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4. METODER FOR Å SKJULE SEG

4.2 F ORVALTERREGISTRERING

Lourenço Corrêa de Mello foi responsável por anunciar uma noite de espetáculos em Ouro Preto, no dia 04 de setembro de 1851. Através da publicação, convidava a seus amigos a tomarem boletos mediante uma quota para satisfazer as despesas.296 Esses termos servem como pistas de uma iniciativa particular, provavelmente de amadores. Por que uma companhia teatral justificaria a cobrança de ingressos para o teatro? Esse pudor ao cobrar ingressos e a chamada para um público “amigo” fundamentam a afirmação de que se tratava de um grupo de amadores. Amigos seriam capazes de pagar por um espetáculo de um grupo iniciante, que poderia cometer falhas.

295 Leis Mineiras de 1854, Nº 686 – Lei de 18 de Maio, p.46. Arquivo Público Mineiro.

296 “O Conciliador”, nº 242, de 04 de setembro de 1851, p.4. Disponível em: <www.siaapm.cultura. mg.gov.br>. Acesso em dezembro de 2009.

Outro grupo de amadores anunciou uma apresentação, no teatro de Ouro Preto, para o dia 9 de janeiro de 1858. A programação previa a execução de uma “ouvertura”297 por professores de música, encenação do drama patético e muito aplaudido: “O Resultado de uma experiência”, ou a “Disciplina Militar”, além do entremez “Os Irmãos das Almas”. O anúncio exaltava o drama que seria encenado. Teria sido muito aplaudido no Rio de Janeiro por seu caracter e bom desempenho das personagens. Seu autor teria recebido mais um padrão de gloria em remuneração dos esforços que sempre faz[ia] em bem agradar ao respeitável publico.298 A credibilidade dada ao drama pelo público civilizado da Corte compensaria a plateia pelos problemas de uma encenação realizada por amadores. Ao final da publicação, o anunciante se antecipa, pedindo desculpas pelas faltas que, por ventura, poderiam acontecer, assumindo, assim, o caráter amador do grupo.

Para Duarte (1995), o fenômeno do teatro amador se manifesta a partir de meados de 1850 e ainda mais intensamente nas décadas de 1880 e 1890. Segundo a autora, as companhias ambulantes transformavam o cotidiano das cidades, trazendo inovações, notícias, hábitos e modas de outros lugares. (...) Após a partida das companhias, o desejo de continuar vivendo as possibilidades abertas pelo teatro estimulava a formação de grupos amadores (DUARTE, 1995, p.156). O amadorismo, portanto, é um forte indício de que parcela da sociedade ouro-pretana era tocada pela arte dramática, ou pelo acontecimento de um espetáculo teatral na cidade, ao ponto de se arriscar no lugar dos atores e atrizes, para garantir apresentações na capital.

Companhias dramáticas também visitavam Ouro Preto. No mês de setembro de 1855, com oito atores e duas atrizes, entre elas, uma prima-dona, sob a direção de João Jorge Mayer, a “Companhia Philo-Dramática Diamantinense” pediu autorização à polícia da cidade para representar, no dia 16 daquele mês, a peça: “O Judeu”, 299 que foi liberada mediante o pagamento de um selo.300 Nos dias que se seguiram, foram anunciados n‟ “O Bom Senso”, por essa companhia, três outros espetáculos: dia 18, seria apresentado o

297 Segundo o dicionário Houaiss Etimologia: ouverture (século XII): “aquilo que é aberto”, (1691) “início de uma ópera”.

298 “Correio Official de Minas”, nº 100, anno II, de 04 de janeiro de 1858. Disponível em: <www.siaapm. cultura.mg.gov.br>. Acesso em fevereiro de 2009.

299 Acervo do Arquivo Público Mineiro – POL 319 – Livro de Registro de despachos Secretaria de Polícia 1853 – 1859. p.83, 7 de setembro de 1855.

300 Durante esse período, os municípios estipulavam taxas que eram cobradas daqueles que quisessem realizar apresentações e divertimentos públicos. Em Ouro Preto, não encontramos os regulamentos sobre essas cobranças, mas, na documentação da polícia, do Arquivo Público Mineiro, é possível perceber que divertimentos e apresentações só eram autorizadas pela polícia mediante o pagamento de um selo.

drama “A sorte dos ladrões” ou “A dama roubada”301, dia 20 “A Nova Castro”302 e no dia 23 “Zulmira”.303

O jornal “O Bom Senso”, de 24 de setembro de 1855, publicou a seguinte nota a respeito da companhia teatral diamantinense:

