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Forholdet til de sentrale forbrukerinstitusjonene

Justificativa da escolha. Nossa opção pelo físico austríaco (I) Erwin Schrödinger (n. 12/8/1887 – 4/1/1941) - para a Bioquímica -, deveu-se ao fato de que (i) suas obras - What Is Life? (1944; “O que é a vida?”) & Mind and Matter (1958; “Mente e matéria”) -, são bastante atuais -, (ii) porque se trata de um Prêmio Nobel de Física (1933) devido a seus trabalhos pioneiros na área (mecânica quântica); e, (iii) porque com essas duas obras ele é capaz de construir – com propriedade (algo raro hoje em dia, devido à “hiper-especialização”) – uma “ponte” entre a Física (átomos), a Bioquímica (moléculas) e mostrar as limitações dessas duas ciências para dar conta do fenômeno humano (ou psíquico); quer seja, seus textos também constroem – ou desconstroem – (um)a “ponte” entre o “materialismo” (científico) e a

autocatálise”. (Ibid., 169) Ele chegou a questionar a seleção natural, pois “as mutações não ocorrem ao acaso”, (Ibid., ibidem) i.e., “o acaso não pode ter criado a vida sozinho”. (Ibid., 172-73). Horgan entrevistou também

Stanley Miller (Universidade da Califórnia em San Diego), “um dos mais diligentes e respeitados pesquisadores da origen da vida” (Horgan, 176), que “asseverou que um dia os cientistas iriam descobrir a molécula auto- replicante que desencadeara a grande saga da evolução”. (Ibid., 177) Como diz o proverbio inglês, “Dreams are ten a penny”…

“consciência” (psíquica). Não escolhemos o físio-químico belga, Nobel de Química de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003) – como sugeriu o professor Doutor Vinícius Romanini na Banca de Qualificação - com seu trabalho sobre estruturas dissipativas, sistemas complexos, e irreversabilidade -, porque ele já é conhecido pelos pragmatistas, por citar sua dívida para com Peirce.

Nossa segunda escolha para a Bio-Química foi por (II) o físico israelense Dan Shechtman (n. 24/1/1941), por três razões: (i) ele está empenhado na Cristalografia, ou melhor dizendo, na pré-Cristalografia (área nova de saber), um “breakthrough study” lhe valeu o Prêmio Nobel de Química em 2011 -; (ii) as representações gráficas – icônicas – dos “quasi-crystals” são de uma beleza “simétrica” espantosa; e, (iii) porque seu “case study” é exemplar para questionar a importância da “comunidade científica” – que para Peirce, teria “a última palavra” -, na figura do duas vezes Nobel, Linus Pauling (1901-94), que não só questionou sua hipótese como o humilhou durante dez anos (1984-94).

(I.I) Erwin Schrödinger. What is Life? (1944; “O que é a vida?”, 20ª ed., 2012). Cambridge: Cambridge University Press, 1944.

Se há um “texto” prazeroso de se ler – e estudar – estes são os do físico austríaco Erwin Schrödinger (12/8/1887 - 4/1/1961), Nobel de 1933, por sua clareza, concisão, poder dialógico (entre ciências, mais especificamente entre a Física, a Química e a Biologia) e pela “abertura” que nos oferece ao mostrar “os limites da Ciência” e por nos oferecer alternativas.

Roger Penrose, no Prefácio à obra (8/8/1991), diz que esta “representa uma tentativa poderosa de compreender alguns dos genuínos mistérios da vida, realizados por um físico cujos insights profundos muito fizeram para mudar o modo através do qual nós compreendemos de que o mundo é feito”, tendo “influenciado Francis Crick e J. S. Haldane”. Para nós, mais importante do que o corpo principal do texto – PREFACE (“Prefácio”), 1. The Classical Physicist’s Approach to the Subject (“A abordagem da física clássica ao assunto”); 2. The Hereditary Mechanism (“O mecanismo hereditário”); 3. Mutations (“Mutações”); 4. The Quantum-Mechanical Evidence (“A evidência quantum- mecânica”); 5. Delbrück’s Model Discussed and Tested (“O modelo Delbrück discutido e testado”); 6. Order, Disorder and Entropy (“Ordem, desordem e entropia”); 7. Is Life Based on the Laws of Physics? (“Será que a vida está baseada nas leis da física?”) -, é a notável passagem [“miraculosa”, 46] entre a Física (partículas) e a Biologia (molécula), que

segundo ele, “não provém da física (probabilística)”, mas “deve provir de outra fonte” (página 80) – e o EPILOGUE, ON DETERMINISM AND FREE WILL (“Epílogo, sobre o determinismo e o livre-arbítrio”).

