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Combined rescue capacity on 260 NM route

7.6 Final conclusion

Animais de estimação desempenham diversos papéis nas vidas de seus donos que são suportados basicamente por dois fenômenos distintos. O antropomorfismo, onde existe uma tendência do homem de atribuir características humanas aos animais e a neotenia, que é caracterizada pela persistência de caracteres juvenis na fase adulta (HIRSCHMAN, 1994).

Donos de animais de estimação são muitas vezes criticados por tratarem seus animais como crianças, comprando objetos sem muita utilidade prática e acreditando que eles tenham sentimentos semelhantes aos humanos. No entanto, pesquisas científicas já evidenciaram que cães e gatos possuem emoções - como medo, ansiedade, ciúmes, raiva, depressão - e que os

centros cerebrais que mediam estes estados nos humanos e em outros mamíferos são virtualmente idênticos (FOX, 1981).

No caso de uma das respondentes que possui uma dálmata de 8 anos e que fica em casa sozinha o dia inteiro enquanto ela e seu marido estão trabalhando, existe a preocupação do que seu animal pode estar sentindo e sofrendo com a sua ausência, conforme seu relato:

"Tenho preocupação dela ficar triste, dela ficar uma outra pessoa, diferente,... (rs)" (mulher, 45 anos).

Com base nestes argumentos foi possível extrair das entrevistas aspectos recorrentes capazes de indicar que os animais são tratados como crianças e que talvez por esta razão muitas vezes tenham sido associados a filhos.

Segundo uma outra entrevistada, o seu cão pode ser comparado a um filho ou a um sobrinho, não importa, no entanto não deixa de ser uma criança que a todo momento requer cuidados e preocupações:

"... ele é uma criança, um filho, um sobrinho que faz um monte de besteiras" (mulher, 46 anos).

No caso da respondente cega que possui um cão de trabalho - cão guia - onde a relação existente entre eles deve ser puramente instrumental, sem ligação emocional, o vínculo de mãe

para filho é ainda mais forte. Ao relatar como foi o processo para aquisição de seu animal percebe-se o envolvimento emocional:

"... eu engravidei, literalmente, pensei... meu filho vai nascer, meu filho vai nascer...". (mulher, 59 anos).

Já para esta senhora que toma conta do dálmata de sua filha durante o dia enquanto ela está trabalhando, a relação é de avó para neto, respeitando a hierarquia natural:

"Eu sou a segunda mãe dele, a primeira é a minha filha".(mulher, 72 anos).

Mesmo tendo sido identificada a relação de filho, outras relações apareceram ao mesmo tempo o que dificulta estabelecer uma fronteira nos relacionamentos com os animais de estimação. Dentre os tipos de relações denominadas por Hirschman, os animais, na maior parte dos relatos, são tratados como filhos, mas ao mesmo tempo se confundem com amigos.

Para este respondente que desde que sua cadela era pequena ele já a levava como companhia nos seus treinos para a maratona, a relação de amizade prevalece:

"A minha equipe era o treinador, o nutricionista e ela, a Gabi, minha companheira de treino". (homem, 42 anos).

Nos próximos relatos é possível identificar as duas relações que se misturam, ora como filho, ora como amigo:

"... a gente perdeu um bebê, né, e quando a gente perdeu esse bebê a Laila já existia aqui com a gente. E é lógico que a gente jogou toda a nossa carência em cima dela, e então ela passou a ser a nossa filha".

"... é uma relação maravilhosa, ela é companheira, é amiga mesmo, eu converso com ela, ela me escuta... ela conversa comigo, ela presta atenção, se eu choro ela chora também". (mulher, 45 anos).

"... criar cachorro é que nem criar filho, se você cria o seu filho bem ele vai ser uma pessoa boa, com o cachorro a mesma coisa".

"... ele é meu amigão, eu gosto dele pra caramba". (homem, 32 anos).

"... ele é efetivamente um membro da família, ele é meu companheiro, tá sempre grudado na gente". (mulher, 46 anos).

Mais uma vez, para a respondente cega, nota-se que o envolvimento emocional é muito maior, quando na verdade a "regra" determina que não devem existir sentimentos entre o dono e seu animal de trabalho. Todavia neste caso a relação é mais clara e nem existe a possibilidade de ser apenas um amigo, é muito mais do que isso.

