Ao refletir sobre propostas de educação ambiental, assim como a aplicação e efetivação dessas, é percebida uma defasagem no processo de desenvolvimento prático das ações pretendidas nas teorias. Porém, ao buscar uma abordagem ampla de Educação Ambiental, a qual abrange contextos diferenciados como o incentivo a conservação do ambiente urbano, ou compreender este ambiente como algo a ser trabalhado e conservado, pretende- se antes de criar qualquer concepção sobre esse tema, apresentar uma proposta concreta de um projeto que tem por base ações educativas ambientais, prezando pela interação e a transformação social.
O projeto De Olho na Água: planejamento e gestão ambiental, desenvolvimento socioeconômico sustentável, mudança de atitude, é uma iniciativa patrocinada pela Petrobras, através do Programa Petrobras Ambiental,
Revbea, São Paulo, V. 11, No 4. Anais do V CBEAAGT revista brasileira de
educação
ambiental
157e partindo de uma visão ecossistêmica de território, produz conhecimento cientifico desenvolvendo práticas sustentáveis, gerando atividades de baixo impacto ambiental, buscando promover mudanças de atitude da população, a fim de incentivar a conservação do patrimônio natural da zona costeira do munícipio de Icapuí – CE, onde o projeto se insere.
As metodologias utilizadas pelo projeto seguem a teoria do conhecimento sistêmico do físico Fritjof Capra e a educação libertadora do educador brasileiro Paulo Freire. Fritjof apresenta em sua obra “A Teia de Vida” sua teoria do conhecimento sistêmico, que pretende apresentar a quebra de paradigmas das concepções e conceitos utilizados e compreendidos desde centenas de anos atrás, conceitos esses que modelaram a moderna sociedade ocidental, que analisa o homem, a natureza e seus elementos de forma individualizada, como blocos individuais que se encaixam num todo de um espaço. Assim, indo contra essas questões, o físico propõe uma visão holística do mundo ou ecológica em um sentindo amplo do termo, em que aposta na integração de todos os elementos do espaço ou do mundo, como o próprio afirma: “o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas” (CAPRA, 2006). Nesse caso, o homem depende da natureza e a natureza depende do homem, assim como as relações sociais, econômicas, políticas envolvem e constituem o espaço. Segundo Capra (2006):
A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos). (CAPRA, 2006, p.16)
Paulo Freire e sua educação libertadora apresenta, como o próprio nome sugere, a liberdade que a educação pode proporcionar às pessoas, mas não apenas como acúmulo de conteúdo, conceitos, mas uma educação formadora de cidadãos críticos e conscientes de seu papel em sociedade, conscientes de suas capacidades de transformação do espaço em que se coloca. Nas palavras de Freire (1967), a participação do homem não apenas está no mundo, mas com ele. É entendendo essas duas teorias e concepções, que podemos compreender as bases que fundamentam o que o projeto De Olho na Água se coloca como atuante em sociedade, assim, percebe-se então o cuidado em se trabalhar de forma conjunta e consciente as relações sociais, pessoais, econômicas e ambientais em si, e dessa forma, garantir o protagonismo e formar pessoas críticas, capazes de refletir e aptas a lutar pela conservação e utilização sustentável dos recursos naturais de Icapuí.
Para atingir essas metas o projeto mantém diversas atividades juntamente às comunidades do município. A preocupação inicial refere-se a manutenção da qualidade da água e conservação dos aquíferos, para isso, foram implantados os canteiros bio-sépticos e as cisternas de ferro e cimento para captação das águas pluviais, medidas que previnem a contaminação das águas e diminuem a pressão excessiva da demanda por abastecimento vinda dos aquíferos. É importante ressaltar que antes de qualquer implantação, sempre é feito um trabalho de demonstração da atividade, e assim, mostrar os benefícios próprios e a relevância coletiva daquela iniciativa para a comunidade e para o ambiente.
