129 O senso comum que muita gente adquire de que a habitação burguesa portuense existente no centro histórico diz respeito a prédios mais antigos, com apartamentos demasiado pequenos e condições precárias, está errado. Na verdade, os “prédios” que nos chegam até hoje foram o reflexo de uma época de extrema densidade populacional, à qual a casa do Porto se procurou adaptar.
E é importante perceber que tais adaptações transformaram a casa por regra unifamiliar numa habitação plurifamiliar, que não foram executadas como medida de melhoramento dos espaços, mas sim para albergar as pessoas mais pobres que procuravam trabalho na cidade e que, devido às dificuldades financeiras, aceitavam viver em condições mais precárias.
Ficou claro que a casa do Porto foi bem concebida no início e que espaço habitacional foi desenhado e pensado para responder às necessidades da sociedade burguesa do séc. XVIII e XIX, construído como uma espécie de moradias em banda, organizadas ao longo das artérias viárias. Não é a casa do Porto que não se adapta à realidade, mas sim a sua posterior adaptação a casas plurifamiliares, com a consequente desqualificação dos espaços.
E é neste contexto que o conhecimento da história se torna imprescindível. Antes do julgamento de uma determinada tipologia, é fundamental conhecer a sua evolução ao longo do tempo, percebendo em que circunstância os seus espaços foram criados e adaptados; daí a importância do capítulo II. Estamos portanto, à procura de soluções atuais para as soluções encontradas no passado, ou seja, a procurar reabilitar um espaço que já sofreu transformações.
Não obstante, é igualmente importante perceber quem é que continua a habitar nestas casas. Antes de procurar soluções, é necessário perceber o que está mal e o que conduziu ao envelhecimento e abandono desta tipologia.
E é neste sentido que o capítulo III assume a sua importância, como fonte de conhecimento da realidade atual.
Enquanto as famílias recém-constituídas procuravam e continuam a procurar casa nos municípios arredores, o centro histórico permaneceu com uma população mais pobre que habita as mesmas casas ao longo de várias gerações. Tal como aconteceu no passado, onde os mais ricos procuraram novas casas em zonas mais afastadas do centro,
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dando origem à tipologia do período liberal, foram os mais pobres que preencheram os adaptados interiores burgueses.
Os materiais foram envelhecendo ao longo dos tempos, nuns casos devido ao completo abandono dos edifícios, que os deixou à mercê da degradação, noutros casos por se tratar de habitações a cargo de senhorios que, devido ao reduzido preço das rendas dos seus inquilinos, não procuraram uma cuidada manutenção do edifício.
“Mas, porque o espaço é contínuo e porque o tempo é uma das suas dimensões, o espaço é, igualmente, irreversível, isto é, dada a marcha constante de tempo e de tudo o que tal marcha acarreta e significa, um espaço nunca pode vir a ser o que já foi.
(…)
Podemos, talvez, considerar dois tipos de participação na organização do espaço; uma participação a que chamaremos horizontal, que se realiza entre homens de uma mesma época, uma outra a que chamaremos vertical que se realiza entre homens de épocas diferentes (…) em obra que se processa ao longo de um período de tempo que ultrapassa a dimensão da geração.”92
Segundo este pensamento de Fernando Távora, é necessário agirmos em conformidade com o passado, como um trabalho contínuo de adaptação e, como arquitetos, cabe-nos a função de procurar as melhores soluções para os espaços desqualificados.
A reabilitação da casa do Porto torna-se mais do que necessária, numa altura em que cada vez mais se assiste ao fenómeno de abandono do centro histórico em benefício dos arredores, que culmina no envelhecimento e agravamento do estado de degradação.
A classificação do centro portuense como Património Mundial da Humanidade é mais do que razão para a procura de soluções de reabilitação que visem a permanência da identidade da tipologia de habitação burguesa, não só no exterior, mas também no interior, como um reflexo do tempo num espaço e do trabalho contínuo que o arquiteto deve assegurar.
Esse trabalho contínuo deve passar pela adoção de soluções de intervenção que privilegiem a manutenção dos elementos característicos interiores, com as inerentes
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131 vantagens, na medida em que diminui a dimensão e os custos do processo de reabilitação.
Um dos problemas atuais do Porto e um dos principais fatores de preferência pelos arredores são os elevados preços da habitação, tanto no campo da aquisição como arrendamento.
Uma estratégia de reabilitação menos destrutiva, mais rápida e mais barata poderá ser a chave futura para grande parte dos problemas da cidade do Porto:
- Alargamento do processo a mais pessoas, o que pode facilitar e tornar a requalificação do centro histórico mais rápida;
- Diminuição dos custos de aquisição ou arrendamento com a redução dos custos da intervenção de reabilitação;
- Maior procura por parte das famílias recém-constituídas, jovens, trabalhadores liberais e turistas com a diminuição dos preços;
- Reversão da tendência de envelhecimento com a atração das camadas mais jovens.
A comprovação realizada no capítulo IV das possibilidades de organização funcional que podem existir num mesmo espaço, mantendo-se a estrutura principal, torna esta estratégia de reabilitação cada vez mais possível.
Apesar das limitações dos edifícios no que diz respeito ao cumprimento dos novos regulamentos e à introdução de novos equipamentos, como o elevador e a garagem, que se podem tornar em motivos de renúncia desta tipologia, a casa do Porto ganha caminho, na medida em que se transforma um produto adaptado às realidades que foram surgindo com o tempo, num diálogo harmonioso entre as formas de habitar contemporâneas e as estruturas e identidades passadas que permanecem, como um espaço de convívio entre a atualidade e as memórias da sociedade de uma época passada de crescimento da cidade.
Foi demonstrada a viabilidade da casa burguesa portuense e, nessa medida, as soluções de organização espacial estudadas são uma efetiva possibilidade de reabilitação da cidade, assegurando-se a permanência do valor patrimonial dos edifícios, bem como uma possibilidade de rejuvenescimento de um centro histórico que, ao longo dos anos, tem vindo a ser abandonado em benefício de outros lugares.
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Anexo I
Estado de conservação em 2008 e 2011
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Anexo II
Estado de ocupação em 2008 e 2011
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