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9.4 Oppsummering  og  drøfting

9.4.5 Etablerte  regler

O humorismo sempre foi um dos pontos altos da cultura brasileira. In Barão de Itararé, pp7, Lendro Konder, 1983.

O humorismo, “ tradição” nacional desde o descobrimen- to, sempre se apresentou como linha de fuga das mazelas da sociedade colonial escravista, e foi uma manifestação incontrolável pelas dimensões continentais do Brasil; ali as ordens da coroa, emitidas na Europa sem conhecimen- to da realidade brasileira, muitas vezes eram impossíveis de serem cumpridas, e viravam motivo de chacota. A obra de Gregório de Mattos, o “ Boca do Inferno” , nos mostra essa irreverência cabocla no ambiente barroco, onde o ecletismo da sociedade bahiana, sede da coroa portugue- sa na América setecentista, começou a fundar uma cultu- ra e uma mentalidade genuinamente brasileiras.

O humor imediatamente dá os braços para as artes gráfi- cas, assim que foi possível imprimir e publicar no Brasil: no campo do humor ilustrado, Manuel de Araújo Porto Alegre foi o pioneiro, ainda no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro na primeira metade o século XIX.

Por volta de 1860, chegou ao Brasil o italiano Angelo Agos- tini, estudante da Escola de Belas Artes de Paris; que con- sidero um autor auspicioso para meus objetivos. Dese- nhista genial, de uma criatividade sem limites, Agostini publicou em O Cabrião de Américo de Campos (em São Paulo) e mais tarde fundou a Revista Illustrada e o Don Quixote, e trabalhou em outras publicações relevantes no Rio de Janeiro, para onde teve que migrar devido a confli- tos com a aristocracia paulistana. O trabalho de Agostini revelou-se como um vetor de aproximação da imprensa nacional ao movimento geral das artes gráficas dos paí- ses centrais daquele momento. Contemporaneamente, o português Rafael Bordalo Pinheiro, radicado no Rio de Janeiro, também marcou a história de nosso design gráfi- co com trabalhos pioneiros e engajados.

O panorama cultural coadunava com a aspiração das eli- tes, endossada e patrocinada por Pedro II, e formam o embrião do processo de aburguesamento da sociedade

brasileira em seus principais e esparsos centros urbanos. Este processo desenvolveu-se desde a elite e ficou circuns- crito à esta no contexto de um Brasil rural e analfabeto, e herdeiro de uma sociedade escravista colonial em lenta transformação. Esta situação contraditória e paradoxal, que sempre colocou o brasileiro em inferioridade em relação às culturas centrais, permeia nossa mentalidade até os dias de hoje, apesar dos progressos havidos, principalmente, a partir da segunda metade do século XX.

No final do século XIX, por volta de 1890, aporta no Rio de Janeiro, o artista gráfico português Julião Machado, o qual dá novo impulso ao design gráfico brasileiro, atualizando o que Agostini e outros haviam introduzido há três déca- das. Pautado pela onda de modernização e glamour da

Belle Epoque, trazendo a gravura em metal e as técnicas litográficas para a imprensa, Machado teve uma influên- cia extremamente consistente e colaborou para a forma- ção de uma geração de desenhistas geniais que viria pou- cos anos depois, assim com o para a m odernização do layout de página.

Heranças à parte, Agostini foi um dos pioneiros das histó- rias em quadrinhos, autor de reportagens ilustradas e cri- ador dos personagens Nhô Quim e Zé Caipora, o qual é um dos primeiros estereótipos humorísticos do caipira brasileiro, recriado por Cornélio Pires, Monteiro Lobato no Jeca Tatu e muito explorado por Mazaropi e outros. Sob o ” clarão das luzes” , que dominou o Rio de Janeiro na virada do século, saneando-o e modernizando-o, to- dos os gêneros de imprensa se multiplicaram em jornais e revistas ilustradas; preparando uma segmentação de públicos que viria nas décadas seguintes. No final da vida, Agostini ainda colaborou com publicações pioneiras da modernidade, as quais instalariam a comunicação de mas- sa no país de maneira efetiva; o que se consuma após a difusão e popularização do rádio nos anos de 1930.

