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F ORBEDRING AV METODIKK OG VEILEDERE

5   OPPFØLGING

5.3   F ORBEDRING AV METODIKK OG VEILEDERE

Fliess, como apontado anteriormente1, foi para Freud seu “único público”, sobretudo a partir do verão 18942, quando houve a interrupção do intercâmbio de ideias entre este último e Breuer. O isolamento científico de Freud se estendeu de 1894 até por volta de 1902, ou seja, por cerca de 10 anos.

Durante esse período, ou mais exatamente em 1895, o pai da psicanálise publicou, conjuntamente com Breuer, “Estudos sobre a Histeria”3, “livro recebido desfavoravelmente nos currículos médicos alemães”4, ao qual se dirigiram poucos comentários favoráveis, como o do “escritor não médico, Alfred von Berger”5.

Strachey6 não nos deixa esquecer que foram necessários mais de 10 anos para que fosse realizada uma segunda edição do trabalho de Freud e Breuer.

Situação não muito diferente aconteceu, cinco anos mais tarde, por ocasião da publicação do notável “A Interpretação de Sonhos”, de 1900, em que houve, como atesta o editor inglês, “desprezo quase total do livro pelo mundo exterior – apenas 351 exemplares foram vendidos nos seis primeiros anos após a publicação”.7

Freud não deixou de comentar, num tom de frustação, a recepção e a repercussão inicial8 que sua grande obra teve: “(...) as novas descobertas [oriundas                                                                                                                

1

Na seção anterior deste trabalho tal tema foi explorado. 2

JONES, Ernest. A vida e a obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1989, p. 258. 3 BREUER, Josef; FREUD, Sigmund.(1893-1895). Estudos sobre a Histeria, ESB, Vol. II, 1996, p. 12- 350.

4

STRACHEY, James. Notas do editor inglês. In: BREUER, Josef; FREUD, Sigmund (1895). Estudos

sobre a Histeria. ESB, Vol. II, 1996, p. 19.

5 Idem. 6

Idem. 7

STRACHEY, James. Notas do editor inglês. In: FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação de Sonhos. ESB, Vol. IV, 1996, p. 25-26.

8 ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 396 trazem alguns novos elementos apresentado os dados da pesquisa de Ellenbergere de Kiell que apontam para outra direção, isto é, para uma recepção não tão ruim assim da obra de Freud de 1900. Os autores franceses também defendem que, na verdade, a publicação de Die

Traumdeutung dividiu as opiniões, pois realmente foi mal recebida pelo público do qual Freud

desejava o reconhecimento (os médicos e os cientistas) e foi aprovada por aqueles que o analista austríaco não levava muito em consideração: filósofos, artistas e literários.

do livro de 1900] não despertaram interesse algum quer na profissão médica, quer entre o público em geral”.9

O isolamento científico do pai da psicanálise teve raízes mais profundas, não se circunscrevendo à percepção freudiana do desinteresse dos intelectuais da época ou mesmo do “público em geral” e sim a uma reação áspera e extremamente crítica da comunidade científica, no final do século XIX e início do século XX.

A aspereza dos intelectuais foi dirigida sobretudo às ideias freudianas que versavam sobre a existência do inconsciente. Freud relacionou tal instância mental ao adoecimento psíquico e, desse modo, se afastou das explicações derivadas da medicina alemã, que centravam a elucidação dos transtornos mentais em compreensões fisiológicas.

Como muito bem nos lembra Max Graf (um dos membros da Sociedade Psicológica das Quartas- Feiras e pai do Pequeno Hans), em seu trabalho intitulado “Reminiscences of Professor Sigmund Freud”,

a ciência oficial, no momento [início do século XX], não queria nada com Freud. O líder dos médicos vienenses era Wagner-Jauregg, um professor universitário, um homem que, por causa de sua formação e sua maneira de pensar, não conseguia entender as idéias de Freud. Para Wagner-Jauregg10 o sofrimento psicológico significava somente sofrimento físico, algo que poderia ser tratado com meios físicos11.

