7 CONCEPTUAL UNDERSTANDING
7.2 International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF)
126 Aqui, temos uma mulher amarrada ao que parece ser uma mesa de um restaurante sofisticado. Índice dado pela disposição do prato e talheres, perfeitamente arrumados diante dela, além da taça de vinho branco e do encosto dourado e rebuscado da cadeira. O vestido preto que ela usa combinado com o colar e com o penteado mostram tratar-se de um jantar especial. Supõem-se pela imagem e por todos os índices que veremos a seguir que o prato solicitado contém justamente o foie gras. Veio, então, a condenação: ela está sendo violentamente induzida a engolir ração através de um funil, como se alguém a interrogasse: “Você sabe como fazem a comida que pediu? Não? Então, veja!” O algoz é um garçom.A cena é bem indicial e demonstra de que maneira esta iguaria francesa é fabricada. O sangue na boca da modelo e seu olhar assustado reforçam a imposição. O anúncio tem o texto verbal que explica o procedimento e objetivo do anúncio:
Foie gras is made by force-feeding terrified ducks until their livers become painfully diseased and engorged. Please call 311 to urge your alderman to keep this cruel product banned in Chicago. (O foie gras é feito com alimentação forçada de gansos aterrorizados até o fígado ficar dolorosamente doente e empanturrado. Por favor, ligue para 311 e peça para seu vereador manter este produto cruel proibido em Chicago.)
O foie gras é um inimigo antigo dos protetores dos animais, em especial do PETA. Para banir o produto, eles alegam, sobretudo, os maus-tratos aos gansos criados para o abate. Abaixo, texto publicado na Folha Online, em 14/05/2009, sob o título “Caviar, foie gras e palmito integram cardápio „ecologicamente controverso‟ ”.
A prática de forçar a alimentação de patos e gansos para extrair seu fígado gordo remonta à época dos romanos. Em pequenas propriedades da França, a ave passa seus últimos dias confinada e recebe uma alimentação semilíquida através de um cano de metal.
No Brasil, a “gavage”, como esse método é conhecido, não é adotada. Em vez disso, os patos que fornecem o fígado gordo são presos em galpões com iluminação artificial nas duas últimas semanas de vida, com alimentos energéticos à disposição. “Os animais entendem que, por ser dia, é hora de comer”, afirma Martha Autran, professora de gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi. Sem espaço para se exercitar, engordam e acumulam gordura no fígado - que cresce até dez vezes em comparação ao tamanho normal.
Para o veterinário Enrico Lippi Ortolani, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, algumas espécies animais toleram melhor do que outras o acúmulo de gordura no fígado. “O pato não desenvolve insuficiência hepática. Já o homem poderia morrer”, afirma.
Segundo Marcondes Moser, sócio da Villa Germania, produtora de Indaial (SC), a gordura que se acumula no fígado da ave diminui quando a alimentação é reduzida. “O fígado volta ao normal. Se estivesse doente, não teria esse retorno nem o pato chegaria vivo ao abate. Isso é fiscalizado pelo SIF [Serviço de Inspeção Federal]”, diz.
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Para a WSPA (World Society for the Protection of Animals, Sociedade Mundial de Proteção Animal, em inglês), os efeitos físicos nas aves são incontestáveis e há fortes evidências de que esse procedimento causa sofrimento aos animais. “Se o fígado não funciona corretamente, todas as toxinas fluem pelo sangue, prejudicando a função de vários órgãos e causando estresse e sofrimento. A respiração torna-se difícil devido à pressão do fígado contra outros órgãos”, dizem os representantes da entidade.
Todas as características citadas acima são aspectos singulares indicativos. Elas estão dentro de um contexto, no caso o que deveria ser uma alimentação socialmente responsável, e indicam de forma inequívoca o objeto ao qual o signo, ou melhor, o conjunto de signos, trata, que é de um modo geral a proteção aos animais.
Os aspectos qualitativos estão, principalmente, no jogo das cores preto e vermelho. O preto presente no fundo da imagem se mistura com o colete do garçom e vestido da modelo. O vermelho ao fundo por vezes se funde com o preto e está fortemente presente nos lábios da mulher, desde o batom até o sangue que escorre de sua boca, na toalha da mesa e em alguns pontos no prato. Outros aspectos qualitativo-icônicos estão no branco da luva e camisa do garçom, na transparência da taça e no dourado que aparece no encosto da cadeira e no cabelo da moça.
Sob o ponto de vista convencional-simbólico, notamos que nesta peça, ao contrário das outras, não há associação da modelo como sendo protetora dos animais. Também não há apelo à nudez. Ela é apenas uma personagem da encenação, proposta pelo PETA, para mostrar como o patê é fabricado, e está no papel dos consumidores da iguaria, isto é, pessoas de alto poder aquisitivo que não abrem mão de um bom restaurante e acompanhamentos caros, como é o foie gras. O objeto dinâmico é manter o foie gras proibido em Chicago, nos Estados Unidos, como está bem indicado no texto verbal no canto superior esquerdo, além de dar informações sobre a tortura que os gansos sofrem para que as pessoas saboreiem o patê. Tudo isso é representado pela modelo sendo forçada a ingerir algo contra sua vontade, em castigo ao prato que acabara de pedir. O potencial interpretativo está em mostrar, utilizando o ser humano como exemplo, como os gansos são tratados e, assim, criar na mente do público repulsa por este alimento, considerando tudo o que ele envolve. O horror na expressão da modelo reforça a comunicação. Sob o interpretante dinâmico, temos uma imagem que chama a atenção pela violência num primeiro momento, mas com um tom que pode soar cômico e caricato, com o olhar assustado da mulher dirigido para o garçom e para o grande funil que ocupa boa parte da cena.
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