"... o Gem são os meus olhos, é a minha razão de viver, eu não quero ser injusta com os meus irmãos, mas eu não troco o Gem por uma pessoa da minha família".(mulher, 59 anos).

Ao mesmo tempo em que os entrevistados relatavam seus sentimentos em relação ao animal com muita naturalidade, havia um processo contínuo de racionalização deste sentimento como que para justificar o que para eles parecia ser inadequado para uma relação homem / animal. Ao serem perguntados sobre qual a relação existente entre o dono e seu animal, todos pareciam medir um pouco as palavras, procurando ser bem racionais ao responderem.

"... ele é meu filho, mas é meu filho animal". (mulher, 72 anos).

"Eu vou continuar a tratar os meus cachorros como filhos, quando tiver um filho também. Mas não quer dizer que é igual a um filho". (homem, 42 anos).

"Minha paixão, a Taia, essa dormia na minha cama... minha filha, não dá pra categorizar de uma outra forma".

"Não é a mesma coisa, mas é alguém da família, talvez falte uma palavra melhor". (homem 35 anos).

4.2 O ATO DE PRESENTEAR COMO COMUNICAÇÃO SIMBÓLICA

Foi possível identificar, nos relatos das entrevistas, algumas das quatro categorias de símbolos sugeridas por Wolfinbarger (1990) capazes de explicar as motivações implícitas no ato de presentear os animais de estimação, categorias estas relacionadas com a escolha dos presentes feita pelos consumidores.

Segundo Wolfinbarger (1990), os presentes são percebidos mais facilmente como símbolos da personalidade do dono quando possuem maior identificação com o doador, isto é refletem os interesses e afinidades do comprador, do que com a imagem do receptor do presente.

No caso dos animais de estimação esta percepção quanto à imagem do receptor não é muito clara, uma vez que não é possível afirmar qual a emoção sentida pelo animal ao receber um presente, mas é possível identificar que o dono do animal utiliza-se de seus padrões e gostos ao escolher um presente.

"... com certeza as cores são as que eu gosto, se eu compro alguma coisa roxa, não tô comprando roxo porque ele gosta, e sim porque eu adoro roxo e imagino que ele vai gostar". (mulher, 72 anos).

Neste discurso as cores escolhidas pela mulher são as de sua preferência, imaginando que o animal possa ver ou gostar das cores da mesma forma que ela as percebe.

"... se eu vou comprar um pastel pra mim no árabe, eu compro um quibezinho pra ela (o animal), que é uma delícia. E é esse tipo de carinho que faz ela ficar super feliz!".(mulher, 45 anos).

É possível até que o animal goste de quibe, mas a escolha foi feita porque a sua dona gosta de quibe e certamente fantasia que o seu animal de estimação vai gostar e se sentir feliz com este tipo de agrado. Certamente uma pessoa que não goste de quibe pensaria numa outra iguaria para o animal.

Uma outra categoria identificada nas entrevistas refere-se àquela onde os presentes simbolizam a percepção que o presenteador tem do receptor, isto é, o doador ao escolher o presente para o seu animal de estimação imagina seus desejos, interesses e vontades a partir de experiências vividas anteriormente.

"... quando eu fui à Califórnia tinha um mercado tipo WalMart só para animais. Aí eu comprei umas coisinhas pra Gabi de lembrança, mas só coisas que sei que ela gosta".

"... a gente tem que entender e respeitar o cachorro, para aí então comprar coisas que eles vão gostar, que nós já sabemos que vão fazê-los felizes". (homem, 42 anos).

"... eu compro as coisas para ele gostar, coisas que eu já sei que ele gosta". (mulher, 72 anos).

"... nos últimos tempos eu descobri que ele gosta muito dos brinquedos de pelúcia... e tenho comprado esses de pelúcia porque ele ama, essa pelúcia especial pra animal, sabe".(mulher, 59 anos).

"... presente pra mim é aquilo que é fora do ordinário e que deixa o cachorro extremamente feliz,... aqueles ossinhos, por exemplo". (homem, 35 anos).

Num estudo qualitativo, Sherry e McGrath (1989 apud FARIAS) verificaram que os consumidores geralmente baseiam suas decisões de compra de presentes na sua própria imagem. Ao selecionar um presente específico, o doador demonstra familiaridade com as preferências do receptor. Os presentes relacionados ao receptor não são convencionais, ao contrário, apresentam características singulares.

