja, ele está sempre carente, discordante e aquém desse cargo. Por isso, vai ao longo de seu ensino demonstrar como essa falha do pai é estrutural e estruturante para o sujeito, porque é por intermédio dela que se pode transmitir o desejo.
Essa função poderia ser traduzida nos seguintes termos: interditar a relação incestuosa da criança com a mãe, retirar a criança da posição de objeto ao oferecer uma significação fálica para o desejo do Outro materno, ordenar o mundo simbólico para que a criança possa aí encontrar um lugar, inclusive na partilha dos sexos, permitindo ao sujeito a assunção de seu sexo etc. Enfim, essa função ao constituir a ordem simbólica desvincula a dependência do sujeito ao desejo materno. No seminário As formações do
inconsciente (1957-58), Lacan dirá que a função paterna, presente na fórmula da
metáfora, é substituir o significante mãe pelo significante pai e nessa operação produzir a referência fálica. Em Nota sobre a criança (1969), afirmará que, quando o pai falha na função de manter a distância entre a identificação com o ideal do eu e o papel assumido pelo desejo da mãe, a criança fica capturada no fantasma materno. A criança permanece então como objeto da mãe e não tem outra função senão a de revelar a verdade desse objeto.
Encontramos tanto no caso Roberta como no caso Paula a alienação dessas duas crianças ao discurso do Outro materno e escolar que desvaloriza o pai. No primeiro, o pai é considerado um ser totalmente desprovido de saber devido a seu analfabetismo, além de apresentar comportamentos sexuais moralmente inadequados. No segundo, o pai é desvalorizado por causa de seus problemas com a bebida que o levaram ao desemprego, impedindo-o de sustentar sua família.
Os dois casos demonstram o peso desse discurso depreciativo sobre o pai para o rendimento escolar da criança. Roberta se mantém alienada ao discurso de sua mãe, até que pôde, por meio da retificação do pai em sua vida, se descolar desse discurso e conseguir avanços na escola. Ela faz durante o tratamento o movimento, indicado por
Freud, de sair da relação primitiva com a mãe e ir em direção ao pai, na medida em que supõe nele o falo, nesse caso, representado pelo saber. Paula, ao contrário disso, não conseguiu se desvencilhar desse discurso e, consequentemente, de sua mãe, mantendo- se na posição de não amada pelo pai e fracassando na escola.
Nos casos dessas duas meninas, o fracasso escolar parecia fazer referência, por um lado, à dificuldade de sair dessa alienação ao Outro materno e por outro à identificação da criança ao pai desvalorizado, humilhado, como nos diz Lacan, presente nesse discurso depreciativo sobre ele.
Diogo, ao contrário, manteve desde o início de seu tratamento, o amor e a crença no pai. O comportamento inadequado de seu pai (agressivo, envolvido com bebida e drogas e desempregado) que muito o desvalorizava, principalmente ao olhar de sua mãe, não impediu que ele fosse amado pelo filho. Seu pai se faz presente em sua vida, como demonstram os elementos do complexo edípico no menino. Diogo estava às voltas com seu desejo parricida em relação ao pai, encoberto por sua preocupação com o mesmo. Além disso, seu impasse estava na crença, presente nos neuróticos, de que o destino de um menino é ser igual ao pai. Se essa crença no pai trouxe algumas dificuldades para a criança, é fundamental lembrar que ela é estruturante para o sujeito. Sua melhora na escola ocorre quando pode separar-se do pai depreciado e desejar ser diferente dele, obtendo os atributos fálicos que não encontrava no Outro paterno.
Assim, o discurso depreciativo sobre o pai tem para Diogo o efeito de impedir encontrar nele atributos fálicos que o permitissem romper com a identificação ao fracasso e melhorar na escola.
