A literatura científica tem destacado as informações advindas dos aspectos formais das pirâmides no Teste de Pfister, dadas as evidências clínicas encontradas (VILLEMOR- AMARAL et al, 2005b; VILLEMOR-AMARAL, FARAH & PRIMI, 2004; VILLEMOR- AMARAL, SILVA & PRIMI, 2003). Os aspectos formais das pirâmides coloridas são divididos em três categorias principais, que variam de menor a maior sofisticação, a saber, respectivamente: tapetes, formações e estruturas. Relacionada à percepção da figura geométrica da pirâmide e à combinação das cores, a forma dada às pirâmides coloridas está associada a funções cognitivas e à afetividade. Assim como estas duas funções psicológicas se aproximam dentro desse mesmo indicador do Teste de Pfister, faz sentido investigar relações entre este e o WCST também nesta variável.
Para tanto, subdividiu-se a presente amostra de idosos em função do aspecto formal da primeira pirâmide, classificando-os em três subgrupos: tapete, formação e estrutura. Recorrendo ao Teste de Kruskal-Wallis, os resultados dos indicadores técnicos do WCST entre estes três subgrupos foram comparados. O mesmo procedimento foi realizado para a segunda e terceira pirâmides, tendo-se encontrado as seguintes evidências:
- Na primeira pirâmide do Pfister:
a) Total de Corretos (p = 0,035): maiores valores do grupo que construiu formações no Pfister.
b) Total de Erros (p = 0,032) e Percentual de Erros (p = 0,032): maiores valores do grupo que construiu tapetes.
c) Total de Respostas Conceituais (p = 0,053) e Percentual de Respostas Conceituais (p = 0,051): maiores valores do grupo que construiu formações.
d) Número de Categorias completadas (p = 0,075): maiores valores do grupo que construiu formações.
- Na segunda pirâmide do Pfister:
a) Total de Corretos (p = 0,085): maiores valores do grupo que construiu formações.
b) Total de Erros (p = 0,074) e Percentual de Erros (p = 0,074): maiores valores do grupo que construiu tapetes.
c) Total de Erros Não-Perseverativos (p = 0,067) e Percentual de Erros Não-Perseverativos (p = 0,073): maiores valores do grupo que construiu estruturas.
d) Ensaios para completar a primeira categoria (p = 0,068): maiores valores do grupo que construiu estruturas.
- Na terceira pirâmide do Pfister:
a) Total de Corretos (p = 0,072): maiores valores do grupo que construiu estruturas.
b) Total de Erros (p = 0,067) e Percentual de Erros (p = 0,067): maiores valores do grupo que construiu tapetes.
c) Total de Respostas Conceituais (p = 0,095) e Percentual de Respostas Conceituais (p = 0,092): maiores valores do grupo que construiu estruturas.
d) Fracassos em manter o contexto (p = 0,032): maiores valores do grupo que construiu formações.
Assim, tendo-se em vista o conjunto dos dados acima expostos, pode-se considerar que houve diferenciação e tendência à diferenciação entre os três subgrupos elaborados a partir do aspecto formal das pirâmides construídas pelos idosos no tocante ao desempenho em determinadas variáveis do WCST. No geral, a construção de tapetes relacionou-se a maior dificuldade no desempenho no WCST, enquanto formações e estruturas relacionaram-se a melhores resultados neste teste neuropsicológico.
Num esforço de síntese das evidências empíricas encontradas neste momento, observou-se que, nas três pirâmides, os indivíduos que construíram tapetes apresentaram maiores índices de erros e percentual de respostas erradas no WCST, demonstrando, assim, maior dificuldade na tarefa exigida por este teste quando comparados aos indivíduos que realizaram formações e estruturas. Estes, por sua vez, emitiram maior número de respostas corretas (na primeira e segunda pirâmides). Os maiores índices de respostas corretas foram obtidos por parte dos indivíduos que construíram formações, seguidos pelos que realizaram estruturas nas duas primeiras pirâmides do Pfister. Na terceira pirâmide esta ordem se inverte: os maiores valores de respostas corretas foram daqueles que construíram estruturas, seguidos daqueles que realizaram formações. Deste modo, pode-se dizer que os idosos que construíram pirâmides em estrutura ou formação evidenciaram maior facilidade na classificação das cartas quando comparados aos indivíduos que fizeram tapetes, endossando, então, a relação já encontrada nas variáveis número e percentual de respostas erradas do WCST.
Ainda os subgrupos de idosos que realizaram formação e estrutura em suas pirâmides do Pfister forneceram mais respostas de nível conceitual, tanto em valores numéricos quanto em percentual. Na primeira pirâmide destacaram-se os idosos que construíram formações, seguidos daqueles que fizeram estruturas, ordem que se inverte na terceira pirâmide: idosos que realizaram estruturas obtiveram melhores valores no indicador do WCST relativo a respostas de nível conceitual, seguidos pelos que efetuaram formações. A partir destes
resultados pode-se inferir melhor nível de abstração dos critérios classificatórios do WCST nos idosos que construíram formações ou estruturas no Pfister, quando comparados ao subgrupo que construiu tapetes.
Deve-se também ressaltar, na presente análise, que na primeira pirâmide do Pfister os idosos que efetuaram construções do tipo formação alcançaram maior número de categorias completadas, sinalizando maior sucesso na realização da tarefa proposta pelo WCST. Por sua vez, aqueles que fizeram a segunda pirâmide do tipo estrutura cometeram mais erros não- perseverativos, em número e em percentual, o que pode ser considerado como indício de bom aproveitamento do feedback do examinador e uma tentativa de corrigir suas respostas a partir das orientações dadas.
Chama a atenção, ainda, que os idosos que construíram estruturas na segunda pirâmide tenham precisado de maior número de ensaios para completar a primeira categoria do WCST. Considerando-se as evidências prévias de adequação do desempenho destes idosos em outros critérios avaliativos do WCST (que se orientam não só para o início do teste, mas a partir do conjunto do desempenho), este resultado pode indicar inicial dificuldade destes idosos em se enquadrar na tarefa deste teste. Talvez eles tivessem se ocupado em buscar diversos critérios classificatórios logo no início do WCST, comprometendo o resultado neste indicador específico do número de ensaios necessários para completar a primeira categoria do teste, porém podendo sugerir criatividade nestes indivíduos.
Estas mesmas considerações podem ser aplicadas ao achado de que os idosos que construíram formações, seguidos dos que construíram estruturas, na terceira pirâmide, apresentaram maiores índices de fracassos em manter o contexto da atividade do WCST. Assim, considerados os demais dados colocados, estas evidências podem ser sugestivas de busca por outros critérios classificatórios, aproximando-se de uma postura criativa na tarefa de resolução de problemas, como é o WCST.
Desse modo, os achados expostos novamente sinalizam relação entre indicadores técnicos do Teste de Pfister e do WCST, verificada agora na variável aspecto formal. Ainda cabe ressaltar que os resultados encontrados estão de acordo com os pressupostos teóricos do Pfister acerca dessas construções das pirâmides (tapete, formação e estrutura).