9.6 Artsserie 5 – Finansutgifter mv
9.6.2 Forklaringer til artene 500 til 590
A teoria do discurso estava tomada no fantasma
da “articulação”. O retorno às disciplinas é um
retorno ao real. A análise do discurso devia sair de seu fechamento, se confrontar com outras
disciplinas, “por-se à prova”.
Denise Maldidier
Cortez e Xavier (2003) realizaram um interessante projeto de divulgação da Linguística no Brasil. A ideia dos autores, basicamente, se fundamentava em entrevistar renomados linguistas brasileiros, oriundos de diversas correntes de pesquisa, indagando-os
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Para uma crítica dos aportes teóricos da Psicologia no âmbito da AD e para uma discussão mais detida sobre a incorporação dos pressupostos da Psicanálise lacaniana no intuito de desconstruir o sujeito psicológico, consultar Foucault (2002), Herbert (2011), Gadet, Haroche, Henry e Pêcheux (2011) e Pêcheux (2011b).
com as mesmas questões. A escolha dos temas debatidos procurava contemplar os principais assuntos de interesse para a área, abordando problemas polêmicos como as definições de língua e Linguística, as suas relações com a linguagem, o pensamento, a sociedade, a cultura e a educação e os desafios do campo para o século XXI. Ao todo, foram dez questões direcionadas a dezoito pesquisadores.
Dentre as respostas dos autores, um aspecto nos chamou mais a atenção. Um número significativo deles ressaltou, para a pergunta “quais os desafios para a Linguística no século XXI?”, a necessidade de se aproximarem os distintos escopos teóricos dessa área para produzir investigações mais interdisciplinares, possibilitando a obtenção de resultados mais complexos para o desvendamento da linguagem humana. Dessa forma, segundo pensam, seria possível diminuir a rigidez das divisões entre as áreas, as quais põem as diferentes linhas de pesquisa em maior ou menor proximidade com as concepções de “ciência dura” ou de “ciência leve”, definidas pelo maior ou menor uso de metodologias experimentais.
Em seus últimos anos de vida, Foucault acabou por impulsionar algumas mudanças no direcionamento de suas pesquisas, nas quais se pôde perceber o ressurgimento do sujeito em sua obra, apontando para uma aproximação com a Hermenêutica de Ricoeur, frequentemente criticada pelo autor. Para Foucault, esse domínio representava a insistência de uma epistemologia fenomenológica do sujeito resistente à dispersão histórica dessa categoria em pleno século XX. Tal reaproximação, contudo, não buscava retornar ao “eu-essência”, mas questionar a intencionalidade ética dos sujeitos ao pensarem sobre si mesmos, sobre os “cuidados de si”. Trabalhada no âmbito da experiência singular, tal intencionalidade ética torna-se possível pelas condições de exercício da liberdade quando imersos em uma estrutura (DOSSE, 2001). Nesse momento da sua produção teórica, o “outro” parece passar a um plano secundário, a respeito do qual o filósofo salienta: “Não se deve dar primazia à preocupação com os outros em relação à preocupação conosco”; e complementa: “a preocupação consigo mesmo é eticamente primordial, uma vez que a relação de cada um consigo mesmo é ontologicamente primordial” (FOUCAULT apud DOSSE, 2001, p. 235).
Consoante Dosse (2001), a morte de Foucault nos impediu de ver os desdobramentos de sua aproximação com o “eu” em sua autoconstituição (ontológica) dialógica, responsável por revelar os novos deslocamentos teóricos que, provavelmente, o aproximariam do quadro teórico de Ricoeur. Para nós, os redirecionamentos da perspectiva foucaultiana demonstram, de certa forma, o quanto as questões epistemológicas são transversais, à medida que as pesquisas podem demonstrar caminhos que possam pressionar pelo redelineamento do quadro teórico utilizado e de seus instrumentos analíticos. Valorizá-las pode induzir as diversas
correntes a se aproximarem, fundando pontos de inflexões nos seus posicionamentos, ainda que irredutíveis entre si.