Se não bastasse esse fator dissonante, Freud foi além, ao defender que a etiologia das neuroses se situava no campo da sexualidade. É evidente que tal fato não passou despercebido para a comunidade da época, e mais uma vez Graf não nos deixa esquecer que

a sociedade vienense ria dele. Naqueles dias, quando alguém mencionava o nome de Freud em uma reunião, todo mundo começava a rir como se alguém tivesse contado uma piada. Freud era um homem raro que tinha escrito um livro sobre os sonhos em que ele se imaginou como intérprete deles. Além disso, ele era o homem que viu sexo em todas as coisas. Era considerado de mau gosto mencionar o nome de Freud na presença de senhoras. Quando seu nome era mencionado causava rubor. Aqueles menos sensíveis falavam de Freud com um sorriso, como se estivessem contando uma piada grosseira.12

                                                                                                               

9 FREUD, Sigmund (1926b). Psicanálise. ESB, Vol. X, 1996, p. 258. 10

GRAF, Max. Reminiscences of Professor Sigmund Freud. Psychoanalytic Quarterly, Vol II, n° 4, p. 474. Wagner-Jauregg descobriu o tratamento da paralisia cerebral devido à malária, descoberta essa muito importante para a medicina. Graf comentou também que foram precisos mais de 20 anos para que Jauregg reconhecesse a importância das teses freudianas. (Tradução nossa).

11 Idem. 12

O pai da psicanálise nunca ignorou a forma pela qual tanto os intelectuais como a sociedade de Viena receberam suas descobertas, apontado que

as razões dessa hostilidade iriam ser encontradas, do ponto de vista médico, no fato de que a psicanálise dá ênfase a fatores psíquicos, e, do ponto de vista filosófico, na suposição do conceito da atividade mental inconsciente como sendo um postulado fundamental; mas a razão mais forte, foi, indubitavelmente, a indisposição geral da humanidade em conceder ao fator da sexualidade a importância que lhe é atribuída pela psicanálise13.

O isolamento de Freud não se tornou mais agudo, ainda, com o rompimento com Fliess, pois em 1902, “(...) um certo número de médicos reuniu-se em torno de mim [Freud] com a intenção expressa de aprender, praticar e difundir o conhecimento psicanalítico”14.

Tais homens, como bem esclarece Nunberg,

(...) estavam interessados em psicologia, no sentido mais amplo da palavra. Insatisfeitos com o que a psicologia contemporânea tinha para oferecer, eles buscavam novas ideias, novos princípios orientadores, que iriam ajudá- los a obter uma melhor compreensão do homem. Os ensinamentos de Freud pareciam promessas, ajudas. 15

Mas a que espécie de reunião Freud e Nunberg estão aludindo? Trata-se da “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”16, isto é, do “primeiro círculo da história do movimento psicanalítico”, 17 em que um grupo de intelectuais se reuniu em torno do mestre (Freud) para aprender com ele as bases de um novo campo do saber, a psicanálise.

Nesse sentido, Freud é claro: “fiz o possível para transmitir meu conhecimento e experiência aos outros”.18 “Os outros” a quem o médico de Viena se refere, como bem nos lembra Nunberg, era um grupo “(...) heterogêneo, composto por psiquiatras, educadores, escritores, entre outros. Em suma, seus membros representavam uma parcela dos intelectuais do início do século.”19

                                                                                                                13

FREUD, Sigmund. Psicanálise, p. 258.

14 FREUD, Sigmund (1914). A história do movimento psicanalítico. ESB, Vol. XIV, 1996, p. 35. Os (Grifo nosso)

15

NUNBERG, H. Introduction. In: FERDERN, E.; NUNBERG, H. Minutes of the Vienna Psychoanalytic Society. International Universities Press, INC, New York, Vol. I, 1962, p. xix. (Tradução nossa). (Grifo nosso)

16

Vale destacar que, conforme ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Op. cit., p. 719, a primeira sociedade freudiana funcionou de 1902 a 1907. Já em 1908, ela foi substituída pela Sociedade Psicanalítica de Viena, “uma verdadeira instituição de tipo associativa”.

17 Idem. 18

FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, p. 35. 19

Todas as quartas-feiras à noite, no apartamento de Freud, na Bergasse 19, Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Paul Federn, Rudolf Reitler, Otto Rank, Max Graf e Max Kahane20, só para citar alguns deles21, se reuniam junto ao mestre para discutir, de forma entusiasmada, os mais variados assuntos que se entrelaçavam com a psicanálise: “(...) biologia, psicologia animal, psiquiatria, sociologia, mitologia, religião, arte e literatura, educação e criminologia, mesmo a associação e experimentos psicogalvânicos”.22

Como bem lembra Graf:

As reuniões seguiam um ritual definido. Em primeiro lugar, um dos membros apresentava um trabalho escrito. Então, eram servidos café preto e bolos; havia charutos e cigarros sobre a mesa, que eram consumidos em grandes quantidades. Depois de quinze minutos de conversa social, iniciava-se a discussão.23

