No dia 5 de março de 2012 teve início mais uma etapa do curso do Pronera, com as turmas de Pedagogia da Terra MST/ASSEMA, com a presença dos alunos do MST e da ASSEMA. Como de costume, inicialmente fez-se a mística no auditório do campus de Bacabal. Essa mística é realizada todos os dias, considerando que o grupo faz parte dos movimentos sociais e ela significa para eles uma força motriz. A sua prática deve ser parte integrante da vida das pessoas dos movimentos, independente do espaço de celebração, que pode ser em qualquer local. Apesar disso, é um processo importante para a educação, no sentido de incentivar o desejo de ter dias melhores, numa realidade em que as pessoas se respeitem e respeitem a diversidade, a dignidade e a unidade de um sistema político que preserve os interesses coletivos de sua população. De acordo com depoimentos dos alunos:
Mística tem que ser o sentimento, resgatar um legado de uma pessoa que contribui para uma sociedade melhor, e tem um papel importante na nossa formação... (Ildo).
A mística deverá ser vivenciada e entendida como princípio educativo e de formação político-pedagógica. Ela serve também para lembrar as nossas necessidades de luta pelos direitos que nos foram negados, como terra, saúde e educação. Este momento místico tem um significado representativo (L.M.S.).
Eu já inicio o dia com a mística, pois a mesma é um elemento que me faz crescer, oxigenar meus sonhos, é que me alimenta espiritualmente no mundo das ideias, da luta, da arte. A mística é o motor central, que nos faz olhar para nossa história, fazer a memória de nossa luta, olhar o horizonte com possibilidade, com uma característica que nos envolve, e que precisa ser
120 vivenciada, pois ocupa a centralidade do nosso fazer pedagógico e político (Flavio).
Mística é um momento de afirmação dos nossos sonhos, de nos lembrarmos das conquistas, e deve ser feito todos os dias para termos motivação para lutar e melhorar nossa vida
(A.C.C.).
De acordo com o MST, a mística não tem um momento específico ou especial. A prática deve ser parte integrante da vida das pessoas, independente do espaço de celebração que pode ser no acampamento, no assentamento, nas escolas, em casa.
O MST trata da mística como sendo o tempero da luta ou a posição que anima os militantes. Não é simples explicá-la exatamente porque sua lógica de significação não se expressa tanto em palavras, mas muito mais em gestos, em símbolos e emoções [...]. (CALDART, 2000, p. 133)
Foto 3 – Momento da mística
121 As místicas sempre fazem parte de todas as atividades desses cursos. De acordo com as observações, ocorrem em todos os momentos, e no período do funcionamento do curso é realizado pela manhã. O MST considera a mística uma das dimensões básicas do processo educativo dos Sem Terra.
A mística é a mistura de dramatização que demonstram situações alternadas de alegria-rebeldia-sofrimento, são momento nos quais os sujeitos se regozijam, pois vivem o rompimento das regras de comportamentos sociais. Explodem sentimentos de autonomia e liberdade. Sentimentos possíveis, que encerram possibilidades de negação de valores impostos e afirmação de novos valores ou vontades. […] é ritual ação política e ao mesmo tempo, reaviva as velhas tradições, reforça laços de origem, mas também incorpora novos elementos e anseios. (AMARAL, 1996, p. 260)
Depois do momento místico, os alunos se deslocaram para as turmas designadas para as realizações das aulas. O professor da turma do MST foi escolhido pelos alunos do movimento e é uma pessoa que reside no campo, um militante, considerando que uma das normas do movimento é ter professor envolvido no trabalho de militância. A disciplina ministrada foi Educação do Campo, com momentos de discussão e também com depoimentos de alunos e troca de experiências.
O professor iniciou falando sobre educação do campo e educação rural, levando os alunos a identificarem as características históricas e sociopolíticas que norteiam o paradigma da Educação Rural e Educação do Campo, o que gerou melhor esclarecimento e alguns depoimentos:
Precisamos de uma educação que seja no e do campo, uma escola que faz o sujeito pensar, agir, lutar, ousar, mudar, ter um melhor olhar no fazer pedagógico e acredito que só pode haver mudanças da realidade do campo se tivermos conhecimentos fundamentais para que possamos entender melhor por onde caminhamos e elevar o nível de nossa consciência (M.S.).
Nós, educadores, temos que mostrar para o aluno que o campo não é lugar de atraso, mas um lugar que pode contribuir
122 para o desenvolvimento da sociedade e que precisa nascer dos sujeitos que vivem na terra (J.M.S.).
Eu me orgulho de falar para as pessoas que estou cursando Pedagogia da Terra na UFMA. Em nenhum momento eu falo somente Pedagogia para negar minha identidade de ser do campo (C.A.S.).
De acordo com os depoimentos, esses alunos querem ter uma educação que não negue as raízes do campo, dando-lhes condições de permanecer no seu local, tendo possibilidades de criar condições de existência no seu habitat de forma que sejam identificados com o trabalho do campo, o que pode acontecer através do artesanato, da pesca, e outros, e que sejam estimulados a mudar as situações problemáticas, respeitando suas diversidades. O fato de se identificarem com o campo enquanto espaço político de disputas históricas dos agricultores pela conquista e permanência da terra é mais um passo para não saírem do campo. Eles já atribuem mudanças e benefícios para sua formação como alunos do programa, o que podemos perceber nas suas falas durante as aulas.
As aulas ocorrem de uma forma muito animada. Os professores ministram as aulas com a presença dos monitores, que acompanham a aula na sala, o que já é uma preparação para que eles orientem os alunos no Tempo Comunidade. Esses monitores são selecionados pelos coordenadores do programa, obedecendo a critérios, tais como estar matriculado na área de educação ou cursos afins, ter identidade com esse trabalho e compromisso com a escola do campo, ter tempo disponível para realizar as atividades e participar de fóruns de natureza científica.
Depois das aulas, no último dia da etapa, é feito um planejamento com a organização de grupos de alunos para desenvolverem as atividades orientadas pelos professores nas aulas presenciais, para que os monitores orientem os alunos, em um período nas cidades de origem dos alunos. No último dia de cada etapa do curso é feito um planejamento pelos alunos com os monitores e professores, a respeito das atividades a serem orientadas no período agendado no Tempo Comunidade, com local, horário e data já
123 planejados. Também á feita a avaliação em assembleia sobre o funcionamento do curso.