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O Procedimento de Classificações Múltiplas se define pelo fato de sua ocorrência não se limitar a apenas um processo de classificação dos itens dispostos aos participantes – no caso desta pesquisa, as palavras –, mas destes puderem ficar livres em um primeiro momento – classificação livre – e organizarem grupos com esses itens segundo critérios próprios e, em um momento posterior – o da classificação dirigida – reordenarem esses mesmos elementos, porém, levando em consideração alguns critérios estabelecidos pelo pesquisador como meio de confirmação e aprofundamento das hipóteses e análises. Nesses termos, o PCM mantém em toda a sua realização a proposta da expressividade subjetiva dos participantes, visando

alcançar a maneira como os mesmos pensam, sentem e se comportam mediante fatos e vivências que os acometem em sua cotidianidade (ROAZZI, 1995).

Assim, a Classificação Livre consiste na tarefa de dispor os itens a serem utilizados e solicitar que os participantes os agrupem segundo critérios por eles definidos. Nas palavras de Roazzi (1995, p. 16), esse é o momento em que “o entrevistado é convidado a considerar uma série de itens ou elementos [...] relevantes para os objetivos da investigação e a classificá-los ou categorizá-los em grupos de acordo com algum critério que possua um significado para ele que seja único e exclusivo”. Ainda de acordo com o autor, é o tipo de investigação quem estabelece ou não o número de categorias a ser realizado. No caso de nossa pesquisa, definimos entre duas e seis a quantidade de categorias a ser adotada.

Assim, concluídas todas as atividades referentes à TALP, voltamo-nos imediatamente à realização do PCM, o que aconteceu ao longo do primeiro semestre letivo do ano de 2012. Para tanto, tal qual aconteceu com aquela técnica, centramo-nos em um participante por vez e fizemos uso de um protocolo (Anexo 2) em que nós mesmas registrávamos os dados referentes ao perfil e também os agrupamentos posteriormente realizados pelos participantes. Além disso, mantínhamos, durante todo o processo, o uso de aparelho de áudio para a devida gravação – previamente autorizada – das enunciações empreendidas, cujos conteúdos posteriormente transcritos constituíram a base principal de nossas análises e descobertas. Na decorrência, após o registro dos dados para a composição do perfil, passávamos a explicar os procederes a serem tomados. Desta feita, iniciando com a realização da etapa de classificação livre, entregávamos ao participante um conjunto de vinte e quatro (24) cartões (Apêndice A) correspondentes a cada uma das vinte e três (23) palavras resultantes da TALP mais um com a expressão-estímulo utilizada – disciplinas didático-pedagógicas – que, neste caso, assume o mesmo significado das demais palavras e é utilizada dentre os agrupamentos destas.

De posse desse material, o participante era orientado a organizá-lo em até seis (6) grupos e para isso deveria considerar o termo “disciplinas didático-pedagógicas” que era apenas pronunciado por nós. A partir de então, ficávamos somente observando a atividade então desenvolvida sem qualquer interferência nas escolhas e agrupamentos realizados. Anunciada a conclusão, pedíamos ao licenciando para explicar o porquê daqueles agrupamentos, bem como o critério por ele adotado para cada uma das constituições. Nesse momento, seguindo as disposições teóricas, o procedimento nos possibilita fazer “qualquer esclarecimento necessário [...] assumindo uma característica de entrevista aberta” (ANDRADE, 2003, p. 75). Vale dizer que esta condição nos favoreceu singularmente nos

casos em que as explanações dos estudantes não mostraram muita clareza acerca dos referentes utilizados. Concluídas as justificativas e estando de posse de sua gravação, registrávamos novamente no protocolo as palavras contidas nos devidos conjuntos formados, respeitando as mesmas composições.

Logo após essa primeira realização, partíamos para a segunda etapa do procedimento, definida como classificação dirigida. Esta constitui a fase em que “[...] o critério de classificação é fornecido pelo entrevistador. [Ela] é extremamente útil para a comprovação de categorias do critério de classificação livre, sustentando ou não sua validade” (ANDRADE, 2003, p. 76). Desta vez, assumindo outra função, o cartão contendo a expressão-estímulo era por nós retirado do conjunto de palavras e deixado à vista do participante para que, nesse momento, fosse utilizado como referência aos agrupamentos. Depois disso, distribuíamos sobre a mesa os cinco cartões contendo os critérios (Anexo 3) que direcionaria a nova ordenação a ser feita com as palavras. Esses critérios configuram-se em uma escala de associação ao termo indutor assim definida: muitíssimo, muito, mais ou menos, pouco e não associado.

