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In document Fiskeriene 1929-1930 (sider 75-132)

chefes de família

A pertinência do censo de Fortaleza, de 1887, não reside em sua precisão quantitativa, mas naquilo que proporciona depreender dos dados relativos aos pobres, especialmente aos submetidos a trabalhos domésticos. O dito levantamento populacional pontuou a cifra de cerca de 27.000 habitantes (26.943), sendo 14.709 na Freguesia de São José e 12.234 na de Nossa Senhora do Patrocínio. Era uma sociedade cuja maioria dos indivíduos compunha-se de mulheres. Cerca de 10 mil (9.845) habitantes tinham profissão conhecida, enquanto os sem profissão declarada chegavam a 17.098 pessoas (ver tabela 4). Este último dado, de acordo com o Pedro II, “traria a idéa de uma sociedade de vagabundos, se não

estivessem incluidos n’este ultimo numero as mulheres casadas e os filhos-familias, que aliás não são inactivos”272.

Entre os considerados sem ofício, encontravam-se muitos homens e mulheres que não tinham seu trabalho reconhecido como profissão. Era o caso das meretrizes (que totalizavam 351)273 e o de crianças e de agregados(as) em casas de família que realizavam serviços domésticos, mas não foram classificados(as) enquanto criados(as). Gritante era o contingente de analfabetos (17.287), já os que sabiam ler (9.656) perfaziam 35,83% dentre os citadinos (ver tabela 4). Dentre os não instruídos, poder-se-ia abstrair as 7.168 crianças; ou seja, aqueles meninos e meninas na faixa etária até os 10 anos de vida, conquanto alguns poucos destes soubessem ler. Nesse caso, ter-se-á a cifra de 10.019 analfabetos adultos, o que representava 37,18% da população compulsada.274

Considerando somente os que encabeçavam a lista de moradores de cada domicílio, tem-se que, entre os que sabiam ler, 1.260 eram do sexo masculino e 267, do feminino; já os que não dominavam a leitura, embora de modo rudimentar, totalizavam 724 homens e 603 mulheres. Não há informações, quanto a esse aspecto, sobre 27 chefes de família, o que não altera decisivamente os resultados da contagem. O total de homens cabeças de moradias era de 1993, dentre os quais, 1.260 tinham instrução (63,22%). Se se verificar essa proporção entre as cabeças do sexo feminino, ter-se-á que das 869 existentes, somente 267 eram capazes de ler de algum modo, isto é, 30,72%. Isto era consequência da precariedade do ensino público na Província, o que pode ser estendido para todo o País, destinado aos estudantes de segmentos abastados.

As tabelas 3 e 4 sintetizam dados sobre o dito censo da capital cearense. Da tabela 3, destaca-se a superioridade, já mencionada, do contingente feminino na população. Em grande medida, as mulheres encontravam-se solteiras. Considerando-se os números absolutos, os solteiros somavam 18.556 pessoas; os casados, por sua vez, alcançavam a cifra de 6.478, enquanto o grupo menor era o dos viúvos, com 1.909 arrolados. Boa parte das mulheres que chefiavam domicílios era solteira. Nesse tocante, as que foram listadas como cabeça de família tinham várias profissões e ocupações. Dentre estas, havia relevante número das que foram classificadas como sem profissão, nessa situação estavam 457 mulheres. Deve-se deduzir daí o

272 Pedro II, ano 48, nº 89, Fortaleza, Domingo, 06/11/1887, p. 01. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/216828/per216828_1887_00048.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2016.

273 CEARÁ. GOVERNO DA PROVÍNCIA. SECRETARIA DE POLÍCIA. Arrolamento da População de

Fortaleza, de 1887. Freguesias de São José e de Nossa Senhora do Patrocínio. 5 livros.