(...) É a primeira companhia d‟esta ordem que se organisa n‟esta província, onde há muito talento para o theatro. Cumpre animarmos semelhantes ensaios, e bom é que vá desapparecendo o antigo prejuízo que em outros tempos havia contra a profissão de actor. Nos paizes cultos actualmente esse prejuízo já não existe: essa profissão é compatível com um caracter serio e honrado. Bem vinda pois seja a Companhia

Dramatica Diamantinense (“O Bom Senso”, nº 348, de 24 de setembro de 1855).304

Essa publicação nos provocou alguns questionamentos. Através dela, buscava-se legitimar o trabalho daquela companhia. Estaria o autor se lamentando pela falta de uma companhia como essa em Ouro Preto? Considerando que tal grupo já havia realizado quatro apresentações em Ouro Preto, das quais tivemos notícias, o que teria provocado uma atitude como essa? O que significa tal reconhecimento público, por aquele redator, do valor daquela companhia e do caráter sério e honrado dos atores? Teria o público comparecido ao teatro nas noites de espetáculo anunciadas? Algum membro da companhia, que gozava do apreço do redator, teria sido destratado em Ouro Preto?

Para Regina Horta Duarte (1995), a figura do ator começou a ser respeitada no Brasil, ou seja, ele passa a ser visto como um agente divulgador da civilização, a partir da atuação de João Caetano na Corte. Ator que teve destaque nos palcos do Rio de Janeiro e nos bastidores da atividade teatral daquela cidade, foi premiado, em 1838, por sua atuação com uma medalha de ouro, com a inscrição: Talma do Brasil – a fama – a glória, uma referência ao ator francês François-Joseph Talma. João Caetano administrou e dirigiu companhias teatrais em Niterói e no Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro; idealizou a criação de uma Escola Dramática, marcando sua crença na necessidade de preparar os atores para que eles fossem capazes de desempenhar seu papel civilizador com maestria. Foi também membro do Conservatório Dramático Brasileiro.

301 “O Bom Senso”, nº 346, de 17 de setembro de 1855, p.4. Disponível em: <www.siaapm.cultura.mg. gov.br>. Acesso em fevereiro de 2009.

302 Idem.

303 “O Bom Senso”, nº 347, de 29 de setembro de 1855, p.4. Disponível em: <www.siaapm.cultura.mg. gov.br>. Acesso em fevereiro de 2009.

304 “O Bom Senso”, nº 348, de 24 de setembro de 1855, p.2. Disponível em: <www.siaapm.cultura.mg. gov.br>. Acesso em fevereiro de 2009.

Segundo Duarte (1995), os atores passaram a ser idolatrados e a terem seus nomes destacados nos anúncios de apresentações teatrais na imprensa. Podemos dizer que, em Ouro Preto, na segunda metade da década de 1850, essas ideias sobre a seriedade do trabalho dos atores e das atrizes, circulavam entre os homens da elite intelectual, pois a presença de nomes de atores nos anúncios é significativa. Acreditamos que a mudança do status do ator traz no seu cerne uma mudança do significado atribuído aos espetáculos teatrais. Se atores deveriam ser respeitados por sua honra e seriedade, e sua atividade deveria ser incentivada, essa atividade, certamente, também seria considerada uma atividade séria.

O redator d‟ “O Bom Senso”, periódico que defendia a política dominante e que, desde o início da década até o momento em que publicou a nota a respeito da companhia diamantinense, pouco havia noticiado305 sobre a atividade teatral em Ouro Preto, assumia a crença no teatro como uma atividade séria e honrada, que merecia o respeito e o incentivo dos cidadãos ouro-pretanos. Supomos que existiram apresentações teatrais naquela cidade, nos primeiros anos da década de 1850, apesar de termos encontrado poucos anúncios.306 A presença e a atuação da Sociedade Dramática União Ouro-pretana e a possibilidade, comprovada pela atuação da companhia diamantinense, de utilizar o edifício teatral, apesar de esse edifício, naquele momento, pertencer ao governo geral, sustentam nossa afirmação. A liderança da sociedade por membros de oposição ao governo dominante explicaria a ausência de notícias, sobre espetáculos teatrais ocorridos em Ouro Preto, n‟ “O Bom Senso”. Seria um contra-senso alguém que acreditava na necessidade de incentivar ensaios de uma companhia teatral diamantinense e tinha as nações européias, grandes apostadoras no potencial educativo do teatro, como exemplares, não incentivar a atividade teatral em sua própria cidade.

