Assim como a categoria de produtos florestais não-madeireiros destinados à alimentação, dentro da categoria de artesanais é possível verificar uma ampla variedade de produtos, os quais podem ser obtidos a partir de diversos órgãos (vegetativos e reprodutivos) de um indivíduo vegetal, tais como folhas (fibras vegetais), cascas, fustes, galhos, raízes, sementes, frutos e flores.
Entretanto, uma diferença básica entre as duas é que, enquanto no primeiro caso (alimentícios) os órgãos vegetais podem ser considerados como produtos não- madeireiros, no segundo, na imensa maioria das vezes, os mesmos são constituintes (ou matérias-primas) dos produtos artesanais. Fatores como sazonalidade, perecibilidade e variedade – este último, decorrente da variabilidade genética dos indivíduos vegetais -, observados na categoria de alimentícios também são características marcantes da categoria de produtos artesanais, principalmente no que se refere aos produtos obtidos a partir de órgãos vegetativos, como flores, frutos, cascas e sementes.
No entanto, como não são passíveis de ingestão, os cuidados em relação ao armazenamento e transporte dos produtos artesanais são mais simples do que aqueles tomados em relação aos produtos alimentícios. Além disso, o fator variedade, considerado por muitos como um entrave à comercialização de produtos destinados à alimentação, neste caso não se apresenta como um fator limitante, conferindo até mesmo em um diferencial positivo, pois, quanto maior a variedade de formas, cores e dimensões, maior a possibilidade de geração de novos produtos.
Dados relativos aos aspectos econômicos são escassos, contraditórios, bastante dispersos e, muitas vezes, órgãos governamentais não incluem em suas estatísticas espécies vegetais amplamente utilizadas. Como diferentes metodologias são utilizadas, trabalhos relativos a um mesmo produto comercializado em uma mesma região geográfica podem diferir profundamente. Santos et al.,(apud MIELKE, 2002), analisando a cadeia produtiva do xaxim (Dicksonia sellowiana Hook.) no estado do Paraná identificaram 15 fábricas em 11 municípios, com 8 atacadistas e um grande número impreciso de varejistas, enquanto Fiippini (apud MIELKE, 2002), no projeto denominado “Projeto xaxim”, promovido pelo IBAMA em 1998, aponta 54
fábricas situadas em 14 municípios. Dados relativos ao volume extraído de matéria- prima só aparecem no primeiro trabalho.
Menezes et al. (2005), estudando e caracterizando as cadeias produtivas da piaçava, dos arumãs e de fibras de palmeiras – tucum, tucumã, jacitara, buriti caranã, ubim, palha branca, buçu, bacaba e jauari - na Amazônia brasileira, comentam a dificuldade de se obter informações a respeito das mesmas, principalmente no que diz respeito às fibras vegetais. Os autores afirmam que tais informações são esparsas, muitas vezes pontuais e pouco representativas e, apesar de haverem estudos científicos sobre as mesmas, existir intensa comercialização de fibras, de serem importantes econômica e socialmente para as populações interioranas do estado do Amazonas e amplamente utilizadas pelas mesmas, dados econômicos referentes aos cipós, às fibras vegetais provenientes de palmeiras e do arumã não aparecem em estatísticas oficiais do IBGE.
Apesar de existir uma lacuna muito grande de conhecimento no que se refere aos aspectos econômicos de produtos florestais não-madeireiros artesanais, comparando-se os trabalhos de Tonicelo et al, (2007) a respeito do cipó-imbé (Philodendron corcovadense Kunth.) no estado de Santa Catarina, de Mielke (2002) sobre o xaxim (Dicksonia sellowiana Hook.) e Nogueira et al. (2005) relativo ao cipó- preto (Philodendron melanorrhizum Reitz), no estado do Paraná, e de Ribas & Miguel (2004) relativo à samabaia-preta (Rumohra adiantiformis (G. Forst.) Ching) no estado do Rio Grande do Sul, algumas características gerais podem ser observadas. Embora sejam utilizadas diferentes matérias-primas para a confecção dos produtos artesanais - material lenhoso nos casos do cipó-preto e do xaxim, apesar do primeiro ser uma liana e o segundo, uma árvore; fibras vegetais no caso da samambaia-preta; e raízes aéreas no caso do cipó-imbé -, todas as cadeias produtivas têm seus inícios no interior dos ecossistemas florestais, o que caracteriza as mesmas como essencialmente extrativistas. Em todos os casos analisados, a ilegalidade é característica marcante no que diz respeito à extração das matérias- primas, onde boa parte das mesmas é extraída em desconformidade com a legislação ambiental vigente no país.
