FPSO and its Marine Systems - A Mock Up based on Real Life Scenario
4.3 FPSO Main Marine Systems
As obras abordadas foram escolhidas por nos permitir localizar a origem do masoquismo e recolher os traços característicos da fenomenologia da posição masoquista presentes tanto no homem como na mulher. Como sabemos, o termo “masoquismo” é muito abrangente e pode tanto referir-se a um traço do sujeito neurótico quanto estar diretamente relacionado à estrutura perversa. Dadas a extensão e a pluralidade de significados do termo, esclarecemos que o nosso interesse nesta pesquisa limita-se em partir dos traços masoquistas presentes nas personagens descritas para, em seguida, traçar uma distinção entre elas e, dessa forma, explicitar por qual motivo as personagens do sexo feminino não podem ser categorizadas como perversas masoquistas, ressaltando, entretanto, qual a função dessa posição em suas estruturas psíquicas. Para tanto, as noções de atividade (em
oposição à passividade) e de anulação que, aparentemente, não coincidem, mas que, acrescida à noção de disfarce, se entrelaçam e se mesclam no esclarecimento da dinâmica da suposta posição masoquista. Tais características se mostraram como sendo as balizas clínicas que nortearão os rumos desta pesquisa.
No clássico A Vênus das peles, deparamo-nos com um personagem do sexo masculino que ativa e racionalmente persuade uma mulher a executar a função da déspota cruel. Severino não pode ser categorizado como vítima, pois é ele quem conduz e dirige a cena que culmina no seu aviltamento. Ele educa Wanda para que ela se torne uma mulher despótica, já que assim ele poderá ser espancado, humilhado e traído, sendo que, para garantir que isso aconteça, constrói um contrato que lhe assegure o sofrimento. Severino age ativamente para que seja colocado na posição de objeto dessa mulher, não sendo possível afirmar que seu masoquismo é passivo. Encontramos também a noção de disfarce, pois, para tornar-se escravo de Wanda, Severino ganha tanto novo nome como novas roupas: passa a se chamar Gregório e a usar as roupas dos serviçais de sua época.
Chama-nos a atenção, entretanto, o fato de Severino ter se submetido a todos os caprichos de Wanda, com apenas uma condição, a saber, que ela sempre usasse suas “peles” quando estivesse na presença dele. Trata-se aqui de um fetiche cuja função é tamponar a falta fálica feminina. Não nos deteremos sobre esse ponto, mas destacamos que o fetiche é uma característica da perversão que, por sua própria estrutura, produz artifícios que visam sustentar a rejeição da castração e da diferença sexual. O fetichista detém o seu olhar no objeto de fetiche para não verificar a falta na mulher. Veremos, no próximo capítulo, a distinção entre a forma do desejo masculino em relação ao desejo feminino, ressaltando como a posição masculina se defende buscando um objeto que possa, pelo menos, amortecer a constatação da falta. Nossa hipótese é que esse fenômeno do fetichismo não esteja presente nem no caso da personagem “O” nem da desconhecida amante.
Já na História de O acompanhamos a forma como a personagem principal vai, pouco a pouco, abdicando de si mesma para enlaçar seus amantes, tornando-se aquilo que eles desejavam. É a fantasia de seus amantes que guia sua conduta, suas escolhas, sua aparência, seu comportamento. Ela se coloca como uma tela branca a ser pintada e adquire as formas e as cores dos anseios desses homens. Como ela mesma afirma, reduzia-se a nada para tornar-se amada pelos homens que, direta ou indiretamente, despertavam o seu interesse, a saber, René e Sir Stephen. Perdia-se “numa ausência delirante de si mesma” (RÉAGE, 1954, p. 69) e, provavelmente, só se resgatava pelo lugar que ocupava para os amantes, ou seja, um lugar de anulação e, até mesmo de aniquilamento. Encontramos, mais uma vez, indícios de que a personagem se disfarça e se camufla, pois, a pedido de René e de Sir Stephen, ela muda as roupas de seu guarda-roupa, muda o seu estilo de vestir, altera seus hábitos cotidianos, desdobra-se para realizar tais fantasias e, finalmente, se reduz a nada, restando-lhe apenas um corpo nu e uma máscara de coruja. Por qual motivo a personagem acredita que aflora como mulher exatamente na posição de anular-se e reduzir-se a nada? Paradoxalmente, é anulando-se e submetendo-se a aviltamentos que ela floresce como mulher. É dessa forma que ela se sente existindo como mulher. Consideramos possível a inferência de que talvez o masoquismo esteja mais presente nas fantasias de René e Sir Stephen, que se regozijavam ao entregar a mulher amada para outros homens e a toda sorte de humilhações e sevícias.