Convidamos, então, o leitor a olhar este preciso texto “através das peircenas”.

No Prefácio, Schrödinger diz-nos que “herdamos de nossos antepassados um desejo pelo conhecimento unificado”. (Schrödinger, What is Life?, 1) Com sua “Arquitetônica”, esse é, exatamente, o desejo de Peirce a partir de 1887, com o ensaio “Uma conjectura ao enigma”. No Capítulo 1, The Classical Physicist’s Approach to the Subject (“A abordagem da física clássica ao assunto”), Schrödinger vai se perguntar,

A grande questão, que é bastante discutida é: como é que os eventos no espaço e no tempo, que ocorrem dentro da fronteira de um organismo vivo são explicados pela física e a química? (Schrödinger, What is Life?, 3)

E a resposta do físico austríaco é fulminante: “As leis da física e química são todas estatísticas” (Schrödinger, What is Life?, 4) e isso – como ele mostrará mais adiante – mostra a dificuldade de se compreender a passagem do nível das partículas (Física) para o nível dos elementos (Química), e desta para o nível das moléculas “vivas” (Biologia).

Peirce resolve a questão com um lance de mestre: como o Gründ é o Contínuo e este é a “razoabilidade energizante”, i.e., o Amor Criativo (uma Dynamis Inteligente) -, o que dá suporte ao seu Idealismo-objetivo, em que “a matéria é mente cansada”, i.e., que adquiriu hábitos (inveterados) -, então, o primado é da Consciência, que, em seu modo Primeiro de aparecer (phanera) é aparentemente caótica (devido ao seu estatuto ontológico de absoluta

Liberdade). Como o télos do Sinequismo peirceano é uma ideia (o Homem-Símbolo, o único que tem Consciência), compreende-se que a Natureza – como a lagarta de Emerson – haverá de “escalar todas as espiras da forma” até que cumpra seu Destino, fazer-se Segundo (Existência; Determinado) e Terceiro (Homem-Símbolo).

O que é fascinante em Schrödinger é sua inteligência rara. E, para Peirce, uma inteligência de primeiro nível é aquela capaz de “prever” os eventos futuros. O poeta romântico inglês, Percy B. Shelley (1792-1822) dizia que “os poetas são as antenas da raça” (A Defense of Poetry, 1821; “Uma defesa da poesia”, primeiro publicado em 1840). Peirce

tinha os poetas também no mais alto apreço.313 Mas Schrödinger é do quilate dos poetas criativos. Veja, caro leitor, como ele antecipa as descobertas de Dan Shechtman, sobre os “Quase-cristais” (1974; como veremos ainda na Bio-Química):

A parte mais essencial da célula viva – a fibra do cromosoma – pode muito bem ser chamada de um cristal aperiódico [“o material que carrega a vida”]. Na física nós lidamos, até hoje, somente com cristais periódicos. (Schrödinger, What is Life?, 5)

Como veremos em Dan Shechtman, esse universo – dos cristais aperiódicos – vai servir de ponte entre a Física e a Química. Mas, se olharmos para esse fenômeno do ponto de vista da Heurística de Peirce vamos compreender que há uma hierarquia – expressa, inclusive, em tamanho – entre esses três níveis, o da Física (de partículas), o Químico (de elementos) e o Biológico (de moléculas). Quando o Físico Nobel pergunta, “Porque é que os átomos são tão pequenos?” (Schrödinger, What is Life?, 8) ou “[P]orque é que nossos corpos devem ser tão grandes comparados com os átomos (Ibid., ibidem), a resposta faz todo o sentido.

O universo da Primeiridade é infinito em relação ao universo da Segundidade (este nosso “mesomundo”). O universo de partículas subatômicas tem que oferecer um número infinito de Possibilidades (Primeiro), a partir do qual o Amor Criativo (Inteligente) haverá de se manifestar limitadamente. Há – no universo “monádico” – uma base de Pirâmide “aberta”. Não é por acaso que – de acordo com os experimentos de Wheeler – o comportamento das partículas subatômicas seja “estranho”. Ali, no Contínuo, não há as limitações espaço- temporais (que há neste “mesomundo” em que habitamos).

