A análise do material empírico de uma investigação científica está condicionada à natureza dos dados. Os dados qualitativos são de origem não numérica e aparecem na forma de palavras, narrativas e tabelas com sentenças verbais ou informações de textos categorizados. A técnica utilizada para se estudar e analisar uma comunicação de maneira objetiva e sistemática é a análise de conteúdo, que busca a essência de um texto nos detalhes das informações, dados e evidências trabalhando com o texto em si e com os detalhes do contexto. (MARTINS; THEÓPHILO, 2009, p. 98; SOUZA JR et al., 2010, p. 34).
A análise de conteúdo é definida como um conjunto de procedimentos para realizar inferências válidas a partir de textos, podendo ser sobre o emissor da mensagem, sobre a própria mensagem ou sobre o receptor da mensagem. As regras dos processos de inferência variam de acordo com o referencial teórico e os propósitos da pesquisa (WEBER, 1990, p. 9; MARTINS; THEÓPHILO, 2009, p. 99).
A análise de conteúdo ainda utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdos, sendo amplamente utilizada nas ciências sociais e aplicada onde o processo de análise implica em categorizações (VERGARA, 2008, p. 16; BARDIN, 2011, p. 48).
Segundo Martins e Theóphilo (2009, p. 99) e Bardin (2011, p. 125-131) a análise de conteúdo compreende três etapas de forma cronológica: a pré-análise, que compreende a coleta e organização do material a ser analisado; a descrição analítica do material, que compreende a codificação, decomposição e enumeração em função de regras previamente formuladas onde os dados são transformados a fim de se atingir uma representação do
conteúdo; e, por fim, a interpretação inferencial onde os conteúdos são revelados em função do propósito do estudo.
Schreier (2012, p. 59) afirmou que a análise de conteúdo responsabiliza o pesquisador no sentido de focalizar os aspectos-chave do material, alguns dos quais compreendem parte do problema de pesquisa. As categorias de análise são definidas antes da elaboração dos indicadores do objeto de estudo, destacando-se numa temática sintética (SOUZA JR et al., 2010). E, segundo Bardin (2011, p. 147), o critério de categorização pode ser semântico (categorias temáticas), sintático (verbos e adjetivos), léxico (segundo o sentido) e expressivo (segundo perturbações da linguagem).
Para fins desta dissertação, as categorias foram definidas segundo o modelo de orientação semântica. As dimensões de análise foram identificadas a priori, a partir da revisão da literatura. No entanto, a pesquisadora pôde modificá-las em função do que emergiu da análise das provas da realidade.
Após a categorização a autora desta dissertação analisou cada material produzido pelos estudantes em sala de aula, na disciplina EAD-672, além das pesquisas aplicadas individuais.
Laville e Dionne (1999, p.227) especificaram que um pesquisador normalmente pode recorrer a três tipos de estratégias de intepretação qualitativas:
a) Emparelhamento: consiste em associar dados recolhidos a um modelo teórico, com a intenção de compará-los;
b) Análise histórica: o pesquisador se baseia em um quadro teórico para elaborar um roteiro sobre a evolução do fenômeno ou da situação em estudo, fazendo previsões e analisando dados, e submetendo-os à prova da realidade; e
c) Construção de uma explicação: o pesquisador elabora uma explicação lógica do fenômeno, examinando as categorias e as unidades de sentido, relacionando-as.
