É de conhecimento comum que a língua e cultura são dois conceitos indissociáveis. Um implica outro e vice-versa. Por essa razão a apresentação dos aspetos culturais é quase sempre obrigatória na aprendizagem da língua dedado país. Segundo o QECR (2001:148)
Estritamente falando, o conhecimento da sociedade e da cultura da(s) comunicade(s) onde a língua é falada é um dos aspetos do conhecimento do mundo. É, no entanto, suficientemente importante para merecer uma atenção especial, uma vez que, ao contrário de muitos outros aspetos do conhecimento, parece provável que este conhecimento fique fora da experiência prévia do aprendente e seja distorcido por estereótipos.
De acordo com o QECR (2001:148-150) os aspetos de determinada sociedade e cultura que a distinguem de outra, relacionam-se com:
• A vida quotidiana • As condições de vida • As relações interpessoais
• Os valores, as crenças e as atitudes • A linguagem corporal
• As convenções sociais • Os comportamentos rituais
Estes aspetos culturais deverão ser incluídos nos textos, bem como nos suportes áudio e visuais; assim, a língua portuguesa seria aprendida em simultâneo, através da cultura portuguesa. Para tal, é preciso que o manual disponibilize documentos autênticos, que em muitos casos, são substituídos pelos textos e diálogos forjados e descontextualizados, com pouco da realidade cultural. A seleção destes manuais, segundo a Abordagem Comunicativa, deve ser centrada no aprendente e nas suas necessidades comunicativas. Contudo, nos manuais do nosso corpus observa-se uma lacuna da realidade sociocultural portuguesa, pelo que o aprendente terá poucas possibilidades de interagir com a cultura do Outro.
No manual 1. os traços culturais portugueses são transmitidos pela Júlia e pela sua gata Rosa, que nos conta através dos diálogos com Paulo e com o seu gato Miguel, os costumes e os hábitos do seu país, Portugal. Observa-se uma tentativa de comparação das duas culturas - checa e portuguesa, como se pode ver no capítulo sete O que aconteceu ontem.
[…] Provaram os vinhos portugueses e falaram sobre as diferenças entre o estilo da vida em Portugal e na República Checa. Compararam o nível da vida dos dois países e as mudanças realizadas nos últimos dez anos, o Paulo de ponto de vista histórico e a Júlia do ponto de vista económico. Encontraram muitas semelhanças, mas também muitas divergências. A Júlia lembrou-se da pobreza existente em Portugal há uns vinte anos.71
Este manual transmite também os elementos da cultura do mundo lusófono, através dos textos históricos, geográficos ou literários dos autores Luís de Camões, Esther de Lemos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ricardo Alberty e Suzanne Chantal.
No entanto, o manual opta por descrever a realidade pelos estereótipos culturais, que na maioria acabam por ser pouco verosímeis. Como O QECR (2001:148) refere, é importante
para merecer uma atenção especial ao conhecimento sociocultural, porque ao contrário de muitos outros aspetos do conhecimento, parece provável que este conhecimento fique fora da experiência prévia do aprendente e seja distorcido por estereótipos. Neste manual acontece
que os textos são reescritos e completados pelas informações complementares, como no caso da receita da feijoada típica portuguesa, que perfeitamente poderá cumprir a função de um texto autêntico: Os portugueses acompanham a comida sempre com um copo de vinho. Mas
os checos podem beber uma cerveja.72
Encontramos ainda elementos humorísticos, que brincam utilizando o estereótipo de Portugal ou da lusofonia, como neste caso do Brasil:
Ilse: - Olha, Roberto, tu és do Rio? Como é a cidade? Roberto: - O Rio é muito alegre. Todos dançam samba lá. Ilse: - Ah, é? É verdade?
Roberto: - Sim, claro. E também todos jogam futebol. Carlos: - Ah! O Roberto exagera como sempre.73
Todas as ilustrações no manual são bastante universais, há poucos que se relacionam com a cultura portuguesa, como caso do mapa de Portugal ou a imagem de galo de Barcelos.