Durante a Velha República, autores geniais floresceram no humor brasileiro, no design, na publicidade e no teatro de revista: Bastos Tigre, Seth, J. Carlos, Emílio de Menezes, Voltolino, Juó Bananere, José do Patrocínio Fº, entre mui- tos outros. Sem pre m arginalizados pela cultura oficial, socialmente, seu prurido se revelava na figura do “ engra- çado arrependido” . Suas técnicas, entretanto, traziam a sofisticação da tecnologia daquele tempo e não deviam nada à produção do primeiro mundo. Seu manancial cria- tivo, riquíssimo, abasteceria e influenciaria gerações futu- ras com expedientes, técnicas e fórmulas reconhecidas. Na década de 1910, Apporelly já se dedicava ao jornalis- mo no Rio Grande, assim como proferia palestras positi- vistas nos auditórios do interior gaúcho; moda esta, trazi- da por parnasianos e simbolistas no afã de divulgar os ideais de Augusto Compte. Contudo, jamais perdeu a veia humorística, que, pelo que parece, trouxe do berço. Guevara, no mesmo período, sendo mais jovem, dava as prim eiras canetadas e saia de sua pequena aldeia no Paraguay para a Escola de Belas Artes de Buenos Aires; onde usufruiria de bolsa de estudos devido ao reconheci- mento de seu talento inato para o desenho e a pintura. Aqui, vamos verificar a seguir, como se estabeleceram as condições históricas e culturais para que a dupla Barão- Guevara se encontrasse e florescesse m agnificam ente durante o resto da primeira metade do século XX.

A idéia é abordar aspectos característicos da linguagem escrita e visual — design e humor — sob a ótica da nova historiografia, com já disse, primeiro, por seu cunho multi- disciplinarista, o que enriquece e amplia o poder explica- tivo da análise. Depois, pela questão do estudo da vida privada, o que nos levará aos estudos de caso em formato descritivo (relatos) e — muito bem observado por Fernan- do Novais (1) — como procedimento recorrente, encon- traremos estudos de caso em formato narrativo, reconfi- gurando o cotidiano e a privacidade do objeto histórico pesquisado, inclusive através da imaginação e da criação literária, e, principalmente, dos conteúdos impressos que nos interessam: para encontrar e esclarecer o automatis- mo dos julgamentos dos sujeitos sociais históricos (men- talidade ou mentalidades) e verificar como isso se mani- festou nas representações.

Este exercício hermenêutico, de reconstrução de sentidos, é o estudo da mentalidade (daquela classe social, naquele momento histórico) nos atores históricos e na sociedade de seu tempo. A relação entre as representações e as prá- ticas sociais, entre discursos e cotidiano, nos trará indíci- os representantes para penetrar nas questões que mais me interessam: o processo criativo, as técnicas expressi- vas subjacentes e a apropriação social do discurso, assim como sua postura frente ao discurso da dominação. Dado nosso campo de pesquisa — como se nota desde o início —, vou expor e analisar as capas das publicações, as quais funcionam como a embalagem para uma merca- doria. A força da manchete é o que vende o produto. Por isso mesmo, é ali que o designer tem que desfiar todo seu manancial e arrojo criativo para cativar o público e mexer com a imaginação deste. No miolo das publicações, mui- to similares entre si, pouco conteúdo e muita publicidade são a tônica; variando a pauta de assuntos e colunas con- forme o caráter do veículo. Assim, os desenhos (portrait- charges, ilustrações, etc) serão de grande valia para nos expor a mentalidade da época, trazendo temas recorren- tes e assuntos prediletos. Os desenhos de página do mio- lo, em si, adquirem relevo analítico quando fogem da du- reza da paginação tipográfica convencional e vou apre- sentar alguns exemplos para ilustrar e analisar também. Adiante farei breve explanação sobre a formação e a his- tória do povo brasileiro, suas características e peculiari- dades históricas em relação às questões da vida pública e privada, para chegar ao momento histórico estudado com, pelo menos, o contorno geral do arquétipo e do imaginá- rio cultural brasileiro, especialmente no que se refere à mentalidade dos sujeitos sociais históricos e, especifica- mente, em relação às manifestações culturais cômicas e humorísticas. Em suma, desejo verificar breve e esque- maticamente “ como funciona” a mentalidade brasileira no plano histórico geral, para dai compreender a história de maneira mais focada e direta em relação ao assunto e aos interesses da pesquisa.