O Regulamento do ensino primário, no artigo 73, estabeleceu que os inspetores escolares fossem escolhidos “de preferência dentre os membros do magistério publico pelas notas de merecimentos registradas na Secretaria do Interior, exigido, porém o diploma da Escola de Aperfeiçoamento”. Entretanto, no § único do mesmo artigo ficou instituído que: “Emquanto não houver diplomados pela Escola de Aperfeiçoamento, os assistentes téchnicos serão nomeados mediante concurso, que se realizará de accordo com as instrucções expedidas pela Inspetoria Geral da Instrucção pública” (MINAS GERAIS, 1927, p.1162).
Essas disposições evidenciaram a intenção do estado de regulamentar o processo de seleção e formação do inspetor. No mesmo ano em que a lei foi instituída, em 1927, a Revista do Ensino noticiou a abertura das inscrições e as condições exigidas para o primeiro processo seletivo: “Até 31 de dezembro do corrente anno, na Secretaria do Interior, estão abertas as inscrições de concurso para o provimento de logares de inspetores technicos do ensino publico primário”. Para o concurso, os candidatos deveriam apresentar “certidão que provem serem maiores de 21 e menores de 36 annos; attestado de boa saúde e de vaccinação, attestado de boa conducta, passado por pessoa de reconhecida idoneidade moral, a juízo do Sr. Secretário do Interior” (REVISTA DO ENSINO, 1927, p.555).
Os pré-requisitos exigidos pelo governo para se inscrever no processo seletivo revelaram o perfil do candidato. Teria de ser preferencialmente, membro do magistério público, com uma boa formação intelectual, jovem, saudável e atestar boa conduta moral. No que concerne aos atributos morais, Dewey afirma que: “A disciplina, o
desenvolvimento natural, a cultura, a eficiência social, são característicos morais – são traços de um individuo que é digno membro da sociedade que a educação tem em mira fazer prosperar” (1979, p. 395).
O Presidente do estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, em mensagem noticiou: o número de circunscrições que precisavam ser ocupadas, a abertura do concurso, o número de candidatos inscritos e quantos foram aprovados: “Das 33 circunscrições, 12 estão vagas. Para o provimento destas e das que estão sendo occupadas por Assistentes technicos comissionados, foi aberto concurso, em que se inscreveram 40 candidatos, dos quaes se apresentaram às provas 18, e destes, 4 foram habilitados” (MENSAGEM, 1928, p. 47)194. O resultado indica um processo seletivo rigoroso.
Segundo a publicação na Revista do Ensino, o concurso foi organizado da seguinte maneira: Inicialmente, os candidatos foram submetidos a provas escritas das matérias de: “Portuguez, Francez e Arithmetica, mediante pontos tirados à sorte”; após o julgamento das provas escritas realizaram provas orais sobre as matérias de: “Portuguez, Francez e Arithmetica, Geographia, Historia do Brasil, Physica, Chimica, Botanica, Zoologia, Nutrição, Geometria e Desenho Linear, Pedagogia, Hygiene escolar” e se o candidato fosse classificado com média final superior a cinco seria submetido a uma prova prática constituída: “de aulas modelos, dadas em um dos grupos da Capital, de accordo com os programmas primários officiaes, e segundo o ponto que for sorteado com 24 horas de antecedência”. Além das aulas-modelo os candidatos deveriam: “realizar uma inspecção em um dos grupos escolares da Capital, fazendo, em seguida, perante commissão examinadora, um relatório verbal” (REVISTA DO ENSINO, 1927, p. 556).
Em 1929, a Revista do Ensino publicou um novo concurso: “59 concorreram às provas eliminatórias de Portuguez, Arithmetica e Francez, dos quaes somente dezenove195 foram considerados habilitados e com direito a se submetterem ás provas praticas” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 61). Os candidatos classificados fizeram as provas práticas, as quais constaram de um relatório “sobre aulas assistidas pelos
194 O documento analisado não indicou os nomes dos habilitados.
195 1º Oscar Arthur Guimaraes, 2º José Maria Paradas, 3º Levindo Furquim Lambert, 4º Adherbal
Alvarenga, 5º Salvador Pires Pontes, 6º João Rezende da Costa, 7º José Emygdio de Lima, 8º José Albano de Moraes, 9º Jose Americo da Costa, 10º Aymoré Dutra, 11º Rafael Grisi, 12º Luiz de Padua Ducca, 13º Duntalmo Prazeres, 14º Ottilio Gonçalves, 15º Zembla Soares de Sá, 16º Emmanuel Brandão Fontes, 17º Jair Guimarães de Paula, 18º José Raymundo Netto, 19º Abel Fagundes.
concurrentes”, de uma aula modelo196 e da realização de um plano de aula no caderno de preparação de lições, nos termos do Regulamento Primário (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 64).
