Conforme o estudo feito por Baptista (2002), a comunicação não é só uma mera transmissão das primeiras experiências de comunicação com o mundo exterior, acontece ainda dentro da barriga da mãe. Estudos realizados revelam que o bebé tem competências auditivas ligadas ao ritmo, pois o seu batimento cardíaco reage à mudança de som do exterior. A maioria dos indivíduos com autismo, começam a falar tardiamente, e a velocidade do desenvolvimento da linguagem é bastante lenta e complexa em relação à das outras crianças.
O desenvolvimento da comunicação e da linguagem nem sempre ocorrem dentro dos padrões desejáveis. Há crianças que saltam ou quebram muitas das etapas que são características do desenvolvimento da comunicação e da linguagem.
Pais e professores são os primeiros a perceber que há algo de errado no desenvolvimento quando a linguagem está atrasada ou ausente.
Algumas crianças param de falar completamente, enquanto outras retêm algumas palavras. Quando estas crianças são diagnosticadas com patologias que implicam uma intervenção na área da comunicação é porque podem apresentar dificuldade para compreender e fazer os outros compreenderem informações transmitidas.
Para Wing (1985), que estas crianças mostram dificuldade de programar e estruturar um discurso e podem apresentar apenas um jargão ininteligível, caracterizado por estruturas gramaticais e fonologia imaturas na evocação. Como as estruturas gramaticais são geralmente imaturas, o uso de estereotipias e repetições constitui muitas vezes uma linguagem metafórica. Evidenciam-se também alterações na estrutura do discurso, inadequação no uso da prosódia, desvios das normas gramaticais e dificuldades na manutenção de tópicos.
Concordamos com Happé (1994) quando este salienta que as crianças com autismo têm dificuldade em comunicar com o mundo exterior, quer através da
linguagem verbal, quer através da linguagem não verbal e até mesmo da linguagem corporal. Sendo a comunicação o instrumento fundamental para uma vida em sociedade, as mesmas experimentam imensas dificuldades nesta área.
“Habitualmente estas crianças podem usar termos incorrectamente com padrões gramaticais inadequados nas variadas situações, podem ter um vocabulário extenso mas mostrar dificuldade em exprimir e transmitir aquilo que pensa. Os problemas de comunicação surgem desde cedo, a criança não é capaz de pedir um objecto, mas apontando-o com o dedo. Raramente chega a partilhar interesses com os outros, ou seja, não há iniciativa na interacção social, podendo dizer-se que estabelece um tipo de linguagem não produtiva”.·
(Jordan, 2000:44)
Podem ouvir uma palavra e não serem capazes de compreender o seu significado assim como fazer com que os outros não compreendam o que eles intencionam, tornando assim fraca a sua capacidade comunicativa. Isto é, só existem dificuldades de comunicação quando a comunicação é prejudicada pela incapacidade que as crianças têm de falar ou de se expressar espontaneamente com significado.
Segundo Rapin (2005:142), é o mais afectado em crianças com autismo. Essas crianças, geralmente apresentam uma fala com vocabulário sem elementos coesivos, característicos de uma fala telegráfica. Tal alteração, na maioria das vezes, causa a ininteligibilidade para o interlocutor, uma vez que os enunciados da criança tornam-se curtos e sem estrutura sintáctica. De modo geral, o domínio de estruturas linguísticas flexíveis essenciais para a compreensão da linguagem falada, como pronomes, verbos, adjectivos e conjunções, geralmente está prejudicado na criança com autismo. Uma das características mais marcantes é a dificuldade na aquisição do pronome “EU”. A criança com autismo utiliza frequentemente a terceira pessoal para referir-se a si mesma.
Estas dificuldades comunicativas nos indivíduos com espectro de autismo não são isoladas, fazem-se acompanhar de certos comportamentos, tais como agressividade, birras, choros e auto-agressividade, que se alternam com risos, gritos, etc., os quais podem ser considerados como uma comunicação que a criança consegue fazer, apesar de não ser socialmente convencional. Contudo o défice que a criança autista apresenta ao nível da linguagem, não é mais do que a sua incapacidade global de manutenção dos signos e dos símbolos. É uma inaptidão que implica essencialmente um défice na
codificação e na organização da informação. Rapin (1997) afirma existir por vezes no autismo:
“Uma capacidade comprometida em descodificar os rápidos estímulos que caracterizam os produtos do discurso na mais devastadora desordem da linguagem: a agnosia verbal auditiva e a cegueira verbal”.
(Rapin 1997:97)
Fernandes profere (1995) que as dificuldades de comunicação são associadas às causas do autismo infantil em inúmeras pesquisas, quer como um elemento desencadeador, quer como um aspecto afectado pelas mesmas desordens que causam a patologia. O próprio Kanner observou a existência de algumas alterações da comunicação que posteriormente passaram a ser descritas como características das crianças Autistas.
A partir de então, todas as referências ao autismo infantil mencionam as alterações da comunicação como uma das características mais significativas nestas crianças. A tendência mais actual considera que a comunicação não é apenas uma característica do autismo infantil mas um factor subjacente a ele. As dificuldades ao nível da comunicação são também associadas ao prognóstico do autismo infantil. Como tão bem afirmam que nos autistas:
“(…) a sua deficiência é especificamente mais importante nos seguintes domínios: Compreensão da linguagem, utilização de aptidões verbais nas provas cognitivas (linguagem interior), jogo imaginativo e utilização de gestos.”
(Bartak, Rutter & Cox, 1975, in Plumet, Leboyer & Beaudichon, 1987:17)
Diversos estudos sobre a comunicação de crianças autistas sugerem que as alterações encontradas correspondem a um desvio dos padrões de aquisição observáveis em crianças normais e não apenas a um atraso de desenvolvimento. As maiores dificuldades estão no uso social da linguagem e na emissão de respostas às tentativas de interacção.
Segundo Pereira (1999:59), as anomalias no campo linguístico englobam o atraso ou falha no desenvolvimento da linguagem, não compensada por gestos ou mímica; Falhas nas respostas à comunicação dos outros; Falha relativa de iniciar ou
manter a troca comunicacional; Uso de linguagem estereotipada e repetitiva; Uso idiossincrático de palavras; Anormalidades na prosódica do discurso (tom, tensão, cedência, ritmo e entoação da fala).
O desenvolvimento da comunicação nas crianças autistas é atípico, especialmente no que diz respeito aos aspectos envolvendo significado, enquanto podem ser observadas evidências de atraso no desenvolvimento dos sistemas fonológico, morfológico e sintáctico. Pode ser notado também um défice no processamento sintáctico da informação. Segundo os mecanismos de memória destas crianças, verifica-se que estes tendem a memorizar melhor as últimas palavras de uma sequência mesmo se as primeiras palavras formarem uma ordem ou instrução directa.
Considerando o que é dito por alguns autores como Loveland & Landry (1986), que sugerem a défice de atenção específico para os elementos sociais, seria o responsável, tanto pelas alterações funcionais da linguagem, quanto pelas outras dificuldades de contacto e socialização. Outros afirmam que essas mesmas alterações em habilidades simbólicas da representação como os pré-requisitos que são fundamentais para o surgimento do uso funcional da linguagem, atribuem a essa falha no desenvolvimento cognitivo as características de atraso e desvio de comunicação da criança Autista.
Todavia para Gauderer (1980), existem algumas crianças com autismo que falam com volubilidade, porém com atraso linguístico significativo. A maior parte dessas crianças representa a sua linguagem por meio de ecolalia, com elementos decorados e produzidos fora do contexto.