Vale recordar, a título de ilustração, como se dava a disposição dos discípulos em torno do mestre, conforme a descrição de um dos membros da Sociedade das Quartas-Feiras:

Freud se sentava à cabeceira de uma longa mesa, ouvindo, tomando parte na discussão, fumando seu charuto e acompanhando cada palavra com um olhar sério e analítico. A sua direita se sentava Alfred Adler, um homem que falava com convicção por causa de seu equilíbrio, segurança e sobriedade. À esquerda de Freud se sentava Wilhelm Stekel, o homem sobre o qual mais tarde Freud publicou uma crítica muito dura, mas que na época era ativo e cheio de ideias. Dos médicos desse círculo, conheci Paul Federn, um dos discípulos mais fiéis, que representou com sucesso as tendências ortodoxas da escola de Freud.24

É importante frisar que, “em 1902, à exceção de Freud, nenhum participante [da Sociedade] era ainda psicanalista”25; foi em 1904 que o controverso26 Wilhelm Stekel iniciou suas atividades como analista, acompanhado de Paul Federn.

                                                                                                                20

É importante apontar conforme Freud. In: FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico. p. 35, que a composição da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras sofreu várias modificações ao longo dos cinco anos – 1902 a 1907.

21 Vale mencionar que poucas mulheres fizeram parte desse grupo. Conforme NUNBERG, H. Op. cit., p. xxiii, Lou Andreas-Salomé, escritora e filósofa, participou das reuniões da Sociedade de Psicanálise de Viena de 1912 a 1913. Esse fato é digno de nota, haja vista que as mulheres não tinham, nessa época, o direito de votarem e ainda de ingressarem em uma Universidade.

Ferdern, E, Nunberg, H. atestam ainda que, em novembro de 1911, Sabina Spielrein apresentou parcialmente seu trabalho, intitulado “A destruição como causa do devir”. Desse modo, a psicanalista russa foi a segunda mulher a participar desses encontros.

22

NUNBERG, H. Op. cit., p. xx. 23 GRAF, Max. Op. cit., p. 474. 24

Ibidem, p. 475. 25

Aqui cabe perguntar: como se deu a formação desses analistas pioneiros? Em tal processo de formação, algo semelhante à supervisão foi empregado?

Para responder a primeira parte dessa pergunta, faz-se necessário levar em consideração dois pontos: em primeiro lugar, como se trata do início do século XX, 1904-1905, Freud estava colhendo os frutos de suas primeiras descobertas sobre os sonhos, sistematizadas em seu magistral livro “A Interpretação de Sonhos”27, de 1900.

A partir de tais achados o médico de Viena foi desenvolvendo os primeiros pilares do arcabouço teórico da psicanálise, acrescentando a essas inovações novos postulados fundamentais: a sexualidade infantil, em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”28, de 1905, e a noção de transferência, em “Fragmentos de Análise de um Caso de Histeria”29 (Caso Dora), também publicado em 1905, mas escrito em 1901.

No Caso Dora, Freud articula os achados dos Três Ensaios – a sexualidade infantil – com seu erro metodológico, ao analisar a jovem de 18 anos, qual seja, não ter conseguindo “dominar a tempo a transferência”30. Tal articulação legou a seus discípulos a compreensão de que a interpretação da transferência é o caminho metodológico do analista, já que sua elucidação possibilita a abertura para o inconsciente, isto é, a revelação da história libidinal e identificatória do analisando, através da simbolização da sexualidade perverso-polimorfa do paciente e dos possíveis desdobramentos do Complexo de Édipo.

É com esse terreno fértil, ou seja, alicerçado nas ideias freudianas sobre o trabalho dos sonhos, a sexualidade infantil e a transferência, que os primeiros discípulos de Freud se depararam. Porém, é preciso lembrar que estes ainda não tinham grande domínio do saber recém-fundado; afinal, seus estudos se iniciaram em 1902, nas reuniões da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras.

Nesse sentido, o editor das Atas declara:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          26 Digo controverso pois, como lembra ROAZEN, Paul. Freud e seus Discípulos. São Paulo: Cultrix, 1978, p. 246, ele era um homem criativo que realizou descrições clínicas importantes. Porém, “alguns membros do movimento tinham-no na conta de indivíduo de caráter duvidoso”.