Para o Nobel de Física de 1933, este “mesomunndo” – para ele, “o mundo de um organismo exige leis físicas exatas para funcionar adequadamente”. (What is Life?, 8) Portanto, como diz Peirce, o universo da Segundidade (Existência) é um “mundo determinado por Leis”. Schrödinger assina embaixo, com uma perspicácia difícil de encontrar, posto que é capaz de “ver” que as Leis (Terceiro; “Pensamento”), já estão no Existente (Segundo; “Coisa”):

Aquilo a que chamamos pensamento (1) é em si mesmo uma coisa ordenada, e (2) só pode ser aplicado ao material, i.e., às percepções ou experiências, que possuem certo grau de ordem. Isto acarreta duas consequências. Primeiro, uma organização física, para estar em íntima correspondência com o pensamento (como o meu cérebro está com o meu pensamento) deve ser uma organização bem ordenada, e isso significa que os eventos que ocorrem

dentro dela devem obdedecer leis físicas rígidas pelo menos em um alto nível de precisão. Segundo, as impressões físicas provocadas naquele sistema bem organizado por outros corpos a partir de fora, obviamente correspondem à percepção e vivenciam um pensamento correspondente, formando seu material, como já o denominei. Portanto, as interações físicas entre nosso sistema e os outros devem, como regra, em si mesmos possuir certo grau de ordem física, quer seja, eles também devem obdecer a leis físicas rígicas até certo grau de precisão. (Schrödinger, What is Life?, 09-10)

Perceba que lucidez, caro leitor; e o impressionante poder de síntese. Aquele Segundo que se manifesta – o “Objeto Dinâmico”, em chave semiótica – “deve possuir certo grau de ordem física” – como seu “pensamento correspondente” – o universo “sígnico” (o

Signo e o Interpretante). Como Peirce compreendeu esses dois universos como estando em perfeita Simetria, e assim os compreendeu Schrödinger, também. Eles devem possuir “ordem” para serem inteligíveis e passíveis de Ciência.

Quando o físico austríaco assevera que “as leis físicas se apoiam em estatíticas atômicas e que são, portanto, apenas aproximadas”, (What is Life?, 10) ele retorna à tese anterior, a de que o universo Primeiro – por ser infinito (como o plâncton que passa, incólume, pela rede do pescador) – não é passível de medida (exata) e, portanto, tem que ser apenas passível de mensuração estatística.

Está explicado por ele, então, o motivo pelo qual “o organismo” tem que possuir uma estrutura mais robusta:

Vocês [ele está dando uma palestra na Irlanda] podem perceber a partir disto que o organismo deve possuir uma estrutura comparativamente robusta de modo a desfrutar o benefício de leis bastante precisas, tanto para sua vida interna quanto para o seu intercâmbio com o mundo externo. (What is Life?, 18)

Portanto, em chave peirceana, “este” mundo (“mesomundo”), que se manifesta como “existente” é o mundo dos “fatos brutos” (Segundidade), das Ações e Reações, do choque das Vontades, em suma, do Determinismo. E, por falar em Determinismo, Schrödinger, no capítulo a seguir -, o Capítulo 2 - vai expor, precisamente, “o mecanismo da hereditariedade”.

Para ele, “um organismo – e todos os processos biologicamente relevantes que ele vivencia – devem possuir uma estrutura extremamente ‘pluri-atômica’ (‘many-atomic’) e deve ser resguardado contra eventos ‘uni-atômicos’ (‘single-atomic’) acidentais de grande importância. (What is Life?, 19) Por isso Peirce diz que “a matéria é mente que criou hábitos” e todos nós sabemos da força dos hábitos. Aquilo que se determinou, que se tornou Lei

(Segundo) é o Existente. Exemplarmente, aquele universo de Sentimento (Primeiro) coalhado de Desejos, deve fazer-se Vontade; ou, aquele Cardápio rico – com uma centena de pratos – que representa o Primeiro, deve – se queremos nos alimentar – obrigar-nos a escolher um prato (entre tantos).