O Quadro 13 sumariza as categorias de análise construídas com base no referencial teórico para esta investigação científica, sendo desdobradas em subcategorias ou códigos:
Quadro 13 – Categorias e subcategorias de análise (Apêndice A) Pensamento Científico (SALOMON, 2010) Categorias (Famílias de Códigos) (BORGES, 1996; MORAES, 2003) Subcategorias -Indícios (Códigos) Subcategorias - Evidências (Códigos) Questionamento NÍVEL 6 – APLICAÇÃO PRÁTICA E TRANFORMAÇÃO (VE) Criando
(além das regras do simulador)
- Observações
da monitora - Relatos na pesquisa aplicada individual - Resumos incompletos e completos da pesquisa aplicada individual - Insights e questionamentos na pesquisa aplicada individual
- Projetos de inovação NÍVEL 5 –
(RE)CONSTRUÇÃO SEM FIM (VI)
Avaliando
(fundamentação conceitual, discussão dos resultados com base nas teorias e objetivo da
pesquisa)
- Observações da monitora
- Relatos na pesquisa aplicada individual
- Enquetes e desempenhos da TIR - Teorias e discussões Problematização NÍVEL 4 – INVESTIGAR E RESOLVER PROBLEMAS (VI) Analisando (resultados e problema de pesquisa) - Observações
da monitora - Relatos na pesquisa aplicada individual - Problemas e objetivos de pesquisa - Formulários de decisão – resultados do trimestre anterior e justificativa das decisões
- Relatórios trimestrais (projetados na tela e impressos em papel)
NÍVEL 3 – PRODUÇÃO COLETIVA (VE) Aplicando (conceitos de Administração na tomada de decisão) - Observações
da monitora - Relatos na pesquisa aplicada individual - Formulários de decisão (discussão, preenchimento e assinatura)
- Formulários de análise anual
Descoberta NÍVEL 2 – CONJUNTO DE TEORIAS E CONHECIMENTOS (VI) Compreendendo (funções gerenciais) - Observações
da monitora - Relatos na pesquisa aplicada individual - Critérios de atribuição da área - Planos de gestão e formulários de decisão (coerências e incoerências) - Resumos dos capítulos
NÍVEL 1 – PROCESSO METÓDICO (VI)
Recordando
(regras econômicas e templates)
- Observações da monitora
- Relatos na pesquisa aplicada individual
- Acertos e erros de preenchimento dos formulários
- Leituras dos capítulos
- Uso de Templates (material de apoio)
Legenda: VI – visão internalista; VE – visão externalista FONTE: AUTORA DESTA PESQUISA
Os materiais produzidos no andamento da disciplina EAD-672 foram avaliados no final do primeiro semestre letivo de 2014, com o uso do material de apoio desenvolvido pelo professor. Durante a análise dos relatórios de pesquisa aplicada foi preenchida uma planilha
de apoio informando o tipo de estudo científico, área funcional e acompanhamento das tarefas entregues por cada estudante, além da frequência em sala de aula.
Foram analisadas detalhadamente a presença ou a ausência dos elementos predefinidos do relatório individual de pesquisa aplicada, tais como: problema de pesquisa, objetivos, método, resultados e discussão, conclusão e referências.
A autora desta dissertação analisou o conteúdo de 110 relatórios individuais de pesquisa aplicada, produzidos pelos estudantes, das turmas 1 e 2 da disciplina EAD-672, da FEA/USP/SP, levando-se em conta os seguintes elementos e suas definições operacionais, apresentados no Quadro 14:
Quadro 14 – Definições operacionais dos elementos presentes no relatório de pesquisa aplicada individual
Elementos presentes Definições operacionais
Resumo com todos os
elementos Problema e objetivos, referencial teórico, método de pesquisa, principal resultado (para dentro) e principal conclusão (para fora). Problema de pesquisa e
objetivos
Conflito organizacional ou dilema a ser examinado, devendo ser informados na forma de objetivos, questões ou problema de pesquisa.
Referencial teórico Conceito 1 - Revisão de literatura acadêmica (modelo de gestão); conceito 2 - literatura empresarial (casos de sucesso e fracasso) e conceito 3 – literatura acadêmico-empresarial (temas transversais como sustentabilidade, política e cidadania).
Método de pesquisa Procedimentos de pesquisa e a forma pela qual os dados foram coletados e analisados (estudo de caso, experimento e testes de hipóteses).
Instrumentos de coleta de dados
Formulários de decisão, relatórios trimestrais, questionários e entrevistas.
Descrição do experimento Vivência em sala de aula e encadeamento semanal. Análise descritiva dos dados
e discussão dos resultados Dados primários coletados e apresentados em tabelas, quadros ou figuras e discussão dos resultados com base na teoria do referencial teórico dos conceitos 1, 2 e 3.
Considerações finais – conclusões, limitações e
proposição para novos estudos
Consequências e benefícios para as empresas reais, para a academia e para os leitores; restrições e limitações de escopo e da base de dados do laboratório; avanços e possíveis estudos a explorar no futuro.
Referências Fontes consultadas, segundo a norma ABNT (local: editora, ano). FONTE: SAUAIA (2014b)
4. ANALISE DESCRITIVA DOS DADOS E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Este capítulo compreende a análise descritiva dos dados e a discussão dos resultados do cronograma e planejamento da disciplina EAD-672, do curso de graduação de Administração da FEA/USP/SP, objeto desta investigação, ou seja, a visão do professor; da programação das atividades da disciplina EAD-672 com o plano de tarefas dos estudantes, ou seja, a visão dos estudantes; das atividades-chave do Laboratório de Gestão; das observações
feitas em sala de aula, no primeiro semestre 2014, para identificação dos indícios (aspectos subjetivos); e, por fim, a análise de conteúdo dos relatórios de pesquisa aplicada individual para identificação das evidências (aspectos objetivos) da prática dos diferentes níveis de complexidade do pensamento científico, ou seja, a visão da monitora da disciplina.