2.1. O conjunto dos maiores grupos econômicos no Brasil
Utilizaremos como fonte principal de apresentação dos maiores grupos econômicos do Brasil o anuário “Valor Grandes Grupos”, do jornal “Valor Econômico”, editado desde 2002. Esta publicação mostra um ranking dos 200 maiores grupos econômicos presentes no Brasil, por receita bruta. A diferença para outras publicações do gênero (como “Melhores & Maiores”, da Exame, ou “Valor 1000”, também do jornal Valor Econômico) é que não trata de empresas desagregadas, mas de grupos econômicos, conglomerados de empresas controladas integral ou parcialmente por um comando único. Este anuário mostra uma lista com os dados gerais de desempenho dos grupos, como receitas brutas, patrimônio líquido e lucro líquido, entre outros, e informações importantes para análise, como país de origem e o ramo de atividade dos grupos. Além disso, ele mostra um organograma de cada grupo, revelando quais empresas o grupo controla, o percentual do controle (em alguns casos os sócios mais importantes) e as pessoas, famílias ou empresas que detêm o controle do grupo.
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A vantagem do estudo do grupo econômico sobre a empresa desagregada é que o grupo permite compreender a estratégia de um grande capital em sua totalidade e não apenas do ponto de vista dos resultados de uma parte. Ao buscar a grande burguesia pelos seus grupos, eliminamos empresas que sejam individualmente grandes, mas que não estejam sob o comando dos capitais conglomerados que possuem efetivamente o poder econômico dentro do espaço nacional.
Outro diferencial desta base de dados – de grande importância para este estudo – são os ramos de atividade utilizados para classificação dos grupos. No “Valor Grandes Grupos”, os grupos são enquadrados em quatro ramos: finanças, indústria, comércio e serviços. Desaparecem, portanto, categorias muito específicas que aparecem no estudo das empresas desagregadas; estas subdivisões são apenas mencionadas na exposição dos organogramas individuais, dos quais é possível extrair pelo menos os segmentos mais importantes para cada grupo. Essa classificação é um resultado do próprio estudo dos grupos, já que eles geralmente englobam negócios em diferentes setores e seria impossível classificá-los de forma mais específica. Uma das consequências disso, portanto, é o nível de generalidade que os ramos de atividade carregam. No que interessa a esta dissertação, que é o estudo de grandes grupos da burguesia brasileira na
indústria, a decorrência é que dentro da categoria “indústria” estão todos os grupos que participam de alguma forma de atividades produtivas, de bens materiais. Ou seja, trata-se da indústria no seu sentido mais genérico, com implicações importantes sobre quais grupos serão selecionados, como se verá adiante.
No entanto, a utilização deste tipo de anuário traz um problema para a análise: a comparação de desiguais, uma vez que são listados grupos de controle brasileiro, cujas empresas atuam principalmente no espaço nacional, mas que também atingem outros países, e, ao mesmo tempo, grupos estrangeiros e suas empresas atuantes no Brasil ou, excepcionalmente, com operação internacional a partir das unidades no Brasil. Portanto, não podemos ignorar que o peso relativo que os grupos de controle brasileiro possuem possa ser superestimado na comparação com o dos grupos estrangeiros. De qualquer forma, para fins dessa pesquisa, a identificação dos maiores grupos brasileiros não é afetada por essa distorção.
Para identificar o conjunto dos grupos que nos interessaria, foram excluídos, dentro dos grupos com controle brasileiro, quais eram estatais e quais eram de controle misto, isto é, em
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que está discriminado na apresentação do anuário o controle por mais de um país. Desta forma, pudemos selecionar apenas os grupos de controle privado nacional e deles destacar os presentes na indústria. Agregando os valores das receitas de cada grupo, podemos ter uma mapa do que é o conjunto do grande capital no Brasil, por setor e por país de origem do controlador.