Vamos ver, a seguir, como este processo – de determinação – se dá a nível cromossômico, quer seja, no “code-script” hereditário. (What is Life?, 20)

Mas o termo code-script é, na verdade, estreito demais. As estruturas

cromosômicas estão ao mesmo tempo trazendo o desenvolvimento que eles

anunciam. Elas são o código-lei e poder executivo – ou, para usar outra semelhança, eles são arquiteto e o construtor – em um. (What is Life?, 22) Veja, caro leitor, que clareza de visão: quando Peirce fala de “razoabilidade energizante” (EP 2, 68) – ou sobre o Amor Criativo (Ágape) – ele refere-se, precisamente a esta dupla função do cromossomo: inteligente e dinâmico (energético), “arquiteto” e “construtor”, i.e., Terceiro e Segundo, Razão Pura (Inteligência) e Razão Prática (Vontade).

Em seguida Schrödinger vai mostrar como se dá “o crescimento do corpo através da divisão celular” (mitose) (What is Life?, 22), quer seja, “como os cromossomos se comportam na ontogênese” (Ibid., ibidem) – em que “50 a 60 divisões sucessivas são suficientes para produzir o número de células de um adulto” e, assim, conclui ele, “uma célula de meu corpo é, em média, a 50o ou 60o‘descendente’ do ovo que eu fui”. (Ibid., ibidem) Entretanto, o que para ele é o mais fascinante é que – como o “General Montgomery fazia questão de que cada soldado seu estivesse meticulosamente informado de todos os seus projetos” (What is Life?, 23), assim, também, cada célula recebe as informações necessárias para se reproduzir, carregando em seu cerne os códigos corretos. Para Peirce, “os símbolos crescem” (EP 2, 10) e, recordo ao leitor que, para o semiótico norte-americano, “símbolo” significa “código”. Cada nova célula é um “OdSI” (“Objeto Dinâmico-Signo-Interpretante”) e é capaz de afetar outros “OdSIs” numa semiose infinita.

O milagre, para Schrödinger, é que “tão logo se estabeleça o desenvolvimento do indivíduo, um grupo de células é reservado para produzir – em um estágio posterior – os assim-chamados espermatozóides e os óvulos, conforme for o caso, necessários para a reprodução [“singamia”] do indivíduo na maturidade”. (What is Life?, 23) É o que os biólogos denominam de meiose.

Depois de discorrer sobre a “singamia” – em que o esperma e o óvulo (dois haploides) se juntam para formar o óvulo fertilizado, (What is Life?, 24) Schrödinger vai

mostrar a “notável relevância da divisão redutora” (What is Life?, 26) – a meiose – (em que a o pai e a mãe dão metade dos cromossomos cada um), pois interessa-lhe “acentuar dois pontos que serão altamente relevantes para nossa investigação. Primeiro é o tamanho – ou melhor, o tamanho máximo – de tal portador (...) e, o segundo ponto será a permanência de um gene, a ser inferido pela durabilidade do padrão hereditário”. (What is Life?, 29) Ele informa, então, que para “C. D. Darlington, o volume de um gene é igual a um cubo com um fio de 300 Å”. (What is Life?, 30) Isto, sim, é um milagre.

E quanto à permanência? Vamos citá-lo mais alentadamente, pois em seguida vamos justificar esse fato a partir da heurística peirceana:

Nós reconhecemos a permanência como sendo quase absoluta. […] Trata-se de todo o padrão (quadri-dimensional) do ‘fenótipo’, a natureza visível e

manifesta do indivíduo, que é reproduzida sem grandes mudanças durante gerações, permanente no decorrer de séculos – embora não dentro de dezenas de milhares de anos – e mantida em cada transmissão pela estrutura material dos núcleos das duas células, que se unem para formar uma célula fertilizada. Isso é uma maravilha – ante a qual só uma é maior; uma que, se intimamente conectada com ela, não obstante jaz em um nível diferente. Refiro-me ao fato de que nós, cujo ser total está

totalmente baseado em um intercurso maravilhoso deste mesmo tipo, no

entanto, possuímos o poder de adquirir conhecimento considerável sobre ela. Eu acho que é possível que este conhecimento possa avançar para

pouco mais do que um parco entendimento – da primeira marvilha. A

segunda pode estar longe do entendimento humano. (What is Life?, 31) Segundo Peirce, como é que “o fenótipo adquire ‘permanência’ no decorrer de séculos”? Através da Lei! Aquilo que era só mente, adquire hábitos (inveterados) que se plasmam como o “Existente”, o Segundo. Com isto, ele adquire “estabilidade”.

