Os dados qualitativos apresentam-se sob a forma de descrições narrativas, que, em geral, decorrem de entrevistas e anotações. Não existe um acordo comum
quanto à forma de análise na pesquisa qualitativa. Como indica Patton (1990), contudo, isto não quer dizer que não existam orientações sobre como fazê-lo. Corroborando este fato, Cavalli (1996), acentua que qualquer método requer um conjunto de regras e procedimentos, que permitem controlar os componentes subjetivos da interpretação.
Entre as estratégias adotadas na análise deste método, incluem-se preparação e descrição do material bruto, redução dos dados, interpretação e análise (MOURA; FERREIRA; PAINE, 1998). Para Minayo e Sanches (1993), uma análise qualitativa completa interpreta o conteúdo dos discursos ou da fala cotidiana dentro de um quadro de referência, no qual a ação e a ação objetivada nas instituições permitem ultrapassar a mensagem manifesta e atingir os significados lactentes.
Na investigação qualitativa, um procedimento útil é a formulação e organização dos dados em categorias, que dependem fortemente dos objetivos do estudo e da experiência do investigador (BECK; GONZALES; LEOPARDI, 2002). Neste estudo, optamos por este procedimento e para orientar a composição das categorias, buscamos o método de análise de conteúdo, já que este oferece uma padronização na organização do material coletado e conseqüente rigor no processo de análise (BARDIN, 1977).
Este método teve origem nas pesquisas quantitativas, sendo hoje, amplamente usado nos estudos qualitativos como um referencial de análise. Conforme se reportam as autoras anteriormente citadas, este “busca compreender os conteúdos manifestos e ocultos, podendo organizar os dados em unidades léxicas (palavras significativas) ou categorias (classe de dados definidos por uma expressão ou palavra)” (BECK; GONZALES; LEOPARDI, 2002, p. 241-242).
O método de análise de conteúdo, segundo Bardin (1977, p.42),
[...] é um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos ás condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Neste ordenamento, os procedimentos são estruturados de forma a promover uma organização dos dados por fases, procurando, a partir daí, conhecer aquilo que
está por trás das palavras, ou seja, é uma busca da compreensão de uma realidade por meio das mensagens, e, assim, realizar inferências com base nos conhecimentos adquiridos pela leitura flutuante do objeto de estudo e pelo referencial teórico eleito.
O método de análise de conteúdo de Bardin (1977), cronologicamente, apresenta três fases a seguir delineadas.
1. Pré-análise - momento destinado à organização do material. Corresponde a um período de intuições, mas tem como propósito operacionalizar e sistematizar as idéias iniciais, visando ao desenvolvimento das fases posteriores. Nesta etapa, se processa a leitura exaustiva das entrevistas e destaca-se os temas para posterior análise.
Neste estudo, esta fase foi direcionada para a leitura das entrevistas referente aos usuários e, posteriormente, às entrevistas dos profissionais. No procedimento da leitura do material, buscamos destacar os temas das falas, por exemplo: O PSF é o negócio de ajuda do governo, de ajudar as famílias mais carentes (U-4.7). Nesta fala, obtivemos, por meio do tema destacado, uma percepção do usuário acerca do PSF como um Programa para pessoas de baixo poder aquisitivo. Este tema e os demais que surgiram nesta abordagem possibilitaram constituir a categoria “Percepção do usuário acerca
do PSF” .
2. A exploração do material - quando o material está preparado para análise, ou seja, é a análise propriamente dita. É a aplicação sistemática das decisões tomadas, o momento de se aplicar o que foi definido na fase anterior, em termos de operações de codificação, a partir da identificação das falas semelhantes.
Neste período, procedemos ao agrupamento das falas desde os temas destacados nas narrativas dos informantes, possibilitando o estabelecimento das categorias, tais como: percepção do usuário acerca do PSF; acessibilidade; respostas às necessidades sentidas; Educação em Saúde e outras.
3. Tratamento dos resultados obtidos e interpretação - os resultados são tratados de maneira a serem significativos e válidos; a partir daí, o analista, tendo a sua disposição resultados significativos e fiéis, pode, então, propor inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos previstos e com base no referencial adotado.