O processo seletivo para concorrer à vaga de inspetores, no estado, foi rigoroso e criterioso, porque Minas Gerais precisava de profissionais competentes, dedicados e capazes de divulgar e realizar os princípios da reforma do ensino, na escola. Nesse sentido, exigiu-se dos futuros inspetores escolares, “assistentes técnicos”, atributos morais, uma boa formação científica e o domínio dos conteúdos das matérias de ensino e dos métodos e processos didáticos, aplicados nas escolas primárias.
Para estimular e convencer os professores e a comunidade em geral, sobre a importância de realizar essa nova educação e desempenhar bem o papel de agentes da nova reforma, todos os inspetores aprovados deveriam ser treinados na Escola de Aperfeiçoamento.
O curso197 foi organizado pelo Inspetor Geral da Instrução, o professor Mario Casasanta e teve como objetivo principal “fornecer aos novos inspectores direcções para uma assistência eficiente”. Os assuntos estudados foram a função da escola, a sua nova organização administrativa e pedagógica, os programas de ensino, a metodologia geral e a específica de cada matéria de ensino, a importância da biblioteca, o prédio escolar e o mobiliário, as instituições complementares à escola, as comemorações cívicas, o papel das associações das mães de família, o objetivo da caixa escolar e a legislação escolar (REVISTA DO ENSINO, 1929, pp. 73-74).
Para o Inspetor Geral, a intenção do estado era manter uma formação continuada e regular “através de publicações diversas de outros cursos [...] e reuniões periódicas”, porque: “Técnicos, só o teremos, de facto, com o desenvolvimento lógico da actual organização” (REVISTA DO ENSINO, 1929, pp. 73-74), considerada imprescindível para a nova ordem social e econômica que se desejava implantar.
Por um período de dois meses, os inspetores tiveram aulas ministradas pelos professores Lucia Schmidt Monteiro de Castro, Benecdita Valladares, Amélia de Castro
196 Houve, com antecedência, um sorteio de pontos, que foram distribuídos entre os candidatos. Os temas
foram: A árvore; Belo Horizonte e algumas cidades mineiras mais importantes; Círculo, circunferência, Leitura, 1ª lição; Os mosquitos como transmissores de moléstias; Soma e subtração; problemas escritos, Os bandeirantes; Redação de cartas; Pontos cardeais; Prumo e nível, sua aplicação; O Governo da União; Frações decimais, Emprego do zero; Língua Materna; conversa com os alunos, ideias dos valores um, dois, três,... até dez; A eleição; Ciências naturais, desenvolvimento de um centro de interesse (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 64).
197 A Revista do Ensino publicou o curso de aperfeiçoamento, ministrado aos inspetores. Ver o conteúdo
Monteiro, Firmino Costa e Renato Eloy de Andrade (REVISTA DO ENSINO, 1929, pp.74). A professora Lucia Schmidt Monteiro de Castro tratou de aspectos referentes à função da escola que era “preparar o indivíduo para melhorar o caracter de seu procedimento” e prepará-lo para a vida, e “o melhor meio de se preparar para a vida é viver eficientemente o momento actual” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 89).
Para cumprir com essa finalidade, conforme afirmou Dewey (1979), o professor “no ato direto de ensinar [...] deve estar familiarizadíssimo com a matéria, mas a sua atenção deve concentrar-se na atitude mental e nas reações do discípulo [e] não se preocupar propriamente com a matéria e, sim, com a interação da mesma com as necessidades e aptidões atuais do aluno” (1979, p. 202).
Nessa direção, Lucia Schmidt Monteiro de Castro (1929) destacou a necessidade de os professores não só conhecerem as matérias de ensino e saber transmiti-las, mas também fazer “um estudo acurado dos indivíduos que se ensinam, conhecer-lhes os poderes, as tendências, o lastro que penetra a hereditariedade que lhes foi transmitido”. Depois de “Conhecidos taes poderes e tendências”, estes elementos “devem ser canalizados, corrigidos e dirigidos, evocados uns, estimulados outros [...] transformando o meio e creando condições favoráveis” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 89).
