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6. DISCUSSION

6.1 M ETHODOLOGICAL CONSIDERATIONS

Conhecidos alguns dos indicadores presentes numa ARC, nomeadamente da escala GRiST, torna-se relevante conceptualizar estes diferentes conceitos a nível teórico, para assim os melhor compreender na prática.

2.3.1. Agressividade

Um dos indicadores mais abordados e correlacionados na literatura com a ARC em saúde mental é o conceito de agressividade. A agressividade é um conceito muito estudado e descrito por diferentes teóricos, à luz de diferentes épocas, correntes e linhas de pensamento. Muitas das definições encontradas na literatura sugerem tal como Kassinove e Tate (2002)

citado por Townsend (2011, p.187) a agressividade como “uma ação dirigida com o objetivo

de magoar ou infringir dano numa pessoa ou objeto específico”.

Neste trabalho, defendo as ideias de Farrell e Winnicott (1997), citado por Gomez (2005) e Rothenberg (1971) que se referem à agressividade como um conceito difícil de definir pelas suas influências subjectivas, um constructo multideterminado e inerente ao ser humano e com uma forte carga comunicacional. Esta última afirmação transcende-se de sentido correlacionado com a minha prática de cuidados. Não poderá a criança/adolescente utilizar a agressividade como forma de expressão do seu sofrimento psíquico num momento de crise/vulnerabilidade? Como tal, é neste sentido que defendo o conceito de agressividade. Uma agressividade espelhada para algo essencial ao ser humano na sua relação com o mundo.

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No contexto da UIPIA, os comportamentos agressivos apresentam-se como um dos motivos frequentes de admissão. Apesar deste crescimento, a limitação de instrumentos de avaliação do risco de agressividade apenas a adultos, tem promovido um défice estatístico neste âmbito (Philips, Stargatt, & Fisher, 2011). As frequentes situações de auto e heteroagressividade durante os internamentos, podem ser prevenidas com uma avaliação mais rigorosa no momento da admissão. Tal como nos adultos, a melhor maneira de prevenir episódios de agressividade é perceber se eles já existiram no passado e de que forma (Borum, 2000, citado por Philips et al., 2011).

2.3.2. Suicídio

Apesar do tremendo interesse que os comportamentos suicidários nos jovens têm despoletado, ainda se verificam algumas lacunas bibliográficas no que se refere ao estudo desta problemática. Segundo o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (2013-2017), a nível mundial, o suicídio apresenta uma taxa de mortalidade global de 16 por cada 100.000 habitantes, definindo-se como a 2ªcausa de morte nos jovens dos 15 aos 19 anos [Direção- Geral de Saúde (DGS), s.d].

Uma investigação levada a cabo por Hawton e Fortune em 2008 e, mais tarde, pelo mesmo Hawton, Saunders e Connor em 2012, revela-nos uma associação entre elevadas taxas de perturbação mental e situações de tentativas de suicídio, comportamentos autolesivos e suicídio em adolescentes. Dentro dos diagnósticos mais comuns surge-nos a depressão, perturbações de ansiedade, perturbações de humor, abuso de substâncias, perturbações disruptivas do comportamento e, por último as perturbações psicóticas (DGS, s.d).

Na UIPIA em particular, assiste-se a um crescente número de internamentos por ideação e/ou tentativa de suicídio, o que nos alerta para a necessidade de um conhecimento mais aprofundado desta matéria bem como o desenvolvimento de uma avaliação mais rigorosa deste indicador de risco nas crianças/adolescentes admitidas.

A ideação suicida considera-se por definição como “os pensamentos, fantasias, ruminações e preocupações acerca de morte, auto-agressão e morte auto-inflingida. Quanto maior for a magnitude e a persistência dos pensamentos suicidas maior é o risco de eventual suicídio” (Kutcher, 2007, p.13).

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Relativamente à tentativa de suicídio, trata-se de a um conjunto de “(…)comportamentos autodestrutivos não fatais, com intenção suicida. Ato em que a pessoa coloca em perigo a sua vida, de forma voluntária, mas que, por razões diversas, geralmente alheias ao indivíduo, resulta frustrado” (DGS, 2013b; WHO, 2002, citados por Santos, 2014).

