3. Results
4.2.4. Fatty acid composition of milk from cows with subclinical ketosis
Para se elaborarem as questões de n° 2 (Onde as cenas se passam? Como esse espaço
é visto pelas personagens?) e 5 (O desfecho do livro é verossímil pelo que ele apresentou antes?), ambas relacionadas aos direitos do texto, partiu-se do pressuposto de que, para poder
opinar sobre um texto literário, no caso, deveria o aluno ser capaz de reconhecer, por si só, o processo de “caminhada interpretativa do leitor”, ou seja, “descobrir por que este sentido foi
27 Uma cópia da atividade realizada, tal como apresentada aos alunos, consta do anexo desta dissertação.
28 Em virtude do término do ano letivo, não seria possível discutir – com os alunos – se essa seleção procedia,
construído a partir das ‘pistas’ fornecidas pelo texto” (GERALDI, 1997, p.112), sem precisar utilizar-se de outro leitor, frequentemente o professor, para validar suas respostas, agindo autonomamente.
Os aspectos observados nessas duas questões selecionadas lidavam com informações referentes aos elementos essenciais de uma narrativa, o espaço em que a situação narrada se desenvolve e a verossimilhança com que o enredo foi construído e apresentado ao leitor29
Também se escolheu a verossimilhança por permitir que o leitor compartilhe do universo do aqui e agora da leitura, como explica Marisa Lajolo, em Literatura: leitores e
leitura, sem que seus universos – de leitor e de autor – coincidam necessariamente. Ao
adentrar o enredo e compreendê-lo em suas particularidades, aceitando que Jacinto, um “parisiense” de origem portuguesa, aparentemente preso às novidades tecnológicas, possa modificar radicalmente seu modo de viver e ir morar nas serras portuguesas, o leitor recria, mesmo estando anos distante, o objeto proposto pelo autor de uma forma presumidamente única
. O primeiro – o espaço – foi escolhido por se relacionar diretamente ao título e ao tema do livro; o segundo – a verossimilhança –, por ser, desde Aristóteles, se cumprido, ou seja, se originário da própria coerência interna do texto, garantia de uma estória bem elaborada, corroborando a ideia de que, mesmo ancorada na realidade, a literatura era o mundo do possível, devendo trazer à luz, coerentemente, o que podia acontecer sem ter necessariamente acontecido, de acordo com o contexto em que estava inserida.
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Quanto ao espaço, a maior parte das respostas analisadas demonstrou a compreensão – por parte dos alunos – de que as personagens Zé Fernandes e Jacinto acabam por preferir Tormes, representação das serras, em Portugal, a Paris, representação da cidade, em França. Destacaram-se, no entanto, duas dessas respostas por utilizarem os elementos do próprio capítulo para comprovar a distinção apontada, fosse a sensação de estranhamento, de não pertencimento uma vez sentida e descrita, fosse a adoção do ponto de vista da personagem Zé Fernandes, narrador do livro, utilizando-se de adjetivos para caracterizar a visão dele sobre os espaços citados, como ‘monótono’, ‘tedioso’, ‘fútil’ (para Paris, para sua casa – o 202); ‘humildes’, ‘felizes’ (para Tormes):
, a qual ele compartilhará com os demais leitores, quando do debate em sala, por exemplo.
29 “Onde as cenas se passam? Como esse espaço é visto pelas personagens?” e “O desfecho do livro é verossímil
pelo que ele apresentou antes?” foram os enunciados das questões, ora analisadas.
30 Presumida, pois, como explica Stanley Fish, por fazer parte de uma comunidade interpretativa – por exemplo,
de estudantes de literatura – utiliza das mesmas estratégias interpretativas que outros partícipes, às vezes, sem se dar conta disto. Este item será retomado quando se tratar dos direitos do leitor.
Durante a maior parte, o capítulo e as cenas se passam em Paris (cidade) e no final do capítulo, quando Zé Fernandes volta é passado em Tormes (serra). Paris, para ZF, é como se fosse uma cidade de pessoas artificiais, sem pudor. Em sua estadia no hotel Boulevard, detesta quase tudo na cidade. Diz que a cidade cheira a pó-de-arroz, sua única alegria foi voltar ao 202 e relembrar os velhos tempos, comparando-o a um museu. Sente-se como Jacinto se sentiu quando chegou em Tormes. Mas quando volta a Tormes, sente-se verdadeiramente em casa no lado de Jacinto, sua mulher e seus 2 filhos. Em Tormes ZF reencontra a sua paz e felicidade, sente que ali é seu lugar (2C – n.º 8)
A maior parte do capítulo se passa em Paris, a ‘cidade’, com o ponto de vista de Zé Fernandes. Ele descreve esse espaço como um lugar monótono e tedioso, onde as pessoas vivem uma vida falsa e fútil. No final do capítulo, a última cena se passa em Tormes, as ‘serras’ onde Zé Fernandes diz ser um lugar melhor, de pessoas mais humildes e felizes, com mais contato com a natureza e menos abuso do uso da tecnologia (2D – n.º 12) 31
Quanto a ser o capítulo verossímil, ou não, em relação ao que fora apresentado nos anteriores, percebeu-se que muitos dos alunos se utilizaram do processo de construção do enredo e das personagens, recuperando a ideia proposta por Aristóteles, em Poética: tudo aquilo que é narrado se assemelha à realidade, ou com probabilidade de ser verdade, e cuja complexidade é oriunda de sua própria estrutura interna. Esmiuçando mais, selecionou-se uma resposta que trata do enredo propriamente dito, outra que faz uso de um elemento mais específico – a equação de felicidade elaborada por Jacinto.
