6.2 Diskontinuitet og diskursive kamper
6.2.4 Fordeling av ansvar og sosiale konsekvenser
A Ergologia aborda o trabalho do ponto de vista daquele que trabalha, ou seja, que executa uma atividade. Derivado do grego o prefixo ergo, pode ser traduzido como sinônimo de trabalho, porém, traz em si um significado muito mais abrangente, sendo, também, associado à ação, à realização, ao efeito, ao resultado.
Essa abordagem parte da distinção entre trabalho prescrito e trabalho real postulada pela Ergonomia, uma vez que numa situação de trabalho é impossível ater-se ao prescrito e determinado antes da execução, pois envolve a atividade humana para dele dar conta, bem com as “infidelidades do meio” que fazem parte da história dos humanos. Ademais o homem é um “animal que por meio da técnica, consegue variar, no próprio local, o ambiente de sua atividade” (CANGUILHEM, 1990).
A abordagem ergológica contempla o compartilhamento de saberes – o saber que parte do conhecimento científico, e o saber adquirido na realização da atividade no cotidiano do trabalho.
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Essa abordagem pressupõe diferentes olhares e o compartilhamento de diferentes saberes acerca do trabalho – saberes científicos, oriundos das disciplinas ditas científicas e os saberes construídos pelos próprios trabalhadores no cotidiano de trabalho. Munindo-se das reflexões e conhecimentos de diversas áreas e disciplinas – ergonomia, linguística, filosofia, saúde do trabalhador, psicologia do trabalho, engenharia de produção, a abordagem ergológica promove um diálogo entre diferentes autores e os atores de trabalho, suscitando um encontro de ideias e de saberes, na busca solidária de possibilidades e alternativas de transformação de situações de trabalho[...] (Araújo, 2009, p. 67).
Como exemplos que inspiraram essa abordagem, podemos citar o trabalho do MOI – Modelo Operário Italiano de luta pela Saúde, na década de 1970, o qual objetivava compreender as nocividades dos ambientes de trabalho, intencionando transformá-lo. Nesta perspectiva um grupo de trabalhadores de fábrica aliou-se a um grupo de profissionais da Saúde, a fim de juntos trabalharem questões relacionadas à saúde e segurança, enfatizando a subjetividade dos trabalhadores, contando com a participação efetiva de todos os envolvidos no enfrentamento das questões relacionadas ao trabalho. (ARAÚJO, 2009).
Outras contribuições relevantes no desenvolvimento dessa perspectiva de abordagem também foram desenvolvidas na França por Dejours (1987), e a ergonomia situada (Wisner, 1987; Daniellou, 1989), que enfatiza a “defasagem entre o trabalho prescrito e o trabalho efetivamente realizado, onde os trabalhadores engendram, nas situações do cotidiano, substancioso processo de reinvenção e criatividade diante dos limites e variabilidades sempre presentes nas situações reais de trabalho.” (Idem, 2009).
Na América Latina, baseados no MOI (1989), surgiram as Comunidades Científicas Ampliadas e, posteriormente, as CAPs - Comunidades Ampliadas de Pesquisa, as quais:
[...] adotam como metodologia a realização de Encontros de Trabalho, que permitem que cada participante construa, mesmo que provisoriamente, seu ponto de vista sobre a atividade. Todos são convocados a problematizarem suas questões e disponibilizarem seus saberes; e, no debate, assimilam novos conhecimentos e atualizam os saberes transmitidos, aumentando, assim, a capacidade de antecipação em situação de trabalho. um novo tipo de relação de diálogo entre o polo dos saberes científicos e o polo dos saberes da experiência. (Ibd., 2009, p. 68).
Ainda de acordo com Araujo (2009), a abordagem ergológica está centrada na atividade e pressupõe que os trabalhadores são autores do processo, e não apenas executantes de normas ou prescrições. Neste sentido, fundamentada em outros autores afirma que a atividade pressupõe normas e histórias antecedentes, que são renormalizadas no começo de uma nova atividade, que obriga a instituir estruturas de aprendizagem permanente dos saberes e dos valores, nos diferentes contextos e modos de trabalho.
91 Para Canguilhem (1990), refletir a atividade do trabalho torna-se fundamental atentar e entender que as “infidelidades do meio”, os fracassos, os acidentes e o mal-estar fazem parte do nosso dia a dia, da nossa história, sendo saudável, segundo a disposição e a capacidade de enfrentá-los.
Segundo Araújo, 2009, apud Leite, 1994, p. 31:
[...] experiência pressupõe que, se por um lado, as estruturas objetivas têm efeito sobre a vida das pessoas, esses efeitos não são determinados aprioristicamente, mas dependem de como as pressões determinantes são manejadas pelas pessoas, a partir de sua cultura e de seus valores.
Deste modo, a atividade do trabalho mesmo executado de forma coletiva apresenta a singularidade de quem executa. Assim o trabalhador tem a possibilidade de negociar o seu lugar num trabalho coletivo e confrontar por meio da sua experiência anterior as disparidades entre o real e o prescrito.