No caso de Lucas, o discurso depreciativo sobre seu pai – a mãe o considera irresponsável e a escola, ausente – tem o efeito de deixá-lo sem recursos fálicos diante das figuras femininas. Sua dificuldade centra-se na relação com sua mãe, considerada pela escola inadequada, pelo excesso de exigências e agressividade dirigida ao filho. A dificuldade de Lucas está em enfrentar uma mulher embaraçada com sua relação com a castração e exigindo do filho oferecer o que falta a ela. Por sua vez, ele tenta interpretar esse enigmático, por vezes obscuro, desejo da mãe e da mulher. Foi por meio dos jogos virtuais que Lucas pôde construir ficções e reconhecer no pai o arsenal fálico e se identificar a ele. Desse modo, construir uma identificação fálica que lhe oferecesse os instrumentos para se arranjar com a mãe e as figuras femininas, vistas por ele como ameaçadoras.
A discussão que Lacan faz no Seminário As formações do inconsciente (1957- 58) acerca da carência paterna nos ajuda a entender que aquele que sustenta a função paterna não se confunde com o pai de família, presente ou ausente no ambiente familiar. A função paterna se realiza pela presença do pai no inconsciente do sujeito, por meio de um significante, aquele nomeado por Lacan como Nome do Pai. A falta de inscrição desse significante no inconsciente produz a psicose.
Portanto, nos casos investigados a desvalorização do pai como chefe de família dificultava que a se criança utilizasse desse pai como uma ferramenta para se separar do Outro materno. Entretanto, não impediu que sua presença - pela alienação a esse discurso depreciativo - se fizesse sentir na subjetividade da criança. Para esses sujeitos, ao contrário do que afirma o discurso corrente, o pai não está ausente, mas presente sob sua forma depreciada. Nessa perspectiva, estamos diante de crianças em que a operação estrutural do pai pôde ser deduzida.
Assim, nos três casos em que ocorreram melhoras na escola, elas foram sucedidas pela retificação da posição da criança diante do pai. No caso Roberta a criança pôde revalorizar o pai e manifestar seu amor por ele. Diogo pôde, por sua vez, se separar do pai desvalorizado e desejar tornar-se diferente dele. Lucas pôde por meio dos jogos virtuais construir uma ficção em que reconhece no pai o arsenal fálico, podendo se identificar a ele. No caso Paula, a ausência de sua retificação diante do pai, ou melhor, do discurso sobre ele, a manteve alienada à mãe e fracassando na escola.
Assim, nos pareceu que esse discurso depreciativo sobre o pai fixa a criança em um tempo subjetivo de aprisionamento à mãe que a impede de “des-envolver-se” de seu Outro.
Além disso, a formulação que Lacan faz do pai, em RSI - o pai não mais tomado como ideal e sim em sua versão sexual ao fazer de uma mulher causa do desejo - nos ajudou também a perceber como o pai não precisa ser um modelo de identificação para operar na estrutura. Esse pai desvalorizado socialmente e envolvido com um gozo desregulado - bebida, drogas, mulheres - pode merecer o respeito e o amor do filho quando apresenta o desejo particularizado por uma mulher ao fazê-la mãe29.
Enfim, a discussão que Lacan faz sobre o pai que vai do Mito ao Além do Édipo nos faz perceber que sempre haverá uma falha do pai, uma carência estrutural, que não se confunde com essa carência do pai de família presente no discurso que desvaloriza os
29 Esse dado diz respeito, mais especificamente, ao caso Roberta. A criança em determinado momento se
pais dessas crianças investigadas. A insuficiência do pai revela a dimensão do impossível no coração da operação paterna e torna-se estruturante para o sujeito, porque permite a transmissão do desejo.
Esse discurso depreciativo sobre o pai que fixa a criança em sua alienação ao saber do Outro esconde em seu avesso, a esperança neurótica de que o pai esteja à altura de sua função simbólica. Desse modo, esse discurso que desvaloriza os pais dessas crianças alimenta uma crença neurótica no mito paterno, esperando que ele seja capaz, como um mestre, de ordenar o mundo e o gozo. Por isso, como nos lembra Laurent, o pai de família é um sonho do neurótico, alvo das querelas do sujeito.