Del 3: Forslag til ombygning av casebygg
3.5 Forsterkning av bæresystem i Ferdigvarelageret
Percebe-se entre as pesquisas sobre a história da Engenharia brasileira que ao deparar- se com os conceitos de técnica e tecnologia, há uma dificuldade em distingui-los. No entanto, são conceitos fundamentais para se entender a base sobre a qual os engenheiros profissionalizaram-se. Entre os principais autores brasileiros que tratam deste debate, salienta- se Milton Vargas e Ruy Gama. São eles que embasam os mais recentes estudos sobre instituições de engenharia e que abordam os conceitos.
O primeiro deles explica técnica e tecnologia vinculadas à engenharia, e de forma muito semelhante ao pensamento de Krick (op. cit.), já abordado anteriormente. Para Vargas (apud MAZA, 2002, p. 66)27, técnica é o “saber fazer”, este aprendido através de
conhecimentos adquiridos pela prática ou pelo estudo de tratados técnicos, não da teoria. Ele esclarece que a técnica é tão antiga quanto à humanidade e que os fortes, as cidades e as igrejas construídas durante a Colônia atestam a existência de técnica no Brasil. Porém, ela não implicou necessariamente no uso da tecnologia, pois esta só surgiu, segundo ele, no século XVII, quando houve a percepção das leis científicas. No Brasil, isto ocorreria de forma mais enfática no final do século XIX, quando se introduziram as disciplinas de aplicação nas primeiras Escolas de Engenharia do país. Assim, a tecnologia seria a simbiose entre a Ciência (teoria) e a técnica, ou seja, refere-se “à solução de problemas técnicos por meio de teorias, métodos e processos científicos” (op. cit., p. 66).
Ruy Gama (1987, p. 29), por sua vez, afirma que a visão de Vargas torna “[...] implícita a ideia de precedência da ciência em relação à técnica, pois a ciência teria assim dado o impulso que transformou a técnica em tecnologia". Para ele, a tecnologia não é uma sofisticação da técnica, e uma não exclui a outra. A tecnologia seria, para Gama, uma “ciência que revela os mistérios do trabalho” (op. cit., p. 205-208).
Ao se mergulhar nas aporias dos conceitos (PALTI, 2007), podem-se perceber as problemáticas que os circundam. No caso de tecnologia, a dificuldade reside nas mudanças que ela sofre com o tempo, visto que o que em uma época é considerado um avanço tecnológico, em outra época torna-se obsoleto. Por isso, recorre-se ao significado original das palavras: técnica vem do grego ‘techné’, que significa fabricar ou produzir e de ‘teuchos’ que significa ferramenta, instrumento. Já tecnologia seria a junção do termo ‘techné’, e ‘logus’, que significa razão. Logo, tecnologia seria a razão do saber fazer, o estudo da técnica.
Em sua tese de doutorado, Fabio Maza (op. cit.) analisa técnica e tecnologia a partir de três autores principais: Shozo Montoyama, e os já abordados, Milton Vargas e Ruy Gama. Para ele, a técnica passou a ser mais importante no processo econômico moderno porque, associada à ciência, contribuiu decididamente para o processo industrial. Assim, cada vez mais a ciência ingressava na esfera direta das forças produtivas. Sobre tecnologia, baseia-se em Motoyama, entendendo que ela deve sempre ser pensada a partir de suas relações com o desenvolvimento econômico. Sobre técnica, ciência e tecnologia, complementa:
O critério de verdade para técnica é difícil de ser determinado, pois “seus produtos não são sentenças, mas objetos”. Técnica e seus resultados “servem para”, implicando um valor utilitário. Já a Ciência deve se debruçar entre o falso ou o verdadeiro. Isto é possível através da utilização de método concebido de acordo com a teoria. O critério de verdade da Ciência passou à tecnologia, acrescentando-se “a condição de utilidade comprovada” (Ibid., p. 67).
Porém, diz que na obra de Roberto Simonsen28, objeto de seu estudo, não há como se
dar uma definição precisa do que é técnica ou tecnologia, pois parecem confundir-se. Sendo assim, afirma que o termo que englobaria mais significados e mais apropriado para ser usado em sua análise seria o de “assistência técnica”.
Outra tese que é possível analisar no que diz respeito aos conceitos tratados é a de Vânia Cury (op. cit.), que estuda a ação organizada dos engenheiros do Clube de Engenharia na gestão de Paulo de Frontin, engenheiro já tratado no presente texto, e a consolidação posição política daqueles profissionais nas primeiras décadas do século XX. Para ela, a difusão do saber das ciências naturais nos séculos XVII e XVIII junto à produção de meios eficazes de explorar o mundo natural, associada à criação de riqueza e à industrialização, mobilizou as instâncias políticas a estimularem as ciências e as novas tecnologias. Junto a isso, criou-se o que ela chama de ideologia do progresso. Neste contexto, os engenheiros preparavam-se para atuar em todos os campos que sua formação profissional permitisse e o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro teria sido criado, então, para ser um centro de referência em matérias de ciência e tecnologia e consolidar a posição dos profissionais naquela conjuntura. Assim, a agremiação associava engenharia e indústria – considerando esta última como toda atividade realizada no campo material da sociedade (comércio, manufaturas e agricultura) – e os engenheiros eram os profissionais capazes de estar à frente de todos estes empreendimentos.