27

FREUD, Sigmund (1900). A Interpretação de Sonhos, ESB, Vol. IV e V, 1996, p.14-777. 28 FREUD, Sigmund (1905b). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. ESB, Vol. VII, 1996. 29

FREUD, Sigmund (1905a). Fragmentos de Análise de um Caso de Histeria. ESB, Vol. VII, 1996. 30

Eles [participantes das reuniões] chegaram a uma mesa rica, de fato, mas nem todos poderiam digerir o que foi oferecido. Apesar de eles saberem muito pouco de psicanálise, estavam ansiosos para aprender.31

Desse modo, Stekel e Federn, os primeiros analistas advindos desses encontros, às quartas-feiras, na Bergasse 19, além de ser iniciantes em seus estudos psicanalíticos, também o eram em relação à prática clínica.

No que se refere à análise pessoal, as circunstâncias não se apresentam muito diferentes, pois Ferden, como bem lembram Roudinesco e Plon, fez com Freud “uma espécie de análise avant la lettre, durante a qual conseguiu controlar seu humor melancólico”32.

Stekel, por sua vez, “(...) fez uma análise [com Freud] de algumas semanas, que pareceu aliviá-los [da impotência sexual e da compulsão à masturbação] sem eliminar seus sintomas.”33

Assim, temos que a formação dos primeiros analistas obedeceu à lógica do pioneirismo, isto é, eles navegaram por mares ainda não desbravados e, à medida que navegavam, iam auxiliando Freud a construir um saber em desenvolvimento. É interessante notar a reflexão de Nunberg, nesse mesmo sentido:

O leitor [das atas da Sociedade de Psicanálise de Viena] deve ter em mente que as discussões dos primeiros anos foram, em grande parte,baseadas no trabalho inicial de Freud e que os debatedores ainda não tinham adquirido grande experiência analítica. Consequentemente encontramos, em tais conjecturas, muitas declarações prematuras, etc.34

O fato de a formação dos analistas, nesse período, ter sido fiel ao pioneirismo35 fez com que houvesse também (e esse é o segundo ponto que eu gostaria de frisar) a ausência de diretrizes e parâmetros para a sistematização do processo de formação, situação essa bem diferente daquela proposta por Max Eitingon36, a partir de 1920, que será discutida em outra seção deste trabalho.

Nesse sentido, com justa razão, Roudinesco e Plon apresentam as características da formação dos analistas, nos primórdios da psicanálise:

                                                                                                                31

NUNBERG, H. Op. cit., p. xxiii. 32

ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Op. cit., p. 229. 33 Ibidem, p. 728.

34 NUNBERG, H. Op. cit., p. xxii. 35

Aqui vale um comentário: quando qualquer iniciante começa a formação psicanalítica, ele é um pioneiro. Porém, eu gostaria de chamar a atenção para outro aspecto desse tema: o fato de o próprio saber psicanalítico, nesse momento (primeiros anos do século XX), ser pioneiro, e, desse modo, a formação do analista também se apresentar como precursora.

36

STEIN, Conrad. Op. cit., p. 20. A sistematização da supervisão em psicanálise só ocorreu a partir da “fundação da Policlínica de Berlim”, em 1920.

As primeiras análises não comportavam um curso nem um princípio didático, e aqueles que as conduziam foram pioneiros de uma prática ainda não codificada. Inventaram, dia após dia, a técnica da psicanálise, a clínica do tratamento, a exposição dos casos e a conceituação da doutrina37. Paul Federn se destacou nesse contexto, sobretudo no que diz respeito à formação de analistas. O fiel discípulo de Freud foi bastante ativo nesse quesito, o que lembra a postura de Max Eitingon, por ocasião da fundação da Policlínica de Berlim, em 1920. Roudinesco e Plon esclarecem: “muitos foram aqueles, mais jovens do que ele [Federn], a passar por seu divã para tornar-se, por sua vez, os didatas das gerações seguintes”.38

Respondida a primeira parte da questão que formulei na página 48, isto é, que a formação dos primeiros analistas se deu de forma pioneira, - com esses precursores desbravando um terreno antes inexplorado – passo, então, à segunda parte da questão, que diz respeito diretamente à supervisão: será que o processo de formação desses pioneiros envolveu algo semelhante à supervisão?

Seguramente sim. Na Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras e na nascente Sociedade Psicanalítica de Viena, que vem substituí-la em 1908, tem-se a seguinte situação, como bem explica Mijolla: o[s] aluno[s] confia[vam] seus problemas clínicos a um mestre idealizado de quem espera[vam], não sem ambivalência, auxílio”.39

Pelo exposto até então e ainda pela própria declaração de Freud (já citada) de que fez “o possível para transmitir”40 seu saber psicanalítico aos membros do primeiro círculo freudiano, não fica difícil sustentar que ele tenha funcionado como uma espécie de professor, de mestre, e porque não de supervisor, para os ávidos membros dessa primeira sociedade; afinal, os participantes estavam descontentes com a forma pela qual a psicologia da época compreendia o homem. Assim, o médico austríaco, com suas descobertas, mostrou-se atrativo por apresentar a uma parcela dos intelectuais da época uma nova visão do funcionamento mental.