Sim. Era de se esperar esse desfecho, uma vez que se tem uma tese, apresentada, o livro faz críticas à sociedade moderna (‘cidade’). Por uma questão de lógica, o final seria preferir viver nas serras (2D – n.º 26)
Sim, Jacinto e Zé Fernandes percebem que suma ciência X suma potência não é suma felicidade. Ao decorrer do livro, Zé Fernandes e Jacinto mudam, encontram a felicidade na simplicidade e o final do livro confirma isso (2E – n.º 44)
Embora o aluno leitor não demonstre muita dificuldade em compreender, nem em articular as informações coletadas com as questões apresentadas, identificando – com propriedade – o que se solicitou, percebe-se, ainda, a diminuta utilização do vocabulário específico da análise literária, levando-se a refletir sobre o processo de enculturação por que os alunos passam. Eles têm aprendido, provavelmente, a identificar informações explícitas e
31 Para se manter o anonimato da autoria de cada uma das respostas transcritas nesta dissertação, decidiu-se por,
primeiro, indicar a qual grupo-classe o aluno pertencia e, em seguida, seu número na lista de chamada. Dessa forma, a sigla 2C – n°8 representaria a turma C da 2ª série do Ensino Médio, sendo 8 o número do aluno.
implícitas em um texto, seja este literário, ou não; porém, fazem raramente uso de termos mais apropriados para explicar, para justificar suas próprias conclusões, como as respostas selecionadas mostram. Não há o termo espaço, nem verossímil em seus textos, nem outra palavra que remeta a um conhecimento linguístico trabalhado nas aulas de leitura literária. Talvez isto ocorra por conta de um ensino de literatura voltado para a aprendizagem de escolas literárias, desvinculadas entre si, sem uma interação maior com a obra, com a leitura desta, em que o foco esteja mais voltado para o desenvolvimento de um respeito ao cânone que para uma interação comunicativa.
Dessa forma, como profere Luiz Costa Lima (2009), “seria urgente repensar a articulação entre o ensino teórico e aquele que enfatiza o conhecimento de uma certa literatura”, pois “não pode haver teoria sem operacionalização, que, no caso, seria fornecida pela intensa leitura anterior do objeto literário, nem pode haver estudo de alguma literatura sem algum embasamento teórico”, ou, do contrário, professor e aluno serão estimulados a considerar “seus achados como suficientes por si mesmos”. Ainda, Umberto Eco (apud Rouxel) 32
Dessa forma, ainda que a literatura não seja uma ciência em que o conhecimento de termos técnicos é relevante para a aprendizagem e utilização efetiva dos conceitos construídos, não se pode desconsiderar a importância da adequação vocabular para a melhor comunicação entre leitores, escritores, críticos, permitindo-lhes operar mentalmente em níveis cada vez mais complexos, sem mais utilizar o concreto como referência, adquirindo novos vocabulários, desenvolvendo-se, logo, cognitivamente. Tentar facilitar a leitura literária por conta de uma diminuição de sua complexidade não significa, em verdade, proporcionar ao aluno maiores oportunidades de aprendizagem. O contrário disto. Parece, sim, classificar alguns conhecimentos como de domínio tão só do professor, impedindo-se o aluno de se desenvolver plenamente, visto que, enquanto partícipe de uma comunidade interpretativa que é, deve poder acessar todos os níveis que lhe forem possíveis, sem obstáculo algum quanto à utilização e compreensão de um vocabulário mais específico, de modo que sua atuação se confirma essa necessidade de se utilizar um vocabulário adequado, diferenciando o
interpretar do utilizar, quanto a fonte do saber e sua extensão. O primeiro convocaria um
saber sobre a literatura, saber este que apenas se adquire com estudo de bases teóricas; o segundo repousaria “sobre a experiência que o leitor tem do mundo”, sendo, assim, limitada a um universo assaz pessoal, em que o significado do que se leu se referiria apenas à esfera privada.
32 In “Da tensão entre utilizar e interpretar na recepção de obras literárias em sala de aula: reflexão sobre uma
amplie, alcance outros intérpretes, não se limitando a uma conversa entre leitores, mas, sim, a um colóquio33.