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Feiltolkning av oppgaveteksten i skrittoppgaven

4 Analyse

4.6 Gjentagende funn

4.6.5 Feiltolkning av oppgaveteksten i skrittoppgaven

Segundo Weber, “a ação religiosa ou magicamente motivada, em sua existência primordial, está orientada para este mundo” (WEBER, 1999, p. 279). Logo, não posso deixar de pensar nas ações de William e sua família dentro do contexto social que fundaram a igreja. Minha hipótese é que as demandas simbólicas que procuraram atender relacionam-se diretamente com o local onde eles fixaram residência em São Luís – entre o Bairro do Olho d‟Água (um bairro tradicionalmente reconhecido como de pessoas de alto poder aquisitivo), e a uma área periférica, ocupada ilegalmente (em São Luís, áreas que sofreram essa ocupação são denominadas de “invasão”), por volta do início dos anos 1980: a Divinéia.

Segundo conversas que mantive com antigos moradores, a Divinéia surgiu “perto do Olho d‟Água, seguindo a Rua Jaú” (onde, no início, localiza-se a igreja COTP e a casa dos Hoyer), que era um caminho de boi, e “sem nenhuma assistência de água e esgoto”. Os moradores sempre falam que até hoje o bairro é desassistido dos serviços públicos, embora, na opinião deles, já tenha melhorado, citando, como exemplo, o asfaltamento das ruas. Todavia, numa pesquisa recente, Élcie Files Gomes de Sousa constatou que em um universo de 220 famílias, 71% não têm água encanada, dessas, 2% tem poços particulares e os demais 69% utilizam-se de poços onde a água não é bem tratada ou pagam para se servirem de poços privados, evidenciando a ausência do poder público (SOUSA, 2000, p. 17).

Alguns dados podem ajudar-nos a conhecer um pouco mais do contexto sócio- econômico do bairro da Divinéia. Embora seja uma estatística limitada a apenas 220 famílias do bairro e já esteja defasada por ser do ano 2000, esses dados colhidos pela pesquisa de Élcie Files são importantes para compreendermos algumas características da relação dos membros da igreja com a família e desta com as pessoas desse bairro, a quem chamam de “vizinhos” ou “vizinhança”.

RENDA FAMILIAR

Até 01 salário mínimo 44%

De 01 a 02 salários mínimos 32% Mais de 02 salários mínimos 15% Acima de 03 salários mínimos 9%

ESCOLARIDADE

Ensino Fundamental (inc) 39%

Ensino Fundamental (comp) 20%

Ensino Médio (inc) 25%

Ensino Médio (comp) 11%

Ensino Superior (inc) 3%

Ensino Superior (comp) ---

Nunca foi a escola 2%

LOCAL DE ORIGEM

Interiores do Maranhão 60% Capital de outros estados 5% Interiores de outros estados 9%

Sempre em São Luís 26%

Tabela 1: Dados sócio-econômicos do Bairro Divinéia, São Luís/MA, de Élcie Files (SOUSA, 2000).

A afinidade do contexto da periferia com a propagação dos pentecostalismos já foi discutida amplamente na sociologia brasileira. Portanto, não pretendo fazer uma análise a partir desses dados estatísticos, mas apenas fundamentar o leitor sobre o contexto em que se insere essa igreja pentecostal. Entretanto, é remota a probabilidade de haver outra igreja pentecostal que tenha sido fundada por uma família de descendentes dinamarqueses, pertencente a uma elite econômica ludovisense e se considere participante de uma tradicional elite cultural herdada dos seus antepassados. Essa peculiaridade tece, a meu ver, novos sentidos que se agregam à fé pentecostal desses sujeitos e à totalidade de suas relações interindividuais, inclusive à questão da diferença fenotípica ou racial dos sujeitos.

Mesmo reconhecendo que atualmente o bairro transformou-se em termos de maior estrutura urbana36, ainda hoje a maioria dos moradores sofre carências de serviços públicos essenciais, quanto mais a 20 ou 30 anos atrás. É nesse período de formação da Divinéia que

36 Hoje a rua onde se localiza a COTP, a Rua Jaú (a principal rua do bairro), é totalmente asfaltada, e nela se

encontram sítios e casas de aparência luxuosa e até condomínios fechados destinados a uma classe média de alto poder aquisitivo, misturados a casas menores e modestas e até casebres de taipa.