Tabela 1. 200 maiores grupos no Brasil em 2011, por receitas (R$ mi) Por setores e país de origem do controlador
Setores
Receitas (R$ mi) Finanças Indústria Comércio Serviços Total
Priv. Nac. 359.337 519.057 143.684 84.114 1.288.498
Estatal 221.243 306.234 0 266.420 611.591
Misto 9.422 73.417 52.681 3.372 138.892
Estrangeiro 126.537 289.309 41.016 211.907 668.769
Total 716.538 1.188.018 237.381 565.813 2.707.750
% sobre o setor Finanças Indústria Comércio Serviços Total
Priv. Nac. 50% 44% 61% 15% 48% Estatal 31% 26% 0% 47% 23% Misto 1% 6% 22% 1% 5% Estrangeiro 18% 24% 17% 37% 25% % Setor 100% 100% 100% 100% 100% % Setor/Total 26% 44% 9% 21% 100%
Fonte: Valor Grandes Grupos, 2012 (elaboração própria)
Podemos também fazer um exercício específico para entender a magnitude dos grupos na indústria, mostrando o tamanho do ramo com todos os grupos, sem a Petrobras e sem a Petrobras e a Vale. À visão geral, adicionamos uma comparação das receitas agregadas com o PIB brasileiro do mesmo ano.
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Tabela 2. 200 maiores grupos econômicos no Brasil em 2011, por receitas (R$ mi) Receitas (R$ mi) Priv. Nac. Estatal Misto Estrangeiro Total % Total
200 Grupos 1.288.498 611.591 138.892 668.769 2.707.750 100%
Indústria 519.057 306.234 73.417 289.309 1.188.018 44%
Indústria sem Petrobras 519.057 0 73.417 289.309 881.784 33%
Ind. sem PB e Vale 413.537 0 73.417 289.309 776.264 29%
% por corte Priv. Nac. Estatal Misto Estrangeiro Total % PIB 2011
Geral 47,6% 22,6% 5,1% 24,7% 100,0% 65,4%
Indústria 43,7% 25,8% 6,2% 24,4% 100,0% 28,7%
Indústria sem Petrobras 58,9% 0,0% 8,3% 32,8% 100,0% 21,3%
Ind. sem PB e Vale 53,3% 0,0% 9,5% 37,3% 100,0% 18,7%
Fonte: Valor Grandes Grupos, 2012 (elaboração própria)
Trata-se, portanto, de um conjunto muito importante de empresas, cujas receitas agregadas atingem 65% do PIB em 2011. Além disso, seu patrimônio líquido total no mesmo ano – de R$ 1.552,0 milhões – representa 37% do PIB e o resultado líquido total – de R$ 200,9 milhões – corresponde a 5% do PIB. É importante frisar, também, que se trata de um conjunto bastante complexo de grupos, se considerados todos os setores. Com isso, fica claro que não seria possível esgotar um estudo global sobre a burguesia brasileira apenas estudando seus grupos industriais, ou mesmo uma seleção destes – e essa dissertação não tem essa pretensão.
2.2. Os maiores grupos da burguesia brasileira na indústria
Feita a introdução ao conjunto dos maiores grupos, passamos ao conjunto que realmente importa para este trabalho: o dos grandes grupos industriais privados brasileiros. Como já foi alertado, dentro os grupos industriais serão encontrados todos aqueles do que seria considerada atividade produtiva de bens extrativos, agropecuários ou industriais. Dentro os 200 maiores grupos, são 46 grupos que atendem a este corte no ano de 2011. Compilados os segmentos de atividade específicos que o Anuário traz para cada grupo, podemos ter a noção do conjunto e, internamento a este, dos mais variados segmentos industriais em que atuam.
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Tabela 3 – Maiores grupos industriais de controle brasileiro privado por receitas (2011) Posição
200
Grupo Setores
1 5 Vale Energia Elétrica, metalurgia, mineração, siderurgia, transportes e logística
2 7 Odebrecht Construção, Petroquímica (e Energia Elétrica, Defesa, Transportes Infraestrutura,
Petróleo e Gás, Açúcar e Álcool, Imobiliário)
3 9 JBS Alimentos (carnes)
4 16 Gerdau Comércio (distribuição de produtos siderúrgicos), energia elétrica, metalurgia e
siderurgia
5 17 Votorantim Agroindústria, energia elétrica, finanças, materiais de construção, siderurgia e
metalurgia, papel e celulose, química e petroquímica e TI.
6 21 BRF Alimentos e Comércio
7 22 Cosan Açúcar e Álcool, agricultura, comércio, transportes e logística
8 26 Marfrig Alimentos (Carnes)
9 33 CSN Energia Elétrica, metalurgia e siderurgia, e transportes e logística
10 38 Usiminas Comércio, mecânica, metalurgia e siderurgia, e transportes e logística.