A atividade do trabalho está permeada de “infidelidades”, porém, as situações ainda que dentro do mesmo contexto e direcionadas pela mesma prescrição ocorrem de forma diferente, porque o trabalhador é singular, então o resultado reproduz a singularidade de quem realizou. Além do saber científico (prescrito), ele faz uso do saber adquirido (a experiência, o real). De modo que “o resultado da atividade é, então, sempre uma obra (ergon) pessoal, sinal da habilidade, personalidade etc., de quem a produziu. (GUÉRIN et al., 2001, p.18).
A Ergonomia, disciplina que trata de estudar o trabalho com vistas a transformá-lo, compreende três elementos: a atividade, as condições em que essa atividade se realiza e o seu resultado, ou seja, o trabalho consiste nessas três dimensões. (GUÉRIN et al. 2001). Portanto, analisar o conjunto (atividade, condições e resultado) chamado trabalho, requisita diversas áreas de conhecimento (economia, sociologia psicologia, etc.), as quais são interdependentes, nenhuma dá conta por si só da complexidade do trabalho.
O propósito dessa investigação centra-se na análise da atividade, porém cabe definir: tarefa, atividade e trabalho. Ainda de acordo com (GUÉRIN et al. 2001):
A tarefa é o resultado antecipado do que se pede conforme condições determinadas. É trabalho prescrito;
A atividade do trabalho é a realização da tarefa conforme as condições reais, resultado real, ou seja, o trabalho real;
O trabalho é a atividade, as condições sobre as quais se realiza e o resultado efetivo. De um modo geral a atividade é movimento, se tratando de trabalho, a atividade se personifica, enquanto atividade produtiva (mercantil), ou seja, aquele que trabalha é ativo, o
92 que não trabalha é inativo. Portanto, a atividade do trabalho consiste em uma atividade socialmente determinada. Nessa lógica “[...] não é a atividade em si, mas a sua finalidade que determina o trabalho” (Ibd., 2001, p. 16).
Portanto, a intenção desta investigação, é analisar a atividade efetivamente realizada pelos trabalhadores do Cras, do ponto de vista de quem executa, distinguindo a tarefa (trabalho prescrito), o que é (trabalho real) e em que condições se realiza.
Devido à complexidade do trabalho, submeter sua análise a uma única abordagem seria negligenciar resultados. Portanto, no decorrer da busca de ferramentas metodológicas, nos deparamos com a já citada disciplina Ergologia, que trata especificamente do estudo da atividade humana e do trabalho. Conforme assinala Trinquet (2010, p. 93), “enquanto abordagem, a ergologia consiste em um estudo de toda atividade humana e, mais notadamente, da atividade do trabalho”.
A abordagem ergológica se dá de forma pluridisciplinar, pois compreende como insuficiente sua investigação a partir de uma única disciplina. Por esta envolver diversos saberes, o que permite uma visão multidimensional da realidade estudada.
Nesse sentido, a ergologia se constitui como método facilitador ao entendimento da complexidade do trabalho social. Segundo a referida abordagem, analisar a atividade do trabalho pressupõe “o sentido de atividade interior [...] É o que faz com que o trabalho possa se realizar, e de fato, se realiza” (Ibd.,, 2010, p. 96).
O autor citado compreende o trabalho como “[...] um ato da natureza humana que engloba e restitui toda complexidade humana.” Assegurando que por esta razão quando tratamos de trabalho, não tratamos de algo simples, mas de toda complexidade que envolve o trabalho e sua atividade (conhecimento, organização, gestão, prevenção de riscos, outros).
Assim a ergologia torna-se pertinente nos estudos referentes ao trabalho, por essa fazer um apanhado das diversas perspectivas que abordam o tema, reunindo todos os conhecimentos com fim de ter uma visão geral da atividade do trabalho. Tendo como objetivo:
Conhecer melhor a realidade complexa de nossa atividade laboriosa. Quer dizer analisar sob quais condições ela se realiza efetivamente, o que permite organizá-la melhor e, portanto, torná-la mais eficaz e rentável tanto em seus aspectos econômicos quantos sociais e humanos sem ter de forçar a sua intensidade e/ou sua cadência. (Ibid., 2010, p. 95)
Desse modo, estudar o trabalho na perspectiva ergológica significa analisá-lo do ponto de vista da sua atividade, ou seja, de como ele se realiza na sua totalidade, não tratando o
93 processo como algo simples e mecânico, mas como algo que envolve a complexidade humana. Por isso a ergologia considera uma abordagem pluridisciplinar.
O método ergológico argumenta haver uma lacuna entre o real e o prescrito, ou seja, entre o que está determinado para fazer (tarefa) e o que realmente foi realizado. E o que vai fazer a diferença é a particularidade do executor. Há um processo que está para além da técnica utilizada, leva-se em conta situações reais e particulares na execução da atividade que podem ser de caráter, ético, religioso, social, etc. A Ergologia propõe compreender para transformar, (re)inventando, as formas de fazer no uso das ferramentas e no uso de si.
Segundo Schwartz e Durrive (2007, p. 192), no exercício da atividade do trabalho, para cumprimento das normas: “Cada pessoa vai tentar ‘lidar com’ as lacunas ou deficiências a seu modo, pois ela não pode fazê-lo de uma maneira padronizada. Ela o faz com sua própria história, seus próprios valores.” E é capacidade de cada um, o jeito de ser, o saber que carrega e compartilha que dá significado ao trabalho para além da execução de tarefas.