274 O Cearense, ano XLII, nº 249, Fortaleza, Domingo, 06/11/1887, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1887_00249.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2016.

total de meretrizes que encabeçam as respectivas listas de moradores; sendo que, das 351 registradas no aludido censo, 158 delas eram responsáveis por seus domicílios. O contingente feminino, ainda, perfazia o maior número de pessoas consideradas sem profissão, ou não declarada, que era de 457; enquanto os homens totalizavam apenas 95. Mulheres hospedavam- se com filhos já casados, às vezes, e, embora tivessem vida ativa, em casa ou fora desta, não declararam, em alguns casos, qualquer ocupação. Nesse sentido, têm-se as informações de uma casa sem número na Lagoinha, na qual Ana Rita da Conceição, de 40, vivia com o filho, José Pereira Batista, de 25, e a nora, igualmente sem emprego. Hospedavam-se ali, ainda, duas outras filhas, Francisca (18 anos) e Manoela (15). 275 José Batista era jornaleiro e, na sua residência, mantinha uma fábrica de sabão, com o que devia abastecer as lavadeiras da vizinhança, pois ali se encontravam quatorze que desse modo ganhavam a subsistência.

Tabela 3 Arrolamento da População de Fortaleza – 1887, Nacionalidade, Sexo e Estado

Par óqu ias N º de habi tan tes

Nacionalidade Sexo Estado

Brasileiros Estrangeiros Masculino Feminino

Solt ei ros C as ados V iúvos S. José 14.709 14.539 170 6.371 8.338 9.999 3.661 1.049 N. S. do Patrocínio 12.234 12.085 149 5.223 7.011 8.557 2.817 860 Total 26.943 26.624 319 11.594 15.349 18.556 6.478 1.909

Fonte: O Cearense, ano XLII, nº 249, Fortaleza, Domingo, 06 jun. 1887, p. 02.

Tabela 4 Arrolamento da População de Fortaleza – 1887, Profissão, Instrução e Habitação

Par

óqu

ias

Profissão Instrução Habitação

Com Sem Sabem ler Não

sabem ler

Sobrados Casas Choupanas

S. José 5.158 9.551 4.941 9.768 40 2.441 652

N. S. do Patrocínio

4.687 7.547 4.715 7.519 32 1.948 526

Total 9.845 17.098 9.656 17.287 72 4.389 1.178

Fonte: O Cearense, ano XLII, nº 249, Fortaleza, Domingo, 06 jun. 1887, p. 02.

275

CEARÁ. GOVERNO DA PROVÍNCIA. SECRETARIA DE POLÍCIA. Arrolamento da População de

Nesses arranjos particulares, conquanto não tivessem ocupado o lugar de cabeças de família, ostentavam o papel simbólico de matriarcas, com ascendência moral sobre sua prole. Portanto, nem sempre o que encabeça o registro de familiares é o mantenedor exclusivo, ou principal, da economia doméstica de um determinado domicílio. Encontrou-se, inclusive, um menino com idade inferior a 15 anos, como cabeça de casa. Este se chamava José Balbino, de 12 anos. Consigo moravam sua mãe, Luiza Maria da Conceição, de 38 anos, solteira, sem profissão, apesar de estar em idade ativa, e duas irmãs: Maria, de 8 anos, e Emília, de 4. Esta família morava numa casa de palha, na Lagoinha. Balbino não teve filiação paterna registrada, como muitos filhos de moradoras em choupanas – onde a maioria era solteira. E estava na faixa etária de aprendiz de algum ofício, conquanto tenha sido classificado como artista.276 Foi apontado, na classificação, como o chefe daquele fogo, provavelmente, porque, além de ser o único garantidor de recursos, sua mãe deveria se ocupar bastante com suas irmãs, principalmente, com a caçula, Emília.