Daí sim, seria possível mudar o comportamento, para atender as necessidades da nova sociedade que se pretendia implantar. Em vista disso, a professora Benedita Valladares criticou a organização da “velha escola” e demonstrou a importância de os inspetores ensinarem às professoras como aplicar os conceitos de interesse, disciplina e liberdade, propostos pela nova concepção pedagógica. Segundo a professora, os novos referenciais pedagógicos indicavam que a disciplina é resultado do trabalho feito com atenção, com interesse e com plena liberdade de pensar, falar e agir:
si os alumnos são indisciplinados, no conceito em que se tem ordinariamente a palavra disciplina, a culpa cabe à organização da escola. Dê-se-lhes liberdade de expressão, [...] ensejo para se moverem, para tagarellarem, para agirem e para satisfazerem a curiosidade [...] O que a velha escola tem feito é collocar um homem, com paciencia ou sem Ella, deante de um grupo de meninos suffocados por uma organização inadequada [...] a escola antiga é feita e construída, de accordo com os ideaes dos adultos [...]. Esquece que as creanças devem viver integralmente a infância. [...] não permitte que a creanças se desenvolvam naturalmente, dando expansão a suas tendências e inclinações, mas cercea-lhes a natureza, impondo-lhes o que lhe parece necessario como preparação para a vida (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 76).
A escola mineira não poderia mais premiar “a passividade e o espírito de pura aquiescência” e nem dar “ênfase sobre ficar quieto” (DEWEY, 1976, p. 60). Todavia, a liberdade não podia ser confundida com a liberdade de movimento, que se revelava em pular, correr, derrubar e subir nas carteiras. O mais interessante era desenvolver a verdadeira disciplina, como conceituou Dewey:
Uma pessoa é disciplinada na medida em que se exercitou a pesar suas ações e a empreendê-las resolutamente. Acrescente-se a esse dom uma capacidade de resistência, sem uma empresa inteligentemente escolhida, à distração, às perturbações e aos obstáculos e tereis assim a essência da disciplina (1979, p. 141).
O conceito de disciplina, concebido por Dewey e inscrito na legislação mineira, está vinculado à capacidade do indivíduo de ponderar sempre as suas ações e executá- las com decisão e determinação. Essas características eram importantes para transformar os alunos considerados rebeldes, famintos e preguiçosos em trabalhadores produtivos e eficazes. Isso porque conforme afirmou a professora Benedicta Valladares (1929) “nossas creanças são pessimamente alimentadas e muitas passam por indisciplinadas, indolentes ou insubmissas” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 77).
Portanto, era necessário educá-las, promovendo o seu desenvolvimento social e moral, proporcionando “situações naturaes em que as creanças se portem bem, pensem, resolvam e tomem atitudes boas e nobres”, mas também estimulando o desenvolvimento mental “pondo em jogo a observação, a iniciativa, o raciocínio”, mediante o “ensino intuitivo” e por fim, fomentar o seu “desenvolvimento physico” falando da “alimentação, da liberdade de movimento, das condições hygiênicas, asseio corporal, sapatos, etc” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 77).
Para a professora Benedicta Valladares, todos esses aspectos tinham que ser trabalhados “na infância e na adolescência”, porque senão, “difficilmente cumprirão mais tarde seus deveres e não estarão aptos para resolver os problemas da vida e cooperar com a coletividade” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 77), conforme tencionava o estado.
Prosseguindo o Curso de Aperfeiçoamento, a professora Amélia de Castro Monteiro (1929) referiu-se às “instituições escolares”198, criadas principalmente para desenvolver nos alunos:
a iniciativa, a coragem, a lealdade, a sympathia, a confiança em si, a tolerância, o respeito pela personalidade alheia, o espírito de cooperação, a ordem adquirida nos jogos, a estabilidade emotiva, que lhes permitte receber serenamente o applauso e a censura,o destemor de affirmar e de negar, a coragem de affrontar os puros e o ridículo, a coragem de emittir opiniões e de receber a critica dos outros, o domínio de si próprio, o desenvolvimento physico, o bom humor, a alegria, o convívio de ambos os sexos, o porte correcto, etc (REVISTA DO ENSINO, 1929, p.82).
Os clubes de leitura, os auditórios, o escoteirismo, o pelotão de saúde, bem como os trabalhos em grupo e as excursões escolares foram consideradas atividades pedagógicas muito adequadas, para desenvolver esses aspectos nos alunos e dar a eles aptidões e hábitos sociais necessários, para ser úteis à sociedade. Desse modo, os assistentes técnicos não poderiam descuidar-se dessas atividades, porque elas representavam “um campo de praticas de virtudes essenciaes para um cidadão verdadeiramente eficiente” tinham assim “a grande missão de orientarem, nesse sentido, os professores, para interessal-os na pratica das instituições escolares” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p.81-83).
