1 Innledning
1.3 Styring i sektoren
1.3.1 Etatsstyring og ledelse
Diante das constatações acerca da memória como fonte constituinte do processo de construção identitária, estabeleceremos agora como elas se relacionam, no sentido de tornar mais clara a dinâmica de apropriação do patrimônio cultural. No início de sua obra, Hall (2005, p. 8) afirma que o conceito "identidade" é demasiadamente complexo, pouco desenvolvido e compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto a prova. Diante da pertinente observação, nos cabe modestamente explorar o assunto apenas no que concerne à questão vinculada a presente pesquisa.
As referências identitárias são construídas e desconstruídas num processo dialético, fazendo com que ocorra uma transformação, um deslocamento de identificações no contato com o outro e com as mais diversas influências externas. O tema inquietante e controverso, em seu cenário contemporâneo é desligado de sua antiga concepção, na qual segundo Hall (2005, p. 7) “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado.” Essa desarticulação de seus elementos constituintes caracteriza a identidade como móvel, fluida e polissêmica. As velhas identidades centravam o sujeito e hoje, segundo o autor, fragmentam o homem pós-moderno. Portanto ele é percebido como deslocado frente às transformações societárias de ordem global, provocando o que o autor denomina como “crise de identidade”. Esta é o resultado da mutação do sujeito do iluminismo e sua visão cartesiana ao sujeito sociológico que se forma e modifica em contato com mundos exteriores, até finalmente se caracterizar como sujeito pós-moderno, devido à ausência de “essência” e identidade fixa.
Hall acredita que a identidade cultural moderna é formada através do pertencimento a uma cultura nacional. Para o autor (2005, p.48) as identidades não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. Adotando o termo “comunidade imaginada” o autor seleciona aspectos que considera os principais do processo de construção da identidade. Elas são colocadas entre o passado e o futuro, sempre na tentativa de se equilibrar na relação entre fonte de significados culturais, foco de identificação e um sistema de representação. “Devemos ter em mente
esses três conceitos, ressonantes daquilo que constitui uma cultura nacional como uma "comunidade imaginada": as memórias do passado; o desejo por viver em conjunto; a perpetuação da herança” (HALL, 2005, p. 58). Apesar de tais identidades representarem unificação, Stuart Hall coloca que essa crença é um mito por acreditar que nenhuma nação é composta de um único povo, cultura ou etnia.
Ao questionar a homogeneidade o autor atribui à globalização a responsabilidade do deslocamento da identidade moderna. Ela é percebida como um processo que interfere na constituição das identidades, quando as desintegra em função da padronização e perda ou transformação das raízes culturais, originando as identidades híbridas. Também chamada de modernidade tardia, o autor reflete sobre a influência da globalização na formação de identidades sob pontos de vista diferentes que convergem em aspectos como descontinuidade, fragmentação, ruptura e deslocamento. Porém, quanto ao seu efeito geral, Hall (2005, p.87) acredita que ele ainda permanece contraditório quando algumas identidades tentam recuperar certezas perdidas e outras aceitam a sujeição ao plano da história, política, da representação e da diferença e, assim, improvável que elas sejam outra vez unitárias.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2006) segue uma linha semelhante a de Hall quando acredita e de certa forma reforça, que a identidade é um efeito de pertencimento que tem em sua raiz o paradoxo da instabilidade, onde os lugares contemporâneos são permanentemente deslocados pelas máquinas de informação e, por isso, é impossível fixar-se rigidamente em um território identitário único. Referindo-se ao esgarçamento das relações atuais sob sua teoria nomeada de “modernidade líquida”, o autor discute efemeridade, passagem e mosaico como algumas das características atribuídas a identidade e sua inerente instabilidade contemporânea. Sentimentos de pertencimento a círculos culturais, nação e comunidades tornam os sujeitos expostos a várias ideias e princípios de uma vez, fazendo com que as relações se tornem frágeis.
De acordo com Bauman (2006, p. 90), a identidade é algo a ser inventado, e não descoberto. Essa identidade fabricada e portátil acompanha a ideia de uma mudança obsessiva e compulsiva que caracteriza a essência moderna de ser. Outro ponto que converge no pensamento de Stuart Hall e Bauman é o de que as identidades são
construídas. Porém, de forma mais pessimista, Bauman percebe o processo como uma experiência desalentadora que causa insegurança e ausência de autoafirmação.
