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Ao refletir sobre propostas de educação ambiental, assim como a aplicação e efetivação dessas, é percebida uma defasagem no processo de desenvolvimento prático das ações pretendidas nas teorias. Porém, ao buscar uma abordagem ampla de Educação Ambiental, a qual abrange contextos diferenciados como o incentivo a conservação do ambiente urbano, ou compreender este ambiente como algo a ser trabalhado e conservado, pretende- se antes de criar qualquer concepção sobre esse tema, apresentar uma proposta concreta de um projeto que tem por base ações educativas ambientais, prezando pela interação e a transformação social.

O projeto De Olho na Água: planejamento e gestão ambiental, desenvolvimento socioeconômico sustentável, mudança de atitude, é uma iniciativa patrocinada pela Petrobras, através do Programa Petrobras Ambiental,

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e partindo de uma visão ecossistêmica de território, produz conhecimento cientifico desenvolvendo práticas sustentáveis, gerando atividades de baixo impacto ambiental, buscando promover mudanças de atitude da população, a fim de incentivar a conservação do patrimônio natural da zona costeira do munícipio de Icapuí – CE, onde o projeto se insere.

As metodologias utilizadas pelo projeto seguem a teoria do conhecimento sistêmico do físico Fritjof Capra e a educação libertadora do educador brasileiro Paulo Freire. Fritjof apresenta em sua obra “A Teia de Vida” sua teoria do conhecimento sistêmico, que pretende apresentar a quebra de paradigmas das concepções e conceitos utilizados e compreendidos desde centenas de anos atrás, conceitos esses que modelaram a moderna sociedade ocidental, que analisa o homem, a natureza e seus elementos de forma individualizada, como blocos individuais que se encaixam num todo de um espaço. Assim, indo contra essas questões, o físico propõe uma visão holística do mundo ou ecológica em um sentindo amplo do termo, em que aposta na integração de todos os elementos do espaço ou do mundo, como o próprio afirma: “o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas” (CAPRA, 2006). Nesse caso, o homem depende da natureza e a natureza depende do homem, assim como as relações sociais, econômicas, políticas envolvem e constituem o espaço. Segundo Capra (2006):

A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos). (CAPRA, 2006, p.16)

Paulo Freire e sua educação libertadora apresenta, como o próprio nome sugere, a liberdade que a educação pode proporcionar às pessoas, mas não apenas como acúmulo de conteúdo, conceitos, mas uma educação formadora de cidadãos críticos e conscientes de seu papel em sociedade, conscientes de suas capacidades de transformação do espaço em que se coloca. Nas palavras de Freire (1967), a participação do homem não apenas está no mundo, mas com ele. É entendendo essas duas teorias e concepções, que podemos compreender as bases que fundamentam o que o projeto De Olho na Água se coloca como atuante em sociedade, assim, percebe-se então o cuidado em se trabalhar de forma conjunta e consciente as relações sociais, pessoais, econômicas e ambientais em si, e dessa forma, garantir o protagonismo e formar pessoas críticas, capazes de refletir e aptas a lutar pela conservação e utilização sustentável dos recursos naturais de Icapuí.

Para atingir essas metas o projeto mantém diversas atividades juntamente às comunidades do município. A preocupação inicial refere-se a manutenção da qualidade da água e conservação dos aquíferos, para isso, foram implantados os canteiros bio-sépticos e as cisternas de ferro e cimento para captação das águas pluviais, medidas que previnem a contaminação das águas e diminuem a pressão excessiva da demanda por abastecimento vinda dos aquíferos. É importante ressaltar que antes de qualquer implantação, sempre é feito um trabalho de demonstração da atividade, e assim, mostrar os benefícios próprios e a relevância coletiva daquela iniciativa para a comunidade e para o ambiente.

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Na comunidade de Requenguela, onde se localiza a Estação Ambiental Mangue pequeno, parte integrante do projeto De Olho na Água, o projeto é responsável por um conjunto de ações que pretendem promover a conservação do mangue e atividades de baixo impacto ambiental, através de técnicas de arquitetura bio-climática e permacultura, apresentando assim recursos como um centro de referência construído todo de materiais ecológicos, ponto para encontros de discussão e formação da comunidade; um viveiro de mudas construído próximo ao centro de referência abriga o cultivo de espécies nativas para a cobertura vegetal do mangue; um observatório da vida marinha, além de monitorar a qualidade da água do mangue e mirante de observação, ainda é ponto de apoio para projetos de proteção ao peixe - boi marinho e de aves migratórias. Além disso, é composto de uma passarela suspensa, utilizada para visitas monitoradas por guias especializados que permitem conhecer paisagens significativas do mangue.

São realizados grupos de discussão, capacitações, eventos, palestras e parcerias com poderes públicos governamentais e não governamentais em apoio às comunidades, apresentando assuntos como formação cidadã, maneiras de produção sustentável, cursos de permacultura, grupo de mulheres que se utilizam da produção de produtos e alimentação das algas entre outros.

Meireles (2012), em seus estudos sobre a área, apresenta que:

Há ainda, a criação de abelhas nativas sem ferrão e o incentivo ao turismo local. Com o intuito de integrar os sistemas ambientais, foram formados corredores ecológicos entre as unidades de conservação de Ponta Grossa e Barra Grande, matas de tabuleiro litorâneo preservadas, áreas de conservação onde ocorrem as atividades extrativistas, foram implantados 5 pólos de abelhas sem ferrão para induzir e ampliar a polinização. (MEIRELES, 2012, p.149)

A população jovem é responsável pelos cuidados necessários para a manutenção dos pólos, incentivando práticas sustentáveis para o desenvolvimento local. O turismo tomou destaque com a implantação do projeto, foi criada a trilha ecológica que pretendia fornecer ao visitante visualizar principais pontos da zona costeira de Icapuí, mostrando as atividades realizadas pelo projeto, a aplicação de métodos, a beleza e as estruturas ambientais locais. Com tudo, são fatores que incentivam a valorização e conservação do ambiente, além, de trazer uma nova forma de renda para as comunidades.

Todavia todas essas atividades realizadas pelo projeto só se tornam passíveis de realização devido à adesão da população local, e isso se deve em maioria a influência da educação ambiental aplicada nas escolas públicas de Icapuí, incentivadas pelo projeto. Analisa - se então, a educação ambiental como fator principal na realização dessa iniciativa, pois os resultados positivos são reflexos da formação crítica e consciente das pessoas da comunidade. Portanto, nota – se que os objetivos educacionais propostos pelo De Olho na Água, em sua maioria são alcançados e por isso o projeto obtém êxito na transformação social que almeja.

Entretanto, apesar dos pontos positivos o projeto apresenta uma limitação, pois ao tratar da proteção e conservação do patrimônio natural de Icapuí, restringe a educação ambiental a essas questões, presa pela proteção

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do ambiente natural, desconsiderando os diferentes contextos do espaço. É essencial tentar explicar e transformar a realidade local, porém deve-se buscar a partir dela discutir as relações socioambientais do mundo e, dessa forma propiciar a educação ambiental ampla em diferentes dimensões e problemáticas.

Após discutir sobre uma iniciativa de educação Ambiental num contexto no qual os aspectos naturais se destacam e, a partir desta compreender a sua relevância nas transformações no meio, surge a necessidade de debater os princípios da EA em ambientes urbanos, promover a mudança de atitude e a conservação do espaço independentemente das proporções limitantes em que este se insere.

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