Para além da importância teórica que estes conceitos acarretam, é essencial ao profissional de saúde, neste caso ao enfermeiro, identificar os fatores que levam ao aumento ou diminuição do grau de risco do suicídio. Esta pode revelar-se como uma mais-valia para o profissional de saúde, na medida em que, são identificadas quais as probabilidades em termos de concretização de suicídio num ato futuro (DGS, s.d).

Estes fatores (comportamentais, psicossociais, ambientais e de personalidade) devem ser pensados de modo agregado e encarados no contexto de experiência única da pessoa, não podendo ser considerado que, um único fator de risco ou protetor, determina ou evita o ato suicida.

2.3.3 Vulnerabilidade

A vulnerabilidade está intimamente ligada com as experiências de transição, interações e condições do meio, que podem expor os indivíduos a uma situação de potencial dano, situação de doença ou recuperação mais prolongada (Meleis, 2010).

A vulnerabilidade é um processo dinâmico e multidimensional no qual se estabelece uma interação entre as características pessoais, circunstâncias sociais e ambientais do individuo. Enquanto condição do ser humano pode ser agravada pela vivência do processo de transição, expondo o cliente a um potencial risco, a uma recuperação problemática, ou a um processo de adaptação desajustado ou demorado (Meleis, Sawyer, Im, Messias & Schumacher, 2000). Na UIPIA, deparamo-nos diariamente com crianças/adolescentes que são alvo das diferentes transições abordadas. Desde logo a Transição Situacional, caracterizada pela necessidade de internamento da criança/adolescente. Associado a esta temos outro tipo de transição - Transição Saúde/Doença justificada pelo processo de agudização do sofrimento psíquico da criança/adolescente sendo essencial uma intervenção especializada.

Na realidade, a nossa intervenção na UIPIA é regida pela relação estabelecida com os nossos clientes e famílias em situações de vulnerabilidade. Esta “ vulnerabilidade sentida e

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expressa pelas crianças, mercê da vivência de processos de transição (…), dificulta [por vezes] a partilha de afetos e o viver relações interpessoais gratificantes.” (Nabais e Rodrigues, 2009, p2.) devendo o enfermeiro estar desperto para este indicador numa primeira ARC. 2.3.4 Auto-Negligência

Numa avaliação inicial que perspetiva todas as dimensões do nosso cliente, a questão da auto-negligência (self-neglect) é um dos indicadores de risco a valorizar. Não sendo um

indicador estanque, certamente é um dos que mais poderá “saltar à vista” num primeiro

contato com o cliente. Quantos de nós já não questionámos, no momento da admissão, se uma criança/adolescente apresenta os cuidados mínimos de higiene? Se a sua roupa é adequada à estação do ano ou à sua idade? Ou mesmo se a adesão ao seu regime terapêutico tem sido efectivo? Não querendo, de todo, tornar este indicador meramente subjectivo, e muito menos passível de juízos de valor erróneos, este é considerado de extrema importância no momento do acolhimento de qualquer criança/adolescente.

A auto-negligência pode ser definida como a incapacidade (intencional ou não intencional) de manter os valores culturais e socialmente aceites de auto-cuidado, com implicações para a saúde e bem-estar do próprio ou porventura para a sua comunidade (Gibbons, Lauder & Ludwick, 2006). Para os autores, a Auto-Negligência pode ser perspectivada através de dois polos: Auto-Negligência Intencional e Não Intencional.

No primeiro ponto, o indivíduo, de forma intencional, descora por completo as suas ações de auto-cuidado, essenciais à sua saúde e manutenção do seu bem-estar. Na segunda perspectiva, verifica-se também uma falha ao nível do auto-cuidado (que invariavelmente colocam em causa o estado de saúde do individuo), contudo, esta pode ser percecionada como resultado de um conjunto de fatores tais como, défice cognitivo, doença física ou mental, ou ainda reduzidos recursos materiais ou sociais, indispensáveis à manutenção de um auto- cuidado eficaz.

Apesar da pertinência deste indicador, só em 2009, através da investigação e proposta dos autores mencionados, a auto-negligência foi considerada um diagnóstico de enfermagem

pela NANDA. Segundo a mesma, este indicador surge como um conjunto de comportamentos

culturalmente estruturados que envolvem uma ou mais actividades de autocuidado, em que há falha em manter um padrão de saúde e bem-estar socialmente aceite (NANDA, 2009).

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3. ÁREA CLÍNICA