Os eventos escolares também eram motivo de formação do cidadão. Assim, a população deveria ser convidada a participar e a prestigiar a educação. A presença da comunidade em geral, pais, representantes políticos estaduais e locais dava credibilidade à educação escolar pública, como, ocorreu no Grupo Escolar Júlio Bueno Brandão, em Uberlândia-MG:
Aos trinta dias do mez de novembro de mil novecentos e trinta e dois, presentes no salão de festas do Grupo Escolar Bueno Brandão desta cidade [Uberlândia-MG] grande número de pessoas entre elas autoridades, diretora e professoras, realizou-se a solenidade da entrega de diplomas dos alunos que no corrente ano terminaram o curso primário. A sala caprichosamente ornamentada emprestava ao ambiente graça e encanto, os diplomandos deixavam transparecer em seus semblantes o contentamento que lhes ia nalma, emquanto a assistência esperava anciosa o desenvolver do programa. Aberta a sessão presidida pelo snr Dr. Arnaldo de Moura d.d. Juiz de Direito da Comarca; foram convidados a fazer parte da mesa os Srs. Celso Vasconcelos, Francisco Barbosa e snrs Nestor Resende, Inspector Escolar, Alexandre Faria, Orestes Ferrari, Nelson Cupertino e Jeronimo Arantes. [...] [...] seguindo a segunda parte do programa, as apresentações culturais (ATA DE REUNIÃO, 1932).199
199 Livros de Atas de reuniões de professoras. Documento da Secretaria do Grupo Escolar Júlio Bueno
Geralmente, as autoridades convidadas para solenidades escolares faziam parte das instituições complementares e auxiliares da escola, dos Conselhos escolares municipais200 ou das Associações das mães de família201. A intenção do governo era envolver as autoridades e a família na melhoria da educação e na formação de novos valores, hábitos e atitudes. Porém, a professora Amélia de Castro Monteiro (1929) salientou que a escola tinha:
a tarefa de manter o vigor natural das creanças, de impedir moléstias e remediar defeitos. Deve ter sempre em vista que o espírito é tanto um escravo do corpo como seu senhor, pois as reações mentaes são influenciadas pelas condições physicas. A efficiencia é a base desejável, senão necessária para o bom humor, a boa conducta e a intelligencia. Assim também, o que affectar o centro nervoso, os órgãos dos sentidos e os apparelhos nervosos e muscular (movimento dos olhos, bocca e mãos) terá influencia directa sobre as actividades intellectuaes (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 71).
Em vista disso, não só a família, mas principalmente a escola deveria promover os meios de melhorar as condições físicas dos alunos, estudando os alimentos, ensinando como se alimenta, despertando o interesse pela boa alimentação, provendo “meios de alimentação para as creanças sem recursos” e, além disso, conquistando “a colaboração dos paes na merenda, por meio da Associação das Mães de Família” que poderia “se encarregar de administrar a cozinha, angariar donativos, si a caixa escolar não suportar as despesas, emfim, procurar todos os meios possíveis de melhorar as condições de saúde das creanças” pois, “da boa alimentação depende muito o vigor de um povo e, consequentemente, a grandeza do paiz” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 71).
O curso de aperfeiçoamento dos inspetores assinalou que a “escola deve ser um arranjo de condições que favoreçam o desenvolvimento [integral] dos alunos” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p.80), em todos os aspectos, na saúde, na higiene, na moral, no social e no intelectual.
200Os Conselhos Escolares Municipais eram compostos pelo “presidente da Câmara Municipal, diretor do
grupo escolar, Juiz de direito, do vigário” para estimular o desenvolvimento do ensino primário, competia ao Conselho: “solemnizar as festas escolares e as distribuições de prêmios, representar o governo sobre as necessidades do ensino no município [...], zelar pela observância da obrigatoriedade do ensino e estimular, por todos os meios, a matrícula e a frequência nas escolas; [...] promover a obtenção de fundos para as caixas escolares e fiscalizar sua aplicação [...]” (MINS GERAIS, 1927, p. 1206).
201As Associações das mães de família se destinavam a “cooperar estreitamente na escola com as
autoridades escolares no sentido de levantar na escola o nível moral e de saúde, promover a matrícula e a frequência escolar, concorrer para o desenvolvimento e o progresso das instituições escolares” (MINAS GERAIS, 1927, p. 1204).
