Queremos mostrar agora como a filosofia irônica de F. Schlegel vai contra toda a sistemática hegeliana. Já existe em Friedrich Von Schlegel uma negação de uma síntese dialética, presente em seus fragmentos, o que nos permite interpretar elementos artísticos de nossa contemporaneidade.
Nesse momento, cabe uma maior atenção ao problema das críticas de Hegel ao prosaísmo e à ironia, que, desenvolvidas por F. Von Schlegel, encontram seu fundamento em
52Hegel destaca o valor crítico de Friederich Von Schlegel e de seu desejo do novo, apesar de sua insuficiência filosófica. A obra se concretiza como obra do espírito, que é infinito; ela externa o infinito no finito.
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Fichte. Ele é apontado por Hegel como aquele que estabelece, em sua filosofia, o eu, que é total, abstrato e formal, como princípio absoluto de todo saber, de toda razão e conhecimento. Por causa disso, esse eu é em si mesmo completamente simples.53
Segundo Hegel, tudo o que é produzido pelo caráter absoluto do eu abstrato não é um em si e para si e nem é dotado de valor, pois são formas vazias. Isso pode causar danos no plano ético, pois se o eu é senhor de tudo o que existe, ele pode criar e destruir, uma vez que é um eu que já é absoluto em si mesmo. Assim, tudo o que é em si e para si é mero aparecer por meio do eu. Há o artista, que é um eu vivo e atuante, que faz sua individualidade para si e para os outros ao se manifestar e se tornar fenômeno. Ele vive como artista e configura sua vida artisticamente. Seu agir e manifestar, portanto, ao se referir a um conteúdo, nunca é para uma consciência como absoluto em si e para si, e sim permanece para ele como aparência feita por ele mesmo e passível de ser destruída, e sua forma está em seu poder, onde só é atribuída validade ao formalismo do eu. Para Hegel, não há serenidade neste conteúdo e nem em sua efetividade. O conteúdo substancial, que é a verdade e a eticidade, não existe, pois só sou essencial para mim se mergulho em um conteúdo substancial e se me ajusto a ele em meu agir e saber.
Para Hegel, o significado universal da genial ironia divina é a concentração do eu em si mesmo, que quebra todos os elos e vive na beatitude do gozo próprio. Aquilo de que o irônico trata não é algo sério, por mais que para o público pareça ser sério: esses se enganam, pois tudo parte do próprio arbítrio da “genialidade divina, para a qual tudo e todos são apenas uma criação sem essência na qual o criador livre, que se sabe desvencilhado e livre de tudo, não se prende, pois pode tanto destruí-la quanto criá-la” (Est, I, p. 82).
Para Hegel, o conteúdo, fruto do formalismo do eu, que estabelece e destrói tudo a partir de si mesmo, não é substancial. Ele não é formalmente livre, onde antes havia seriedade e santidade, o eu estabelece suas próprias verdades. Tal virtuosidade de uma vida irônica de “genialidade divina”, onde tudo e todos são apenas criações sem essência, e o criador é livre de tudo, não se prende à sua criação, pois pode tanto destruí-la quanto criá-la. Aqui, o em si e o para si é algo nulo. Há um desdém para o direito e para o ético, e existe também uma concentração do eu a si mesmo. Há também a vaidade, que é a nulidade de tudo o que é objetivo e válido em si e para si, onde tudo o que é nulo é fútil.
53 Por um lado, “nele são negadas toda particularidade, determinação e conteúdo – pois todas as coisas sucumbem nesta liberdade e unidade abstratas –; por outro lado, todo conteúdo que deve valer para o eu somente é estabelecido e reconhecido pelo eu. O que é somente é através de mim, e o que é através de mim posso do mesmo modo aniquilar novamente” (HIPPOLITE, 1971, p. 81).
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Para ele, há em tal forma uma contradição, pois ela quer ser objetiva, mas se fecha em si mesma. Isso gera a “solidão e retraimento em si mesmo” (Ibidem, p. 83). Ela não supera essa “interioridade insatisfeita e abstrata e é acometida pela nostalgia” (Ibidem, p. 83). Surge o nascimento do culto doentio da bela alma e da nostalgia. Uma verdadeira bela alma age e é efetiva, mas o mero ansiar é apenas o sentimento da nulidade do sujeito vazio e vaidoso, e falta-lhe força para sair desse estado e se preencher com um conteúdo substancial.