Quanto ao fato de que “possuímos o poder de adquirir conhecimento considerável sobre ela (essa permanência)”, Peirce diria que isso se deve, precisamente, ao fato de que só o permanente, o constante, é passível de se tornar cognoscível; semioticamente, é através da

Conduta (razoável) do Segundo (“Objeto”) que o Terceiro (“Interpretante”) pode ser conhecido – pela mediação dos “Signos”.

O Capítulo 3, sobre “Mutações que se assemelham a saltos” (“Jump-like Mutations”)314 – que seriam o fundamento da seleção natural -, Schrödinger vai fazer uma crítica à “seleção natural” de Darwin. (What is Life?, 32) Diz ele,

314 Para uma visão mais recente sobre os Saltos quânticos na química sugerimos a leitura do artigo do professor

Doutor Marça de Oliveira Neto, “Química no século XX: a Química atômica” IN “Um século de

Nós sabemos definitivamente, hoje, que Darwin estava errado ao considerer as pequenas, contínuas, variações acidentais, que estão propensas a ocorrer mesmo na população mais homogênea como o material sobre o qual a seleção natural funciona. Pois já foi provado que elas não são herdadas. (What is Life?, 32; nossa ênfase)

A seleção não tem efeito – porque as pequenas variaçõs contínuas não são herdadas. Elas não são, obviamente, baseadas na estrutura da substância

hereditária, elas são acidentais. (What is Life?, 33; nossa ênfase)

A questão, salvo erro, e em defesa de Darwin, não é que essas “variações não são herdadas” -, pois que de fato, o são; mas que somente aqueles indivíduos (ou populações) que as herdaram – sendo mais aptos – sobrevivem, ao passo que os que as não herdaram, não. A questão que importa, não é essa. A questão vital é: quando levamos essa hipótese (ou tese;

Terceiro) da “seleção natural” de Darwin para o mundo como ele é (Segundo; Existente), veri-ficamos, de fato, que “os mais aptos sobrevivem”? Entre os seres humanos não nos parece que esse seja o caso; a grande maioria dos 7 bilhões de habitantes do planeta Terra não é composta de “os mais aptos”, pelo contrário, é explorada por estes – econômica, política e religiosamente. Assim, quer nos parecer que a “seleção natural” só se dá entre as elites (pragmaticistas, que refletem sobre sua conduta e a planejam); aos miseráveis só lhes resta sobreviver – no pior sentido do termo. Melhor termo – para sermos rigorosos com a terminologia - seria “subviver”.

Outra questão pertinente, aqui, é a Genética. Se as variações são “acidentais”, então, não há propriamente ciência. Qualquer coisa pode acontecer. A aristocracia ruiu como sistema político precisamente porque um rei (ou nobre, ou gênio), casado com uma rainha (ou nobre, ou gênio) – de “sangue azul”! – não produz sempre um “nobre” (ou gênio, em qualquer área). Então, não se trata de uma ciência válida senão para plantas, animais ou a cor dos olhos.

Mas há cerca de quarenta anos, o holandês de Vries descobriu que mesmo nos filhotes de gado puro-sangue, um pequeno grupo de indivíduos, digamos dois ou três em dezenas de milhares, aparecem com pequenas, mas

mudanças ‘que se assemelham a saltos, a expressão ‘que se assemelham a

saltos’ não querendo dizer que a mudança é tão considerável assim, mas que

há uma descontinuidade tanto que não há formas intermediárias entre os

que não mudaram e os poucos que mudaram. De Vries denominou isso de

mutação. O fato significatico é a descontinuidade. […] Veremos mais tarde que isto é muito mais do que figurativo. As mutações são de fato devidas a saltos quânticos no gene da molécula. Mas a teoria quântica só tinha dois anos quando de Vries publicou sua descoberta pela primeira vez,

1151), que mostra a sua trajetória em Crookes e Röntgen, 1135; Becquerel, Thompson, Madame Curie e Rutherford, 1136; Planck, Einstein e Bohr, 1137; Moseley, De Broglie e Schrödinger, 1138; e Chadwick, 1139.

em 1902. Não é de admirar que se tenha demorado outra geração para descobrir a conexão íntima! (What is Life?, 34; nossa ênfase)

