4 G RUNNER FOR Å SKILLES
4.3 Relasjonelle grunner
4.3.3 Fortrolighet og nærhet
Neves et al. (2008) apresenta uma análise profunda das construções hipotáticas comparativas. As considerações expostas nas subseções que se referem às estruturas comparativas do português (3.2.1 e 3.2.2) são todas fundamentadas em Neves et al. (2008) e Neves (no prelo) 34. Nessa proposta, as bases que direcionam a análise das construções hipotáticas comparativas estão orientadas por três componentes, a (in)existência de correlação, a quantificação e a (des)igualdade.
O que caracteriza esse tipo de construção é, fundamentalmente, uma interdependência entre dois elementos, sob uma visão sintática, e um cotejo entre esses dois elementos, sob uma visão semântica. A ideia de contraste, – percebida a partir dos dois elementos cotejados – está sempre presente na comparação. Há sempre um elemento comum entre os dois componentes, em relação ao qual eles são comparados. Além disso, a comparação pode constituir-se como sendo de igualdade ou de desigualdade. A desigualdade, desmembrada em dois tipos: superioridade e inferioridade.
Nas estruturas comparativas, além dos elementos em contraste e do elemento comum, é possível identificar o marcador do contraste e o expediente sintático do contraste (que geralmente aparece como uma conjunção comparativa). Embora seja mais freqüente a ocorrência de comparações com somente um elemento comum, é possível também que exista mais de um elemento comum colocado em exame.
A caracterização semântica e sintática das comparativas, assim como a identificação dos elementos que a compõem, pode ser percebida nos dois esquemas a seguir:
(5-2) há uma diferença apenas de grau, um é mais profundo do que o outro [EF POA 278] Esquema:
Elemento comum (padrão): ser profundo (em determinado grau) Elementos em contraste: um/ o outro
Marcador do contraste: mais (desigualdade, com superioridade) Expediente sintático do contraste: do que
34 Feita essa indicação, dispenso-me de citar, a cada momento, a autora no desenvolvimento dessas
Juntura: um mais profundo do que o outro profundo
Hoje em dia se vê mais televisão do que antigamente se ouvia rádio Esquema:
Elemento comum (padrão): ser usuário de um meio de comunicação (em um certo grau) Elementos em contraste: a) hoje em dia/antigamente
b) ver televisão/ ouvir rádio
Marcador do contraste: mais (desigualdade com superioridade) Expediente sintático do contraste: do que
Juntura: ver televisão mais hoje em dia do que ouvir rádio antigamente 35
Devido à presença do elemento comum, posto na base da construção, é possível omitir esse elemento na segunda parte da comparação, como, por exemplo, em ―(5-12) a aula prática é mais interessante do que a aula teórica [DID SSA 231] (= a aula prática é muito mais interessante do que a aula teórica é interessante)‖. À omissão dá-se o nome de elipse; e à parte do texto favorável a elipse chama-se resíduo. Muitas vezes os membros colocados em cotejo em uma comparação não são orações completas, e sim sintagmas ou orações elípticas, até mesmo sem o verbo. Desse modo, pode ocorrer desde elipse parcial até a elipse total da oração comparativa.
A recuperação dos termos elípticos pode ocorrer por meios distintos. Assim, se há elipse somente do elemento comum, a possibilidade de restaurá-lo está condicionada à reativação da estrutura da comparação. Há casos em que outros (ou todos os) elementos do segundo membro sofrem elipse, como ocorre em ―(5-17) E o pavimento em si, que é um pavimento mais espesso, pra aguentar um tráfego mais pesado [D2 SSA 98]‖. Nesses casos, a restauração requer mecanismos mais complexos, e pode remeter ao primeiro membro da comparação, ao texto, à situação e inclusive ao conhecimento compartilhado entre os envolvidos na comunicação. Com isso, esse processo de restituição ocorre de maneira subjetiva e, em alguns casos, há mais de uma possibilidade de resgate dos prováveis elementos elípticos.
A relação hipotática adverbial comparativa é constituída por duas orações: uma oração nuclear, à qual pertence o primeiro termo da comparação (constituinte comparado); e uma comparativa, na qual se encontra o segundo termo de
comparação (constituinte através do qual se realiza a comparação) em relação à oração nuclear.