William, sua esposa e filhos vão construir sua casa num desses terrenos. Conversando com a Sra. Waldete Tróccoli Hoyer, viúva de William, ela contou-me como eles chegaram ali. Eles conseguiram aquele terreno por meio de um negócio entre William e o pai de Paulo Marinho (uma família de políticos conhecida no Maranhão). Era por volta do ano de 1983 – Waldete explicou-me –, William fechou o negócio porque “tinha um espírito desbravador”, pois na época o local era de difícil acesso. Embora hoje me pareça próximo à avenida do Olho d‟Água – cerca de 100 metros subindo uma rua transversal, a Rua Jaú – como Waldete e outros moradores do bairro me falaram, aquela rua era apenas um “caminho de boi cercado de mata fechada”, imagino que a sensação de ir para lá era de maior distância.

Segundo Waldete, desde o início, a vinda deles trouxe melhorias para os moradores da Divinéia: “fomos nós que trouxemos energia para cá”. Esse é um aspecto interessante da relação entre os Hoyer e os moradores da Divinéia, principalmente a sua “vizinhança”. Nos depoimentos da família e nos livros escritos por William, eles enfatizam a ação beneficente da família por meio dos seus investimentos empresariais na região, desde o início de seu estabelecimento na Divinéia, como se vê neste depoimento de Waldete: “a fábrica de cuecas foi o primeiro investimento empresarial (...) William ensinava uma profissão para mulheres que não sabiam nada”.

Essa relação de assistência-dependência, que a família estabelece com as pessoas moradoras da Divinéia, é algo presente ainda hoje nas suas relações e fundamental para compreendermos o jogo das representações do poder da família junto à comunidade religiosa, essa questão será retomada no capítulo sexto.

No início dos anos 1980, William, Waldete e filhos retornam definitivamente para o Maranhão, depois de quase 60 anos praticamente sem descendentes na sociedade maranhense reconhecidos pelo nome “Hoyer”, e a religião da família era o catolicismo. Exatamente o tipo de catolicismo denominado por parte dos sociólogos como “catolicismo

tradicional”37. Minha intenção não é examinar as formas de expressão religiosa dentro do catolicismo, mas esclarecer que a experiência de conversão de William dá-se dentro do catolicismo, criticando a “tradicionalidade católica”.

O catolicismo tradicional no Brasil é caracterizado como a religião dos laços culturais e familiares cuja exigência mínima, para a maioria dos fiéis, do cumprimento ritualístico e do rigor ético possibilita uma maior flexibilização da identidade católica – oscilando entre católico praticante e não-praticante – ao mesmo tempo que produz uma maior negociação entre as normas da religião e os imperativos e contradições da cultura, que é dinâmica e multiforme, favorecendo assim a amplitude do catolicismo brasileiro como religião da maioria.

É justamente nessa capacidade de adequação da ética católica às exigências multiformes dos diferentes grupos da sociedade brasileira que reside a força do catolicismo e paralelamente sua fraqueza quando posta em competição com outras formas de religiosidade cujo marco distintivo é o reforço de um padrão ético. Assim, segundo Pierucci (2007)38, o pentecostalismo, com seu rigor ascético, encontrou o espaço necessário para contestar e arrebanhar fiéis do catolicismo tradicional, primeiramente para fora, por meio do pentecostalismo protestante e posteriormente dentro do próprio rebanho católico, através dos movimentos carismáticos deflagrados a partir da década de 1960.

Foi em meio a esse amplo processo de pentecostalização das religiões tradicionais (do catolicismo de um lado e do protestantismo de outro) que William e sua família tiveram contato com essas experiências pentecostais e a partir dessas experiências propuseram outro caminho – a igreja COTP.

37Para Prandi e Pieruci os católicos tradicionais incluem “tanto os que freqüentam a igreja de modo esporádico,

geralmente em ocasiões especiais (...), como os que têm freqüência regular aos serviços religiosos, especialmente a missa, mas que não se envolvem em movimentos de renovação ou agremiações que propõem diferentes modelos de reavivamento da vida católica. [...] Os tradicionais apenas seguem a religião na qual foram criados.” (PRANDI, 1997, p.13, 14).