Pépece (2002) em sua pesquisa identificou que as pessoas compram produtos para presente que representem a sua imagem e que ao mesmo tempo reflitam o conhecimento que o presenteador tem do seu relacionamento com a pessoa que irá receber o presente.

O doador escolhe presentes que espera que o recebedor vá gostar. Ele tenta combinar a sua escolha com aquilo que o receptor gostaria e tenta fazê-lo dentro dos parâmetros de qualidade e preço que escolhe para aquela aquisição (PARSONS, 2002).

Nos relatos acima é possível notar que as escolhas dos presentes são feitas com base na percepção do dono de quais são os gostos, afinidades e sensações de seu animal. Estas percepções, de alguma forma, foram adquiridas de experiências vividas anteriormente, onde

provavelmente foi possível identificar alegria ou indiferença para determinado tipo de presente recebido.

Dentre as categorias identificadas por Wolfinbarger (1990), não foi possível, nos depoimentos analisados, caracterizar a relação simbólica com as convenções como uma motivação para a compra e escolha de presentes para os animais de estimação, não existe o fator social como cobrança de consumo.

As ocasiões especiais como aniversário, Natal, Páscoa, etc, tão expressivas entre os homens no que se refere ao ato de presentear família e amigos, neste caso não apareceram como relevantes. Nem todos os entrevistados costumam presentear o animal e também não sentem a obrigação como norma. Tal fato, inclusive, não diminui a intensidade do sentimento existente entre o dono e seu animal de estimação. Muito pelo contrário, pôde-se perceber que mesmo não sentindo a obrigação de presentear seus animais, as relações permanecem intensas e verdadeiras.

A própria pesquisadora deste trabalho que se considera uma cinófila, e que tem por hábito presentear o seu animal de estimação, não considera as datas comemorativas um fator motivacional para a decisão de compra de seus presentes.

Os relatos abaixo caracterizam bem esta condição:

"... acho meio frescura esse negócio de data comemorativa para cachorro". (mulher, 46 anos).

"... eu gosto quando chega a Páscoa, o Natal, eu compro aquelas cestas cheia de guloseimas, ela adora, mas não é uma regra não". (mulher, 45 anos).

"... no aniversário eu dou beijo, abraço, faço festa, mas presente não dou não". (homem, 42 anos).

4.3 O ATO DE PRESENTEAR COMO TROCA ECONÔMICA

Segundo o modelo de troca econômica, apresentado por Belk e Coon (1993), os presentes não têm o seu valor determinado pela interação existente entre presenteador e receptor e sim, por fatores externos que compreendem preço, escassez, fornecedores, exclusividade e interesses relacionados a algum valor econômico.

Em alguns trechos das entrevistas ficou evidente que as escolhas dos presentes estavam diretamente relacionadas a algum tipo de interesse econômico por parte do doador.

Entrevistador - "... mas e se ele (o animal) gostar de brinquedos moles?".

Entrevistado - "Vai ficar gostando porque ele pega e destrói o brinquedo em dois segundos, agora só dou brinquedo duro, senão é jogar dinheiro fora". (mulher, 46 anos).

No relato acima foi possível identificar que o presenteador não está interessado em agradar seu animal presenteando-o com o tipo de brinquedo que ele mais gosta, e sim está preocupado com

o quanto representa para ele, o doador, cada brinquedo mole que seu animal destrói rapidamente e o faz comprar mais presentes e conseqüentemente gastar mais dinheiro.

"... uma forma também de presentear, apesar dele não gostar, é dar vacina". (homem, 32 anos).

Desde quando comprar um presente que já se sabe de antemão que o receptor não vai gostar, representa uma interação entre as duas partes envolvidas no processo?

Neste caso ficou evidente que o ato de presentear está associado diretamente à troca econômica. Sob a forma de presente o doador justifica a compra de um objeto que lhe trará algum retorno material imediato, ou seja, o dono ao vacinar o seu animal estará protegendo-o de possíveis doenças que podem acarretar maiores despesas com medicamentos, veterinário, etc..

"... ai esses ossinhos são meio nojentos, sujos e dão baratas, se pudesse eu não os comprava". (mulher, 29 anos).