O governo provincial, em julho de 1856, contratou o diretor de uma companhia dramática, que se achava há meses em Ouro Preto, José Caetano Vianna307 para realizar apresentações periódicas no teatro da Capital.308 O contrato assinado previa que o diretor

305 Encontramos apenas um anúncio relativo ao espetáculo do dia 7 de setembro de 1855, já mencionado neste trabalho. “O Bom Senso”, nº 344, de 06 de setembro de 1855. Disponível em: <www.siaapm. cultura.mg.gov.br>. Acesso em fevereiro de 2009.

306 Encontramos apenas um anúncio n‟ “O Bom Senso” e outro no jornal, também da situação, “O Conciliador”, nº 236, que publicou o anúncio da Sociedade Dramática União Ouro-pretana sobre a noite de espetáculos, em 1851. Todos dois já citados neste trabalho.

307 “Contracto com o empresário da Companhia Drammatica”, publicado n‟ “O Bom Senso”, nº 433, de 21 de julho de 1856, p.2. Disponível em: <www.siaapm. cultura.mg.gov.br>. Acesso em fevereiro de 2009.

308 Duarte (1995), cita na página 151, a contratação pelo Governo Provincial, de uma Companhia teatral em julho de 1854. Acreditamos que ocorreu um erro de digitação, ou algo parecido, em relação à data de tal

deveria se submeter aos regulamentos policiais e às determinações da polícia para garantir a ordem durante os espetáculos. José Caetano receberia, mensalmente, trezentos mil réis (300$000) pelo trabalho, quando realizado por completo, e estava sujeito à multa e à rescisão do contrato se não realizasse ao menos dois espetáculos por mês no “teatro público” da capital. Tais apresentações deveriam ser planejadas de maneira que não faltassem apresentações nos dias 14 e 25 de março, 07 de setembro e 02 de dezembro, e no dia da instalação da Assembléia Legislativa Provincial, se a instalação não coincidisse com o dia 25 de março. Em 14 de março, era comemorado o aniversário da Imperatriz Tereza Cristina e, em 25 do mesmo mês, o aniversário do juramento da constituição do Império. Em 07 de setembro, a independência do Brasil e, em 02 de dezembro, o aniversário do Imperador D. Pedro II. A contratação dessa companhia reforça a ideia de que o governo provincial preocupava-se em garantir espetáculos para as celebrações oficiais, ou seja, o teatro para a elite intelectual e dirigente adepta da política dominante, era um meio de demonstrar fidelidade e reverência ao imperador, à imperatriz, à constituição imperial e à nação independente. Preocupava-se em ocupar o teatro durante essas celebrações para provar a “vontade da nação”, seu desejo pelo regime monárquico centralizador, e reforçar a autoridade Imperial. Tal contratação também preservaria o edifício teatral do seu uso indevido por outras companhias ou grupos. A companhia contratada pelo governo e, supostamente, sob sua tutela, ocuparia por mais tempo aquele espaço com uma programação aprovada e controlada por ele.

Através do teatro, buscava-se criar uma identificação dos mineiros com o representante do governo imperial. Os ouro-pretanos deveriam se identificar com aquela figura, ver ali a causa das melhorias vividas no país, até aquele momento, e a possibilidade de progredir no futuro, através da permanência de D. Pedro II no poder. Podemos interpretar que as celebrações e as noites de espetáculo no teatro ensinavam. À medida que cena e público, palco e plateia se confundiam, a noite no teatro transformava-se em uma encenação única. As demonstrações de apreço ao Império e ao imperador ensinavam uma

contrato, pois, na lista que a própria historiadora produziu, de espetáculos realizados em Minas, não há encenações em Ouro Preto, nesse período. Além disso, os dados sobre o contrato e o modo como ele teria sido reincidido são idênticos aos relativos à contratação de 1856. Acreditamos que a autora se referia ao contrato assinado em 1856. Segundo Duarte (1995), o governo assinou um contrato com o diretor em 1854 de uma companhia teatral que garantia a apresentação de dois espetáculos ao mês. O diretor cuidaria para

que não passassem despercebidas certas datas festivas – com as quais deveriam coincidir alguns espetáculos. Em troca, a Mesa de Rendas Provinciais daria uma subvenção mensal. Eram previstas multas no

caso do contrato não ser cumprido. A autora acrescenta que, algum tempo depois, o contrato foi rescindido porque o diretor viajou para outros lugares da província em tournée e não cumpriu com sua obrigação de realizar apresentações mensais.

“verdade crua”, sem análise, a partir do que Machado de Assis chamou de espelho fotográfico. Por isso, a preocupação em ter, a maior parte do tempo, naquele edifício, espetáculos encomendados pelo governo provincial.

Em 04 de setembro de 1856 a companhia de José Caetano cumpria com suas obrigações, publicando o seguinte anúncio no jornal “O Bom Senso”:

THEATRO NORMAL DE OURO PRETO.