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Pensar em uma perspectiva monoglóssica é refletir sobre enunciados que não dão margem a nenhum tipo de questionamento ou discussão. Martin e White (2005, p. 99) denominam bare assertions as asserções que demonstram “verdades absolutas” tidas como

consensuais e reconhecidas como tais pela comunidade discursiva. Dessa forma, as manifestações de caráter monoglóssico eliminam toda e qualquer abertura para a existência de vozes alternativas que pretendam compor diálogo com suas proposições. Bakhtin (1981)

27,5%

72,5%

Monoglossia Heteroglossia

considera o fenômeno monoglóssico como resultado de forças centrípetas exercidas sobre o discurso, objetivando colocar em alinhamento os discursos considerados como hegemônicos e dominantes.

Como vimos no capítulo I, o conceito de dialogismo proposto por Bakhtin é essencial para a compreensão do subsistema de Engajamento. O autor nos mostra que a comunicação prevê constantes posicionamentos interpessoais e que o diálogo é intrínseco ao discurso. Portanto, parece contraditório falar de traços monoglóssicos em atos de fala, já que, sobre esse conceito, paira a ideia da inexistência dialógica para abertura de outras vozes. Sobre esse fenômeno, Vian Jr. (2010) reconhece o estranhamento inicial, mas demonstra que esse tipo de asserção somente poderia ser levado em consideração quando explanado ao nível da oração.

Se observarmos a questão da perspectiva das orações, no entanto, sabemos que é possível fazer asserções categóricas que não permitem o questionamento ou que não dão margem à dialogia. Nesse caso, portanto, ao nível da oração, podemos pensar em uma asserção monoglóssica, no extrato léxico-gramatical, mas, ao considerarmos o estrato semântico-discursivo, os significados construídos, o conjunto das asserções no tecido verbal como um todo será heteroglóssico. (VIAN JR., 2010, p. 35 e 36). Sobre isso, Martin e White (2005) ainda nos indicam que as manifestações

monoglóssicas se ramificam em dois ideais distintos que aparecem como pontos a serem questionados ou pontos considerados pacíficos sob as condições discursivas em que foram produzidas. Os pontos pacíficos, também reconhecidos como pontos assertivos, são aqueles que expressam ideias hegemônicas já reconhecidas como verdadeiras e inquestionáveis pela comunidade discursiva. Essas avaliações são atualizadas com base em construções verbais que indicam processos relacionais e nominalizações, indicando asserções verossímeis para aqueles alinhados às proposições. Vejamos os exemplos a seguir transcritos do nosso corpus de análise:

(1) No Brasil, a cerveja é a bebida mais consumida em todas as faixas etárias (RP4ANA); (2) Nosso planeta é composto por 70% de água (RP2OTD);

(3) O alcoolismo na escola consiste em um problema grave para a atual sociedade (RP7APD); (4) A sexualidade tem início no ser humano desde seu nascimento e está associada a sentimentos

afetivos (RP8ASS).

Nesses exemplos, podemos observar que a voz autoral não abre espaço para alternativas dialógicas que permitam a entrada de posicionamentos de terceiros. As asserções são construídas de forma que o escritor parte do pressuposto de que o leitor já tem esses significados como verdadeiros e partilhados solidariamente, de forma a não gerar conflitos entre os dois. Logo, as declarações de que a cerveja é a bebida mais consumida no Brasil; o planeta é composto por uma porcentagem X de água, o alcoolismo é um problema enfrentado pela escola; e a sexualidade se inicia no homem desde seu na scimento são colocações que não

apresentam abertura para negociação de sentidos por se tratar de fatos que sucedem na comunidade discursiva como verdades para seus representantes. Aqui, as proposições são tomadas como fora de questão, ou seja, indiscutíveis, consequentemente, recebem o tratamento

como informação “dada”.

Por outro lado, verifica-se a existência de efeitos monoglóssicos caracterizados por carregar um teor presumível. Apesar dos pontos monoglóssicos presumíveis fecharem o canal para a negociação de significados, fica clara, nessas manifestações, a noção de subjetividade autoral no texto. Aquele que considera a asserção como inquestionável é o próprio autor/falante, que não abre espaço para o diálogo entre vozes permeadas no campo enunciativo. Nesse sentido, ao negar as possíveis vozes externas que exercem interferência em seu discurso, o autor consegue fortalecer sua construção argumentativa por colocar em saliência seu ponto de vista, ainda que embasado somente em sua visão de mundo subjetiva.

(5) os adolescentes precisam ser mais bem conscientizados sobre os possíveis danos a saúde [...] (RP4ANA);

(6) É importante que tenha entre pais e filhos a confiança [...] (RP8ASS); (7) É obrigação da escola fazer com que os alunos economizem [...] (RP9AEO).

Transcritos dos relatórios científicos, os exemplos 5, 6 e 7 evidenciam total subjetividade por parte dos alunos pela consideração dessas afirmações como verdadeiras. Perceba que a presença de modalizadores de fala indica o ponto de vista autoral mantido como verossímil para seu público potencial. Por outro lado, na verdade, ainda que as asserções sejam

monoglossicamente declaradas, esses fatos não são tidos como de total concretude para toda a comunidade discursiva, podendo existir outros olhares para os mesmos fenômenos. Entretanto, os autores se utilizam dessas estratégias para estabelecer solidariedade discursiva com seu interlocutor, a fim de sustentar as afirmações consideradas, pelo seu olhar, como factuais. Essas escolhas geram um efeito de alinhamento do leitor com as opiniões expressas. Ainda que existam outros posicionamentos, os autores, estrategicamente, se utilizaram desses efeitos como forma de tornar seus pontos de vista como verdadeiros, enfraquecendo os contrários por nem, ao menos, levar em consideração a existência dos mesmos. Precisa ser, É importante e É obrigaçãosão expressões que apresentam os fatos como inquestionáveis e “fim de assunto!”

para voz autoral.

Foram encontrados 222 casos de manifestações monoglóssicas nas produções analisadas, totalizando 27,5% das avaliações por Engajamento. Se compararmos de forma ampla a quantidade de ocorrências pontuadas no corpus, o gráfico 1 já nos fornece um

parâmetro inicial de que os alunos, ao produzirem seus relatórios científicos, parecem optar, com maior intensidade, pela abertura das negociações de significados com outras vozes, em detrimento do uso de asserções monoglóssicas que encerram esse canal dialógico. Vejamos, agora, como se deu a relação entre as ocorrências heteroglóssicas de expansão e contração dialógicas nos textos.