Conforme Cury, a revolução científica marcou a passagem da técnica para a tecnologia. Se inicialmente a técnica era marcada pela experiência artesanal e ensinada, principalmente, de modo informal, a partir do século XVIII ela aproximou-se dos procedimentos científicos, até que no século XIX, os artesãos fossem substituídos por
28 Engenheiro civil, diplomado pela Escola Politécnica de São Paulo, em 1909. Em 1912, foi Chefe da Diretoria
Geral da Prefeitura de Santos, e logo depois deixou o cargo para fundar a Companhia Construtora de Santos, empresa que realizou grandes obras na cidade, incluindo o setor de planejamento urbano. Investiu também na indústria. Fez parte da primeira diretoria do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), como vice- presidente. Criou, em São Paulo, o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) e presidiu o Instituto de Engenharia de São Paulo. Participou ativamente do Movimento Constitucionalista de São Paulo, e com a derrota, exilou-se por um mês em Buenos Aires. Foi Deputado Classista – SP, eleito em 1933, Presidente da Confederação Industrial do Brasil (CIB), e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Trabalhou em órgãos técnicos governamentais ligados ao desenvolvimento das atividades econômicas, durante o Estado Novo. Em 1947, elegeu-se Senador por São Paulo. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1948. (ABREU, 2001).
cientistas profissionais. Logo, o conhecimento passou a ser transmitido em especial pela academia, e se até então a engenharia era voltada para fins militares, naquele momento passou a ser um ramo especializado do conhecimento, destacando-se significativamente no rol das novas ciências. Do mesmo modo, o progresso estaria ligado à primazia da técnica, sendo os engenheiros – neste caso, os do Clube de Engenharia – aqueles capazes de organizar um projeto de desenvolvimento para o país.
Na análise sobre Simonsen, Maza também indica este papel assumindo pelos engenheiros. Em seu caso, mostra a proximidade do pensamento de Simonsen com o Positivismo, embora não se pudesse afirmar que o empresário fosse positivista. Porém, o historiador mostra como seus discursos estavam atrelados à teoria, especialmente vendo-se o positivismo como uma doutrina da modernização brasileira. Identificou esta aproximação pela sintonia dos discursos de Simonsen com algumas ideias de Augusto Comte, tais como: crédito dado à ciência, elevação do engenheiro à vanguarda do progresso, crítica ao discurso bacharelesco opondo-lhe o discurso científico e o antiliberalismo.29 Neste discurso científico,
de caráter positivista e evolucionista, a economia mover-se-ia por leis naturais, e o papel dos técnicos seria o de descobrir estas leis para melhor servirem à indústria. Portanto, tecnologia seria sinônimo de ciência aplicada à indústria, e o planejamento econômico seria o elemento fundamental no processo de industrialização. Neste processo, a ciência e a técnica moderna seriam as fornecedoras dos elementos para delinear a industrialização. Em síntese, a ciência (evolucionista) e/ou a tecnologia seriam os elementos fundamentais para a industrialização brasileira, e esta – impulsionada e comandada por uma elite técnica na qual os engenheiros estariam na vanguarda – seria o fator necessário para se superar o atraso brasileiro.
Deste modo, ambos os autores citados abordam a discussão em torno do projeto de país defendido pelos engenheiros, e como a ciência, a técnica e a tecnologia seriam usadas para a organização deste projeto. Mas mais do que isto, estes aspectos que segundo seus próprios discursos, os diferenciavam de outros grupos e os habilitavam a executarem um plano modernizador vai ao encontro dos interesses e necessidades de validar e significar suas atividades, suas atuações. Enfim, a profissão que estava se delineando.
Assim sendo, os campos profissionais podem ser caracterizados como a estruturação de um modo particular de apropriação do capital cultural, que cria sua própria lógica de reprodução e garante, desse modo, o controle sobre a capacidade de definir os critérios de organização e os princípios de hierarquização desses grupos. (CURY, op. cit., p. 35).
Para a autora, os engenheiros usaram o saber científico como uma marca de distinção de outros grupos, o que os projetou de forma distinta dentro da estrutura social, pois como uma categoria profissional especializada, eles teriam direitos e privilégios diferenciais. Isto está ligado à necessidade dos profissionais, na época, em legitimarem a profissão, como já assinalou Maria Ligia de Oliveira Barbosa (1993, p. 233):
[...] todos eles fazem referência à engenharia como ciência e ao seu trabalho sempre comparam o do cientista – com alguma ponta de inveja. Para eles é muito importante separar CIÊNCIA de TÉCNICA numa clivagem que grosseiramente poderíamos associar a PENSAMENTO e EXECUÇÃO MANUAL. As origens da profissão, que teve que lutar contra o preconceito que estigmatizava o trabalho manual e todos que lhe eram próximos, reavivam-se nesta busca de mostrar o caráter científico, mental, conceptivo, da atividade do engenheiro.
