• No results found

Facebook-plattformen

Neste tópico apresentaremos o movimento CTS e sua importância como impulsionador de questionamentos críticos e reflexivos acerca do contexto científico , tecnológico e social, em especial, destaca-se a sua relevante contribuição na educação científica.

A sociedade contemporânea tem sido transformada pelo progresso científico e tecnológico que vem produzindo mudanças nos níveis econômico, político e social. Como alternativa contrária à visão racionalista da ciência e da tecnologia, em um contexto de crítica ao modelo desenvolvimentista, surgiu uma nova forma de entender as relações entre a ciência, tecnologia e sociedade expressa no movimento CTS (SANTOS, 2011).

Iniciado na década de 1960 o movimento CTS apresenta um perfil interdisciplinar, que teve sua origem em correntes de investigação na filosofia e sociologia da ciência. Segundo Bazzo e Colombo (2001, p. 93) com a preocupação de “tratar a ciência e a tecnologia, tendo em vista suas relações, consequências e respostas sociais”.

No campo educacional, os pressupostos do movimento CTS têm servido como base para construir currículos em vários países, em especial os de Ciências, dando prioridade ao letramento em ciência e tecnologia com interface no contexto social, de formação para a cidadania (PINHEIRO et al., 2007; SANTOS, 2011).

Na educação científica esse movimento, segundo Auler (2007, p. 1) assumiu como objetivos:

promover o interesse dos estudantes em relacionar a ciência com aspectos tecnológicos e sociais, discutir as implicações sociais e éticas relacionadas ao uso da ciência e datecnologia (CT), adquirir uma compreensão da natureza da ciência e do trabalho científico, formar cidadãos científica e tecnologicamente alfabetizados capazes de tomar decisões informadas e desenvolver o pensamento crítico e a independência intelectual.

Para Santos (1998, p. 25) o principal objetivo educacional da educação CTS é o “desenvolvimento de uma cidadania responsável”, caracterizada pelo autor como:

[...] uma cidadania individual e social para lidar com problemas que têm dimensões científicas e tecnológicas, num contexto que se estende para além do laboratório e das fronteiras das disciplinas. Tornar a Ciência revestida de mais significado para o aluno, de forma a prepará-lo melhor para lidar com as realidades da vida atual e para poder planificar o seu próprio futuro, é uma das suas aspirações básicas.

Ao considerarmos os objetivos do movimento CTS na educação científica, é possível identificar convergências entre estes e os objetivos do letramento científico, como observado por Santos (2002, p. 35):

o objetivo de formação para a cidadania no ensino de ciências insere-se dentro do contexto do movimento de letramento em ciência e tecnologia, LCT. O letramento em ciência e tecnologia, LCT, tem sido associado a estudos de compreensão pública da ciência, ciência para todos e educação em ciência – tecnologia – sociedade, CTS.

Gallagher (19717, p. 337 apud AIKENHEAD, 2003, p. 2, tradução da autora) propôs

uma nova meta para o ensino de Ciências: “para os futuros cidadãos em uma sociedade democrática, a compreensão das inter-relações CTS podem ser tão importantes quanto à compreensão dos conceitos e processos da ciência”.

Waks (1990, p. 43, tradução da autora) afirma que o propósito da educação CTS é:

promover o «letramento em ciência e tecnologia», de maneira que se capacite os cidadãos a participar no processo democrático de tomada de decisões e se promova a ação cidadã encaminhada à resolução de problemas relacionados com a tecnologia na sociedade industrial.

Waks (1990) nesse trecho refere-se à necessidade do letramento científico como propósito da educação CTS voltado à formação para a cidadania, bem como a participação consciente no processo democrático de resolução de problemas resultantes do avanço científico e tecnológico.

Em outro momento, Waks (1990) propõe unidades curriculares que possam integrar programas de ciência e tecnologia ou cursos independentes, mas que devam contemplar cinco fases com ênfase na preparação para a cidadania e para a tomada de decisão:

(1) formação de atitudes de responsabilidade pessoal em relação ao ambiente natural e com a qualidade de vida; (2) tomada de consciência e investigação de temas CTS específicos, focados tanto no conteúdo científico e tecnológico, como nos efeitos das

distintas opções tecnológicas sobre o bem-estar dos indivíduos e o bem comum; (3) tomada de decisão com relação a essas opções, levando em consideração fatores científicos, técnicos, éticos, econômicos e políticos; (4) ação individual e social responsável direcionada a levar à prática o processo de estudo e tomada de decisão, geralmente em colaboração com grupos comunitários (por exemplo, «oficinas científicas», grupos ecologistas, etc.); e (5) generalização das considerações mais amplas de teoria e princípio, incluindo a natureza sistêmica da tecnologia e seus impactos sociais e ambientais, a formulação de políticas nas democracias tecnológicas modernas e os princípios éticos que possam guiar o estilo de vida e as decisões políticas sobre o desenvolvimento tecnológico. (WAKS, 1990, p. 43-44, tradução da autora).

A formação para a cidadania foi incorporada à educação científica no âmbito dos estudos CTS. Entretanto, ao longo do tempo, diversos trabalhos começaram a adotar a denominação CTS com diferentes concepções, atribuindo, dessa forma, novos significados ao que antes se caracterizava como discussões sobre o papel e as implicações da ciência na sociedade.

De acordo com Santos (2011), alguns estudos foram realizados buscando evidenciar esses significados. Auler e Delizoicov (2001) classificaram-nos em duas visões, uma reducionista e outra ampliada, utilizando como elemento de análise o entendimento sobre as forças de poder que envolvem a tomada de decisão. Gonzáles Garcia et al. (1996) identificara m três modalidades de implementação: introdução de CTS nos conteúdos das disciplinas de Ciências, ciência vista por meio de CTS e programas CTS puros. Fensham (1988), Solomon (1993), Aikenhead (1994) e Yager (1993), não obstante, expressaram uma preocupação com o desenvolvimento de ações relacionadas às questões ambientais.

Santos (2011, p. 37) afirma que há várias denominações para a educação científica e para CTS. Contudo, apesar de propósitos em comum, esses diferentes “slogans” recebem influências ideológicas que os diferenciam, portanto, cada um deve esclarecer o significado que deseja atribuir.

O movimento CTS tomou diferentes rumos na sua trajetória histórica, contudo permanece ativo no âmbito da educação científica e no ensino de Ciências. Constitue m objetivos desse movimento a formação para a cidadania e a tomada de decisão responsável como forma de construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Para o alcance desses objetivos, faz-se necessário um ensino de Ciências mais comprometido e problematizador da realidade, onde a aprendizagem seja mais significativa para o estudante.

Cabe ressaltar, que os pressupostos do movimento CTS de formação para a cidadania e de atitudes de responsabilidade pessoal e social, estão intimamente relacionados ao desenvolvimento da autonomia moral do indivíduo. Considera-se que a autonomia moral seja

a capacidade de um indivíduo tomar uma decisão baseada nas informações disponíveis, tendo em conta a responsabilidade moral e social dessa ação.