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Se a menina sofre com certas proibições impostas pelo círculo familiar, a adolescente irá sofrer ainda maiores limitações, que a impedem de expandir-se, socialmente, com relação ao sexo oposto e, culturalmente, com relação a livros e a sua vocação teatral. Submetida a uma grande vigilância por parte dos pais, preceptoras e tias, as excursões e visitas fora da casa são regulamentadas com severidade:

En estas casas grandes, solían invitar a grupos de chicas para que tomaran el té con masitas y merengues de chantilly y bailaran. No asistían los varones. No se estilaba esa clase de mezclas. O si se toleraban era rara vez, porque el o los hermanos estaban ahí y no se los iba a echar. (T II, 162)

A amizade com rapazes, até mesmo com os que pertenciam ao mesmo grupo

social, era considerada perigosa e, portanto, proibida. Os docinhos funcionavam como substitutos dos jovens do sexo oposto; os prazeres sensuais do paladar eram permitidos para esconder o apetite criado pelo despertar do sexo, que era reprimido. Somente era

possível infringir as regras através de olhares furtivos, que passavam despercebidos dos adultos ou, então, com a ajuda de algum conspirador secreto. Pouco a pouco, a dissimulação e a falsificação vão sendo estabelecidas como meios de alcançar o proibido; é possível, por exemplo, colocar no dormitório a foto de Jeanne d’Arc em cuja fisionomia Ocampo pode admirar os traços do rapaz que a atraía.

Tampoco era permitido jugar seguido al golf con la misma persona. En los bailes, se prohibían igualmente las “temporadas” a menos que fuera en vísperas de un “compromiso”. La “temporada”significaba darle dos o tres piezas seguidas al mismo muchacho... (AUT. II, 164) A menudo me llamaban al orden, me amenazaban con suprimir el golf, me sacaban temprano de un baile porque durante dos piezas me lo pasaba conversando, sentada en una silla, con mi compañero sentado en otra silla, en medio de cincuenta espectadores... En cuanto a las comidas, habían cortado por lo sano: no nos dejaban ir, o rara vez. (AUT. II, 164)

O espaço fechado em que era permitido mover-se diminuía ainda mais por

restringir, não somente a mobilidade, mas, também, a liberdade de palavra: sua conversação era vigiada porque a linguagem poderia dar ensejo a que fosse cometida alguma impropriedade. Proibir-lhe o uso da palavra e mantê-la em casa era ocultá-la como se fosse um segredo, um enigma. Em certas ocasiões, nas quais era impossível impedir que a jovem cruzasse com outros jovens, a comunicação era feita sob controle:

Hoy vi a Jérome en la calle. También vi a H. y C.B. Siempre en la calle le recibo en la calle. Mi sala es la calle. Pero claro que no hablo con nadie. (AUT.2, 211) Na rua,

lugar público e em casa, no lugar ao qual se referia “mi sala” eram onde podia ter certos encontros pessoais fugazes, mas a sociedade também ali imperava ali a palavra se torna pública, era escutada pelos outros, pelos que emitem juízos.

A narradora acusa e julga as regras às quais é submetida, detendo-se em certas

denúncias, porque, com elas, justifica e confessa um de seus grandes erros posteriores, o casamento, e, também, por que ilustra as grandes diferenças que separam a educação dos homens e das mulheres. Porém, ainda que expondo, amplamente, seu ponto de vista, o personagem não possuia nenhuma voz ativa que lhe permitisse defender-se ou romper os códigos aos quais uma mulher da classe alta deveria submeter-se.

A palavra tem aqui um sentido muito restrito porque, na época à qual o texto se refere, distinguir-se correspondia a aceitar as regras que limitavam o comportamento,

quando no presente quer dizer fazer-se notar, fazer-se ver como sendo “diferente”, empregar uma linguagem própria.

A rebeldia, que aparece nas cartas dirigidas a sua amiga Delfina Bunge, era a única válvula de escape possível e coexistiam com a voz silenciada com a qual aceitava a dominação da família.

Privada da oportunidade de freqüentar a escola, sua instrução estava a cargo de

preceptoras que lhe davam aulas em casa. Ocampo a completava sua formação pela leitura, às escondidas, de certos livros:

Lo malo era que no podía ir a una librería a comprar cualquier libro que me interesara, como lo hacía Ricardo [Güiraldes]. Muchísimos libros estaban en el índex casero. Algunos de manera incomprensible, puesto que no se trataba de pasiones amorosas... Ejemplo de esta censura sin motivos aparentes fue el secuestro de mi ejemplar de De Profundis (Oscar Wilde) encontrado por mi madre debajo de mi colchón, en el Hotel Majestic. (AUT. II, 183)

Os livros ameaçavam contaminar a “preciosa” linguagem controlada. As regras

familiares não cediam nem mesmo quando a família estava fora do país; eram transportadas nas viagens; mudar de local não significava uma alteração de códigos. Retrospectivamente, tanta vigilância e censura a levavam a considerar-se como vítima e comparar sua casa com a de Bernardo Alba, de Ibsen. Casa de preconceitos incompreensíveis, de regras e códigos, de linguagens estranhas que devia assumir. A imagem da casa, para Ocampo, era a de uma prisão dourada.

Sempre em busca de um lugar próprio, no qual as regras correspondessem ao seu

eu, e em que pudesse ser, enfim, senhora de uma linguagem apropriada a sua pessoa,

Ocampo se casa na crença de conseguir, enfim, o que deseja. Porém, romper com os códigos que lhe haviam legado, não era tarefa fácil: ela fora adestrada para continuar com a tradição, e, por isso, não encontrava o lugar que buscava no novo local que a rodeava. Com o casamento passou da casa de seus pais para a casa do marido que lhe pertencia ainda menos. Comparando-se com Mme. de Staël escreve:

Yo pensé en el suicidio, aunque sin amenazar ni confiarle a nadie mi proyecto. Mi desaparición no tenía forma de chantaje, como la de Mme. de Staël. Era el simple huir de un

mundo donde no encontraba postura y donde la única puerta abierta parecía ser la de mi muerte. (AUT II, 263)

Entretanto, ela simula aceitar as regras tradicionais, nada deixando transparecer.

Mas as restrições só servem para aumentar sua vontade de se liberar. Rapidamente seu próprio eu a faz conhecer mensagens muito mais complexas do que as permitidas em seu meio. As tensões a que era submetida puxavam seu eu em sentidos diversos fazendo com que ela oscilasse entre a aceitação e a recusa. Colocar-se no local que considerava seu, suporia uma mudança para fora do seu círculo social e a colocaria num lugar marginal, ou seja, na periferia.