11 55 Embraer Veículos e peças (indústria aeronáutica)
12 78 WEG Comércio exterior, eletroeletrônica, mecânica e química
13 79 Suzano Comércio e Papel e Celulose
14 80 Schincariol Bebidas, comércio e transporte e logística
15 86 Random Veículos e peças
16 92 Paranapanema Metalurgia, Mineração e Química e Petroquimica
17 95 Klabin Papel e Celulose
18 100 Minerva Alimentos (Carnes) e transportes e logística
19 107 Marcopolo Comércio de peças, materiais plásticos, e veículos e peças (carrocerias)
20 116 Iochpe-Maxion Metalurgia e Veículos e Peças
21 120 M. Dias Branco Alimentos
22 128 Positivo Comunicação, Eidtorial, Educacional, e Tecnologia da Informação
23 133 Tigre Plástico e borracha, química e petroquímica
24 136 Unigel Embalagens, Química e Petroquímica
25 141 Aché Farmacêutico
26 142 Spaipa Coca-Cola Bebidas
27 144 Tupy Metalurgia e Siderurgia
28 146 Grupo Brasil Autopeças, metalurgia e siderurgia
29 148 Caramuru Agronegócio e Alimentos
30 151 EMS Sigma Pharma Farmacêutico
31 152 Coteminas Têxtil e Vestuário
32 153 Vonpar Bebidas
33 154 Alto Alegre Açúcar e Álcool
34 156 Granol Alimentos e Comércio
35 168 Vulcabrás/Azaleia Calçados
36 169 Zilor Açúcar e álcool
37 170 Grendene Calçados
38 174 Inepar Construção e Engenharia, energia elétrica, mecânica, Petróleo e Gás
39 181 São Martinho Açúcar e Álcool
40 184 J. Macêdo Alimentos
41 187 Tércio Wanderley Açúcar e Álcool
42 190 Vicunha Têxtil Têxtil e Vestuário
43 195 Ligna Comércio, materiais de construção e decoração, metalurgia
44 196 Bombril Higiene e Limpeza
45 197 Eucatex Construção e engenharia, materiais de construção e decoração, química e
petroquímica
46 198 Grupo Farias Açúcar e Álcool, agricultura e comércio
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Um exercício interessante é contabilizar quantas vezes cada segmento de atividade específica foi mencionado na totalidade dos grupos industriais brasileiros privados. Os resultados não implicam que um segmento é mais importante que o outro (a mineração é mencionada duas vezes, mas é uma das mais relevantes nas receitas do grupo); servem somente de termômetro de quais atividades são mais frequentes dentro o grupo. Curiosamente, a atividade de comércio é a mais frequente dentre os grupos industriais.
Tabela 4 – Setores mais mencionados nos grupos industriais privados brasileiros (2011)
Qtde. Setor Qtde. Setor Qtde. Setor
14 Comércio 3 Materiais de construção 1 Comunicação
11 Metalurgia 3 Mecânica 1 Defesa
8 Alimentos 3 Papel e celulose, 1 Editorial
7 Açúcar e Álcool 3 Veículos e peças 1 Educacional
7 Química e petroquímica 2 Farmaceutico 1 Eletroeletrônica
7 Siderurgia 2 Mineração 1 Embalagens
7 Transportes e logística 2 Petróleo e Gás 1 Finanças,
5 Energia Elétrica 2 Plástico e borracha 1 Higiene e limpeza
4 Agroindústria 2 Tecn. Informação 1 Imobiliário
4 Bebidas 2 Têxtil e Vestuário 1 Infraestrutura
3 Calçados 1 Aeronáutica
3 Construção 1 Autopeças
Fonte: Valor 200 Grupos, 2012 (elaboração própria).
2.3. Os grupos selecionados para a pesquisa
Um primeiro recorte tentado para se chegar aos maiores grupos industriais da burguesia brasileira foi extrair os 10 maiores grupos.