Mais uma vez foi possível identificar a dualidade entre o interesse pessoal do dono em detrimento do interesse do animal, só que neste caso o entrevistado cedeu às vontades dos seus cães.

Apesar dos relatos mostrarem que existe a troca econômica em algum sentido, esta não é percebida pelos donos dos animais e todos os entrevistados foram enfáticos ao sinalizar que não

medem os gastos com seus animais, isto é, seu orçamento mensal já prevê as despesas de alimentação, veterinário, banho e presentes, em alguns casos sendo estimadas em valores maiores até do que os gastos com eles próprios.

"... pra Laila eu não tenho limite de despesa, tenho pra mim, não compro pra mim uma blusa de R$ 60,00 / R$ 70, 00, mas pra ela...". (mulher, 45 anos).

4.4 O ATO DE PRESENTEAR COMO EXPRESSÃO DE AMOR ÁGAPE

Belk e Coon (1993), apresentaram um modelo para o ato de presentear que não envolve o paradigma da troca e que não ocorre apenas como um ato instrumental, e sim como expressão de amor ágape, incondicional.

Como visto anteriormente, as relações dos donos com seus animais de estimação envolvem sentimentos fortes, equivalentes àqueles sentidos por alguém da família e por amigos. Ao mesmo tempo, alguns valorizam ainda mais este sentimento de amor por acreditarem ser ele maior do que o atribuído ao ser humano, por ser incondicional, verdadeiro, sem cobranças, sem ser egoísta.

"Será que passa pela cabeça dessa cachorrinha as nossas imperfeições, as nossas mesquinharias, essas coisas do humano... é uma devoção tão grande...".

"É uma relação tão emocional, é pura emoção, fidelidade... e eles não querem nada da gente, só um cafuné tá bom". (homem, 42 anos).

"Pra Laila estar ao meu lado ou passeando com o Márcio é suficiente para deixá-la feliz. É um amor que não existe igual".(mulher, 45 anos).

Diante deste sentimento, os donos procuram presentear seus animais apenas para fazê-los felizes, sem pensar no que este ato pode trazer em troca. Envolve a compra de presentes altruístas, puros e que visam apenas o bem estar e a felicidade do animal.

"Em geral eu só compro coisas que eu sei que ele gosta... brinquedos, palitinhos. O maior presente pra ele é um bife, que ele adora e não pode comer porque é alérgico. E aí eu dou escondido da minha filha só pra ver ele feliz". (mulher, 72 anos).

"... eu procuro colocar na cestinha de Páscoa tudo que eu sei que ela gosta,... procuro tirar os apitinhos porque sei que ela não gosta e vai ficar nervosa".

"Penso no seu conforto, no que vai fazê-la feliz e nunca no que é importante pra mim". (mulher, 45 anos).

"Tão pouco faz elas felizes, uns ossinhos, palitinhos, mas o que elas mais gostam é de ficar do lado da gente, elas se amarram... é aquela coisa do amor incondicional do cachorro que nos faz sentir da mesma forma". (homem, 42 anos).

O amor ágape enfatiza a idealização do ser amado, a despreocupação com o preço dos presentes, o sentimento do presenteador em relação ao receptor, o significado daquele presente escolhido para o animal e o desinteresse em receber alguma coisa em troca. Como Joy (2001) observou em sua pesquisa, os participantes enfatizaram a importância de se comprar o presente

certo, alguma coisa que evocasse o passado e refletisse tanto a natureza da ocasião como a força do relacionamento. O mesmo ocorre na relação homem / animal de estimação.

"O cão tem uma capacidade de expressar a relação que ele tem com a coisa, se gosta ou não do presente. Aí acaba sendo uma forma de demonstrarmos o nosso carinho pelo animal, só comprando aquilo que sabemos que ele vai gostar". (mulher, 46 anos).

Pôde-se depreender destes relatos, que apesar do ato de presentear seu animal de estimação não ter como objetivo algum tipo de troca, os indivíduos percebem o amor ágape como um sentimento que existe muito mais do animal para o dono, do que do dono para seu animal. Mesmo que a motivação que o tenha levado a comprar um presente pareça, a principio, ter ocorrido como forma de expressão de amor incondicional, o fato de o dono ter satisfação e alegria ao presentear seu animal por vê-lo feliz não seria um tipo de troca econômica?