Esta fase foi amparada no Modelo de Estágios de Mudança, de Prochaska e DiClemente, na Estrutura Teórico-Metodológica da Participação Habilitadora e na literatura revisada, possibilitando a interpretação e análise dos indicativos. Buscamos nos aprofundar nas mensagens expressas nas falas dos informantes do estudo, o que possibilitou fazer inferências.
Assim, empregamos o procedimento da análise temática, umas das técnicas da análise de conteúdo, a qual recomenda a utilização de tema como base de análise do material coletado, ou seja, das respostas dos informantes foram retirados temas, para posterior análise.
Para Urung, citado por Bardin (1977, p.105),
[...] tema é uma unidade de significações complexa, de comprimento variável; a sua validade não é de ordem lingüística, mas antes de ordem psicológica: podem constituir um tema, tanto uma afirmação como uma alusão; inversamente, um tema pode ser desenvolvido em várias afirmações (ou proposições). Enfim, qualquer fragmento pode reenviar (e reenvia geralmente) para diversos temas.
Na lição de Bardin (1977), a técnica de análise temática busca descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação, observando a freqüência de aparição, podendo esta significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido.
Para organização dos temas, retirados das falas dos informantes, em categorias, respeitamos os princípios, citados por Bardin (1977), de homogeneidade, exclusão mutua, pertinência, objetividade e produtividade.
As categorias empregadas na codificação dos dados podem surgir do referencial teórico que norteou o estudo, desenvolvidas indutivamente durante a fase de análise dos dados ou podem ser fornecidas pelos próprios participantes do estudo. O fundamental é que elas sejam desenvolvidas em estreita interação com os dados, permitindo, assim, a compreensão destes (MOURA; FERREIRA; PAINE, 1998). Nesta pesquisa, a formulação das categorias foi inspirada no referencial teórico do estudo, o Modelo de Estágios de Mudança, nos objetivos e nas narrativas dos informantes, identificando, a partir do construto teórico elaborado, categorias que revelaram os estágios de mudança ocorridos nos indivíduos e famílias integrados no Programa Saúde da Família. Estas categorias formaram o nosso mapa conceitual de análise, o
qual indicou a direção político-ideológica do tipo de participação promovido pela equipe de Saúde da Família, aos usuários do Programa.
Os dados de identificação dos entrevistados contidos nos instrumentos da pesquisa possibilitaram constituir o perfil dos informantes. Esses estão organizados em quadros e posteriormente agrupados em tabelas.
A análise dos dados foi submetida à luz do referencial teórico e da literatura para a pesquisa, nos eixos da Promoção da Saúde, Educação em Saúde, Participação e Programa Saúde da Família.
4.7 Aspectos éticos
A ética é o conhecimento ordenado que estuda o comportamento moral do homem perante a sociedade, sendo universal e única, estando sempre no singular, pois pertence à natureza humana presente em cada pessoa e deve ser respeitada (BOFF, 2000). Com base nesta premissa, procuramos observar as questões éticas que
envolvem um processo de pesquisa. Assim, submetemos o projeto desta investigação à apreciação do Comitê de
Ética em Pesquisa e do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (COMEPE), cumprindo as exigências formais dispostas na Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, que dispõe sobre pesquisas envolvendo seres humanos, o qual foi aprovado, conforme parecer do referido órgão (Anexo A).
Esta resolução visa assegurar os direitos e deveres que dizem respeito à comunidade cientifica, aos sujeitos da pesquisa e ao Estado (BRASIL, 1996b), observando-se os quatro referenciais básicos da Bioética - autonomia, não- maleficência, beneficência e justiça - contidos na mencionada Resolução.
No respeito ao princípio da autonomia, de início solicitamos autorização à Secretaria de Saúde do Município e à Coordenação do Programa Saúde da Família para realização da pesquisa (apêndice E e F). Em seguida, mantivemos contato com os profissionais e os usuários, a fim de prestar todos os esclarecimentos necessários