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Tabela 5 – 10 maiores grupos industriais privados brasileiros (2011) % Receitas Grupos 200 Industriais Grupos Petrobras Ind. sem Receitas (R$ mi) % PIB 2011
Vale 3,9% 8,9% 12,0% 105.520 2,5% Odebrecht 2,6% 6,0% 8,1% 71.009 1,7% JBS 2,4% 5,4% 7,3% 64.239 1,6% Gerdau 1,5% 3,4% 4,5% 39.820 1,0% Votorantim 1,4% 3,3% 4,4% 38.929 0,9% BRF Brasil Foods 1,1% 2,5% 3,3% 29.361 0,7% Cosan 1,0% 2,2% 2,9% 25.918 0,6% Marfrig 0,9% 1,9% 2,6% 23.030 0,6% CSN 0,7% 1,7% 2,2% 19.784 0,5% Usiminas 0,6% 1,4% 1,8% 16.104 0,4% 4 grupos selecionadas 8,7% 19,8% 26,7% 235.497 5,7% 10 maiores priv. nac. ind. 16,0% 36,5% 49,2% 433.713 10,5% Todos priv. nac. indústria 19,2% 43,7% 59% 519.057 12,5%
Fonte: Valor 200 Grupos, 2012 (elaboração própria).
Contudo, este conjunto, que pode ser visto na tabela a seguir, contém duas peculiaridades: possui dentro dele alguns grupos excessivamente diversificados, Odebrecht e Votorantim, que tornaria muito complexa a pesquisa; e possui grupos em setores coincidentes – Gerdau, Usiminas e CSN na siderurgia e JBS, BRF e Marfrig no segmento de carnes. Portanto, excluídos os dois referidos grupos e selecionados os maiores grupos em cada segmento, foram selecionados os grupos: Vale, JBS, Gerdau e Cosan.
O grupo selecionado possui liderança em setores importantes dentro da economia brasileira e nos quais o Brasil possui destaque no mundo. A Vale é um dos maiores grupos do Brasil, maior empresa brasileira no ramo de mineração mundial e uma das três maiores mineradora do mundo; A JBS é a maior brasileira no segmento de carnes, segundo setor em exportações do agronegócio brasileiro, e é recém-chegada à condição de maior empresa do mundo no setor de proteínas; a Gerdau é a maior siderúrgica de controle brasileiro, maior empresa de aços longos do Brasil e das Américas, com grande presença internacional; e a Cosan que controla a maior empresa produtora de açúcar e etanol no mundo, em um ramo em que o Brasil está entre os líderes mundiais.
Por isso, consideramos que estudo do grupo selecionado poderá dar contribuições relevantes para o entendimento de uma parcela importante da burguesia brasileira, objeto de investigação dessa dissertação.
72 3. Metodologia de pesquisa
A pesquisa foi estruturada de forma a permitir a identificação, para cada uma das quatro empresas pesquisadas, dos parâmetros apresentados no último item do capítulo 1 - referentes aos nexos da burguesia com mercados interno e externo, à natureza de sua relação com o capital internacional e com o Estado, a solidez de sua base tecnológica e financeira, e o caráter de sua estratégia de acumulação76. É a identificação destas características e o esforço de elaboração de uma apresentação sintética da organização empresarial de cada grupo que permitirá contribuir para um passo no entendimento das questões levantadas como hipóteses no último item do capítulo 2, e o papel da burguesia brasileira nos anos 2000.
A investigação se concentrou no estudo dos seguintes grupos: Cosan, Vale, Gerdau e JBS. Para tanto, buscou investigar dados e informações desde o início da década de 2000 (e, quando necessário, desde o final da década de 1990) até os primeiros anos da década de 2010, entendendo esse período como um conjunto – os “anos 2000”.
Os procedimentos de pesquisa realizados foram:
(i) Levantamento dos relatórios anuais de cada empresa, obtidos em seus sites na
internet ou através dos sistemas de dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), através dos progromas DivExt e EmpresasNet. Foram levantados tanto Relatórios Anuais de ampla divulgação, Relatórios da Administração feitos para atendimento de requisitos de governança corporativa e os Formulários 20-F (F20-F), elaborados para a Bolsa de Valores de Nova Iorque (não se aplica à JBS).