Diversamente desse arranjo familiar, na casa nº 1, na rua d’Alfândega, residia Belliza da Fonseca Pereira, de 50 anos, viúva, sem profissão declarada. Mãe de Antonio Pereira, de 30, solteiro, e classificado como proprietário, que, à época do arrolamento, encontrava-se em Maranguape. Tinha, afora este, primogênito, oito filhos (quatro mulheres e quatro homens), com idades entre 28 e 12 anos. Todos estes sem ofício e solteiros e com instrução. Havia, ainda, seis criados, e uma criança, trabalhando para aquela família. Vale mencionar seus nomes: Luiz Pereira, de 43 anos; José Antonio Carmo, de 56, casado; Edwirge Maria Conceição, de 26, mulher deste; Laurinda da Conceição, de 2 anos, filha deste casal; Maria Gomes, de 12 anos; José Valerio Pereira, de 20, e Maria Laurentina Ferreira Maia, de 22. Nenhum dos quais sabiam ler.277 Antonio Pereira era o homem de maior idade e o único com ocupação profissional, entretanto, não encabeçou a lista de moradores dali. Chama a atenção o número de trabalhadores, inclusive, com uma família, em que os cônjuges se empregavam nos serviços da casa. Conquanto livres, constituíam praticamente um plantel de homens e mulheres tornados cativos nos serviços daquele domícilio. Por outro lado, criados(as) podiam exercer funções externas, indo à rua, às praças ou ao mercado.

O Passeio Público, nesse tocante, era um dos principais destinos de toda sorte de gente. Adolfo Caminha, em A Normalista, traduziu em ficção esse costume numa passagem na

276CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de Nossa Senhora do Patrocínio, 01/08/1887. Livro 355, p. 104.

277

CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 382, p. 3.

qual conta que, em direção àquele ponto da cidade, iam-se pessoas por “todas as avenidas do

primeiro plano, cruzando-se em todos os sentidos, acotovelando-se, confundindo-se”. E

prossegue, “na Mororó, mais larga que as outras, havia uma promiscuidade franca de

raparigas de todas as classes: criadinhas morenas e rechonchudas, com os seus vestidos brancos de ver a Deus, de avental, conduzindo crianças, filhas de famílias pobres em trajes domingueiros”, metidas nos quais se viam “muito alegres na sua encantadora obscuridade; mulheres de vida livre sacudindo os quadris descarnados, com ademanes característicos, perseguidas por uma troça de sujeitos pulhas que se punham a lhes dizer grachinhas insulsas”.

Caminha dá, aqui, a entender o motivo daquela sociabilidade que convergia para o Passeio Público, ao escrever que “toda uma geração nascente, ávida de emoções, cansada d’uma vida

sedentária e monótona, ia espairecer no Passeio Público aos domingos e quintas-feiras, gratuitamente, sem ter que pagar dez tostões por uma entrada, como no teatro e no circo”278. Retenha-se a adjetivação, com fito generalizante, da cor das criadas, morenas, o que as vincula a uma ascentralidade afro-brasileira. Outrossim, as moças empregadas em casas de família não escaparam à pecha de serem mulheres de vida livre, nem do viés sensualista que ressalta o movimento de seus corpos. Tinham o hábito de frequentar, a caráter, as missas nos fins de tarde dominicais. Dias de fé e de lazer. Mas não para todos, a exemplo de alguns meninos que trabalhavam nos botecos e cafés dali.

Outra referência a ruas frequentadas por populares, em A Normalista, concerne à Rua dos Charutos, a Avenida Carapini (ou Carapinima, continuação da Rua da Lagoinha), cognominada assim “por ser mais freqüentada por gente de cor”, aquela “sombria aléia, [era]

ponto dileto de cozinheiras e raparigas baratas da rua da Misericórdia”.279 Sombria, aqui, tem sentido dúbio. Tanto pelas árvores que se enfileiravam na alameda, quanto pela categoria sócio- profissional que a lotava. As passagens do aludido romance, sobre certa distinção social que se dava até na escolha dos caminhos de acesso ao Passeio Público (vide 4º capítulo, no qual se aborda essa obra à luz da perspectiva do direito à cidade), convergem para compor um cenário em que se reúnem os personagens Zuza, Lídia, José Pereira e Maria do Carmo. Seguem todos para um botequim, a fim de tomar cerveja. Lá “o serviço do botequim era feito por um menino

que entrava e saía sem descanso, numa azáfama dos diabos, suado, com os cabelos empastados na testa, sem paletó, uma toalha nauseabunda e úmida no ombro, acudindo, ele só, a todos os chamados”280.

278CAMINHA, Adolfo. Op. Cit., p. 91. 279

Idem. Ibidem, p. 94.