Considerados os modos de marcação, as comparativas se classificam em correlativas e não-correlativas. O que as diferencia é o fato de que as correlativas possuem uma marca formal tanto no primeiro membro da comparação como no segundo, conforme se vê em ―(5-21) ...foi mais fácil ainda João do que a sua resposta... não é? [EF REC 337]‖. A marca do primeiro membro pode ou não expressar quantidade (de um termo de massa) ou intensidade (de um evento, uma qualidade ou uma circunstância), enquanto a marca do segundo membro é, geralmente, uma conjunção comparativa, marca comum nas relações de hipotaxe 36. Por outro lado, nas estruturas comparativas não-correlativas não há uma marca formal de quantidade ou intensidade na oração nuclear, como em ―(5-25) eu penso como um filósofo inglês [D2 REC 05]‖ e em ―(5-27) as estantes ficam junto das
mesas a gente está sentada tal como aqueles livros BEM agarradinho junto da mesa sabe? [DID SSA 231]‖. Além disso, a oração comparativa não correlativa é introduzida por uma conjunção ou locução conjuntiva que expressa igualdade.
A respeito das relações expressas nas comparações, a classificação se organiza partindo da divisão entre construções correlativas e não correlativas. As comparações estabelecidas por orações correlativas podem expressar igualdade, que se refere a quantidade ou a intensidade, e indicam semelhança entre os elementos postos em cotejo com relação a determinada propriedade. As correlativas também podem expressar desigualdade, que se refere sempre a quantidade, podendo ser de inferioridade ou de superioridade. Por sua vez, as não correlativas expressam sempre igualdade, que pode ser qualitativa ou quantitativa.
O contraste sempre está presente nesse tipo de construção, e ele pode apresentar desde um grau máximo, no caso da polarização (sim/não) (5-42), até um grau bem pouco acentuado (5-43). Nesse intervalo é possível identificar outras classificações de contrastes, por exemplo, o contraste entre o real e o potencial (5- 45), entre um tempo e outro (5-47) e entre um lugar e outro (5-49). Além disso, os marcadores de contraste podem ser intensificados por meio de advérbios (por exemplo: muito e bem) (5-52):
36 Cf. a subseção 2.2.2.3 do segundo capítulo, em que Decat (2001) defende que as relações
hipotáticas adverbiais podem emergir de uma combinação de cláusulas (termo usado pela autora), sem que uma conjunção introduza a cláusula satélite.
(5-42) os vizinhos se comunicam de forma até mais até como cidade do
interior [do que como cidade que não é do interior [do que como cidade que não é do interior] [D2 REC 05]
(5-43) tem meses que a gente anda mais... uns menos [D2 RJ 355]
(5-45) se houvesse mais educação... como há por exemplo na Suécia... [D2 RJ 355]
(5-47) hoje em dia não aparece tanto [filme] como antigamente [DID SP 234]
(5-49) prefiro ir a teatro do que a cinema [DID SP 234] (5-52) vai dar bem mais detalhes [EF RJ 379]
Em sua análise, Neves et al. (2008) expõe uma classificação detalhada dos subtipos de construções comparativas, associando as relações expressas (igualdade e desigualdade), os elementos em contraste em relação ao elemento comum, e também o marcador de contraste e o expediente sintático, conforme o subtipo apresentado. Para exposição dessa classificação, seguem dois quadros com a esquematização desses subtipos, todos eles adaptados de Neves et al. (2008):
CONSTRUÇÕES COMPARATIVAS DE DESIGUALDADE Existência de intensificação ou de
quantificação. Uso de marcador de contraste e expediente sintático. Indivíduos em relação a uma propriedade
Com intensificação do adjetivo ou advérbio.
Sem intensificação do adjetivo ou advérbio. A intensificação pode ocorrer, nesse caso, através de um sufixo, da entoação, ou da ordem.
Intensificação marcada por tão. Uso de como ou
quanto para iniciar o segundo termo:
‗(5-54) parte a carne em pedaços maiores... não tão
grandes como para fazer o bife [DID RJ 328]‘ Como ou tal qual para iniciar o segundo termo: ‗Uma vez, Pernambuco deixará de ser civilizado e progressista tal qual a Europa, mas salvará um homem‘
Propriedades em relação a um ou mais indivíduos Com intensificação relativa das
propriedades.
Sem intensificação relativa das propriedades. Apresenta sentido de soma das duas qualidades.
