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5. 
 ANALYSIS

5.3 
 G LOBALIZATION

5.3.3 
 Foreign Trade

Uma das grandes diferenciações entre a história romanceada e o romance histórico é também a grande atenção que este último recebe da crítica. Louis Maigron (Le Roman historique à l’époque romantique - 1898) foi o primeiro grande teórico do romance histórico e, segundo Molino (1975) foi ele quem inspirou Lukàcs a escrever o seu admirável Le roman historique (1935-37). Essas duas obras representam, até hoje, os trabalhos de maior fôlego sobre esse tipo de romance, sendo comparáveis na atualidade com os escritos de Claudie Bernard (1989, 1996).

Ainda segundo Molino (1975), o trabalho de Maigron segue os parâmetros da teoria da nascente história literária e estudos literários. Esses procedimentos consistiriam entre três pressupostos: 1) há gêneros literários cuja evolução segue a dos seres vivos – nascem, crescem e morrem; 2) Os gêneros literários têm uma função (assim, a função do romance histórico teria sido a de preparar o surgimento do Romantismo na França); 3) há forte relação dessa função e sua ligação com a sociedade no qual o gênero se expande:

Com um ardor e uma confusão sem iguais, uma geração nova procura a forma da arte capaz de convir a uma nova sociedade. Por duas vezes pelo menos, pela Revolução e pelo Império, o fundamento social foi profundamente remexido e como que retornado. [...] Assim como a sociedade, a literatura devia se transformar também. (MAIGRON, 2011, p. VII-tradução nossa)25

E Molino completa assim o seu pensamento a esse respeito: “Le roman

historique est le genre où s’expriment les nouveaux idéaux de la société, exaltation de l’histoire nationale et amour du pittoresque, de la ‘couleur locale’”(O romance

histórico é o gênero no qual se expressam os novos ideais da sociedade, a exaltação da história nacional e o amor pelo pitoresco, pela ‘cor local’”.(1975, p. 197 – tradução nossa).

25 Avec une ardeur et une confusion sans égales, une génération nouvelle cherche la forme d’art capable

de convenir à une société nouvelle. Par deux fois au moins, par la Révolution et par l’Empire, le fonds social a été profondément remué et comme retourné. [...] Comme la société, la littérature, elle aussi devait se transformer. (MAIGRON, 2011, p. VII)

Não podemos nos esquecer de que, apesar de posterior a Lukàcs, Bakhtin tratou exatamente dessa maleabilidade do romance e sua forma ainda não definida em Epos e

romance, em Questões de Literatura e estética (1975). Nesse capítulo, o crítico russo

aponta para o fato de o romance ser o único gênero literário em formação e que, devido a esse caráter, se moldaria de acordo com a sociedade que o produz, sendo, assim, a forma nova de uma nova sociedade, como a epopeia fora anteriormente para as civilizações antigas. Entretanto, Bakhtin nos alerta que essa ideia é anterior até mesmo a Hegel, tendo sido elaborada pela primeira vez por Blankenbourg (Ensaios sobre o

romance, XVIII).

Segundo a teoria Lukacsiana, após os acontecimentos de 184826 na França, quando a burguesia e o proletariado separam-se ideologicamente e, conforme o pensamento de Lukacs, o marxismo toma a dianteira, à frente, inclusive, da ideologia progressista e o verdadeiro romance histórico tornar-se-ia impossível, pois, nesse período de desagregação, o povo teria sua representação diminuída ou mesmo apagada. Desse fato resultaria um “[...] romance exótico e particular, no qual se reflete a subjetividade, passiva ou reacionária, do escritor burguês isolado. [...]” - (“[...] roman

exotique et privé, où se reflète la subjectivité, attentiste ou réactionnaire, de l’écrivain bourgeois isolé. [...]” – tradução nossa) (MOLINO, 1975, p. 199).

Quanto ao problema de estética, ele é resolvido por Lukàcs pelo princípio de correspondência entre o romance e o real. Ele distingue o gênero dramático, o épico e o romanesco. Daí resulta que o bom romance histórico é aquele que não se trata por um gênero específico, pois “a relação do escritor [...] com a realidade histórica não pode ser diferente, em princípio, da sua relação com a realidade em geral.” - (“la relation de

l’écrivain [...] avec la réalité historique ne peut être différente en principe de sa relation avec la réalité en général”) - (1965, p. 189).

