Olhando para este estudo que ora desenvolvemos há uma questão que não podemos deixar de lado uma vez que ela nos remete para o objeto empírico de toda esta investigação. Consideramos fundamental atentar com mais detalhe sobre o universo feminino e as questões de género para melhor podermos também compreender estas mulheres. Conquanto, para as percebermos é fulcral analisarmos o contexto global, compreender a sua evolução e postura em diferentes momentos na sociedade, os papéis que ocupam, sem excluir algumas remissões para o outro género masculino.
Por isso falar sobre a mulher é abordar um pouco da sociologia do género, da sua condição, dos papéis sociais que foi desempenhando na sociedade ao longo dos tempos, mormente em Portugal (Schouten, 2011). No caso concreto desta investigação, o nosso universo revela uma homogeneidade social de acordo com o género uma vez que é constituído unicamente por mulheres. Walby considera que a sociologia tem contribuído para a transformação daquela perceção tradicional das relações entre homens e mulheres (2005). Quando se aborda esta temática torna-se pertinente que nos questionemos acerca do que é realmente ser homem e mulher e essa uma questão levantada por distintos autores, sem que com isso pretendamos fazer uma abordagem demasiado exaustiva acerca de tudo o que lhes está associado a estas terminologias ou mesmo discorrer acerca do percurso das teorias feministas (Neto; Cid; Pomar; Peças; Chaleta & Folque, 2000; Almeida, 1999).
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Na verdade, falar acerca do género é abordar questões em torno de um dos “princípios organizadores mais importantes da vida social”, em que este é encarado como sendo a “especificidade de homens e mulheres sob os pontos de vista social cultural e psicológico” e não podemos descurar que está patente “ a todos os níveis e aspectos da vida social”, por exemplo no trabalho, na educação, na religião (Schouten, 2011, p. 13; Amâncio, 2003). Aquela que se denomina de socialização primária é essencial na própria socialização do género e na produção da uma identidade.
Quando falamos acerca destas temáticas é fulcral que se diferenciem conceitos como sexo e género, tendo em conta que o primeiro não é de todo o “elemento explicativo das diferentes atribuições sociais de mulheres e de homens” e, além disso, este é um conceito que acaba por estar agregado a desigualdades de foro biológico, físico, anatómico que ocorrem, precisamente, entre homens e mulheres, considerando-se mesmo o sexo como um “marcador físico e morfológico de conotação biológica” (Barroso, Nico & Rodrigues, 2011, p. 93; Amâncio, 2003, p. 694). Aliás, falar de sexo masculino e sexo feminino acaba por ter agregada a remissão para um conjunto de cromossomas XX ou XY. Brandão considera que o género acaba por ser também “um sistema de desigualdade, um sistema hierárquico, que traduz um certo estado das relações de poder entre homens e mulheres” e em que há uma clara dominação
masculina (2007, p. 49; Bourdieu, 1999). Aliás, Bourdieu considera que esta “visão
androcêntrica” é “continuamente legitimada pelas próprias práticas que determina: pelo facto de as suas disposições serem o produto da incorporação do preconceito
desfavorável contra o feminino que é instituído na ordem das coisas” (1999, p. 28).
Tentamos perceber de que modo é que os conceitos sexo e género eram apresentados num Dicionário de Língua Portuguesa comum, neste caso através de uma pesquisa on-line, e deparamo-nos com várias definições. Assim, à noção de sexo atribui-se a “diferença física ou conformação especial que distingue o macho e a fêmea”, o “conjunto de indivíduos do mesmo sexo”, a “relação sexual” e os “órgãos sexuais externos”, havendo ainda uma alusão ao sexo forte e sexo fraco, remetendo, tradicionalmente, para o homem e para a mulher, respetivamente (Dicionário Priberam de Língua Portuguesa). Pegando nesta menção ao sexo forte e sexo fraco, Schouten salvaguarda que estas expressões se alicerçam, sobretudo, em “diferenças físicas perceptíveis, tais como o tamanho e a altura do corpo e a maior força que os homens, em geral, demonstram” (2011, p. 30). Contudo, a própria expressão “força” leva a
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autora a uma reflexão em torno deste conceito, uma vez que considera que ele é “multi- interpretável” (Ibidem). Procuramos, então, perceber que definições estavam associadas ao conceito de género e deparamo-nos com uma multiplicidade de noções:
Após uma leitura mais demorada em torno destas últimas definições apercebemo- nos que há uma aproximação, ainda que ténue, ao conceito do ponto de vista das ciências sociais, mormente quando o género é encarado como “um conjunto de propriedades atribuídas social e culturalmente em relação ao sexo dos indivíduos” (Ibidem).
A afirmação da igualdade entre homem e mulher fez com que houvesse uma desvalorização das diferenças que teimaram em grassar durante muito tempo, até porque essas diferenças acabam por estar associadas a binómios como dominação/dependência, ação/ inércia. A existência do reconhecimento da igualdade não implica forçosamente que se suprimam as diferenças entre homens e mulheres. Deve, na verdade, reconhecer- se “a flexibilidade e a plasticidade dos papéis” (Neto; Cid; Pomar; Peças; Chaleta & Folque, 2000, p. 5). Não obstante, a propósito desta igualdade, Puleo García considera que não se encontra qualquer polémica no que concerne à ideia da igualdade de todos os homens, de uma forma generalizada, mas acabam por surgir algumas hesitações quando se fala da igualdade entre homens e mulheres. (2006). Naturalmente, o objetivo não é termos uma sociedade repleta de “seres clónicos”, mas sabermos direcionar estas questões da igualdade para uma eliminação de barreiras que afetam a mulher em termos de integração social (Puleo García, 2006, p. 29). Essas barreiras a que nos reportámos anteriormente acabam por criar “diferenças de igualdade de oportunidades, assentes numa multiplicidade de estereótipos sociais e culturais”, que tem feito com que, ao longo dos tempos, se verificasse uma proeminência dos homens perante as mulheres nas