O primeiro sintagma adjetivo vem precedido de
tão e o segundo de quanto ou como:
„A integração latino-americana é uma realidade tão concreta quanto fecunda‟
Tanto... como/quanto = não só... como também: ‗(5-55) eles apenas assistem aulas... tanto teórica
como prática [DID SSA 231]‘
Indivíduos implicados em um estado de coisas 37
Com quantificação implicada no
cotejo. O primeiro sintagma nominal é quantificado com tanto (concordando com o nome núcleo do
sintagma); e o segundo é precedido por como, ou por quanto (que concorda com o nome núcleo do
Sem quantificação implicada no cotejo. Apresenta sentido de soma dos dois sintagmas nominais
sintagma)
Tanto... como/quanto = não só... como também),
e os elementos tanto e quanto ficam invariáveis.
Circunstantes em relação a um estado de coisas 38
Com quantificação relativa das circunstâncias.
Sem quantificação relativa das circunstâncias. Apresenta sentido de soma dos dois sintagmas adverbiais.
O primeiro sintagma adverbial é intensificado com tão; o segundo é precedido por quanto ou como.
Tanto... como/quanto = não só... mas também.
Predicados em relação a um indivíduo Com comparação quantitativa dos sintagmas verbais.
Com comparação qualitativa dos sintagmas verbais.
A sentença comparativa vem iniciada por tanto
quanto:
‗E elas a atraem tanto quanto a horrorizam‘
A sentença comparativa vem iniciada por do
mesmo modo que:
‗Levamos a nossa arte, a nossa civilização do mesmo
modo que buscamos o que os povos têm de melhor‘.
Predicações (duas sentenças: principal e subordinada) Com intensificação ou quantificação
de algum elemento da sentença principal: normalmente ocorre elipse de termos na segunda sentença. Sem intensificação ou quantificação de algum elemento da sentença principal. Apresenta sentido de adição, indicando igualdade de proporção. A sentença comparativa é anteposta ou posposta, e pode ou não apresentar elipse de algum termo.
Na sentença principal ocorre tão ou tanto; a sentença comparativa se inicia por quanto ou
como:
‗(5-57) a natação... tanto é bom pra saúde quanto pra
defesa [DID SSA 231]‘
Há duas possibilidades de comparação deste tipo:
- Qualitativa, iniciada por como, assim como, tal
qual, tal como(=do mesmo modo que):
‗(5-58) essa possibilidade de:sentir como o outro... de
ver como o outro... de falar como o outro... [EF REC
337]‘
-Quantitativa, iniciada por tanto quanto (na
mesma proporção que):
‗Tanto quanto o comércio da cidade livre, o hospital centralizava as atenções.‘
Quadro 2 - Construções comparativas de igualdade 39
38 Idem.
CONSTRUÇÕES COMPARATIVAS DE DESIGUALDADE
Tipo de desigualdade, marcador de contraste e expediente sintático
Comparação de desigualdade com superioridade quantitativa do 1o termo: a qualidade é
quantificada por mais e o segundo termo da comparação inicia-se por que ou do que. Comparação de desigualdade com inferioridade quantitativa do 1o termo: a qualidade é
quantificada por menos e o segundo termo da comparação inicia-se por que ou do que.
Elementos em
contraste em relação ao elemento comum
Modos de instituição Indivíduos em relação a
uma propriedade. O esquema se constitui assim: 1º sintagma nominal + mais/menos + adjetivo + que/do que + 2º sintagma nominal.
A sentença comparativa apresenta, com frequência, elipse de termos:
‗(5-64) há uma diferença apenas de grau, um é mais profundo do
que o outro [EF POA 278]‘
Propriedades em relação
a um indivíduo. O esquema se constitui assim: mais/menos + 1
o adjetivo +
que/do que + 2o adjetivo:
‗Era um menino pacífico, bem comportado, mais silencioso do que falador‘.
Indivíduos em relação a
um estado de coisas. O quantificador (mais/menos) vem antes do primeiro sintagma ou diretamente antes da conjunção comparativa (que/do que):
‗(5-67) depende mais do cliente do que do candidato [EF RJ 379]‘ ‗Mais que um dispêndio, estudar é um investimento‘.
Circunstantes em relação a um estado de coisas.