Japiassu (1976) discorre sobre o quão danoso tem sido para as Ciências Humanas consolidar acriticamente divisões arbitrárias. Consoante o filósofo, em “Maio de 68” já se demonstrava o quanto a sociedade ocidental, em especial, a francesa, sinalizava o esgotamento desse modelo de produção do saber. Para ele, a interdisciplinaridade tornara-se o meio mais viável para superar a extrema especialização da produção científica, que sofria de um processo de “patologização do saber”. Segundo o autor, é imperativo que as diferentes subdivisões do conhecimento se aproximem com o propósito de, na medida do possível, avaliar as questões e as respostas comuns a que temos chegado depois de décadas de institucionalização do conhecimento.
A formação de bases mais sólidas e transdisciplinares (estágio mais complexo do que o interdisciplinar), teoricamente, possibilitaria avanços mais consistentes para o desvelamento da complexa realidade, que, embora inacessível em sua totalidade, é produto da inter-relação de diversas instâncias. Contudo, o filósofo brasileiro não propõe, ao modo da Física, uma “teoria da unificação”, como se fosse possível reduzir a linguagem a bases axiomáticas ou algorítmicas. Tratando-se do ser humano e de suas culturas, entende-se que a sociedade é fragmentária e que a linguagem e o sentido são constituídos na concretude das relações, tornando-se, em vista disso, inacessíveis em sua totalidade.
Bourdieu (2008), analisando as limitações da linguística saussuriana, centrada na abstração do código, estima a necessidade de analisar a língua em meio aos habitus e aos mercados linguísticos para se entenderem as singularidades conjunturais dos discursos, postos em práticas por sujeitos históricos pertencentes a culturas particulares e imbuídos dos valores simbólicos das práticas sociais nas quais se engajam. Para o autor, o trato com a competência linguística em termos abstratos gera erros e fracassos nas análises da língua, por vezes, “compensados” pelos usos, conscientes e inconscientes, de categorias sociais pertencentes à Sociologia. Em vista disso, no seu dizer, surge uma espécie de “Sociologia espontânea”, importada por linguistas estruturalistas no afã de superar as limitações de suas análises, restritas aos códigos.
Apesar de existirem diferenças marcantes entre as perspectivas de Bourdieu (2008) e a da análise do discurso que adotamos, centradas na disparidade entre o viés pragmático (o sociólogo define a sua abordagem como “Pragmática discursiva”), para a primeira, e a historicidade radical, para a segunda – além da óbvia diferença de o viés de Bourdieu (2008) se constituir na Sociologia rumo à Linguística e a nossa perspectiva surgir no campo da
Linguística em direção à História –, o que nos interessa é avaliar como, reconhecidos os limites da análise formal da língua, o autor se propõe a, metodologicamente, se apropriar das discussões e referenciais de outra área para trabalhá-los adequadamente na conformação da sua perspectiva, buscando evitar, com isso, se valer de uma espécie de “Linguística espontânea”. Reconhecidas as restrições de seu campo de estudos, o autor se abre para os diálogos necessários no intuito de engrandecer teoricamente a perspectiva de análise proposta. No presente trabalho, almejamos produzir um diálogo profícuo entre discurso e cognição com o fito de contribuir para a diminuição de uma espécie de “cognitivismo espontâneo” no quadro da AD.
Não obstante, é preciso atentar para o raciocínio desenvolvido por Charaudeau (2013) acerca da necessidade de se desenvolver uma “interdisciplinaridade focalizada” como forma de evitar o que chama de “pluridisciplinaridade selvagem”. Para o autor, a interdisciplinaridade decorre da tentativa de se associar, entre pelo menos dois domínios, conceitos, ferramentas e resultados de análise. Assim, torna-se necessário limitar o diálogo para que se consiga ascender, adequadamente, às interrogações epistemológicas e aos empréstimos conceituais, explicando em que medida e sob quais finalidades é possível que tais conceitos sejam emprestados e integrados em outra disciplina. No seu dizer:
[...] Uma interdisciplinaridade focalizada não é um modelo, mas um estado de espírito engendrando uma abordagem que procura ter, a um só tempo, o multipertencimento disciplinar dos fenômenos sociais (interdisciplinaridade) e o rigor de uma disciplina (focalizada) (CHARAUDEAU, 2013, p. 31).