Toda a extração de xaxim é realizada por extrativistas em terras de terceiros, diferentemente daqueles que extraem o cipó-preto. Nos outros dois casos, os extratores podem ou não ser proprietários. Em todas as cadeias produtivas, os
agentes intermediários são figuras marcantes e, no caso da samambaia-preta, há até três agentes, os quais desempenham diferentes papéis. Basicamente, todas as cadeias de produção são constituídas de extratores, agentes intermediários, atacadistas, varejistas e consumidores finais. Tanto os atacadistas quanto os varejistas residem ou não nos estados de origem da matéria-prima e, assim como os agentes intermediários, são responsáveis pelo transporte da matéria-prima ou do produto final para os centros de distribuição ou para outros intermediários.
Em todos os casos, a informalidade (ausência de contratos firmados entre extratores, atacadistas e/ou varejistas) é característica marcante. Dessa forma, calotes são freqüentes, como observado no caso do cipó-imbé. Com exceção do xaxim, todas as cadeias produtivas apresentam-se extremamente desestruturadas e possuem baixos níveis tecnológicos na transformação do produto. A remuneração praticada entre os elos de comercialização das mesmas é extremamente desequilibrada e irregular.
Os coletores são os menos beneficiados, apropriando-se de um percentual muito pequeno da margem de comercialização. Observando-se pequenas diferenças, os atacadistas, em todos os casos, são os agentes responsáveis pelas alterações dos preços, apropriando-se das maiores margens de comercialização. Em situações como a comercialização de xaxim e de samambaia-preta, os atacadistas estabelecem uma espécie de oligopólio, pois são poucos os agentes adquirentes das matérias-primas.
Todas as produções abastecem mercados locais, regionais e nacionais (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Joinville, Curitiba, Jaraguá do Sul, Blumenau, no caso do cipó-imbé; maioria de produção para mercados localizados nos estados de São Paulo e Minas Gerais, no caso do cipó-preto; mercados do estado de São Paulo e Paraná, no caso da samambaia-preta), exceto a produção de xaxim, a qual pode ser destinada tanto para o mercado interno (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso), quanto para o mercado externo (Argentina, Uruguai, Alemanha, Estados Unidos e México).
Por serem bastante populares e facilmente encontrados em pequenas, médias e grandes cidades, não serem perecíveis e apresentarem vida útil prolongada, produtos a base de xaxim (principalmente vasos de diversos tamanhos)
são consumidos por homens e mulheres de todas as classes sociais, empresas públicas e privadas, decoradores, jardineiros, construtoras, orquidófilos, floriculturas, dentre outros para decorar os seus estabelecimentos e para servir de suporte de plantas. Portanto, o design e o acabamento dos produtos a base de xaxim não são tão importantes se comparados com outros produtos artesanais, uma vez que, acima de tudo, a principal característica do mesmo é a utilidade (função) que ele apresenta. Ao contrário, quando produtos artesanais possuem como principal função, a decoração, a qualidade (traduzida em uma série de características) é o fator determinante na aquisição dos mesmos. Segundo Guerra (2008) e Gonçalves (2001), os consumidores de produtos artesanais em grandes centros urbanos na Amazônia Brasileira, por exemplo, são homens e mulheres de classes sociais média e alta, assim como turistas. Estes buscam nos produtos artesanais a qualidade, a criatividade e algo que caracterize a região visitada, mesmo quando se apresentam sensibilizados em relação às questões sociais e econômicas que estes produtos representam para as comunidades que os fabricam.