A obra suscita questões relevantes: a partir do que foi descrito, será que podemos supor que o sucesso da obra se deve à capacidade da autora em executar uma transposição do terror causado pela servidão voluntária dessa personagem – em decorrência do recurso estético do texto, que consegue enlaçar o leitor – ultrapassando, assim, a censura da consciência moral? O masoquismo da personagem só é suportado pelo leitor por estar encoberto pelo véu do amor? Qual é a função da anulação para essa personagem? Em especial, interessou-nos investigar se a personagem é de fato uma masoquista ou se o masoquismo é apenas uma máscara por ela utilizada para enlaçar seus amantes. Qual seria, então, a função da máscara para ela?
Já na novela “Carta de uma desconhecida” deparamo-nos com uma mulher que aparentemente escolhe sofrer anonimamente por amor. A sua escolha é tão decidida que o algoz nem precisa ter conhecimento da posição que ela ocupa, ele apenas é inserido na cena para compor o enredo criado por essa mulher. Chama-nos atenção o fato de que ela escolhe o seu objeto de amor antes mesmo de conhecê-lo. Outro aspecto relevante é o fato de ela inscrever sua marca pela sua completa anulação, não permitindo jamais que esse homem saiba sequer o seu nome. Ela imprime seu registro pela ausência quase completa de insígnias e inscrições. Sua carta nos dá indícios de que ela age de acordo com o que supõe que o amado espera de uma mulher e, para isso, encena a anônima e a puta, a servil e a vingativa, sem se permitir, entretanto, uma aparição, uma revelação. Sua imagem é revestida pela bruma do mistério e do enigma. Conforme ela mesma ressalta, sua ambição é inscrever-se como “a única entre todas as mulheres” (ZWEIG, 1999, p. 179), mesmo que seja ao preço de anular-se completamente até a própria morte. Poderíamos supor que essa anulação ultrapassa a reivindicação dos privilégios de ser única e alcança as margens de um amor mortífero, um amor que tem como dobradiça a morte?
Para levar a cabo esse amor, ela deixa apenas uma carta na qual revela que todo seu padecimento e todo seu amor foram investidos naquele que jamais a reconheceu. Entretanto, ao fazer essa revelação, ela já está morta. Podemos nos perguntar se, ao fazer essa revelação, ela não estaria na posição sádica, já que aponta o que ele poderia ter tido, quando tudo estava radicalmente perdido, pois ela e o filho estavam mortos. Imprime, assim, a sua marca pela fatalidade de seu completo desaparecimento. Curiosamente, pela primeira vez, inscrita pela ausência, ela consegue extrair desse homem um suspiro de amor. A máscara, nesse momento, é incorpórea, contorna as bordas de uma ausência completa, é a máscara da desconhecida. Será essa mulher por ele desejada? Por qual motivo essa mulher jamais se revela? Qual a função dessa escolha tão decidida?
Perguntamo-nos por que a cena supostamente masoquista é acompanhada de um disfarce. Será que o amor pode ser considerado um véu que torna aceitável um masoquismo que, possivelmente, já existia antes mesmo de conseguirem estabelecer quem seria o algoz? Seriam as mulheres masoquistas? Qual a relação da anulação e do aniquilamento, encontrados tanto em “O” como na mulher desconhecida, com o feminino? Qual a função da máscara nos casos acima descritos? Como podemos, à luz da teoria psicanalítica, abordar o problema do masoquismo e a sua relação com a noção de máscara, véu e disfarce? São essas as questões que nortearão os dois próximos capítulos.
REFERÊNCIAS: CAPÍTULO 1
CREPAX, Guido. História de O. São Paulo: Quadrinhos L & PM editores, 1988. 160 p.
______. A Vênus das peles. 2ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. 91p.
DELEUZE, Gilles. Apresentação de Sacher-Masoch. Rio de Janeiro: Taurus, 1983. 327 p.
______. Reapresentação de Masoch. In: ______. Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997. p. 64- 66.
MICHEL, Bernard. Sacher-Masoch (1836-1895). Rio de Janeiro: Rocco, 1992. 417 p.
RÉAGE, Pauline. História de O (1954). Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. 243 p.
ZWEIG, Stefan (1924). Carta de uma desconhecida. In: ______. Medo e outras novelas. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 148-197.