O professor Firmino Costa, em suas aulas sobre a língua pátria considerou o que estava no programa do ensino primário: “o ensino da língua pátria há de ter um objectivo supremo, que passará além da escola: o de encaminhar o alumno para a bibliotheca, ainda sendo pequenino, mas freqüentada por elle como “Templo da Paz”” (MINAS GERAIS, 1927, p.1583).202
Com base nesse princípio, Firmino Costa (1929) destacou a importância de constituir a biblioteca, de frequentá-la e de “introduzir na escola o verdadeiro ensino da leitura” para “habituar o alumno á leitura methodica, desde o curso primário”, para “servir-se della como meio de desenvolver a intelligencia e de solucionar os casos da vida” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 109) e ainda, “subir sozinho, si não tiver apoio, os degraus da escala social” (MINAS GERAIS, 1927, p.1583).
No curso primário, a leitura teria que ser considerada como “o primeiro alimento intellectual que se lhes oferece, para ser assimilado pela sua intelligencia em formação” e ministrada principalmente, de maneira “recreativa, como que uma nova forma dos jogos infantis”, para as crianças encontrarem nela “a sua actividade, a sua alegria, as expansões da vida” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 110).
No cumprimento das indicações, no que concerne ao ensino da língua pátria, a assistente técnica de ensino, Helena Penna, em sua visita ao Grupo Escolar Barão do Rio Branco, assistiu à leitura dos alunos, deu testes para avaliar a rapidez e o desprendimento no ato de ler, observou se havia bibliotecas nas classes e registrou, no relatório, a sua impressão sobre o desempenho profissional dos professores, no que diz respeito ao cumprimento das normas regulamentares, para promover o “desenvolvimento integral das crianças”:
Dia 22 – Classe da prof.a Julieta Lopes. Turma de IV ano com 25
alunos.[...] Assisti à boa leitura dos alunos, examinei os cadernos de cartas, redações e ditados, sob a forma de contratos, os de geografia com trabalhos coletivos de pesquisa, etc. Dia 28 – Classe de IV ano, regida pela prof.a Maria de Castro Queiroz. Matricula 42 alunos;
presentes 35. Recebiam os alunos, na ocasião de minha visita á classe, problemas muito variados e dificeis sobre inteiros e decimais, formulados e corrigidos pelos proprios discipulos. Aos alunos dessa classe e aos das prof.a M.a da Conceição Villela e Julieta Lopes dei
dois “tests” iguaes, afim de avaliar a rapidez da leitura, a ortografia e a expontaneidade de linguagem nas respostas escritas. Dia 29 – Classe de III ano, regida pela prof.a Georgina Malard. Matricula 38; presentes
31. Após haver [fl.2v] assistido à aula de lingua patria sob a forma de um jogo e á leitura desembaraçada da maioria dos alunos, dei um
exercicio de redação e “tests” de multiplicação. Dia 1º de Abril – Classe de II ano A, regida pela prof.a Vera Fonseca. [...] Depois de
haver examinado as ultimas provas mensais, visadas pelos pais, dei aos alunos um “test” de leitura, cujo resultado foi bom. [...] Deixo aqui registrada a ótima impressão que recebi do grupo, pela harmonia entre o corpo docente, pelo esforço e a dedicação das prof.as para o
desenvolvimento integral das creanças, pelas iniciativas louvaveis, como museus, bibliotecas, clubs, [..] e, sobretudo, pela liberdade educada de que gozam os alunos nas aulas (RELATÓRIO, 1932).203
Para Firmino Costa, o sucesso da reforma escolar dependia da assimilação e da utilização de novas práticas educativas, pelo professor na sala de aula, e principalmente do seu exemplo, como um bom leitor, para ensinar o valor da leitura, “não mais como um mero estudo filológico ou literário, porém, acima de tudo, como propriedade do povo, como machina que precisa de ser cada vez mais aperfeiçoada, afim de adaptar-se á marcha da civilização” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 115).
Os professores deveriam compreender que o domínio da língua pátria era “um instrumento de progresso”, um meio de “collaboração no desenvolvimento social”, portanto, era necessário ensinar o povo a falar, a ler, a escrever e a entender a língua, “para ao mesmo tempo aprender a pensar, a relacionar-se, a agir em bem da vida nacional” (REVISTA DO ENSINO, 1929, p. 115).
À vista disso, Firmino Costa (1929) afirmou que era “urgente que o professorado se reeducasse nesse sentido” e sugeriu a utilização, no primeiro ano do curso normal, das “obras de Júlio Verne, indo até o ‘Guarany’, de José de Alencar; no segundo anno alcançará Machado de Assis, ‘Samurais e mandarins’, de Luiz Guimarães, aos Meus Amores, de Trindade Coelho, e ‘O Atheneu’, de Raul Pompeia”. No curso preparatório considerou importante a leitura de ‘Os Lusiadas’, de Camões e finalmente, para o curso