Em 1885, William teve contato com o movimento de Renovação Carismática Católica por intermédio de uma irmã quando visitava seus pais em Itanhandú, Minas Gerais, por ocasião de uma reunião de família no feriado da Páscoa. Sua irmã Doris Santos Hoyer de Carvalho era líder da Renovação Carismática da Igreja Católica do Rio de Janeiro desde 1976, quando o movimento era visto com suspeição pela hierarquia católica. Sobre essa irmã William afirma: “devo a ela meu despertar” (HOYER, 1990).

Naquele final de semana, recebeu de sua mãe dois presentes, a Bíblia e um exemplar do livro “Viagem do outro Cristão”, segundo ele de autoria de uma escritora Batista, Frances Roberts. Foi pela leitura desse livro e pela doutrinação que recebera a respeito da Renovação Carismática e da experiência pentecostal a qual “estavam muitos vivendo e testemunhando” (pessoas que estavam com a Doris, falaram sobre as doutrinas do pentecostalismo, como o Batismo do Espírito Santo) que ele começou a deixar-se envolver pela experiência pentecostal. Assim, William conta sua primeira experiência extática:

Durante todo o sacrifício da missa, fui tomado de forte abalo emocional e como deve ocorrer nos terremotos, abriu-se em mim uma cratera, por onde derramaram-se rios de lágrimas, oriundas naturalmente daquele espaço vazio que existia em mim e que agora, pelo encontro do fio da Verdade, era preenchido pela alegria celestial, até então minha desconhecida. Tão poderosa era essa força, que minha mãe, eu e meu irmão, descobrindo-nos abraçados em frente à Igreja, depois da missa, sem dizer mais uma palavra só e inundados de lágrimas. Senti como se Jesus tivesse atendido a minha oração dando-nos água viva a provar. (HOYER, 1990, p. 8).

Depois desse feriado William regressa a São Luís e conta para sua família a sua experiência pentecostal, iniciando a leitura da Bíblia e do livro que ganhara. Logo depois volta a fazer nova viagem para Mato Grosso cumprindo atividades profissionais e, dessa vez, leva seu filho Carlos Frederico, e juntos estudam a Bíblia. Paralelamente, a família em São Luís inicia uma aproximação com um grupo de crentes da Assembléia de Deus, liderado por uma médica pediatra, amiga da Waldete, a Drª Eveline, cuja filha enferma, apesar de consultada com vários médicos amigos, só ficara curada através de um exorcismo feito por aqueles crentes, o que definiu a conversão da pediatra.

Esse grupo visitou Waldete no dia do seu aniversário e, segundo a narrativa de William, ela ficou impressionada com a demonstração dos dons de “línguas estranhas, profecias, hinos lindos... reconheceu nunca ter sentido tanta paz e amor a Deus”. William pediu para participar também de uma dessas reuniões de oração. (HOYER, 1990, p. 10).

Foi marcado um novo encontro com esse grupo da Assembléia de Deus. William narra da seguinte maneira o que ocorreu nessa reunião:

Não pude conter as lágrimas já minhas conhecidas, e recebi uma profecia na qual Jesus me dizia ter uma grande obra na minha vida e na vida de toda a minha família; que todos os meus filhos seriam chamados por ele para essa obra, e que aqueles que não viessem por bem, viriam por mal. (HOYER, 1990, p. 11).

Pela narrativa, conseguimos compreender melhor por que William avaliou essa experiência de conversão dele e de sua família como uma ação quase involuntária, movida por uma força sobrenatural, definida por ele como um plano divino, um plano que lhe impôs uma missão:

Fomos surpreendidos inesperadamente pela Graça de DEUS! A todas as pessoas da minha família, Ele se revelou de uma forma diferente, é verdade, mas nos arrebatou simultaneamente para a mesma oportunidade. Como transmissão de energia entre moléculas, cuja cadência de propagação se fizesse tal qual num jogo de pedras de dominó, fomos caindo na realidade, uma atrás da outra, despencando-se — em pânico, das velhas e decadentes tradições! Sou o primeiro dos Hoyer daqui do

Maranhão, que volta a colocar os pés no chão, na certeza de que um dia seremos todos, eu e a minha família arrebatados para a glória de DEUS, mas, por isto mesmo, estou ainda cheio de coisas para fazer aqui neste Mundo, que foi um dia amaldiçoado por seu Criador e jaz no maligno! (HOYER, 1990, p. 5, grifo nosso).