Nunca a imaginação pode dizer: é só isso. Sempre há mais que isso.
Gaston Bachelard – A poética do espaço
O Arquiviagem reúne um conjunto de documentos acumulados em diversas ações artísticas por mim desenvolvidas nos últimos anos (consolidados como arquivo do artista), apresentado em forma de arquivo virtual, disposto como página web <http://arquiviagem.net>.2
Em seu primeiro eixo, Arquiviagem trata do arquivo do artista propriamente dito, elaborado processualmente a partir da conjunção do meu euartista com meu euarquivista. Um arquivo desprovido de prazo de conclusão, como um work in progress, preparado para assimilar e articular elementos como: ideias, proposições autorais, acumulações, derivações, diálogos, brainstorms, fracassos, restos, memórias, inessencialidades ou inutilidades, enfim, aquilo que cabe sob plataforma web de meu fazer artístico. Engloba material derivado de diversas mídias, códigos, publicações, projetos e obras. Um arquivo com capacidade de se reconstituir na medida em que novos elementos são acrescentados ou ainda, pelas possibilidades de atravessamento e abertura (dadas pelo acesso, experimentação, sensibilidade e perspicácia), capazes de reinventar conteúdos e direções. Um arquivo virtual que faz uso do potencial das redes e que sublinha as possibilidades abertas dos ambientes digitais, que considera o caráter contingente e instável das mídias digitais e dispositivos, que arrisca sua manutenção e continuidade ao passo da obsolescência dos sistemas de interpretação dos
códigos digitais, que traz em si diferentes contextos e conteúdos (antagonismos, particularidades, limites e conflitos). Arquivo que contém a multiplicidade de arquivos (arquivo de arquivos), que se pretende em movimento e que em certo grau desafia a perspectiva tradicionalista de arquivo impregnada de noções rígidas como fixidez, veracidade, princípio de ordem, indexação, inventário, preservação e perenidade.
No Arquiviagem predominam conteúdos de ações artísticas realizadas em tempos variados, situações e motivações específicas, as quais estão sujeitas a reúso. Ao considerar suas condições originais de publicação na rede, estabeleço seis núcleos elementares: Arché, Vitoriamario, Orquestra Organismo, Trânsitos, Coletivo E/Ou e Aberturas. O núcleo Arché é constituído por origens, começos. O conteúdo, que revela saltos e abandonos musicais, trata de minhas primeiras experiências como artista em bandas autorais. O núcleo Vitoriamario abarca a coleção Apodrece e vira adubo, arquivo um tanto anárquico composto por fragmentos desse personagem fictício e público, que a seu jeito gera e organiza os documentos acerca de seu mito. O núcleo Orquestra Organismo é composto por proposições artísticas do coletivo de mesmo nome, em sua maioria registros de ocupações e de processos de pesquisa nos quais o grupo se envolveu. A coleção Trânsitos concebe o conjunto de proposições realizadas em parceria com a artista Claudia Washington, motivadas principalmente pela busca de diferentes modos de estar por onde vivemos ou passamos. O núcleo Coletivo E/Ou traz a coleção Re[des]cartógrafos, a qual abrange um conjunto de ações artísticas cartográficas – esforço empreendido pelo grupo homônimo em organizar e disponibilizar a documentação gerada nas etapas de seu projeto descartográfico. Por fim, Aberturas aborda um leque de proposições heterogêneas, em parte individuais, como Antitotem, Arqueidoscópica e Revoluções Mínimas; em parte curatoriais participativas, como em Golpe tem cara e Circuito Grude. Este modelo de organização procura enfatizar o aspecto derivante das situações, que apesar de singulares podem ser permeáveis e, dependendo do grau de embaralhamento, indiscerníveis entre si.
No arquivo Arquiviagem proponho atravessamentos, confluências, interpretações, contaminações e desdobramentos dos processos e poéticas empreendidos nas diversas coleções, ações e fluxos participativos. Me interessa pensar arquivo como lugar inventado, como mundo atravessado, como entonação, como variação espaçotemporal, como desconstrução, como desdobra, como mistura, como inflexão, como conascimento (DEGUY, 2007).
Ainda que parte dos conteúdos deste arquivo já existisse publicado em algumas páginas web e repositórios espalhados pela internet, outra parte da documentação encontrase fragmentada em dezenas de diretórios de discos rígidos e mídias obsoletas, além dos muitos itens que permanecem ocultos e confinados em pastas de arquivo morto a espera de um dia serem digitalizados. A dispersão ou ocultação desse material também faz parte do meu fazer artístico. Sinto que ao revisitar essa produção, encontro condições para repensála, a ponto de tecer uma trama que articula seus conteúdos, conceitos e poéticas. O arquivo é também um modo de pensar e agir sobre aquilo que se inexplicavelmente se desperdiça, dado talvez pela fugacidade dos meus atos ou pela incapacidade de mobilização frente a um conjunto heterogêneo. Arquiviagem surge como tática para chacoalhar e rematerializar ideias e ações, redispondo intensidades, liberando novas experimentações. Arquiviagem trata da falta e da necessidade de encontrar meios para lidar com ela. A falta é motor ao artista do arquivo. Os conteúdos de Arquiviagem são matériaprima para combustão de derivações artísticas. Seus dados permitem infindáveis experimentações. O arquivo é laboratório, é atelier, é movimento. Em sua fragmentação enxergo um potencial espaço de densidade. Um espaçotempo repleto de durações (BERGSON, 1999). “A duração, neste sentido, é não somente a maneira como as coisas existem e se colocam no mundo, mas também a maneira pela qual nos relacionamos com as coisas: no tempo, na duração” (ARANTES, 2015, p. 5758). ~
Sobre a noção de work in progress Renato Cohen elabora: “O produto, na via do work in process, é inteiramente dependente do processo, sendo permeado pelo risco, pelas alternâncias dos criadores e atuantes e, sobretudo, pelas vicissitudes do percurso” (COHEN, 1998, p. 18). Em seu pensamento o risco é inerente ao processo “Risco físico e psíquico dos performers e criadores, e, sobretudo, risco do processo não confluir em produto final, e vivificarse enquanto momento, matéria existente dos participantes” (Ibidem). Pensar o arquivo enquanto processo e risco é compreendêlo que se faz por gesto inacabado, se aviva em fragmentos, enquanto abertura. (THOMAZ, 2015). ~