Segundo Molino, tanto Maigron quanto Lukàcs atrelam suas teorias ao historicismo. E, cada um a seu modo, decretam a desagregação ou morte do romance histórico: Maigron, pela encenação de ‘cadáveres’, nas peças de Alexandre Dumas; e Lukàcs, pela mistificação da história e apego a um naturalismo ‘sans âme’ que isola o protagonista do povo.

26 Revoluções de 1848 que encerraram a Monarquia de Julho, instauraram a Segunda República e marcou

Com base nesses dois primeiros teóricos, para Molino:

[...] A definição clássica do romance histórico, uma narrativa na qual o enquadramento é real e os personagens são fictícios, não tem nenhum valor universal: ela é o resultado de uma estilização parcial e datada, segundo a qual um tipo particular foi tomado por modelo e a forma mais acabada de uma essência que definiria o romance histórico em si. (MOLINO, 1975, p. 201 – tradução nossa)27.

Para o crítico francês, o conceito de romance histórico seria mais amplo, quase como um romance de costumes, aberto a outras definições e outras culturas, e não teria nascido com Walter Scott e nem morrido em 1848. Dessa forma, ele vai ao encontro de Bakhtin, uma vez que prega a liberdade original e a inconstância da forma romance.

Weinhardt (1994) chama a atenção para Bakhtin, em seu Epos e romance. Entretanto, este não classificou o romance histórico separadamente. Apenas distinguiu o romance da epopeia como um todo:

M. Bakhtin, além de apontar a variedade da organização do plurilinguismo no romance e os modos de que este dispõe para incorporar as diversas linguagens, estabelece uma distinção entre epopeia e romance que não se limita aos aspectos históricos e nem aos formais, mas mostra que cada gênero (entendido aqui como "epos" e como "romance", termos que dão título ao capítulo) comporta uma concepção de tempo, o que por sua vez é a expressão de mundos distintos, presididos por estruturas sociais diversas, por diferentes conceitos e funções de arte.

O epos já não tem lugar no presente, é um gênero fechado e encerrado como o mundo que representou, enquanto o romance é o único a se encontrar em processo de construção, capaz de dar conta da multiplicidade do presente justamente pelo seu caráter acanônico. O tempo representado na epopeia é o 'passado absoluto', fechado e inquestionável, a ser reverenciado sem crítica, com uma hierarquia estratificada e heróis que sumarizam em si o passado heroico nacional, heróis sem fissura entre o aspecto externo e interno, direito e avesso perfeitamente idênticos, ação e modo de ser sem conflitos.

A inconsciência da epopeia quanto à relatividade do passado pode ser a chave para se estabelecer a diferença e, consequentemente, o traço fundamental do romance, sobretudo quando acrescido do adjetivo

histórico. A matéria do romance é o passado histórico, ainda vivo,

sujeito a revisões, inconfundível com o passado mítico, cristalizado, imutável. O romance não comporta heróis, no sentido clássico, mas

27 [...] La définition classique du roman historique, un récit où le cadre est réel et les héros sont fictifs,

n'a aucune valeur universelle : elle est le résultat d'une stylisation partiale et datée, selon laquelle un type particulier a été pris pour le modèle et la forme la plus achevée d'une essence qui définirait le roman historique en soi.(MOLINO, 1975, p. 201).

seres humanos, igualmente capazes de atos heroicos determinados por motivos vis e de ações condenáveis movidas por sentimentos nobres. Assim, da perspectiva bakhtiniana, a denominação romance histórico não é determinada por qualquer traço interno, mas é um dado externo, peculiaridade sem relevância para a realização estética. Entretanto, é ainda lição de Bakhtin que o romance pode, em vista de sua capacidade de incorporar qualquer outro discurso, eventualmente valer-se inclusive de procedimentos épicos. (WEINHARDT, 1994, p. 49-50).

Mais recentemente, o final do século XX viu o surgimento de novas teorias e ideias mais adaptadas aos novos romances históricos novecentistas. Falamos, por exemplo, da Metaficção historiográfica de Linda Huchteon. Entretanto, ainda seguindo a esteira tradicional do século XIX, temos alguns ‘discípulos’ de Lukacs, representados por Bernard e Molino neste trabalho.