280

Do dito menino, exigia-se agilidade, presteza e rapidez. Ao se demorar, tinha que se haver com imprecações de toda sorte. Pois ali não faltavam

Rapazes impacientes, de chapeú caído para a nuca, tresandando ixora, muito arrebitados, batiam com as bengalas sobre as mesinhas.

– Uma garrafa de cerveja, menino! – Ó pequeno aqui. Olha dous café!

O pobre caixeirinho não tinha trégua, com a cara enfarruscada, resmungando. De vez em quando, esfregava a toalha nas mesas com força, salpicando restos de bebidas nos janotas.

– Ó burro, estás cego?

O menino zangava-se e corria à outra mesa.

Vinha de dentro do quiosque um cheiro ativo de café requentado. Saíam bandejinhas com chocolate e pão-de-ló.

– Muito mal servido isto, objetou Zuza com o seu ar afetado de fidalgo, limpando os bigodes. Tenho notado mesmo que aqui no Ceará, não se usa guardanapo...281

A descrição do caixeirinho, do modo como trabalhava atendendo os frequentadores do boteco, é seminal para notar a mediação do habitus senhorial entre pobres e ditos fidalgos. A crítica ao serviço prestado no estabelecimento não se direciona ao respectivo patrão, que não mantém outros trabalhadores para dar conta de todos os chamados em menor tempo. Mas se recai sobre o menino, que, por sua vez, propositadamente, respondia molhando e sujando os rapazes que ensaiavam condutas elegantes e, amiúde, esnobes. A fonte literária compõe com rica sensibilidade cenas, a exemplo dessa acima exposta, do cotidiano de um outro contexto histórico.

Afora o Passeio Público, os cafés da Praça do Ferreira também eram frequentados, mas por um público restrito. Lá se concentravam, em torno da praça, importantes estabelecimentos de natureza comercial, assim como edifícios públicos e o terminal de bondes. Outrossim, além do Paço Municipal, mantinham-se ali muitas oficinas, armazéns, lojas de secos e molhados, boticas, livraria, tipografia, bodega. Listem-se 1 oficina de fiandeiro (casa nº 35), 2 oficinas de alfaite (sobrado nº 4 e casa nº 32), 2 de ourives (casa nº 28 e nº 28a), 2 de barbeiro (casa nº 38 e nº 42), 1 oficina de carpina (casa nº 30), 2 tipografias (casa nº 43 e nº 34), 4 armazéns de gêneros e molhados, também moradia (casa nº 25, 31, 37 e 49), 7 lojas de molhados com moradia (casas n.ºs 11, 27, 30, onde também funcionava a de carpina, 33, 39, 45 e 55), 6 lojas de fazenda (casas nºs 1, 3, 5, 9, 23 e 41), 6 lojas de fazenda e molhados (nºs 7, 13, 15, 19, 21 e 23), 1 livraria (casa nº 10), 2 boticas (casa nº 2, cujo proprietário era farmacêutico, e nº 24), 1 agência de loteria com morada (sobrado nº 18) e 1 casa de espera (nº 43).

281

Nos cafés dali, citem-se o Java, Elegante, Iracema e do Comércio, encontravam-se boêmios, políticos, intelectuais e homens de letras. Conforme Sebastião Rogério Ponte, o preferido pela intelectualidade emergente era o Café Java. Teria sido ali em que “Antônio Sales

e parceiros tiveram, em 1892, a sublime idéia de criar uma agremiação literária diferente, absolutamente avessa às existentes: a Padaria Espiritual”282. A partir dessa agremiação, criou- se O Pão, cujo dístico era “amor e trabalho”. Este era um valor que dialogava bem com a trajetória de vida de muitos que compunham a intelligentsia ascendente da geração das últimas décadas do Oitocentos no Ceará. Numa edição desse jornal, em homenagem a Livio Barreto, um de seus fundadores, escreveu-se que “exigencias de fortuna obrigaram-n’o a ir, muito a

contra-gosto seu servir como caixeiro de um parente, e, nesse officio embrutecedor de mercantilismo aldeão, gastou elle a melhor parte de sua infancia, incomprehendido e anonymo”283. Como já se antecipou, alguns intelectuais cresceram empregados como caixeiros, estudaram e apostaram no trabalho e no estudo sua ascensão social.