A ironia como Forma de arte foi além das configurações artísticas da própria vida e da individualidade particular do sujeito irônico, cabendo ao artista trazer obras de arte externas como produtos da fantasia. Tal produção tem como princípio, via poesia, a “exposição do divino como ironia” (Est, I, p. 84). Hegel critica esse princípio, pois o irônico é a aniquilação de um conteúdo grandioso, é a exposição artística do subjetivo absoluto por si. Isso aniquila a si mesmo, mostrando que na ironia não há nada de sério, ético, verdadeiro. Em sua aparição, ela se contradiz, “se aniquila a si mesma em sua aparição [Erscheinung] em indivíduos, caracteres e ações e, dessa maneira, é a ironia sobre si mesma” (Est, I, p. 84).54 A ironia, se tomada como fundamento da exposição, torna a obra menos artística, tornando-se trivial, sem conteúdo, o que não desperta um interesse verdadeiro.
Queremos agora mostrar que a ironia em Schlegel nega a síntese da dialética hegeliana. Em tal ironia, tudo é paradoxo, nada é eterno e tudo é contraditório enquanto junção entre a imaginação e a reflexão. É o paradoxo entre o que é dito e o que é inexplicável pelas palavras. Há vigor na ironia, mas o vigor do silêncio: a ambiguidade.
Segundo Suzuki, as críticas de Hegel vão em direção ao mais novo dos irmãos Schlegel, a saber, Friedrich, que irá se caracterizar como o filósofo dos fragmentos, como ele mesmo se declara.55 Ele se afirma como um caos de fragmentos “exatamente num momento da história da filosofia em que os maiores esforços estão voltados para a completude e acabamento sistemático da crítica kantiana” (SUZUKI, 1998, p. 12). Tal ‘nota dissonante’ reflete as insuficiências internas do próprio romantismo. Aqui, ele nega um saber absoluto e sistemático. Segundo Suzuki, sua filosofia pretende “despir a filosofia de seu aparato artificial, tecnicista, tentando torná-la tanto quanto possível apta a expor o saber na figura original em que ele mesmo imediatamente se manifesta” (Ibidem, p. 12). Ele nega a ideia de
54 Há um caráter falso que não preserva os fins sólidos, ele os destrói, e não há um fim verdadeiro que possui firmeza e substancialidade, e que pertença a um conteúdo essencial em termos de fins, perseverando junto a tais fins. Segundo Hegel, “tais exposições da ironia não podem despertar um interesse verdadeiro” (Ibidem, p. 84). 55 “De mim, de todo o meu eu, não posso absolutamente dar outro échantillon [amostra] que um tal sistema de fragmentos, porque eu mesmo sou um.” (SCHLEGEL, 1994b, p. 110)
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Schelling de que existe uma forma da filosofia em geral, onde o saber constitui um sistema ordenado. Ao contrário, para ele o que há é a
ausência de um princípio a partir do qual não somente se possa entender a presumida unidade e coerência do saber, mas também como ocorre a conexão necessária daquela forma originária da filosofia “com todas as formas singulares dela dependentes” – incluindo, é claro, aquela sob a qual se apresenta a própria crítica da razão pura. (Ibidem, p. 13)
Para Schlegel, o fragmento é a forma da filosofia universal.56 As ideias contrárias não são excludentes, mas se combinam de maneira complementar, elas estão entre a contradição e a conciliação, e onde a reflexão oscila entre os extremos, o que Fichte chama de determinação recíproca.
Segundo o fragmento 434 do Athenäum: “deve então a poesia ser pura e simplesmente dividida? Ou permanecer uma e indivisível? Ou alternar [wechseln] entre separação e vínculo?” (SCHLEGEL, 1994a, p. 337). Schlegel explica que tais opostos seriam uma contradição própria ao eu infinito, “se ao refletir não nos podemos negar que tudo está em nós, então não podemos explicar o sentimento de limitação que nos acompanha constantemente na vida senão quando admitimos que somos somente um pedaço de nós mesmos” (Ibidem, p. 337). Vemos uma fuga de Schlegel do tecnicismo filosófico. Sendo o indivíduo uma parte de si mesmo,
é a própria atividade originária do eu que, pelo caráter reflexivo, implica fragmentação, determinando a diversidade da poesia, um esforço de combinação dos gêneros poéticos tem então de ocorrer no sentido inverso, numa tentativa de retornar à unidade inicial: a busca de reunificação de todos os gêneros numa nova síntese de poesia e prosa, poesia e filosofia, criação poética e crítica, é o que agora explica as formas mistas e especialmente o romance, que não é de fato um gênero, mas um meio onde se combina os gêneros, o elemento para aquilo que Schlegel chama de poesia romântica ou poesia universal progressiva. (SUZUKI, 1994b, p. 17)
Schlegel não aposta na sistemática da filosofia, e sim na fragmentação da poesia. No fragmento 206 do Athenäum, “um fragmento tem de ser como uma pequena obra de arte, totalmente separado do mundo circundante, perfeito e acabado, em si mesmo, como um porco espinho” (SCHLEGEL, 1994a, p. 82).
