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In document FISKE l ANDRE LANDS SONER - (sider 39-44)

Baseado na Psicologia Analítica, entendo que a Consciência se estrutura e se transforma por intermédio dos símbolos. Diferentemente da Psicanálise, que postula a sublimação como o mecanismo responsável pela transformação da energia sexual, a Psicologia Analítica entende a energia não apenas como sexual, mas como psíquica, e confere ao símbolo um sentido de transformação da libido e, consequentemente, da Consciência e da própria personalidade. Nise da Silveira67, cujos estudos relativos às imagens do inconsciente são um legado extremamente importante à Psicologia Junguiana, elucida as visões das duas escolas:

Segundo Freud, ocorre a sublimação, quando a libido abandona o objeto sexualmente desejado para dirigir-se a uma outra meta, não-sexual, encontrando satisfação em atividades não-sexuais e socialmente valorizadas. A atividade artística seria uma das principais formas de sublimação.

Sob a perspectiva da psicologia junguiana, a libido dificilmente troca de meta se não se transforma [antes]. É aí que tomam lugar as imagens simbólicas, cuja função é promover transformações da libido. Jung compara os símbolos a dínamos que transformam uma modalidade de energia psíquica em outra (à semelhança do que acontece na física, quando, por exemplo, o dínamo transforma energia mecânica em energia elétrica). (SILVEIRA, 1992, p. 54).

Nesse sentido, a religião tem profunda importância na vida psíquica. Por exemplo, quem teve uma mãe ou um pai terrível e ficou fixado na polaridade negativa desses arquétipos, pode, por intermédio de um símbolo religioso de alta

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A alagoana Nise da Silveira (1906 – 1999) era psiquiatra e foi aluna de Carl Jung. Destacou-se no estudo da esquizofrenia e revolucionou a psiquiatria brasileira, ao se levantar contra os métodos agressivos da época e a privilegiar a expressão simbólica nos seus pacientes. Contribuiu significativamente para a difusão das ideias de Jung no Brasil. Em 1952, fundou, no Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente, onde reuniu trabalhos artísticos de seus pacientes. Entre outras obras, é autora de Imagens do Inconsciente e O Mundo das Imagens.

potência energética, transmutar sua libido e humanizá-la. Resumindo: a energia arquetípica negativa fixada é transformada pelo símbolo. Um objeto munido de afetividade e ressonância empática (como um sacerdote, um terapeuta, um padrasto ou um professor), pode transformar projeções negativas em positivas, que culminarão em uma identificação também positiva, que será capaz de transformar a libido, por intermédio do símbolo. Em um só golpe, humaniza-se o arquétipo e transforma-se a imagem de si mesmo.

Nesse sentido, a Psicanálise não se distancia em demasiado da visão junguiana, já que, na visão psicanalítica, o que define todo o processo psicoterapêutico é a transferência. É por intermédio dela que algo pode ser atuado, conscientizado e transformado. Assim, o analista, em si, é um símbolo de transformação. É na neurose da transferência estabelecida no vínculo analítico, quando ela ocorre, que afetos reprimidos serão revividos e dinamizados. A questão das diferenças no conceito de sublimação entre a Psicanálise e a Psicologia Analítica, apontada por Silveira, exigiria um aprofundamento que nos desviaria de nossa meta. Neste momento, basta-nos pensar nos símbolos como transformadores da Consciência.

Para o desenvolvimento do ego e da Consciência, é necessário que um símbolo estruturante seja idealizado, de modo que a personalidade integre aspectos criativos dos quais ainda não se apropriava. É necessário comer e beber um símbolo para integrá-lo de fato.

Podemos notar que a religião já possuía, muito antes do surgimento da Psicologia sistematizada como ciência, um profundo entendimento dos mecanismos psicológicos que estruturam as transformações da Consciência. Jesus conhecia esse mecanismo e pregava o desapego. Para Ele, o bem supremo era a relação do indivíduo com Deus – ou do ego com o Self. O verdadeiro tesouro da vida seria percebê-la como algo espiritual e impermanente, mas, ao mesmo tempo, próximo, como denota a passagem já citada do livro do Êxodo: “Há aqui um lugar perto de mim”, disse o Senhor a Moisés. Jesus, que pertencia à tradição de Moisés, procurava dar aos outros o que ele mesmo possuía: o seu íntimo contato com a força motriz da vida. Disse Jesus:

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. (Mateus 6, 19-21).

O tesouro de Jesus se assemelha ao Nirvana de Buda:

O Nirvana é permanente, estável, imperecível, irremovível, atemporal, imortal, não nascido e não tornado; é poder, alegria e felicidade, o refúgio garantido, o abrigo e o lugar de inatacável segurança, que é a autêntica Verdade e a Realidade suprema; que é o bem, a meta suprema e a única consumação de nossa vida, a eterna, oculta e incompreensível Paz. (CONZE, 1959, p. 22, tradução livre).

O encontro com o tesouro é uma linda metáfora das riquezas que só podem ser alcançadas pela busca espiritual. A riqueza material nos mantém fixados ao impermanente e às suas vicissitudes que tanto nos fazem sofrer e nos desviam da estrada que nos leva ao desapego do que nos mata espiritualmente. Na tradição espiritual, a morte não deve ser entendida concretamente, no sentido da morte biológica. Ela é o distanciamento do Nirvana e ocorre quando nos encapsulamos no inferno da concentração da nossa energia psíquica em um objeto que nos prende e nos devora. O Nirvana vem com a contemplação do reflexo da Divina Face nas riquezas espirituais: “inatacável segurança”, “autêntica Verdade” e “paz”, entre outros bens preciosos que definem o Paraíso.

A proposta dos grandes líderes espirituais demanda um forte conhecimento psíquico. A trilha para o caminho espiritual é a psique. Portanto, o Arquétipo Central, com toda a sua riqueza, é, ao mesmo tempo, paraíso e refúgio, fonte e alimento, direção e chegada. É Brahman, origem e fim de tudo, alfa e ômega. A Psicologia, ao seu modo, parece compartilhar da ideia de que existe um estado psicológico em que o indivíduo se sente mais equilibrado, mais criativo e mais lúdico. Tal estado, porém, não é alcançado apenas com orações e meditação. O longo processo de diferenciação do ego em relação ao Self terá como fruto a maturidade que é o objetivo da psicoterapia.

que é uma Consciência que se reconhece dependente do Self, mas totalmente outra. Com isso, quero dizer que, sem a devida diferenciação entre o ego e o Self, não podemos falar de uma religiosidade autêntica, pois apenas com a separação de ambos poderá haver a contemplação de uma parte sobre a outra. O Self, ao ser contemplado por uma Consciência madura, não é mais o Self que contém, em si, as imagens interiorizadas no início da vida do sujeito. A retirada das projeções oriundas das identificações primárias é fundamental ao surgimento da criatividade e da espontaneidade singulares do indivíduo.

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