Mencionar-se-á, em outro capítulo, a trajetória de Rodolpho Theophilo, narrada em

O Caixeiro, na qual fez analogia de sua condição com a de um escravo, de que apenas se diferenciaria pela cor e a condição jurídica de pessoa livre. Mas, mesmo nesse tocante, o cativo teria mais liberdade para sair pelos subúrbios da cidade à noite. Em Scenas e typos, de 1919, informou que, por volta de 1868, trabalhou na casa comercial de Albano & Irmão, onde penou para aprender uma profissão para a qual não teria vocação. Considerou que “o caixeiro, nesse

tempo, era igual a um creado, ou valia menos ainda” e que “a saúde de um escravo inspirava mais cuidado, por que o escravo tinha valor intrinseco, valia dinheiro, e o caixeiro não”. E

mais, “aquelle menospreço com que eramos tratados me humilhava, meu espirito se revoltava

e, numa ância de liberdade, vibrava todo”284. O comércio em que trabalhou pertencia ao Coronel José Francisco da Silva Albano, futuro Barão de Aratanha, que era um “parente affim”, considerado por Theophilo um homem bom, mas que não teria se importado em minorizar seu sofrimento no trabalho285.

Ao passar dos anos, e de certa organização da classe caixeiral, cogitava-se a possibilidade de ascensão funcional no interior de uma firma, muito embora, as condições de trabalho para muitos tenham permanecido precárias. A primeira investida da classe caixeiral,

282PONTE, Sebastião Rogério. A Belle Époque em Fortaleza: remodelação e controle. In: SOUSA, Simone de (Orga.). Uma nova história do Ceará. 4. ed. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007, p. 171.

283 O Pão da Padaria Espiritual, ano II, nº 26, Fortaleza, 15/10/1895, p. 01. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/706965/per706965_1895_00026.pdf>. Acesso em: 27 fev. 2018.

284THEOPHILO, Rodolpho. Scenas e typos. Ed. Fac-sim. Fortaleza: FWA, 2009, p. 66-67. 285

“essa agremiação de desclassificados” no sentido de criar associação benemérita deu-se por meio de uma reunião com o objetivo de configurar os estatutos. Para tal, reuniram-se “nos

baixos do sobrado do Justa, na rua Formosa, hoje Barão do Rio Branco. Era geral o contentamento”. Todavia, destaca que tão logo “os patrões tiveram conhecimento da nossa reunião (...) fomos prohibidos de levar a idéa avante”.286 Passados alguns anos, a proposta de fundar agremiação reincidiu entre os trabalhadores do comércio, quando então apareceu o

Reform Club. Nesse momento o cenário estava mais propício para consolidar a articulação dos trabalhadores do comércio em torno de reinvindicações relativas a melhores condições de trabalho, diminuição das jornadas laborais, folga aos domingos, dentre outras.287 Para mobilizar setores da sociedade ao redor dessas propostas e encaminhá-las aos poderes instituídos, concebeu-se a Phenix Caixeiral.

Os caixeiros filiaram-se ao movimento propugnador da libertação dos escravos, criando o Clube Abolicionista Caixeiral, em 1883, a partir da Beneficente Caixeiral e do Grêmio Caixeiral, cujo objetivo pontual era libertar os escravos da Rua Formosa288. Essa campanha, empreendida também por negociantes, reunidos em torno da Perseverança e Porvir, de interesses comerciais, e da Sociedade Cearense Libertadora, dentre outras, concorreu para reforçar o associativismo dos trabalhadores do comércio.

O censo de Fortaleza, de 1887, informou que, três anos após a declaração de emancipação do elemento servil na província cearense, o cenário não era bem diverso daquele de quando vigia oficialmente a escravidão. Inclusive, considerando-se as condições de alguns dos próprios caixeiros. Na referida rua, indicados pelo arrolamento, havia 104 criados, dos quais 68 eram mulheres e 36 homens. Quanto aos agregados, estes totalizavam 181, sendo 35 homens e 146 mulheres.289 Criados e agregados tinham, em geral, idades compreendidas pela faixa etária de 10 a 20 anos, quando se juntam vigor físico, vontade de aprender uma profissão e passar a viver por si e se está relativamente disposto a obedecer a ordens – pelo menos, na visão dos patrões. É tênue a diferença (se há!) entre uma e outra categoria, o que se irá enfrentar mais detidamente quando oportuno.