56 Onde há na “consciência, estreitamente entrelaçada com sua imperturbável unidade, uma primordial e inevitável inclinação para o fracionamento – um pendor original à fragmentação. Segundo o fragmento 24 do
Athenäum: ‘muitas obras dos antigos se tornaram fragmentos. Muitas obras dos modernos já o são ao surgir’” (Ibidem, p. 23).
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Sobre a ironia, o próprio F. Schlegel afirma no Lyceum, fragmento 42:
A filosofia é verdadeira pátria da ironia, que se poderia definir como beleza lógica: pois onde quer que se filosofe em conversas faladas ou escritas, e apenas não de todo sistematicamente [“não-sistemático” equivale a “conversação”, “diálogo”, “irônico”, “chistoso” e “urbano”, pois a filosofia “de todo sistemática” é construída mediante demonstrações monológicas], se deve obter e exigir ironia; e até os estóicos consideravam a urbanidade uma virtude [“até” porque eles são individualistas]. Também há, certamente, uma ironia retórica que, parcimoniosamente usada, produz notável efeito, sobretudo na polêmica, mas está para a sublime urbanidade da musa socrática, assim como a pompa do mais cintilante discurso artificial [a retórica é artifício, instrumento de uma verdade não irônica] está para a tragédia antiga em estilo elevado. Nesse aspecto, somente a poesia pode também se elevar a altura da filosofia [“poesia universal progressiva”, “beleza lógica”], e não está fundada em passagens irônicas, como a retórica. Há poemas antigos [Aristófanes, devido não à zombaria, mas à parábase (auto critica)] e modernos que respiram, do início ao fim, no todo e nas partes, o divino sopro da ironia. Neles vive uma bufonaria realmente transcendental. No interior, a disposição que tudo supervisiona e se eleva infinitamente acima de todo condicionado, inclusive a própria arte, virtude ou genialidade [superioridade da obra sobre o poeta, a obra como sujeito transcendental, como gênio ou [“gênio do gênio”]; no exterior, na execução, a maneira mímica de um bom bufão italiano comum [parte da ironia, que rebaixa a parte metafísica ao nível da cidade, da conversão, do chiste. (Ibidem, p. 26, notas de FREITAS)
Segundo Freitas, F. Schlegel faz uma junção enfática entre estética (que busca saber o que é arte em seus fundamentos) e poética (que estabelece elementos normativos).57 Há um caráter reflexivo em saber o que é arte, que leva a um conhecimento de si mesmo, mas que pretende alcançar o infinito. Segundo Schlegel, “a poesia romântica é a única em que há mais do que um tipo de poesia, é a própria arte poética: pois, em certo sentido, toda poesia é, ou deveria ser romântica”.58 O próprio autor não define em um todo acabado o que seria ironia, como se nos convidasse a “uma contínua produção de sentidos múltiplos, a partir da justaposição de formulações paradoxais, tanto por sua relação umas com as outras, como nos próprios termos” (Ibidem, p. 97).
A ideia de paradoxo se faz presente: “ironia é a forma do paradoxo. Paradoxo é tudo o que é igualmente bom e grande.”59 Paradoxos seriam justamente esses “polos contrários, antinômicos, que não se resolvem, ou do movimento do discurso que, justapostos, dão uma formulação que vai além do senso comum, que extrapola a compreensão trivial da realidade, ou seja, a doxa” (Ibidem, p. 97). Tal paradoxo abrange a “alteridade não conciliada” desses elementos, é uma “síntese infinita” em constante devir, que nega as “totalidades sem fissuras”
57“Tem-se uma poética, mas que, ao colocar aquilo que deve ser realizado pela poesia, pretende mostrar o que esta é verdadeiramente, descortinando o que faz da arte literária uma arte propriamente.” (FREITAS, 2004, p. 96)
58 SCHLEGEL, O Dialeto dos Fragmentos, Ateneu, frag. 116, 1994. 59 SCHLEGEL, Fragmentos críticos, Lyceum, frag. 48, 1994.