Logo, o pensamento científico se tornou uma forma privilegiada de se conceber o mundo, o que o tornou atraente e seduziu os engenheiros; afinal, com a rejeição às atividades técnicas e manuais, precisava-se construir uma profissão a partir do trabalho intelectual.
Percebe-se isto também, quando em 1905, durante o discurso de formatura da Escola Politécnica de São Paulo, Alexandre Albuquerque30 (1905, apud CERASOLI, 1998, p. 7),
orador da turma, refere-se aos colegas como “armados cavaleiros da Grande Cruzada”, em razão da atuação transformadora que estes profissionais teriam na sociedade. Ao analisarem- se discursos e relatos de professores ou dirigentes da EEPA, as semelhanças em relação à Politécnica de São Paulo ficam evidenciadas, afinal, aos engenheiros são atribuídas as funções de industrializar e fazer progredir o país. Ao falar sobre o quadro administrativo formado por engenheiros que não recebiam remuneração para exercerem suas atividades, o secretário do estabelecimento gaúcho diz que “[...] quando por qualquer motivo deixarem-na levarão consigo apenas a satisfação intima de haverem doptado a pátria com um instituto de instrucção superior de tal magnitude”.31 Por conseguinte, a “Grande Cruzada” seria, naquela
visão, construir uma nação desenvolvida, baseada na ciência, na tecnologia e na técnica. E naquela perspectiva, esta “cruzada” só poderia ser realizada pelos engenheiros. Quando fala no crescente número de engenheiros nos Estados Unidos, Gilberto Freyre argumenta que a cientificização das indústrias exigiu maior número de profissionais e que para a indústria crescer precisava-se que se desenvolvessem laboratórios de pesquisa, “juntando-se assim à figura do engenheiro prático a do engenheiro pesquisador” (op. cit., p. 51). Destarte, foi a Ciência sendo usada para solucionar problemas industriais – fossem eles da iniciativa privada
30ALBURQUERQUE, Alexandre. Discurso. Revista Polytechnica, São Paulo, nº 05, p. 368, 1905.
ou de obras públicas – o que deu início à figura do engenheiro com seu contorno moderno. Isto significa que para a solução de tais problemas industriais seria necessário tanto o trabalho manual quanto o trabalho de pesquisa, científico.
Portanto, pode-se afirmar que as ideias de tecnologia, ciência e técnica foram fundamentais na construção da engenharia enquanto profissão. Técnica e ciência, sobretudo, eram seguidamente citadas em discursos, relatórios, na imprensa, como se poderá perceber também no terceiro capítulo quando se analisará o caso da EEPA. Entende-se, assim, que não se possam colocar os conceitos de técnica e tecnologia em uma escala gradativa, criando-se dualismo entre os conceitos. Nesta visão, a técnica estaria ligada a uma forma arcaica, já que se relacionaria apenas às atividades práticas, enquanto que a tecnologia vincular-se-ia à modernidade, pois estaria baseada no conhecimento científico.
Hoje, ao recorrer ao dicionário e procurar os significados de técnica e tecnologia não se encontram diferenças significativas com aquilo que os autores estudados apresentaram. Técnica seria o “conjunto de métodos e processos de uma arte ou de uma profissão: técnica cirúrgica./ P. ext. Maneira (hábil) de agir, método.” E Tecnologia, o “estudo dos instrumentos, processos e métodos empregados nos diversos ramos industriais” (referência). Por isso, entende-se que a tecnologia não pode ser vinculada apenas aos estudos científicos. Para Veraszto (2008, p. 78), por exemplo:
O conhecimento tecnológico é o conhecimento de como fazer, saber fazer e improvisar soluções, e não apenas um conhecimento generalizado embasado cientificamente. Para a tecnologia é preciso conhecer aquilo que é necessário para solucionar problemas práticos (saber fazer para quê), e assim, desenvolver artefatos que serão usados, mas sem deixar de lado todo o aspecto sociocultural em que o problema está inserido.
Os engenheiros apropriaram-se da ciência para se legitimarem diante dos mestres de obras e do desprestígio das profissões técnicas, manuais. Assim, atribuir características científicas à Engenharia era uma forma de significá-la, de atribuir-lhe funções importantes. Com isso, é possível entender o uso destes conceitos pelos engenheiros nas primeiras décadas do século XX, quando reproduziam e repetiam seguidamente ciência, técnica e tecnologia, quase que como uma coisa só. Eram fatores essenciais para o progresso do país, um associado ao outro. Assim, se a técnica era o saber fazer, a tecnologia era entender como se faz. Portanto, ao engenheiro moderno cabia saber fazer (técnica), dominar os pressupostos científicos (ciência), e saber o porquê fazer (tecnologia). Embasados nisto, e inseridos em um contexto no qual o conhecimento específico que possuíam passou a ser cada vez mais
importante, inclusive para o próprio estado ─ devido ao crescimento econômico e a demanda das transformações urbanas e industriais ─ os engenheiros caminham, na virada do século XIX para o XX, ao encontro da profissionalização de suas atividades.