Da mesma forma, como se argumentará alhures, pouca distinção se pode estabelecer entre um criado de servir e um caixeiro aprendiz (caixeiro-vassoura). Havia

286Id. Ibid., p. 67.

287GONÇALVES, Adelaide. A imprensa dos trabalhadores no Ceará: histórias e memórias. In: SOUSA, Simone de (Orga.). Op. Cit., p. 145.

288OLIVEIRA, Francisco de Assis Santos de. Os Caixeiros no Ceará: Trabalho e Educação na Revista Phenix – 1891-1916. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005, p. 41. 289

CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesias de Nossa Senhora do Patrocínio e de São José, 01/08/1887. Livros 355, p. 16-37 e 383, p. 29-46.

endereços em que os trabalhadores dos comércios dividiam serviços com os serviçais, além dos espaços de dormir. Por outro lado, também se dava conta de caixeiros chefes de família mantendo a agregados e criados em suas casas. Listem-se alguns deles, além de um guarda livros e um caixa de cobrança; a saber, Manoel Carneiro de Messias, 20 anos, com 5 agregados (2 homens e 3 mulheres, sendo uma delas cozinheira e outra engomadeira); José Saboia, de 30 anos, caixeiro despachante, com 2 agregadas e 1 criada, que atendia pelo nome Maria Pacatuba, possivelmente de ascendência afro-brasileira, dado o sobrenome; Bernardino Plácido de Carvalho, 47 anos, português, era guarda livro, tinha um agregado, de 17 anos290; já referido, Gustavo Clausseus, alemão, e Miguel Monteiro, ambos caixeiros, tinham 6 criados homens (com idades entre 25 e 16 anos)291; Miguel Coelho, de 30 anos, por sua vez, tinha 2 agregadas, uma delas com um filho, e Alfredo de Castro Menezes, caixa de cobrança, 26 anos, com 2 agregadas292. Assim como criados e agregados, caixeiros foram classificados com o termo designador de posse “seu caixeiro”, não propriamente jurídica, tal qual a relação de senhor e escravo, todavia o emprego desse pronome expressava uma subordinação no âmbito do paternalismo.

Antonio Salles, ainda um jovem de 19 anos, foi arrolado na propriedade, sobrado nº 52, do francês N. Levy, negociante, de 37 anos. À frente de seu nome, no censo, escreveu- se “seu caixeiro”. Além deste, um dos futuros criadores da Padaria Espiritual, com apenas 22 anos, e autor de livros como Aves de arribação – que teve sua primeira edição em volume em 1914 –, havia também Gabriel, criado de servir, de 14 anos, empregado nos serviços domésticos. Diferentemente deste, o primeiro conseguiu ascender socialmente e galgar cargos públicos, distinção e poder na medida em que assumiu função efetiva na comissão administrativa do primeiro governo republicano no estado, chefiada pelo tenente-coronel Luís Antônio Ferraz (1889-1891). Sob sua influência, o negociante Joaquim Alvares Garcia, de 48 anos, morador no sobrado nº 60, mantinha um caixeiro, José Lino de Arruda, de 25, 4 agregados, dentre os quais, 1 homem e 3 mulheres (sendo uma dessas empregada como cozinheira e outra como lavadeira). Nessa mesma linha de argumento, o negociante português

290CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de Nossa Senhora do Patrocínio, 01/08/1887. Livro 355, p. 18-19.

291 CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de Nossa Senhora do Patrocínio, 01/08/1887. Livro 355, p. 34.

292

CEARÁ. Arrolamento da População de Fortaleza, de 1887. Freguesia de São José, 01/08/1887. Livro 383,

In document Fiskeriene 1929-1930 (sider 75-132)