Uma das desconfianças que move esta análise parte do estudo de indícios em que há correlação entre os desenhos e a voracidade consumista dos pequenos infantes, patrocinada pelos pais ou responsáveis e “marketeada” pela mídia, também através dos desenhos animados e da máquina capitalista. O desenho animado invade a vida das crianças, muitas vezes, como isca para o consumo, sem que a preocupação com o entretenimento sadio ou com a educação esteja presente.
No Brasil, organizações como o CONAR, MIDIATIVA, Instituto Alana, entre outros, têm se debruçado nesta questão para objetivamente buscar a melhor conduta televisiva e mercadológica que envolve o consumidor infantil. São alarmantes, pois, os números que a “indústria cultural e comercial infantil” geram em torno dos desenhos animados, cerca de U$$600 bilhões de dólares por ano78.
No Brasil, o Instituo Alana79 reúne informações, estudos, pesquisa e profissionais em torno da questão do consumo infantil e tem obtido êxito em sua empreitada de conscientização.
Como exemplo da preocupação destes órgãos, cita-se a questão sobre o consumo da bonequinha/desenho/brinquedo “Polly Pocket”. Em um de seus episódios, Polly faz afirmações como “hoje foi o melhor dia da minha vida”, referindo- se a uma tarde de compras no shopping, entre outras situações que podem ser vistas diariamente no site da bonequinha.
O Instituto Alana trabalhou a denúncia consumista em relação à boneca, mas o CONAR80 indeferiu-a. Estas questões, embora sutis, podem ser observadas no
78 Instituto Alana. Disponível em: <http://www.consumingkids.com/facts_about_marketing.htm>. Acessado em: 23 de mar. 2009.
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“O Instituto Alana é uma organização sem fins lucrativos criada em 1994 que tem como missão fomentar e promover a assistência social, a educação, à cultura, a proteção e o amparo da população em geral, visando à valorização do homem e à melhoria da sua qualidade de vida, conscientizando-o para que atue em favor de seu desenvolvimento, do desenvolvimento de sua família e da comunidade em geral, sem distinção de raça, cor, posicionamento político-partidário ou credo religioso. É também incumbência do Instituto desenvolver atividades em prol da defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes relacionadas a relações de consumo em geral, bem como ao excessivo consumismo ao qual são expostos [...]”.
desenho e no site81. Há inúmeras referências ao consumo dos produtos da protagonista que precisam ser observados com cautela por pais e educadores.
Desde a entrada do site no ar até a data pesquisada (23 de abril de 2009), ele estampa a seguinte chamada: “Seria demais se a gente pudesse ser estrelas de Rock! A gente pode! Isso é o que eu chamo de dia perfeito!” Polly também diz: “é demais ser estrela do Rock”, não com sentimento de satisfação em relação à música, mas ao fato de ser “celebridade”. Esta, por si só, é uma alusão clássica da indústria cultural e que sugere e incentiva a vida do espetáculo e no espetáculo82.
Em seguida, ela convida todas para irem ao Parque Aquático da Polly para se “livrar de um dia chato”. Isto será ótimo, afinal é brincar e entreter-se com os produtos da Polly! Há sempre a sugestão do consumo de cada um dos cenários da Polly Pocket para “se livrar de um dia chato”.
O Instituto Alana apresentou um projeto de lei, que aguarda votação na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara de Deputados, sugerindo o fim da publicidade de produtos voltados às crianças.
A proposta de alteração no Código de Defesa do Consumidor, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), faz coro com pais e representantes de entidades ligadas à infância e à adolescência que veem na propaganda uma forma de oportunismo, que se aproveitaria da inocência deste público. Tal ideia se baseia em pesquisas que mostram que, pelo menos até os oito anos, as crianças não têm a mínima capacidade de “filtrar” argumentos publicitários. Depois, até os doze anos, elas sabem identificar a publicidade, mas ainda não entendem a questão mercadológica envolvida, nem seu caráter persuasivo.
Assim, certos ou errados, CONAR, Alana, Mattel, Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara de Deputados, percebem a relevância da questão do consumo em torno de produtos infantis. Seja pela busca da identificação com a personagem ou com os pares, os produtos licenciados pelos desenhos animados fazem do mercado infantil um tremendo e rentável filão mercadológico.
A sociedade, em geral, tende a banalizar os efeitos da relação televisiva e do impacto que a indústria cultural e mercadológica exerce sobre a família e sobre os indivíduos. Parece haver uma irreflexão acomodada da possível influência da TV, incentivando o consumo de produtos, clichês e modelos, ou valorizando a formação
81 Disponível em: <http://www.pollypocket.com.br/home.aspx>. Acessado em 23 de mar. 2009. 82 A denúncia do Instituto Alana à Matel
de ideias preconcebidas e de comportamentos que, possivelmente, nem pactuem com os valores escolhidos conscientemente pela família ou escola.
As crianças parecem aprender cada vez mais cedo que para “ser” é preciso “ter” ou ao menos “parecer”. O domínio econômico degrada as relações do ser em ter e estas ocupam todo espaço social que busca o acúmulo desenfreado, a qualquer custo ou preço, de resultados econômicos, financeiros. O que antes era ter, passa a ser ou ao menos “parecer”. Onde o ter efetivo perde o seu prestígio imediato. O indivíduo, toda a sociedade e suas relações passam a depender e inter- relacionar-se de acordo com o poderio obtido pela imagem que se recria, sem a qual não é permitido parecer. Estas são interpretações que parafraseiam o 17º aforismo de Debord.
O “parecer”, portanto, não se sobrepõe ao “ter”, ambos articulam-se. Então se sobrepõem ao “ser”, minimizando a instância do sujeito, que, sem consciência de seu agrilhoamento pela imagem, sucumbe a esta sem reservas.
O conhecimento, o interesse, o diálogo sobre as crianças, a televisão e “seus mundos, vivências e interações, inclusive as televisivas”, são muito importantes para a formação das crianças e seus valores. Este é um processo mútuo e dialético que enriquece e favorece o amadurecimento.
Manteve-se em mente na elaboração deste trabalho que a contribuição maior desta reflexão recai sobre a sociedade, entendendo que ela seja constituída por indivíduos e que estes devem ter maior consciência de seu papel e contribuição na construção da sociedade, dia a dia. Pois, saibam ou não, são ou podem ser corresponsáveis pela produção televisiva, não no sentido de serem produtores ou profissionais da área, mas telespectadores.
No mesmo instante em que são reféns da imagem da indústria “multicultural”, são também os indivíduos, em sua coletividade, que produzem e consomem o produto cultural desta indústria feita para a massa social. Podem aceitar ou não o que é televisionado, aplaudindo ou não a programação; dando, ou não, audiência a um produto midiático.
Estas podem ser questões da escola e da família que, devidamente trabalhadas, podem cooperar na formação de uma sociedade mais preparada para fazer escolhas, com opções mais racionais, mesmo que dentro do padrão alienado e alienante que a TV possa proporcionar.
Um público melhor formado “ganhará” com uma programação melhor elaborada, pois o bom uso do recurso televisivo se dá quando pode ser apropriado, a ponto de explorar conscientemente o potencial que este meio tem por essência e por sua penetração nos lares. Para corroborar esta reflexão, salienta-se um dos ricos trechos de Adorno “[...] podemos conseguir que o efeito do esclarecimento da televisão se amplie e os perigos que ela representa se reduzam a um mínimo inevitável” (ADORNO, 1995, p. 78).