O quantificador (mais/menos) vem antes do primeiro sintagma ou diretamente antes da conjunção comparativa (que/do que):
‗Mas essa decadência só é, é, é muito mais no Rio de Janeiro do
que em outras cidades do Brasil, né? [RJ AC 233]‘
‗(5-68) mais do que nunca, é preciso fazer uma análise da
situação [EF POA 278]‘
Predicados em relação a
um indivíduo. O quantificador (mais/menos) vem antes do predicado ou diretamente antes da conjunção comparativa (que/do que):
‗Saquei o 38 e atirei no para-brisa mais para estrunchar o vidro do
que pegar o sujeito‘.
‗(5-69) com a preocupação de (...) fazer parecer que conhecem
efetivamente mais do que conhecem [D2 REC 05]‘
Comparação entre
sentenças. Normalmente há elipse do verbo, podendo ocorrer elipse também de outros termos na sentença comparativa, inclusive de toda a sentença:
‗(5-72) mas ele fala mais do que eu [D2 SSA 98]‘
Quadro 3 - Construções comparativas de desigualdade 40
De acordo com informações já apresentadas nas subseções 2.2.2.2 e 2.2.2.3 do segundo capítulo, que ilustra a fluidez de categorias nas relações expressas pelas construções adverbiais, algumas construções comparativas podem expressar outros valores semânticos além do valor comparativo. As orações comparativas correlativas de igualdade, por exemplo, apresentam nuanças semânticas de adição, o que as aproxima das orações coordenadas aditivas correlativas, como no exemplo já oferecido ‗(5-24) a verdade é que tanto no sexo feminino quanto no masculino há sempre uma produção significante embora pequena mas de hormônio do sexo [EF SSA 49]‘. A diferença consiste em que, nas orações comparativas de igualdade, não há foco na adição, mas sim uma indicação comparativa de igualdade entre os elementos em contraste.
As comparações de igualdade construídas com a conjunção como apresentam, com frequência, indicação de modo: ‗Durmo como um escravo e como
qual um frade (QP)‘. Uma conjunção semelhante a como, mas de uso mais restrito
aos textos literários, é a conjunção qual. Também ocorrem locuções conjuntivas que carregam valor próximo ao de como, por exemplo: assim como, tal como, tal (e) qual, do mesmo modo que, da mesma maneira que, como que. As locuções tanto quanto e tanto como se diferenciam das anteriores por apresentarem um componente quantitativo. Geralmente as construções comparativas que são introduzidas por essas locuções não apresentam nenhuma marca correlativa no termo comparado. No entanto, pode haver marca correlativa no termo comparado dessas construções. Também se percebe a ausência de conjunção dando vez ao emprego de palavras como feito (de comparação de igualdade semelhante à de tal qual e como), igual (que está em processo de gramaticalização como conjunção comparativa) e tipo. Além disso, a entoação figura como importante recurso para valorizar a relação comparativa, o que é fator determinante no exame de produções orais.
A oração comparativa de igualdade pode receber a marca de um elemento hipotético. Essa marca de elemento hipotético alia uma construção condicional à construção comparativa (como se...) e uma eventualidade se revela associada à comparação de dois elementos. Esse tipo de construção é ilustrado em Neves (no
prelo) com a música ―Construção‖ 41 de Chico Buarque, da qual a seguir se extrai, como amostra, a frase: ―Andou daquela vez como se fosse a última‖.
Outras comparações se aproximam, também desde uma perspectiva semântica, às orações coordenadas adversativas. No uso da correlação antes... (do) que, existe a possibilidade da comparação de superioridade sinalizar também uma preferência.
Na língua portuguesa, há algumas construções que apresentam os elementos formais próprios das estruturas comparativas, mas não apresentam o valor semântico da comparação. Na língua espanhola essas estruturas são denominadas (pelos gramáticos consultados neste trabalho) ―estruturas pseudocomparativas‖, e serão expostas na subseção 3.3.1, que se refere às estruturas comparativas do espanhol.
A comparação na qual estão em cotejo indivíduos ou elementos em relação a uma propriedade é a de ocorrência mais frequente. O adjetivo aparece como componente importante no mecanismo comparativo. A superlativização de uma qualidade, por exemplo, pode constituir-se por meio da relativização com um conjunto de elementos que apresentam uma propriedade comum.
Segue-se uma exposição de considerações sobre adjetivos que é de extrema relevância para o entendimento dos mecanismos comparativos.