(ii) Feito este levantamento, foi feito o resumo da linha geral de evolução das empresas, extraindo dos relatórios dados referentes às vendas, produção física, comércio internacional, investimentos e desinvestimentos, e, por fim, financiamento. Os relatórios permitiram iniciar uma análise qualitativa do desempenho dos mercados. (iii) Foi realizada ampla pesquisa de dados objetivando constituir séries históricas de
produção, consumo, exportações e importações dos mercados dos produtos principais de cada grupo, além de destacar os principais impulsionadores da dinâmica de cada
76 Não foram investigadas a fundo as relações das empresas com o trabalho, ainda que em diversos dados e
referências consultadas se permita inferir algum padrão destas relações. A sua investigação a fundo abriria uma outra linha de pesquisa que não poderia ser realizada nesta dissertação devido à extensão e complexidade.
73
um deles. Estes dados foram retirados de documentos de órgãos governamentais brasileiros (MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MME – Ministério de Minas e Energia, DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e dos Estados Unidos (USDA – United States Department of Agriculture, USGS – United States Geological Survey), associações de produtores nacionais e internacionais (Unica – União das Indústrias de Cana-de-açúcar, Instituto Aço Brasil, World Steel Association), organismos internacionais (OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, FAO – Food and Agriculture
Organization, das Nações Unidas, UNCTAD – United Nations Conference on Trade
and Development, Banco Mundial, FMI – Fundo Monetário Internacional) e, eventualmente, nos relatórios das empresas e em outros tipos de trabalhos e relatórios, acadêmicos ou jornalísticos.
(iv) Foi realizada também uma pesquisa por trabalhos acadêmicos – teses, dissertações, artigos, relatórios de pesquisa etc. – e por notícias em veículos de comunicação especializados em economia e negócios – jornais, revistas e sites – buscando trazer informações relevantes para o esclarecimento da dinâmica dos setores e dos grupos, em especial fatos decisivos para sua estratégia.
(v) O conjunto de informações foi organizado em quatro Anexos, um para cada grupo econômico: Anexo A, referente à Cosan, Anexo B, referente à Vale, Anexo C, referente à Gerdau, e Anexo D, referente à JBS. Os quatro foram estruturados da mesma forma, de modo a uniformizar a apresentação e o entendimento do caminho e dos resultados da pesquisa77.
(vi) Com base nos relatórios foi redigida a apresentação dos resultados, no item a seguir.
77 A estrutura de apresentação dos anexos é a seguinte: introdução, histórico do grupo, mercados principais e a
dinâmica deles, estratégia e trajetória de crescimento e transformação, sua base produtiva e financeira e uma síntese do grupo.
74 4. Síntese dos grupos selecionados
4.1. Cosan
O grupo Cosan se caracteriza por uma trajetória de aquisições e especulação no setor sucroalcooleiro, que se concluiu com a constituição de uma associação com o capital internacional em que este último controla a possibilidade de compra ou de venda do negócio de acordo com suas conveniências. Com origem no mercado de açúcar e álcool, o grupo orquestrou a fuga do negócio estruturalmente instável em busca de melhores condições em outras ramos especulativos, como a especulação imobiliária ou os serviços logísticos de exportação de
commodities, intermediação no mercado interno de combustíveis, lubrificantes e gás natural, sempre associado e financiado pelo capital internacional. Trata-se de um grande capital oportunista, que modifica suas bases de acumulação de acordo com as conveniências, mesmo quando é a maior empresa do ramo.
Tabela 6. Posição da Cosan no ranking dos 200 maiores grupos no Brasil (em receitas) 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 200 grupos 138º 109º ND* 111º 100º 82º 107º 53º 33º 27º 22º
25 indústria priv. nacional - - - 22º 20º 17º 22º 12º 6º 7º 7º
Receitas (R$ milhões) 1004 1569 ND* 2048 2702 3903 2979 7952 1868 6 1978 3 2591 8 *ND: Dado não encontrado
Fonte: Valor Grandes Grupos, diversos anos (elaboração própria)
O grupo Cosan tem como origem o setor sucroalcooleiro, produtor de açúcar e etanol a partir da cana-de-açúcar. No Brasil, trata-se de um setor de alta produtividade, mas bastante instável e no qual a produção é pressionada pelos outros agentes da cadeia, obtendo pequena margem. As usinas são pressionadas, por um lado pelo oligopólio nos fabricantes de bens de capital, e, por outro, pelo oligopólio dos clientes, as tradings do açúcar e as distribuidoras de combustíveis. Devido às características técnicas do ramo, as unidades produtivas são pulverizadas, o que deu origem à pulverização do capital o que, associado aos vínculos com os outros elos, as flutuações naturais e à volatilidade de preços, torna baixas as margens de lucro no
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setor. Em consequência, o setor possui uma base financeira muito frágil. Basicamente, os diferenciais do setor e em especial da posição dos usineiros é a capacidade de coordenar ou comandar a produção e as terras, em condições naturais muito favoráveis, e o trabalho barato.