Revbea, São Paulo, V. 11, No 4. Anais do V CBEAAGT revista brasileira de
educação
ambiental
158Na comunidade de Requenguela, onde se localiza a Estação Ambiental Mangue pequeno, parte integrante do projeto De Olho na Água, o projeto é responsável por um conjunto de ações que pretendem promover a conservação do mangue e atividades de baixo impacto ambiental, através de técnicas de arquitetura bio-climática e permacultura, apresentando assim recursos como um centro de referência construído todo de materiais ecológicos, ponto para encontros de discussão e formação da comunidade; um viveiro de mudas construído próximo ao centro de referência abriga o cultivo de espécies nativas para a cobertura vegetal do mangue; um observatório da vida marinha, além de monitorar a qualidade da água do mangue e mirante de observação, ainda é ponto de apoio para projetos de proteção ao peixe - boi marinho e de aves migratórias. Além disso, é composto de uma passarela suspensa, utilizada para visitas monitoradas por guias especializados que permitem conhecer paisagens significativas do mangue.
São realizados grupos de discussão, capacitações, eventos, palestras e parcerias com poderes públicos governamentais e não governamentais em apoio às comunidades, apresentando assuntos como formação cidadã, maneiras de produção sustentável, cursos de permacultura, grupo de mulheres que se utilizam da produção de produtos e alimentação das algas entre outros.
Meireles (2012), em seus estudos sobre a área, apresenta que:
Há ainda, a criação de abelhas nativas sem ferrão e o incentivo ao turismo local. Com o intuito de integrar os sistemas ambientais, foram formados corredores ecológicos entre as unidades de conservação de Ponta Grossa e Barra Grande, matas de tabuleiro litorâneo preservadas, áreas de conservação onde ocorrem as atividades extrativistas, foram implantados 5 pólos de abelhas sem ferrão para induzir e ampliar a polinização. (MEIRELES, 2012, p.149)
A população jovem é responsável pelos cuidados necessários para a manutenção dos pólos, incentivando práticas sustentáveis para o desenvolvimento local. O turismo tomou destaque com a implantação do projeto, foi criada a trilha ecológica que pretendia fornecer ao visitante visualizar principais pontos da zona costeira de Icapuí, mostrando as atividades realizadas pelo projeto, a aplicação de métodos, a beleza e as estruturas ambientais locais. Com tudo, são fatores que incentivam a valorização e conservação do ambiente, além, de trazer uma nova forma de renda para as comunidades.
Todavia todas essas atividades realizadas pelo projeto só se tornam passíveis de realização devido à adesão da população local, e isso se deve em maioria a influência da educação ambiental aplicada nas escolas públicas de Icapuí, incentivadas pelo projeto. Analisa - se então, a educação ambiental como fator principal na realização dessa iniciativa, pois os resultados positivos são reflexos da formação crítica e consciente das pessoas da comunidade. Portanto, nota – se que os objetivos educacionais propostos pelo De Olho na Água, em sua maioria são alcançados e por isso o projeto obtém êxito na transformação social que almeja.
Entretanto, apesar dos pontos positivos o projeto apresenta uma limitação, pois ao tratar da proteção e conservação do patrimônio natural de Icapuí, restringe a educação ambiental a essas questões, presa pela proteção
Revbea, São Paulo, V. 11, No 4. Anais do V CBEAAGT revista brasileira de
educação
ambiental
159do ambiente natural, desconsiderando os diferentes contextos do espaço. É essencial tentar explicar e transformar a realidade local, porém deve-se buscar a partir dela discutir as relações socioambientais do mundo e, dessa forma propiciar a educação ambiental ampla em diferentes dimensões e problemáticas.
Após discutir sobre uma iniciativa de educação Ambiental num contexto no qual os aspectos naturais se destacam e, a partir desta compreender a sua relevância nas transformações no meio, surge a necessidade de debater os princípios da EA em ambientes urbanos, promover a mudança de atitude e a conservação do espaço independentemente das proporções limitantes em que este se insere.