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(Ibidem, p. 97). Há cognição nessa forma do homem em lidar com o mundo e consigo mesmo, pois ele se dirige ao infinito, é um olhar “sobrelevado”; eis o caráter reflexivo da ironia, pois ultrapassa tudo que é finito, inclusive o homem.
Assim, o processo artístico leva o artista a um processo de autocriação e de autodestruição da obra, e essa atitude reflexiva gera a liberdade. A cristalização da obra testemunha a alienação do artista frente a si mesmo, uma perda da substancialidade em prol da corporificação da obra. “A autodestruição se transforma em autocriação. Através dela eu me distancio de mim mesmo e neste ato viso a minha liberdade.” (Ibidem, p. 98) Na obra, essa autodestruição se dá pelo seu caráter material, ilusório, artificial, ficcional.60
Esse distanciamento da vida real que a obra nos oferece é o que proporciona uma dimensão “boa e grande”. Tais características favoreceram o subjetivismo romântico. Há a destruição de uma forma determinada de exposição da obra.
Segundo Todorov, “sintetizar os indivíduos com vistas à produção de seres completos é, com efeito, uma das idéias caras ao jovem F. Schlegel” (TODOROV, 1996, p. 212). A Sinfilosofia é a ideia de complementariedade, onde se poderiam reunir filósofos adversários – desde que estejam à altura do desafio.61
Para Maas, há em F. Schlegel uma filosofia da linguagem de caráter oscilante e híbrido. Segundo a autora, Schlegel parte para uma escrita antidialógica, anti-hierarquizada e antiarticulada.
A saudável razão humana, que deixa tão prazerosamente guiar pelo método das etimologias, quando estas se encontram à mão, poderia facilmente chegar à suposição de que o motivo da ininteligibilidade reside naquilo que é ininteligível. Quanto a mim, não posso suportar qualquer tipo de incompreensibilidade, seja a incompreensibilidade do que é incompreensível, menos ainda a incompreensibilidade do compreensível. (MASS, 2008, p. 167)
60 “A obra parabásica toma como elemento construtivo a explicitação de seu caráter lúdico, falso, mentiroso, negando uma idéia de obra como colocação do possível. A ironia romântica, assim, é um processo de autocriação poética a partir do aniquilamento da aparência de naturalidade.” (Ibidem, p. 98)
61 Disso, surge a revista Athenaeum que, além dos irmãos Schlegel, reúne Novalis, Schleiermacher, Schelling, Tick e outros, durante cinco anos. Nela, segundo Moritz, “a doutrina é só uma e seu autor é só um, ainda que seu nome seja múltiplo: não quero dizer que cada um repete o outro (isso seria apenas simpatia), mas que cada uma formula, melhor do que todos os outros, um aspecto, uma parte de uma única e mesma doutrina” (Ibidem, p. 213).
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Schlegel propõe um “leitor implícito”, e que o crítico deveria entender mais do texto do que o próprio autor.62 Há um “caráter performativo e produtivo de sua concepção de crítica” (Ibidem, p. 168), onde só a crítica artística é produtiva. Para a autora há uma
inevitabilidade de uma ironia selvagem, uma Urironie, ironia primordial que se instala em todas as instâncias da comunicação humana pela linguagem e que faz impossível qualquer exercício hermenêutico erigido sob o princípio da linguagem referencial [...]. O uso da ironia não aponta para uma síntese entre o real e o ideal, entre arte e vida, entre eu e o mundo; ao contrário, a ironia funciona como a própria negação da síntese dialética, como “unendliche
Annährung” (aproximação infinita), como processo inacabado, índice irrevogável da opacidade da linguagem. (Ibidem, p. 171)
Aqui, percebemos, ao afirmar que a ironia funciona como a própria negação da síntese dialética, seu rompimento com Hegel e, consequentemente, a origem das críticas de Hegel à ironia de Schlegel.
Na nossa interpretação, a ironia, na música, poderia ser vista pela ótica da subjetiva e antissistemática ironia de Schlegel; ela é contra um sistema defendido por Hegel na música. Valeria mais, para Schlegel, uma música sem um sistema, que valorizasse a subjetividade do artista criador, que aqui interpretamos como um caráter antissistêmico da obra. Essa pode ser uma linha de leitura da ironia de Schlegel na música.63