A AD é, por ofício, um domínio interdisciplinar. Para que pudesse se constituir enquanto campo de pesquisas, foi necessário que ela rompesse com os limites da Linguística, incorporando questões advindas da História11
(Materialismo Histórico) e da Psicanálise. Do mesmo modo, o debate com alguns estudiosos da cognição remonta aos primórdios do seu delineamento epistemológico e à sua afirmação enquanto campo de problematização da linguagem. Pêcheux (2009), por exemplo, tratou do conceito de pensamento por meio da interface entre os domínios supracitados, almejando, com isso, desnaturalizar o ser humano e as suas categorias constitutivas no quadro de uma teoria que buscasse perceber o atravessamento ideológico incontornável na produção humana de sentidos.
Como analistas do discurso, entendemos que, na contramão da extrema especialização epistemológica e da definição rígida das fronteiras entre os saberes
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(obviamente, reconhecemos os avanços trazidos pelo modelo de departamentalização dos conhecimentos, bem como que, em última instância, não há como produzi-los e institucionalizá-los sem a definição de objetos de análise), parecem se consolidar demandas por algumas aproximações entre distintas áreas de pesquisa, o que, segundo pensamos, vem ocorrendo desde a segunda metade do século XX, quando se fortalecem domínios como a Sociolinguística, a Neurolinguística Discursiva, a Semântica Discursiva, a Biolinguística, a Geolinguística, entre outros.
Em nosso caso, tratando da relação entre os processos discursivos e os processos cognitivos, focamo-nos, em especial, na relação entre a emergência da subjetividade, a indeterminação constituinte da linguagem na sua relação com os processos metafóricos e a remissão do pensamento à “exterioridade” da história para propor a categoria de “metáforas emergentes distribuídas”. Nesse sentido, realizamos uma espécie de duplo movimento de aproximação epistemológica: (I) um “interno”, no qual dialogamos com distintas perspectivas da própria AD, valendo-nos, para tanto, de algumas das questões epistemológicas centrais desse domínio, em especial, no que concerne à forma pela qual se desenvolveu uma abordagem discursiva de conceitos como pensamento e competência; (II) outro “externo”, entendendo que, na busca constante da AD em (re)definir as suas fronteiras e objetivos, ela nos permite seguir em direção ao diálogo com outros domínios teóricos.
Destarte, a natureza interdisciplinar do nosso trabalho se ancora em um triplo movimento teórico: primeiro, retomar as discussões que tratam da cognição e dos Sistemas Complexos no âmbito da AD, defendendo a ideia de que não apenas essas discussões já estão presentes desde a constituição desse escopo teórico, mas também de que aprofundá-las é fundamental para a sua consolidação enquanto área do saber; segundo, realizar um diálogo entre a AD e os “estudos da metáfora”, tanto no que diz respeito ao conceito de “mente incorporada” (Realismo Experencial) como o de propriedade emergente (Sistemas Complexos), representados, respectivamente, pela proposta de metáforas estruturais, ontológicas e de orientação em Lakoff e Johnson (1985) e de metáfora emergente em Cameron e Deignam (2009) e Cameron e Larsen-Freeman (2007); e, terceiro, aproximar a concepção de exterioridade do pensamento na AD da exterioridade da cognição em Auroux (1998). Antes disso, no capítulo seguinte, dialogaremos com alguns domínios teóricos que tratam da relação entre sujeito e linguagem.
CAPÍTULO II: DO SUJEITO DE DIFERENTES PRÁTICAS ÀS PRÁTICAS DE