Além das novidades que tinha para compartilhar com os jovens adeptos da psicanálise, Freud funcionou como um supervisor por ter, naturalmente, maior experiência nesse novo campo do saber.

                                                                                                                37

ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Op. cit., p. 719. 38

Ibidem, p. 228-229.

39 MIJOLLA, Alain. Algumas ilustrações das situações de “supervisão” em psicanálise. In: STEIN, Conrad (Org). A Supervisão na Psicanálise. São Paulo: Escuta, 1992, p. 116.

40

O editor das Atas esclarece que havia “(...) uma enorme lacuna entre a sua [de Freud] compreensão da psicanálise e a deles [dos participantes]. Enquanto eles eram apenas iniciantes, ele já havia lançado as bases do seu edifício monumental”41.

É exatamente essa enorme lacuna que fez com que Freud se tornasse um “Mestre idealizado”42 , pois os participantes do primeiro círculo psicanalítico identificaram nele um homem sagaz, capaz de responder aos seus anseios: compreender o homem para além da esfera fisiológica, defendida pela medicina alemã, isto é, ter em mente e considerar a dimensão psíquica do indivíduo.

A convicção dos participantes das reuniões na Bergasse 19 era a de que, munidos de novos saberes, ou seja, do arcabouço teórico psicanalítico tanto quanto de sua técnica, eles seriam capazes de “ajudar seus pacientes bem como a si mesmo[s]”43. Dessa forma, não tardou para que os homens das quartas-feiras tivessem “devoção a Freud”44, elegendo-o como “seu líder”.45

Tal idealização pode ser perfeitamente observada nas palavras de um dos membros, Stekel, por ocasião da escrita de sua autobiografia: “Eu era o apóstolo de Freud, e ele era o meu Cristo”.46 Ou ainda, nos dizeres de Ferden, que se intitulava “um oficial subalterno do exército psicanalítico”47.

Max Graf, assim como Stekel, não deixa de fazer uma analogia entre o primeiro círculo psicanalítico e uma ordem religiosa, chamando a atenção para a idealização:

Havia na sala uma atmosfera que sugere a fundação de uma religião. (...) Os discípulos de Freud – todos inspirados e convencidos - eram seus apóstolos. Apesar do fato de haver um grande contraste entre as personalidades que compunham o círculo de discípulos, no início do período da pesquisa freudiana todos estavam unidos pelo respeito e inspiração que tinham por Freud.48

É importante pontuar que a idealização que os participantes da Sociedade da Bergasse 19 tinham pelo analista de Viena explicita o movimento transferencial que

                                                                                                                41 NUNBERG, H. Op. cit., p. xxxiii. 42 MIJOLLA, Alain. Op. cit., p. 116. 43

NUNBERG, H. Op. cit., p. xxxiii. 44

Idem. 45

Idem.

46 STEKEL, Wilhelm In: ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Op. cit., p. 728. 47

FERDEN, Paul. In: ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Op. cit., p. 228. 48

eles dirigiram a Freud, pois relações caracterizadas por uma certa verticalidade49 do conhecimento do tipo formador/formando, mestre/discípulo, professor/aluno, como ocorreu por ocasião da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, são um lócus privilegiado e propício à instalação de atualizações de protótipos infantis, sobretudo aqueles derivados do Complexo de Édipo.

Em outras palavras, essas atualizações expressam, em grande parte, a identificação do sujeito, ou ainda, “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”50, que se pode traduzir, como ocorreu com os discípulos de Freud, em idealizações, idolatria, dependência, submissão e servidão.

Tal endeusamento do pai da psicanálise, como sustentaram Stekel, Federn e Graf, denuncia, desde aquela época, o risco da transmissão do saber psicanalítico (em que a supervisão está diretamente envolvida), ou melhor, o risco de esse processo se tornar antianalítico. Isso porque o fato de o iniciante se tornar um adepto fervoroso do seu supervisor, ou ainda, do mestre idealizado, fará com que ele aprenda por imitação, por reprodução tornando-se uma cópia, uma repetição do analista experiente, uma espécie de profissional caricato.