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Flere i arbeid

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1 Leders beretning

3.3 Flere i arbeid

Miguel Real defende que os feitos históricos da Europa não são valorizados como deveriam ser. Pelo menos, não existe um reconhecimento universal na proporção que estes impunham. Tal deve-se ao papel de subalternidade que a Europa desempenha hoje em relação aos Estados Unidos da América, sendo a Europa vista, após a II Guerra Mundial, como um mero “apêndice” dos EUA (cf. Real, 2012: 47). Este facto, por sua vez, obriga a uma reflexão sobre o que falhou na Europa. Segundo Miguel Real, o que falhou na Europa foi a revolução tecnológica. A Europa criou a primeira revolução industrial, partilhou a segunda – a da energia elétrica – com os EUA, mas, decisivamente, falhou a terceira – a eletrónica e informática (cf. idem: 47-48). Em termos de progresso tecnológico, “a Europa parou na II Guerra Mundial” (idem: 47). Desta forma, no presente, nós, europeus, consumimos sem ser criadores (cf. idem: 54). Por ter falhado a revolução tecnológica, a Europa encontra-se hoje bloqueada (cf. idem: 53-54). Posto isto, Miguel Real considera que o homem europeu se sente no presente dividido entre dois mundos, o que abandonou e o que não alcançou. Relativamente ao mundo que abandonou, o homem europeu sente culpa, muitas vezes esquecendo-se de que na construção desse mundo houve muito de bom; já quanto ao mundo que sonhou mas não alcançou, o homem europeu sente-se do mesmo “espoliado pelo seu irmão americano” (idem: 48). Por isso, Miguel Real considera que o húmus da consciência europeia é hoje “o da impotência, o da incapacidade, ou, em palavras positivas, o da debilidade, da fragilidade e da fraqueza históricas” (idem: 49). Desta forma, ele conclui que o “continente criador da História sente-se hoje ferido pela mesma História.” (ibidem). Hoje, a Europa é um continente em acelerado processo de decadência, um projeto político que se encontra prisioneiro de uma ideologia tecnoburocrática, de forte pendor moral, castigadora até, e que é antidemocrática e cega na prossecução do destino que para si escolheu: a elevação do controlo das contas públicas a destino coletivo mitológico (porque ainda não atingido). Algumas reservas poderiam ser levantadas relativamente ao uso do termo «decadência» com referência à Europa. Como é óbvio, quando Miguel Real fala em decadência, um termo que está muito longe de ser neutro, este é usado de forma relativa. A Europa está em decadência em relação à sua história política e cultural. Mas, poder-se-ia ainda assim perguntar, será mesmo um momento de decadência? Não será apenas um pequeníssimo (na imensidão da história europeia) desvio de percurso ao qual será porventura exagerado chamar «decadência»? Nós colocámo-nos estas mesmas questões. A melhor forma que encontrámos para dar uma resposta definitiva a estas questões surgiu-nos através da tese de Vladimir Jankélévitch sobre a «decadência», quando este defende que “não existem conteúdos históricos que possam ser caracterizados como decadentes «em si mesmos». A decadência não está in statu mas in motu” (apud Calinescu, 1977: 140). Ou seja, tal como faz notar Matei Calinescu, a decadência não é uma estrutura; é uma direção ou tendência (cf. Calinescu, 1977: 140). Desta forma, consideramos a análise de Miguel Real

validada e o uso termo plenamente justificado.

Em A Vocação Histórica de Portugal, publicado em 2012, Miguel Real identificava o então Estado português como a “expressão ideológica desta nova Europa” (Real, 2012: 106), demitindo-se do seu papel histórico e constitucional de guardião dos direitos cívicos dos seus cidadãos, exigindo, por outro lado, deveres técnicos (cf. ibidem). Dito de outro modo, os problemas da Europa tornaram-se também os nossos problemas (cf. Real, 2015b: 87-88). Assim, tragicamente, o povo português, “um povo que na sua longa história nunca conhecera direitos de monta, logo que os alcançou, a seguir ao 25 de Abril de 1974, simulando-se parceiro definitivo de uma genuína consciência social europeia, logo lhes foram furtados em nome do rigor de um orçamento de Estado que sempre tem sido madrasto para as populações pobres” (Real, 2012: 107). Diz Miguel Real que se cumpriu, desta forma, o desígnio pessoano: “o nosso provincianismo consiste em estar, em viver, numa civilização, sem verdadeiramente fazer parte dela e do seu desenvolvimento” (Fernando Pessoa apudibidem). De resto, Miguel Real considera que nada de original nasceu em Portugal nos últimos trinta nos, nada que pudesse ser encarado como um contributo português para a cultura europeia (cf. idem: 109).

2.2.1. Consolidação democrática

Do que de bom há a assinalar é que a consolidação da democracia portuguesa “e a impregnação no nosso tecido mental de hábitos de raiz europeia, enterraram definitivamente tanto a tentação de um pensamento absoluto aplicado ao todo da sociedade portuguesa quanto a canibalização das teses adversárias.” (Real, 2007: 100). De facto, Miguel Real defende que os avanços em Portugal têm acontecido “por via da Europa” (idem: 101). Pois bem, se é evidente que houve um desperdício dos recursos económicos proporcionados a Portugal por via da integração europeia,11 o mesmo já não parece ser tão válido em termos

culturais, principalmente no que se refere às novas gerações, que muito de urbano e europeu têm.12 De resto,

tal como referimos, Real considera que os feitos de Portugal nos últimos 30 anos não se devem exclusivamente a Portugal, e talvez não se devam em absoluto a Portugal, mas à Europa (cf. idem: 117). Portugal deve, assim, agradecer à contribuição europeia e aos políticos fundadores da democracia por não estar ainda pior (cf. ibidem), “nunca à patética e ignorante classe política que nos governa desde a década de

11 Boaventura de Sousa Santos considera que o desbarato dos fundos estruturais e de coesão europeus “constituiu a história mais secreta da corrupção em Portugal.” (Santos, 2011: 164).

80, que trocou voluntariamente a aposta na competência técnica e cultural de cada português por mãos cheias de escudos e euros doados ao cimento, ao betão e à construção.” (ibidem). A verdade é que as coisas antes do 25 de Abril estavam tão más que qualquer melhoria introduzida se figurava logo como um salto gigantesco (cf. ibidem). Tal como diz Real, para “um país imóvel meio século, um pequeníssimo movimento sugere uma velocidade aceleradíssima.” (ibidem).

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