Dentro deste quadro geral, o setor sucroalcooleiro passou por uma intensa expansão nos anos 2000, mobilizada principalmente: (i) no ramo do açúcar, pelo aumento da demanda externa e dos preços a ela associados78; (ii) no ramo do etanol, pela difusão do motor flex fuel em automóveis de passeio, que tornou o combustível substituto direto da gasolina; (iii) ainda no ramo do etanol, pelo aumento dos preços do petróleo na década, que permitiram que o etanol se tornasse competitivo durante alguns anos; (iv) pela projeção mundial e os investimentos advindos com isso, da decisão de vários países, em especial os EUA, de incentivar a produção de biocombustíveis79; (v) pelo desenvolvimento da cogeração de energia elétrica nas usinas, que deu um rendimento adicional aos usineiros80. São em especial dois fatores exógenos à economia brasileira – (i) e (iii) – que dinamizaram o setor, que esteve deprimido pela desestruturação do Proálcool desde o início dos anos 199081.
Gráfico 1. Brasil – exportações de açúcar – físicas (mi ton.) e valor médio (US$/ton)
Fonte: UNICADATA (elaboração própria)
78 Cf. OCDE-FAO (2011: cap. 6).
79 Cf. IEA (2012: cap. 7). Em 2003, os EUA passaram o Brasil e se tornaram o país líder na produção de etanol. em
2003; a partir de 2009, produziu 75% a mais que o Brasil.
80 Cf. Brasil (2010), Conab (2010). 81 Cf. Gonçalves (2009).
76
É neste contexto que o grupo Cosan cresceu. Originário de um negócio familiar antigo que se consolidou nos final dos anos 1990, o grupo teve como principal estratégia o crescimento por aquisições82 fortemente associado e financiado pelo capital internacional. Em uma década, ampliou consideravelmente sua capacidade produtiva à base de aquisições: em 2009, 66,4% da sua capacidade produtiva vinha de usinas adquiridas ao longo da década, 9,4% de duas novas usinas e o restante das usinas originais83. Maior produtor de açúcar e etanol do mundo pelo menos desde 2002, a Cosan explorou a fragilidade operacional, financeira e a pulverização do controle existente no setor para comprar e explorar os poucos ganhos de escala possíveis, de origem administrativa84.
O outro pilar da estratégia da Cosan é sua associação e recurso ao financiamento do grande capital internacional. Apesar de não haver dados organizados pré-abertura de capital (2006), reportagens sobre a companhia demonstram operações de sociedade com grandes empresas do ramo de açúcar desde os anos 1990 em usinas e operações portuárias, além do recurso a empréstimos e controle acionário minoritário85. A partir de 2006, com dados públicos, é possível ver que a empresa cresceu com capital próprio, em grande parte possibilitado pela abertura de capital, e com o endividamento, majoritariamente em moeda estrangeira (entre 60% a 80% nos últimos sete anos); os maiores aportes em moeda doméstica surgem entre 2010 e 2012 vindos principalmente do BNDES. A posição de fragilidade financeira do capital local é tamanha que, após a abertura de capital da Cosan S.A. na Bovespa em 2005, a empresa ficou sujeita a tomada de controle por outro grupo na medida em que o controlador, Rubens Ometto, foi reduzindo sua participação para capitalizar a empresa. Essa foi a sua justificativa para a criação de uma nova empresa controladora do grupo, a Cosan Ltd., sediada nas Bermudas, onde a
82 Ao longo da década de 2000, a Cosan adquiriu as Usinas Rafard, Gasa, Univalem, Dois Córregos, da Barra e
Junqueira (2000-2004), Mundial e Destivale (2005), Bom Retiro, Tamoio e Bonfim (2006), Santa Luiza (2007) e Benálcool (2008). Em 2009, adquiriu o grupo NovAmérica S.A. Agroenergia em 2009 com 3 usinas, 1 projeto
greenfield em Caarapó (MS), duas refinarias e quatro empacotadoras de açúcar e as marcas União, Dolce, Neve e