71 JINDROVÁ et al. (2008:96). 72
JINDROVÁ et al. (2008:61).
Também as fotos são inexistentes, sendo todo o suporte visual é forjado - desenhado. Sente-se uma ausência da caraterização profunda da vida quotidiana, hábitos do dia-a-dia dos portugueses, fotos dos locais, das pessoas etc.
Contudo, em alguns textos observa-se uma intenção de mostrar o que é típico para os portugueses, como o exemplo da lição nove Onde é que fica…?
Senhor: - Desculpe, minha senhora, onde é que fica o centro comercial Colombo? Senhora: - É fácil. Vá sempre a direito e na primeira esquina vire à direita, atravesse
a rua e apanhe o metro azul “Gaivota” em direção à Pontinha. Senhor: - Em que estação devo descer?
Senhora: - Desça na estação Colégio Militar-Luz. Não esqueça, são cinco estações. Senhor: - Muito obrigado. Bom dia.74
No manual 2. encontram-se mais documentos autênticos, quer que sejam textos, diálogos, anedotas, fotografias ou ilustrações ligados às culturas em português. Esses documentos criam uma ligação mais visível entre a cultura e a língua, ou seja o aluno aprenderá a língua através a cultura.
Todas as lições começam com um texto, com temáticas distintas como os países lusófonos, além de: a vida universitária portuguesa, a saúde pública dos portugueses, os desportos em Portugal, os hábitos alimentares dos portugueses, entre outros. Após o texto e vocabulário inicial, há uma tabela fatual com as caraterísticas da cultura portuguesa (veja Ilustração 2.). O manual deixa o aprendente saborear as diferenças existentes no mundo de língua portuguesa e apresenta quatro capítulos sobre as variedades do português brasileiro e angolano, com as gravações feitas por um nativo de cada uma destas.
Os textos em geral dão ao aprendente dados úteis; informações que se associam a aspetos linguísticos específicos, tal como na lição 24 Os transportes públicos de Lisboa
Quem pretenda atravessar o rio Tejo para a margem Sul (para Almada ou Barreiro), tem como alternativa aos autocarros ou ao comboio que atravessam a Ponte 25 de Abril os barcos (os chamados cacilheiros) que partem da Praça de Comércio ou do Cais do Sodré.75
A seguir aos textos iniciais que abrem cada lição, há um vocabulário complementar com o vocabulário próprio da cultura portuguesa ou uma anedota.
74 JINDROVÁ et al. (2008:120).
Ilustração 16. Descrição dos pratos típicos da cozinha portuguesa in Havlíková e Pinheiro Alves (2008:227)
As anedotas têm além da função linguística, uma função sociocultural, ou seja, entender a maneira de humor de um dado povo e sobretudo aprender algo adicional, por exemplo:
Pergunta o professor ao aluno: -Que se passou em 1750? - Morreu D.João V. -E em 1755?
- Fez cinco anos que morreu D.João V.
Em notas de rodapé os autores explicam o que significa e como se lê D., tal como os acontecimentos históricos em 1755.
No fim do manual, depois da trigésima primeira lição, encontra-se o material complementar, a chamada antologia dos textos complementares. Consiste em vinte textos autênticos, entre eles letras de fado, lendas, contos, curiosidades sobre os países lusófonos, algo sobre economia, política etc. Os textos desenvolvem a leitura, o conhecimento dos elementos culturais e, estando no fim do manual, incentivam o utilizador a continuar a aprendizagem do português.
Observa-se que este manual valoriza os elementos culturais através dos quais o aprendente descobre o mundo lusófono e facilita assim o percurso da sua aprendizagem.
na sua plenitude. Dos três manuais analisados este é o único que trata sobre cinema, música, teatro, artes plásticas e arquitetura portuguesa.
Ilustração 17. Letra de canção “Lira" in Néry-Plch et al. (2006:80)
Este manual não tem imagens, fotos nem ilustrações, toda a informação é veiculada a partir dos textos.