Quanto às variações (mutações), elas são facilmente compreensíveis pela heurística peirceana: o Segundo (Existente), embora dotado de certa permanência (fenotípica), está grávido do Primeiro (Possibilidades), e este pode “aparecer” (fortuita; ou milagrosamente) naquele. A “descontinuidade” deve-se, portanto, ao fato de que entre quaisquer dois números – exemplarmente, entre 1 e 2 – há um número infinito de números fracionais. Por isso, Schrödinger diz, mais adiante, que as “[M]utações são frequentemente latentes”. (What is

Life?, 36)

Depois ele discorre sobre a “Localização, Recessividade e Dominância” (What is Life?, 35) – algo que conhecemos bem -, em que fala da maior frequência das mutações

recessivas, e depois diz que o alele recessivo (quando heterozigoto) é, às vezes, “espantosamente” dominado pelo “dominante” (What is Life?, 37) -, o que torna “a necessidade da mutação um evento raro”, (What is Life?, 41) e que possui um “volume crítico” de “um cinquenta milionésimo de centímetro cúbico”. (What is Life?, 44)

No Capítulo 4, The Quantum-Mechanical Evidence (“A evidência quanto- mecânica”), Schrödinger diz que “ a permanência não é explicada pela física clássica”. (What

is Life?, 46; nossa ênfase)

Como é que podemos, do ponto de vista da física estatística, reconciliar o fato de que a estrutura do gene parece envolver apenas um número comparativamente pequeno de átomos (da ordem de 1.000 e possivelmente muito menos), e o fato de que ela não obstante mostra numa atividade regular e legítima – com uma durabilidade ou permanência que beira o

miraculoso? (What is Life?, 46; nossa ênfase)

E a resposta, segundo ele, é a de que “[E]stas estruturas materiais só podem ser moléculas”. (What is Life?, 47).315 Do ponto de vista da heurística peirceana, o mundo

315 Para melhor conhecer a revolução operada na Química no século XX, estudamos o artigo “Química no século XX: a Química atômica”, IN “Um século de conhecimento – arte, filosofia, ciência e tecnologia no

século XX”. Brasília: Editora da UNB, 2011 (pp. 1127-1151), do Professor Adjunto do Instituto de Química, Universidade de Brasília, Doutor pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Marça de Oliveira Neto, que divide o artigo em uma Introdução (“A Química, ciência que estuda a transformação das coisas materiais”, 1127; Paracelso, Boyle,), (1) Surgimento da química moderna (Lavoisier, 1131-32); (2) A química atômica e os átomos em família (Dalton, 1132; Berzelius, Avogrado, 1133; Mendeleiev, 1134); (3) Saltos quânticos na química (Crookes e Röntgen, 1135; Becquerel, Thompson, Madame Curie e Rutherford, 1136; Planck, Einstein e Bohr, 1137; Moseley, De Broglie e Schrödinger, 1138; e Chadwick, 1139); (4) Enlaces entre átomos e a identificação de substâncias químicas (DNA); (5) Avanços recentes (Química orgânica, Físico-química, Química inorgânica); e, Considerações finais (Ética e Ecologia).

315 No artigo “Herança e evolução: aventuras da Biologia no século XX” IN “Um século de conhecimento –

atômico estaria na Primeiridade e o da durabilidade (molecular), estaria no Segundo. E Schrödinger diz que esse “salto” pode ser explicado pela “teoria quântica”. (Ibid., ibidem) O físico austríaco confirma nossa explicação, abaixo:

A transição de uma destas configurações para outra é um salto quântico. Se a segunda tem uma energia maior (‘é um nível mais elevado’), o sistema deve ser fornecido com pelo menos a diferença das duas energias para tornar a transição possível. Para um nível mais baixo, ela pode mudar espontaneamente, gastando o excesso de energia na radiação. (What is Life?, 49)

Entre o discreto conjunto de estados de uma dada seleção de átomos, não precisa necessariamente ser, mas pode haver um nível mais baixo, implicando uma abordagem próxima do núcleo de cada um. Átomos em tal

estado formam uma molécula. O ponto a ser acetuado aqui é que a molécula terá, necessariamente, certa estabilidade; a configuração não

pode mudar, a menos que, pelo menos, a diferença de energia, necessária para ‘alça-la’ ao nível mais elevado, seja fornecida de fora. Portanto, a diferença de nível, que é uma quantidade bem-definida, determina quantitativamente o grau de estabilidade da molécula. (What is Life?, 50)

Compreeendamos que, quando Schrödinger diz que “essa energia (atômica), que é alçada a um nível mais elevado (molecular) é fornecida de fora”, em chave peirceana, é