Dando continuidade, entregávamos novamente o conjunto de cartões com as palavras resultantes da TALP e explicávamos ao participante a atividade a ser realizada, que consistia em considerar a expressão-estímulo exposta e com base nela redistribuir esses cartões formando grupos, porém, respeitando os critérios apresentados. No caso, ele ficava livre em relação à quantidade de palavras a ser relacionada a cada um dos critérios, podendo também, desconsiderar um ou mais destes. Dadas as devidas orientações, mantínhamo-nos novamente restritas a observar as construções realizadas e, ao final, seguíamos com o mesmo processo adotado no momento da classificação livre: solicitar as explicações sobre os agrupamentos e fazer o registro destes no protocolo respeitando as definições do participante. Com isto dávamos por encerrada atividade.

Nesse processo, importa agora apresentar os licenciandos que colaboraram conosco na realização do PCM37. Para tanto, adotamos o triplo do total participante da TALP, considerando que esse número configura uma representatividade significativa para o estudo então voltado à busca de uma representação social, sobretudo, quando atendemos ao critério

37

Neste momento a pesquisa contou com a seguinte realização: os cursos de licenciatura em Biologia, Espanhol, Geografia e Informática, por serem ofertados em apenas um campus – Macau, Natal Central e Natal Zona Norte, respectivamente – foi mantido o mesmo lócus adotado na TALP, apenas com aplicação do procedimento a alunos diferentes; quanto aos demais cursos, o de licenciatura em Matemática contou com participações dos campi Mossoró e Natal Central em virtude de, no primeiro campus, o número de alunos do 5º período não atender aos momentos da TALP e do PCM; e os de licenciatura em Química e Física tiveram estudantes provenientes dos campi de Apodi e João Câmara, respectivamente, na realização das classificações.

do consenso funcional defendido por Wagner (1998). Fazendo uma alusão às diferentes perspectivas assumidas pelos estudos realizados à luz da Teoria das Representações Sociais, este autor chama a atenção para o fato de não haver uma unanimidade quanto aos critérios definidores das representações sociais enquanto fenômeno. Nesse sentido, partindo do ponto de vista da sociogênese dessas representações, ele destaca alguns critérios que devem ser considerados na definição desse fenômeno, dentre eles, o do consenso funcional, conforme anunciado.

Segundo o referido autor, “consenso é a necessidade de manter o grupo como uma unidade reflexiva e de uma maneira organizada pela padronização do auto-sistema38, dos processos de auto-categorização e das interações de uma maioria qualificada de membros do grupo” (p. 18). De acordo com esse entendimento, é indubitável o fato de que nenhuma representação alcança o compartilhamento consensual de 100% dos membros de um grupo ao se ponderar a questão numérica como parâmetro, porém, essa máxima não se aplica quando considerado o consenso funcional ao invés do número como padrão, visto que “mais do que consenso numérico, o consenso funcional é exigido pela teoria das representações sociais”39.

Ratificando essa ideia, usamos as palavras de Andrade (2002, p. 31-32), para quem

[...] não importa o número de entrevistados, mas que estes, de fato, representem o grupo de onde vem. Supõe-se, então, que eles compartilharão, em seu discurso, as representações de seu grupo. A metáfora mais simples que utilizamos é a da colher de sopa, que conterá em si todos os elementos da panela fumegante, não importando tomar toda a sopa para saber que gosto ela tem na verdade.

Seguimos, pois, essa perspectiva, ao definirmos uma quantidade amostral de licenciandos, por curso40, enquanto representatividade para a nossa investigação, conforme se encontra disposto na tabela 5.

38 Sic. 39 Idem. Ibidem. 40

Em virtude do número maior de participantes neste momento do procedimento, optamos por apresentar alguns dados do perfil dos mesmos considerando suas vinculações aos respectivos cursos.

Tabela 5 – Participantes do PCM nas Classificações Livre e Dirigida