O teórico Manuel Castells (1999, p.22) entende a identidade como fonte de significado e experiência de um povo, construída com base em atributos culturais inter-relacionados. O autor faz um paralelo entre as duas posições vistas, onde para um determinado indivíduo ou ainda um ator coletivo, pode haver identidades múltiplas. No entanto, essa pluralidade é fonte de tensão e contradição tanto na auto representação quanto na ação social. Os “papéis” influenciam o comportamento de indivíduos através de negociações. Por outro lado as identidades são originadas pelos próprios atores por meio de um processo de individuação. Para ele, as identidades são fontes mais importantes de significado que os papéis por causa do processo de autoconstrução (CASTELLS, 1999, p.23). A dinâmica da identidade tratada por Castells (1999, p.26) está inserida no surgimento da sociedade em rede. Mas conforme seu posicionamento “Como, e por quem, diferentes tipos de identidades são construídas, e com quais resultados, são questões que não podem ser abordadas em linhas gerais, abstratas: estão estritamente relacionadas a um contexto social”.
Nesse processo de transformação, as relações individuais ou coletivas criam condições novas no interior da sociedade. Morin (1997, p. 129) enfatiza que existe uma “unidade cultural da humanidade”; porém, a poliidentidade dos indivíduos exige também a salvaguarda da “diversidade das culturas”. Para o autor, todos possuem uma “carteira de
identidade terrena”, afirmando que temos a mesma natureza, “mas que nessa própria natureza, existem potencialidades com diversidades extremas”.
Enquanto conecta o indivíduo com o ambiente, a identidade gerada forma relações de acordo com o significado e conexão que estabelecem, além de tornar os lugares mais visíveis e presente na memória de uma população. Sob influência da população, a cidade muda constantemente. Para o geógrafo brasileiro Milton Santos (2002, p. 24.) a cidade é um organismo vivo e impõe valores mercantis e simbólicos as suas diversas frações. Os velhos lugares podem se renovar assim como os novos lugares podem ser chamados a funções novas. Cada pedaço da cidade evolui de maneira peculiar nos diferentes momentos históricos.
Diante desse processo, os sujeitos mudam com o espaço urbano quando expostos a informação, fatores sociais, políticos, históricos, culturais etc. Observar o panorama contemporâneo implica perceber que as mudanças dos indivíduos imprimem também variações na cidade e seu cenário.
Em uma reflexão crítica sobre o discurso a respeito da história e seu conceito, Walter Benjamin (1994, p. 223-224) coloca que apenas a humanidade redimida poderá se apropriar do seu passado. Ou seja, somente para a humanidade redimida o passado é citável em cada um dos seus momentos. A determinação específica da ciência histórica, segundo Benjamin, não é conhecer o passado, mas sim furtar a ele sentidos e ambientes que possam auxiliar o homem a lidar com problemas de seu tempo. Para ele, articular o passado significa se apropriar de uma reminiscência, e em cada época é necessário que não deixemos a tradição relegada ao conformismo.
Rapoport (1977) considera evidente que o meio físico deve ser um meio de comunicação, suportando estruturas sociais variadas. Como função de trocas humanas, diferentes pessoas possuem necessidades em comum, supridas dentre várias formas de apropriação, pressupondo também no âmbito do patrimônio cultural. Na concepção de Edgar Morin (1984, p.15), a cultura é “um corpo complexo de normas, símbolos, ritos e imagens que penetram o indivíduo” que se expressa também na e por meio da massa. Importante destacar que a apropriação é influenciada pelas formas diferentes com que a população se organiza e estrutura, conforme suas características e maneira peculiar de perceber o ambiente. Portanto a diversidade cultural dos atores sociais interfere na qualidade (aparência, segurança, valores, integridade, acessibilidade etc.) do meio, que por sua vez se revela no dinamismo da apropriação.
A partir do pressuposto de que cada lugar tem sua memória, podemos considerá-la como aliada às estratégias de valorização e conservação dos bens culturais que compõem tanto uma paisagem urbana quanto uma relação identitária entre população e cidade. O ser humano tende a valorizar e cuidar do que lhe desperta afeto ou identificação. Quando a identidade cultural de um povo fica ameaçada, o patrimônio sofre consequências. É importante preservar a memória do lugar para que o bem cultural seja apropriado e identificado pelos indivíduos e não perca seu sentido na cidade.