As elites do Amapá, sejam as do ex-Território Federal, lideradas por Janary Gentil Nunes, sejam as que comandam hoje o Estado, forjaram e forjam simbologias que devem ser revistas, repensadas, porque podem não condizer com aquilo que tentam imprimir ou negar à nossa memória. Das 35 narrativas inseridas neste ponto, duas abordam as celebrações de 13 de setembro, data de criação do ex-território Federal. A primeira, postada em 06/09/2011, às 15h19, com o título Desfile de 13 de setembro retrata a história da criação do
estado do Amapá, anunciava eventos que ainda iriam ocorrer. Já a segunda,
de 13/09/2011, às 19h05, com o título Desfile de 13 de setembro contou a
história do Amapá de território a Estado, é uma construção do que aconteceu
nos desfiles comemorativos. A narrativa evidencia que o ex-governador Anníbal Barcellos “foi lembrado por suas principais obras” e pelas frases e expressões que marcavam suas entrevistas e pronunciamentos. Diz que “do governo de João Capiberibe foram destacados o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA), valorização de povos indígenas e parteiras”. O ato de “contar” faz a narrativa saltar oito anos e chegar exatamente à gestão de
Camilo Capiberibe, com ações voltadas a projetos de “biodiversidade, intercâmbio, sustentabilidade, turismo” e merenda escolar regionalizada. E com o salto de oito anos a narrativa omite qualquer referência à gestão do ex- governador Waldez Góes, preso em decorrência da operação Mãos Limpas – e de seu sucessor, Pedro Paulo Dias. Tê-los como adversários é uma coisa, mas encará-los como políticos que não ocuparam o governo estadual por oito longos anos, como o fez também João Alberto Capiberibe, é um desserviço à história e à memória de quem vive no Amapá; é pisar na lei da transparência, é pisar na lei de acesso à informação, tão divulgadas pelas postagens da Agência de Notícias.
Surge, então, mais um questionamento: se a informação é pública, por que silenciar a respeito de certas personagens da história, por que tentar manter em segredo os seus nomes?
O segredo impede um controle mais efetivo por parte da sociedade sobre seus governantes. Ou seja, o segredo constitui uma forma de se evitar o julgamento, preservando, assim, o lugar do poder. Ele permite, ademais, que uns poucos possam ser detentores de um “saber”, o dos segredos políticos, com o qual pretendem exercer um poder exclusivo. Cria-se uma realidade escondida e outra aparente. Tendo acesso apenas a esta última, a sociedade é mantida na ignorância de processos decisórios que lhe dizem diretamente respeito (ALMINO, 1986, p. 98).
Afirmamos acima, que é necessário rever e repensar, com os ingredientes de hoje, a memória, a história, a identidade do Amapá. E esse repensar não pode e não deve excluir, por exemplo, a figura de Janary Gentil Nunes, celebrada por muitos amapaenses e contestada por tantos outros. Somente a respeito de Janary, no período pesquisado, a Agência procedeu a 8 postagens. O gancho de todas as narrativas era a comemoração do centenário do primeiro governador, que iria ocorrer em 1º de junho de 2012.
O governador do Amapá, Camilo Capiberibe, recebeu nesta sexta-feira, 16, o senador Randolfe Rodrigues, os membros do Colegiado do curso de História da Universidade Federal do Amapá (Unifap), professores Edinaldo Nunes e Varônica Luna. O tema da reunião foi o centenário do primeiro governador do então Território Federal do Amapá, Janary Gentil Nunes. (...) Na ocasião, o governador Camilo e os presentes firmaram compromisso de realizar, em parceria, uma vasta programação
para comemorar o centenário do ex-governador (Postagem de 16/03/2012, 20h20).
Em postagens seguintes, como os títulos ratificam, Janary Nunes é resgatado como personagem mnemônico: GEA comemora o Centenário do ex-
governador Janary Gentil Nunes com vasta programação; Piratão lança samba- enredo em homenagem ao centenário de Janary com a presença de dona Alice Nunes; Alvorada e homenagens dão início à programação do Centenário do ex-governador Janary Gentil Nunes; Governador Camilo Capiberibe lança pedra fundamental do Memorial Janary Gentil Nunes.
Nada contra a comemoração de centenários; nada contra a reedição de livros; nada contra memoriais. Desde que a informação chegue completa, bem apurada, capaz de levar os cidadãos a ter acesso àquilo que realmente ocorreu e que não poderia ser jamais negado. Quando o Território Federal do Amapá foi criado, o Brasil vivia a ditadura Vargas e, ditava a constituição de 1937, que competia ao presidente-ditador nomear os governante para os territórios criados em 1943. Para o Amapá, o indicado foi Janary Gentil Nunes, tão ditador quanto quem o indicou. Ficou no poder por longos 12 anos e azeitou carreiras políticas no seio da própria família. Mesmo assim, é divulgado como um estadista e merecedor de um memorial. Era tão apaixonado pelo Amapá que, na primeira derrota que a população lhe impôs, nas eleições de 1970, concorrendo ao cargo de deputado federal pela antiga Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de sustentação da Ditadura que tomou o país com o golpe de 1964, simplesmente deixou o ex-território. Negar-lhe importância? Não. Desde que a história, a memória e a identidade sejam respeitadas como imprescindíveis ao exercício da cidadania, tão defendida pelos que lidam com Comunicação Pública.
Nas postagens sobre Gentil Nunes impera, novamente, o silenciamento. Parece que é melhor contar a história eliminando as verdades que incomodam. Se o Amapá construiu heróis, um deles foi Janary Nunes, que ocupou o poder em regime absolutamente ditatorial.
Com a maior democratização do acesso quanto à produção das informações, os fatos talvez se tornem menos monolíticos, pode até mesmo ser que sua matéria sejam as dúvidas, tal a multiplicidade de versões e interpretações possíveis. A
verdade, contudo, sempre terá mais oportunidades de surgir nessa multiplicidade do que numa única versão unilateralmente definida a partir de um interesse específico, mesmo que ele se revista com o qualificativo da totalidade (ALMINO, 1986, p. 91). Dito isto, voltemos aos movimentos indicados por Motta e que devem ser sempre considerados – as narrativas deste eixo têm relação direta com estratégias subjetivas, voltada à imagem de heróis; recomposição de acontecimentos; estratégias de objetivação; e construção de personagens jornalísticos.